Um casal de bruxos caminhava por uma rua quase deserta. As poucas pessoas com quem eles se cruzavam, estavam com pressa em chegar aos seus destinos que nem sequer reparavam neles. O tempo parecia adivinhar o estado de espírito dos dois jovens, pois cada vez mais apareciam nuvens cinzentas. O vento começava a dar sinal. Não deveria demorar muito para que a chuva começasse a cair.

Os dois rapidamente avistaram o seu destino e não demorou para baterem à porta e alguém aparecer para a abrir.

— Olá, Harry. – Cumprimentou a mais velha. — Hermione, não estava à espera de vê-la aqui.

— Peço desculpa por aparecer sem avisar senhora Tonks, pensei que não houvesse problema em acompanhar o Harry. – Desculpou-se a mais nova.

— Não há problema. – Respondeu Andrómeda. – Entrem. O Teddy está a dormir por isso peço-vos que não façam muito barulho, não foi fácil adormecê-lo.

— Quero prestar as minhas condolências pela sua perda. A sua filha era uma grande amiga para mim. – Disse Hermione depois de entrar em casa.

— Obrigada, querida. – Agradeceu a mais velha, fechando a porta – Acompanhem-me até à sala, onde estaremos mais à vontade.

Depois de chegarem à sala os adolescentes sentaram-se juntos de frente para a mais velha. Aproveitando o momento, a senhora Tonks pediu que um elfo doméstico preparasse chá e alguns petiscos que não tardaram a chegar.

— São servidos? – Questionou a senhora depois de pegar do tabuleiro a chávena que se encontrava mais próxima.

— Obrigada, senhora Tonks. – Agradeceu Hermione seguindo o exemplo da mais velha e vendo Harry a fazer o mesmo. – Como é que a senhora está?

— Destroçada, mas a tentar não ir abaixo pelo meu neto. Nenhum pai deve enterrar os filhos. É antinatural. Sabia que a guerra traria algumas perdas, mas não estava à espera de que as minhas seriam tão grandes. – Respondeu – E podem-me chamar Andrómeda, senhora Tonks era a minha sogra.

— Antes de sairmos de Hogwarts encontramo-nos com a Professora McGonagall. – Informou Harry – As cerimónias fúnebres serão dentro de 3 dias. Será apenas para honrar aqueles que morreram na luta contra Voldemort.

— A Minerva informou-se quando nos cruzamos em Hogwarts. – Contou Andrómeda.

Harry acenou com a cabeça e continuou:

— Comprometi-me com a senhora a tratar de tudo o que diz respeito ao funeral de Lupin e Tonks e para isso preciso de saber se existe algum lugar específico, no qual queira que ocorra o funeral. Tinha pensado no cemitério de Godric’s Hallow onde estão os meus pais e padrinho, como uma forma de juntar os Marotos, mas nunca separaria o casal, por isso se não aceitar e preferir outro local preciso que me diga.

— Por mim não há problema Harry. – Concordou Andrómeda, limpando uma lágrima que caiu sem permissão – Tenho a certeza de que Remus gostaria de ficar junto dos seus melhores amigos, afinal também eram parte da sua família e a Dora decerto iria concordar.

— E o Teddy, como é que ele está? – Quis saber Hermione.

— Como seria de esperar de um bebé com menos de 1 mês. – Respondeu – A guerra terminou há um dia e ele já sente a ausência dos pais. – Depois de uma breve pausa Andrómeda continuou – A guerra destruiu imensas famílias e deixou muitos órfãos.

— O Lupin e a Tonks nomearam-me padrinho do Teddy. – Começou Harry – Sei que sou apenas um adolescente, não entendo muito de crianças, mas quero assumir as minhas responsabilidades. Também sou um órfão da guerra como ele. Sei o que é crescer sem um pai e uma mãe, sei o que é crescer sozinho, sem um lar e o amor de uma família. Sei que o mesmo não acontecerá com o Teddy porque ele tem a senhora que o ama e tem a mim, quero ser para ele aquilo que sempre quis e nunca tive. Quero ser um amigo, alguém que ele saiba que também o ama e a quem possa chamar de família. Alguém que, sempre que precisar, possa recorrer. Quero acompanhá-lo em todas as conquistas e falhas também, contar sobre quem foram os pais dele. Quero ser uma figura paterna que o possa inspirar, assim como o pai dele foi para mim. Com a sua permissão gostaria de visitar o Teddy sempre que possível e poder acompanhar o crescimento dele e ajudar no que for preciso. E talvez, mais tarde, quando tiver a minha vida encaminhada, possa ficar com ele alguns dias para que a senhora também possa descansar e ter um tempo só para si.

— A minha filha e o meu genro não podiam ter escolhido uma pessoa melhor para padrinho do meu neto. – Disse Andrómeda – Não vou impedir que visites o teu afilhado, muito pelo contrário, será bom para ele ter mais alguém além de mim. E vocês são família, nós somos família Harry. As famílias bruxas estão todas interligadas, nós inclusive somos primos em alguns graus.

— Se não se importar gostaria de poder visitar o Teddy também. – Pediu Hermione. – Se houver algo em que eu possa ser útil é só dizer, seja o que for. Sei que a Tonks faria o mesmo por mim.

Não demorou muito tempo até os três ouvirem um choro alto de bebé. Edward Lupin, mais conhecido por Teddy, acabara de acordar do seu curto sono. Apesar de ter um elfo doméstico, Andrómeda pediu licença e foi verificar o neto. Provavelmente o motivo do choro era fome, uma vez que a última refeição do pequeno já tinha sido há mais de 3 horas. Quando chegou ao quarto o menino estava um pouco ruborizado do choro e esperneava. O elfo doméstico tentava distraí-lo.

