Notas iniciais
Boa Leitura.

-Porra, não me abandona agora, por favor, não. –Ele disse, numa tristeza quase palpável, olhos enchendo-se vagarosamente, a boca entreaberta, as mãos agitadas nos cabelos castanhos. Medo nos olhos azuis.

Ela ouviu, ah, se não ouviu! Claro que havia ouvido. Seu coração até acelerara, parara, começara naquele ritmo exasperado, aquele ritmo de tambores que lhe tremia inteira, fazia o som vibrar por todo o seu corpo. Quase perdeu a compostura. Suspirou, respirou fundo, pôs uma atrevida mexa de cabelo castanho-claro atrás da orelha, fechou os olhos e deu o primeiro passo.

-Não vá, Violet, por favor. –Ele disse e ela estava de costas. Mas o via, o via como se estivessem de frente um para o outro. Conseguia sentir sua respiração chorosa, conseguia notar o quão verdadeiro era aquele pedido. “Não me abandona agora.” E era ela quem se sentia verdadeiramente abandonada. Mas não tinha escolhas, tinha era de continuar. O primeiro passo já fora dado, já fora dado e agora os subseqüentes seriam mais fáceis.

Pura mentira: continuou ali, com aquele enorme casaco que a engolia, necessário a todos os invernos. Sentia os membros duros, como que presos ao chão, tudo o que queria fazer era não ir, deus, como queria ter coragem de ficar. Como queria acarinhar aqueles cabelos castanhos e dizer que tudo estava bem, mas tomara sua decisão e não havia como demovê-la. Não se atreveu a dizer mais uma única palavra, apenas deu outro passo, e outro, depois desse. Já eram três, estava conseguindo, tinha de continuar para o seu próprio bem. Para o seu próprio bem. Ele ainda murmurava qualquer coisa atrás de si. Com certeza, pedidos falhos de desculpas velhas. Ou promessas infindas de felicidade eterna. Ou um último beijo, droga, como ele sabia que ela não resistiria. Pedia com aquela voz embargada, era mais uma exigência do que se ele estivesse gritando. O sussurro de sua voz era ensurdecedor, seu perfume era como um gás tóxico, impregnando o ar, e ela mesma. A pele estava arrepiada, mas atreveu-se a dar mais um passo. “Eu preciso sair daqui.” Sentia-se sufocar.

-Droga, droga, droga! –Gritou para si mesma. –Eu só consigo escrever uma droga de drama! -E então se levantou. Preocupava-se com o que seria dela se não conseguisse sair desse maldito poço.

–É sempre assim. –Sussurrou para si mesma, pegando um cigarro e acendendo-o, olhando a janela do apartamento pequeno. Lá fora, algumas carruagens, embora estivesse frio demais e chovendo. O vidro cheio de vapor lhe impedia de ver com qualidade, mas também nem queria. Era só a merda do inverno. Suspirou fundo e então segurou a respiração, iria acabar chorando de novo se não se controlasse. Era claro que iria.

-É como o Tom diz, não passo de uma perdedora. –Levantou-se, foi se olhar no espelho. Reavivar o vermelho do batom, ver se os cachinhos estavam arrumados, fabricá-los novamente se preciso. O vestido de botões, bem ajustado à cintura e recatado, que vinha até pouco abaixo do joelho estava um pouco amassado.

-John, porque me deixou? –E a primeira lágrima escorrera, atrevida demais para lhe obedecer a vontade e ficar oculta nos olhos castanhos. –Por quê? Não consigo achar uma resposta que me satisfaça, não consigo! –E então andou pela casa, nervosa ainda. Olhando tudo e nada ao mesmo tempo, eufórica, chorando descontroladamente.

Ele era seu homem, a porra do seu homem! E tudo o que fez foi abandoná-la, deixá-la ao relento, chorando feito uma indigente qualquer, sentindo-se como lixo. Queria tanto poder vê-lo de novo e convencê-lo do que tudo ficaria bem se mudasse de idéia. Foi para a mesa da cozinha, acendeu a luz. Até o papel das paredes, o cheiro da comida que ninguém comeu e a toalha de mesa, lembravam ele. Era como se o homem fosse entrar pela porta a qualquer instante, sorrindo e reclamando do quão frio estava lá fora. Enquanto chorava, os olhos ardiam, o coração batia pesado, uma sensação pesada pairava sob sua cabeça. A mente estava perdida, repetindo frases como “Você tem de entender” Nunca entenderia. E o corpo inteiro estava em chamas, uma dor interna louca, estava sem chão, sem teto, sem casa, sem nada além da companhia de si mesma. Os músculos esganavam-se espremidos sem razão alguma. Se assim é que o amor terminava sempre, ela de repente desejou nunca ter amado.

-Oh, John! –Dizia enquanto tremia-se soluçante. A dor não era algo proveitoso como diziam os artistas, pensou logo. Eram uns malditos mentirosos. Esfregava os olhos tão perfeitamente maquiados, sentindo-se uma idiota. A sensação de perda nunca saía e ao mesmo tempo nunca sentia que realmente havia perdido alguma coisa. Deveria estar realmente parecendo lixo agora, pensou. Suspirou e fez o máximo de esforço que poderia para se levantar daquela cadeira de madeira da cozinha.

Foi ao quarto, apenas para se torturar com a imagem que não existia naquela cama. E que nunca mais se repetiria. Lembrava de seu toque, de seus sussurros. Que ele não os desse a qualquer uma, pensou e riu. Ninguém jamais ocuparia seu lugar, foi a constatação. Ninguém, jamais. E então estava chorando novamente, soluços altos como se quisesse que ele ouvisse e voltasse correndo perguntando o que aconteceu. Dizendo que as vezes a vida apronta, mas que não era para chorar. Era linda demais para ficar triste. E de repente quis voltar a escrever, talvez ajudasse. De qualquer forma, precisava ocupar a mente com alguma coisa, o cigarro acabou e queimou seu dedo. Jogou fora com um palavrão e então acendeu outro e fumou compulsivamente, frente àquela folha meio preenchida. Ao mesmo tempo em que queria se sentar e escrever, queria fugir, sair correndo como uma louca, gritando ao mundo, à vida, que não estava aguentando mais. Ou morreria, ou enlouqueceria.

-Essa coisa de precisar de alguém é um pesadelo, o que eu estou me tornando? O que eu me tornei? –Estava se desesperando de novo, e mesmo sabendo disso, não conseguia se controlar.

-Preciso sair daqui, passar um tempo em outro lugar. Em outra cidade, outro mundo, outra vida. –Correu ao quarto e começou a aprontar as malas. Colocar luvas, o casaco, arrumar a maquiagem, ver como o cabelo estava. Pegar o dinheiro. Surtar, gritar e então se olhar no espelho antes de ir embora. Mesmo sendo inundada por todo aquele mar de memórias felizes e a verdade suja de que nunca se repetiriam. O último lugar que foi, foi à cozinha. Lá havia as chaves, sobre a mesa. O corpo do marido caído ao chão com um tiro na cabeça, e seu lencinho. Precisava muito daquele lenço, para as lágrimas que viriam. Voltou à sala com a mala e foi-se embora, mesmo sem saber para onde. Desejando nunca mais ser abandonada de novo.

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