Certa noite, após mais um dia intenso de trabalho na reconstrução do castelo, o trio decidiu dar uma pausa e se reunir nos jardins de Hogwarts, próximo à margem do Lago Negro. Sentados numa toalha magicamente conjurada por Hermione. O Lago Negro refletia a lua cheia, criando uma paisagem deslumbrante. A noite estava tranquila, interrompida apenas pelos sons suaves da natureza.

— Parece que foi ontem que tudo começou. – Hermione murmurou, com um sorriso reflexivo.

— E agora estamos aqui, reconstruindo e olhando para o futuro. – completou Ron.

Harry, perdido em seus próprios pensamentos, observou o reflexo da lua na água do lago. Muitas pessoas assumiam que o campo de Quidditch era o seu lugar favorito em Hogwarts por gostar tanto do desporto, mas na realidade esse lugar era os jardins da escola, mais concretamente a margem do Lago Negro.

— A reconstrução de Hogwarts está praticamente concluída. Estava a pensar em voltar ao Largo Grimmauld e começar a reforma da casa antes das aulas começarem. – Informou Harry.

— E quando pensas ir? – Questionou a morena.

— Amanhã de manhã. – Respondeu Harry. – Quero começar a reforma o mais rápido possível.

A brisa fresca da noite balançava as folhas das árvores, criando uma atmosfera serena e nostálgica. Hermione apoiou a cabeça nos joelhos, perdida em pensamentos.

— Será bom voltar para casa. – disse ela, olhando para as estrelas. – Apesar de Hogwarts também ser a minha casa nestes últimos anos, a última batalha deixou algumas marcas que nunca conseguirei esquecer. Vai ser bom distanciar-me um bocado deste lugar.

— Será sempre diferente voltar porque as memórias do que aconteceu são impossíveis de apagar. No entanto em pouco tempo vocês estarão de volta para o último ano. Vai ser estranho não ter de me preocupar com as aulas. – Ron refletiu em voz alta.

— Tens a certeza de que não queres voltar? – Questionou Hermione. – Ainda vais a tempo de falar com a Professora McGonagall. – Vendo o ruivo a acenar com a cabeça negativamente, continuou. – Vai ser estranho voltar sem ti.

O trio tinha enfrentado desafios inimagináveis durante seus anos na escola de magia, e Hogwarts sempre foi um refúgio.

Harry suspirou, lembrando-se das batalhas que enfrentaram juntos. O trio havia se tornado uma espécie de família escolhida, e a ideia de começarem a seguir caminhos diferentes após a reconstrução de Hogwarts era tanto emocionante quanto assustadora.

— Também vai ser estranho para mim não voltar. — Ron assentiu, concordando com a amiga. – Mas não consigo andar diariamente por estes corredores com as lembranças da última batalha. Passar todos os dias no mesmo corredor onde perdi um irmão e quase perdi o resto da minha família. Além do mais os gémeos ficaram contentes com a ideia de os ajudar na loja e realmente imagino-me a trabalhar com eles.

— De certeza que essa felicidade deles foi principalmente pelo facto de te poderem usar livremente como cobaia para os produtos que pensam produzir. – Brincou Harry.

— É provável. – Concordou o ruivo sorrindo.

O silêncio pairou por momentos, cada um imerso em suas próprias lembranças, ponderando o próximo passo. A jornada deles estava longe de ser comum, e era compreensível que a transição para a vida adulta fosse repleta de incertezas.

No dia seguinte, ao raiar do sol, Harry e Hermione despediram-se temporariamente da Professora McGonagall. No dia anterior já se tinham despedido de Ron que tinha voltado para casa. Da mesma forma que Harry, Hermione decidiu que deixaria Hogwarts até ao novo começo do ano letivo, por isso acompanhou o amigo em direção ao Largo Grimmauld.

Ao chegarem ao Largo Grimmauld, a antiga casa dos Black, Harry e Hermione depararam-se com um grande desafio. A mansão estava em estado precário e uma aura de desolação que pairava sobre ela.

— Vai ser um trabalho difícil, mas vamos transformar este lugar. – afirmou Harry, encarando Hermione.

— Estive a pensar Harry. – Começou a morena. – Considerando o estado deplorável em que esta casa está, e sabendo perfeitamente que a reforma não vai ficar pronta da noite para o dia, pensei que podia ajudar-te com a reforma.

— Uma ajuda é sempre bem-vinda. Ma pensei que fosses voltar para casa. – Falou o moreno.