Depois de pegar no neto pediu ao elfo para preparar leite para a criança e dirigiu-se para a sala com ele ao colo. Não demorou muito para o elfo aparecer com o biberão cheio.

— Como é que ele se tem alimentado? – Quis saber o moreno.

— Ele costuma beber o leite de 3 em 3 horas. É uma criança esfomeada. – Tentou brincar a Andrómeda – Antes de ir para Hogwarts, a Dora deixou alguns biberões preparados, infelizmente já estão a acabar. Terei de comprar leite em pó, mas não sei como vai ser a adaptação, não é a mesma coisa que o leite da mãe.

— Lembro-me de ler há muito tempo que é aconselhado o leite materno exclusivo até aos 6 meses de vida. – Começou Hermione – Algumas mulheres trouxas preferem não amamentar, outras por vezes chegam a uma altura que não conseguem produzir leite suficiente. Há algum tempo, os trouxas criaram aquilo que chamam de Banco de Leite Materno. Algumas mulheres produzem mais leite do que aquele que os filhos que amamentam precisam, por isso doam o leite que produzem a mais. Os trouxas quando querem que os bebés sejam alimentados por leite materno, mas por alguma razão a mãe não o possa fornecer a filho, recorrem a esses bancos. Se quiser posso procurar por um deles e conseguir o leite para o Teddy.

— Eu agradecia querida. – Respondeu Andrómeda depois de algum tempo. – Ainda tenho o suficiente para um ou talvez dois dias. Se conseguir, agradecia que me dissesses alguma coisa.

— Irei procurar o mais rapidamente possível. Não se preocupe. – Garantiu Hermione.

— Vocês vão voltar para casa agora que a guerra terminou ou vão ficar para reconstruir Hogwarts? – Questionou a mais velha.

— Não tenho uma casa para voltar. Despedi-me dos meus tios e primo antes do meu último aniversário. — Respondeu Harry. – Não é segredo nenhum que o único motivo pelo qual eu voltava para a casa deles era pela proteção da minha mãe. Apesar de serem família, quero distância deles. O meu padrinho deixou-se a casa dos Black, mas ainda não sei o que fazer com ela. Por isso ficarei em Hogwarts e ajudarei na reconstrução, depois pensarei no resto.

— De certeza que os Weasleys não se importariam que ficasses com eles. – Disse Andrómeda. – Eu também não me importaria que ficasses aqui.

— Agradeço a oferta. Irei pensar nela com carinho, mas sinto que tenho de encontrar o meu lugar e começar a viver finalmente a minha vida ao invés de apenas sobreviver. – Agradeceu Harry.

— E tu Hermione? – Interrogou a senhora Tonks.

— Eu ficarei em Hogwarts com o Harry. – Começou a morena. – Antes do casamento de Will e Fleur, arrumei todos os meus pertences que estavam em casa dos meus pais e apaguei a memória deles. Eles não sabem que eu existo e saíram do país, com uma identidade diferente, para um lugar desconhecido por mim. Talvez tente procurá-los no futuro, mas por enquanto quero encaminhar minimamente a minha vida. Passei a casa para meu nome, por isso tenho um sítio para onde voltar, mas as memórias ainda são dolorosas por isso talvez apenas mais tarde volte para lá.

— Lamento querida. Como disse ao Harry, se quiseres também poderás ficar aqui. – Disse Tonks. – Caso mudem de ideia a minha porta está aberta, nem que seja só para visitas.

Depois de mais alguma conversa, os adolescentes notaram que já estava a escurecer e não querendo incomodar a mais velha despediram-se e voltaram para Hogwarts.

Logo que entraram no castelo, apareceu um elfo em frente a eles:

— A Professora McGonagall pediu para acompanhá-los, assim que chegassem a Hogwarts, e mostrasse os quartos preparados para vocês. Os feridos já foram todos tratados e transferidos, por isso as refeições serão servidas no Salão Principal. Quem preferir realizar as mesmas noutro local que seja apropriado poderá chamar um elfo e solicitar a refeição.

— Pensei que fossemos ficar na torre de Griffindor. – Divagou Hermione.

— Os dormitórios foram distribuídos pelas famílias que optaram por ficar em Hogwarts, uma vez que são mais espaçosos. A maioria das salas de aula foram transformadas em pequenos dormitórios tendo em conta a sua capacidade. – Respondeu o pequeno elfo enquanto os conduzia até aos novos aposentos. Ela pediu para entregar este recado. – E entregou o pergaminho.

Hermione foi a primeira a pegar nele e mostrou a Harry para ler, mas foi o rapaz o primeiro a falar:

— Dividimos a tenda durante vários meses, não vejo problema em dividirmos o mesmo dormitório durante mais algum tempo.

— Todos os dormitórios novos estão protegidos por um feitiço de reconhecimento. Da primeira vez precisam de tocar com a varinha na porta, para o feitiço conhecer e memorizar a assinatura da vossa magia, nas restantes vezes a sala permitirá a vossa entrada normalmente sem ser necessário o mesmo procedimento. Não será permitida a entrada de mais ninguém sem a vossa permissão.

Não passou muito tempo até que o elfo parasse em frente a uma porta indicando como sendo o destino final. Harry e Hermione, seguindo as orientações dadas anteriormente, encostaram a varinha na porta e um feixe de luz apareceu e desapareceu rapidamente.

— Se necessitarem de alguma coisa, basta chamar um elfo e um de nós aparecerá. – E dito isto, o elfo desapareceu.