Hermione olhou para o chão, os seus pensamentos estavam evidentes na sua expressão. Harry percebeu logo que algo a incomodava.

— O que aconteceu, Hermione? – Indagou ele, preocupado.

A morena suspirou antes de responder, escolhendo cuidadosamente as palavras.

— Apesar de sentir que precisava de um tempo afastada de Hogwarts, ainda não me sinto confortável em voltar para a minha casa neste momento. – Ela começou a explicar. – A casa está vazia e sem qualquer vestígio que indique que um dia eu vivi lá, tudo isso porque apaguei a memória dos meus pais para os proteger.

Harry franziu a testa. Ele sabia que Hermione tinha tomado medidas extremas para proteger os seus pais durante a guerra, mas agora, a complexidade da decisão dela tornava-se mais evidente.

— Sinto muito. – Disse ele sinceramente.

Ela forçou um sorriso, tentando amenizar a situação.

— Não te preocupes. Fiz o que achei necessário na altura. Mas agora, prefiro ficar aqui contigo, pelo menos durante mais alguns dias.

Harry assentiu compreensivamente. Ele entendia o dilema de Hermione e agradecia silenciosamente por ela escolher ficar ao seu lado.

— Então, teremos uma dupla imparável na reforma do Largo Grimmauld. – Brincou Harry, tentando aliviar a tensão.

Hermione sorriu, agradeceu em silêncio por ter um amigo tão compreensivo. A varinha de Hermione piscou, invocando uma série de feitiços de reparo e limpeza que começaram a agir sobre a estrutura desgastada da casa.

Uma vez que precisavam de ter onde dormir e confecionar refeições, a dupla optou por começar a limpeza e restauração da cozinha e de dois dos vário quartos que a casa possuía.

A cozinha da casa estava calma e aconchegante enquanto Harry e Hermione preparavam o jantar. O aroma de ervas frescas e temperos pairava no ar, contrastando com a luz suave que iluminava o espaço. Hermione parecia absorta em seus próprios pensamentos.

— Acho que últimas experiências pelas quais passamos, me ajudaram a começar a compreender o melhor que realmente importa na vida. – Disse Hermione passado algum tempo enquanto desligava o fogão.

— E o que seria isso? – Perguntou Harry curioso enquanto terminava de pôr a mesa para jantarem.

— A conexão que estabelecemos com as pessoas. Às vezes, perdemo-nos a tentar proteger aqueles que amamos, mas esquecemos que precisamos uns dos outros para enfrentar os desafios. – Explicou ela. – Estou grata por te ter a ti e ao Ron.

— Eu também estou grato, Hermione. – Comentou o moreno que percebeu que a mente dela ainda vagueava por pensamentos mais profundos. – Existe algo mais que tenhas percebido? – Perguntou curioso para ouvir mais sobre a reflexão da amiga.

— Aprendi a valorizar os momentos simples. Antes, estava sempre tão focada em alcançar metas, em grandes conquistas, que às vezes deixava escapar a beleza dos momentos cotidianos. Os pequenos momentos que passamos durante a caça às Horcruxes como aquela dança desajeitada quando Ronald nos abandonou, estar aqui contigo reformando esta casa, compartilhando uma refeição simples... aprendi que a felicidade está nos pequenos detalhes. – Explicou Hermione, sorrindo.

Harry assentiu, compreendendo plenamente o que ela queria dizer. Ambos compartilhavam um passado marcado por grandes eventos, lutas e sacrifícios, mas agora estavam redescobrindo a alegria nas pequenas coisas.

— Acredito que todos nós estamos em constante evolução, aprendendo lições que a vida nos oferece. – Comentou Harry depois de ambos se sentarem à mesa, olhando nos olhos de Hermione que assentiu, concordando com a observação dele.

— Harry, como é que está a tua relação com a Ginny? – Questionou a morena depois de um momento de silêncio enquanto comiam. Ela sabia que a relação deles era algo complexa, especialmente após os eventos durante a guerra.

Ele olhou para ela com um meio sorriso, sentindo-se contente pela possibilidade de falar sobre a namorada.

— Estou feliz por termos reatado. – Começou a explicar. — Eu achava que terminando tudo, estaria a protegê-la, pois ela seria um alvo fácil por ser minha namorada. Mas agora, olhando para trás, vejo que talvez tenha sido um erro. – Confessou o rapaz com uma expressão séria, sentindo o peso daquelas memórias. – Agradeço por ter dado ouvidos a ti e ao Ron sobre a burrice que fiz e aprendi que não posso deixar o medo ditar as minhas escolhas.

Hermione ouvia atentamente, percebendo a dor que aquelas decisões causaram a Harry e a Ginny.

— Naquele dia em que ela foi a Hogwarts e decidimos dar mais uma oportunidade à nossa relação, conversamos bastante e foi uma boa conversa. Depois desse dia temos comunicado por cartas. – Continuou o moreno. – Ainda sinto alguma culpa pela dor que lhe causei por afastá-la de mim, mas já não posso fazer nada em relação a isso. Apenas evitar que no futuro possa fazer algo que a possa magoar.

— O amor é complicado e todos cometemos erros, afinal somos humanos. O importante é aprender com eles. – disse Hermione oferecendo-lhe conforto. – Tenho a certeza de que ela compreende as tuas escolhas. E agora que vocês deram uma nova chance à relação, o caminho à frente será uma oportunidade para construir algo mais forte. – Aconselhou.

Harry sorriu, agradecendo pela compreensão de Hermione.

— Eu só quero que ela seja feliz. – Admitiu o rapaz. – Enviei uma carta a ela e ao Ron a perguntar se nos queriam fazer companhia amanhã e eles responderam que viriam durante a tarde.

— Essa é uma boa notícia. – Afirmou Hermione olhando para o prato agora vazio.

— Há algo que está a atormentar essa cabecinha e acho que sei o motivo. Queres falar sobre isso? – Comentou Harry percebendo a expressão pensativa da amiga.

Hermione suspirou e, depois de um momento de hesitação, decidiu abrir-se com Harry.

— Ronald. Quando estávamos na câmara secreta beijámo-nos. – Confessou ela. – Depois que a guerra terminou não falamos sobre o assunto, mas sinto que a nossa relação parece ter mudado.

— Eu sempre apostei em vocês os dois juntos. – Admitou Harry. – Vocês sempre pareceram o gato e o rato. Era óbvio para qualquer um que existia aí algo. No entanto, a minha questão é, o que sentes por ele?

— Eu realmente gosto dele. – Respondeu. – Mas tenho medo. A única relação que tive, se é que posso chamar de relação, foi com o Viktor e nem sequer foi nada sério, apenas uma pequena paixão por ter sido o primeiro a realmente olhar para mim e dar-me alguma importância. Sei que com Ron é diferente. Nunca existiram sinais sobre nos sentirmos diferentes um com o outro e depois aconteceu aquela crise de ciúmes quando ele nos abandonou durante a procura pelas Horcruxes e depois o beijo na câmara. Sinto-me confusa.

— Não acho que estejas certa Hermione. – Discordou Harry. – Existiram alguns sinais, vocês é que parecem não ter enxergado. É engraçado como nos apercebemos das coisas quando são relativas aos outros, mas quando o assunto é sobre nós próprios parece que ficamos cegos e não vemos as coisas que sempre estiveram lá.

Hermione assentiu.

— O abandono dele foi difícil, mas não podemos esquecer que a horcruxe estava a mexer connosco, a piorar as nossas inseguranças e os nossos medos? Todos nós estávamos a ser influenciados por isso. –Lembrou Harry, tentando confortar a amiga. – E ainda há pouco, tu mesma disseste que todos cometemos erros e que o importante é aprender com eles e ele aprendeu. Ele voltou para nós e isso é o mais importante.

— Eu sei, Harry. Ele voltou e estou grata por isso. Mas tenho medo de investir tudo nisso e acabar magoada. – Confessou ela. – Não deixo de pensar que, caso uma eventual relação entre nós não dê certo ou haja alguma dificuldade, que ele possa fazer o mesmo. Não quero estragar a amizade que temos.

— Compreendo os teus receios, mas, às vezes, é preciso arriscar para encontrar a verdadeira felicidade. O Ron é teimoso, mas ele também é leal. Na realidade, vocês os dois são iguais nesse quesito e merecem ser felizes. Eu acho que deveriam conversar sobre o assunto. — aconselhou Harry, transmitindo a sua confiança à amiga.

Hermione olhou para Harry, agradecida por suas palavras e apoio.

— Acho que tens razão. – Concordou ela. – Mas agora vamos deixar esse assunto e vamos dormir. Já está tarde e ainda temos muito trabalho pela frente até esta casa fiar completamente habitável.

Os dois levantaram-se e colocaram a loiça na pia. Já era tarde por isso optaram por lavar tudo no dia seguinte e despediram-se indo cada um para o seu quarto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.