Notas iniciais
esse é penúltimo capitulo da historia galera, espero que gostem.

Se bem me lembro eu parei na noite do terceiro dia.

Arthur entrou na cabine e eu estava lendo. Naquela manhã havia decidido me afastar dele. Ele parecia cansado. Provavelmente passou o dia jogando vôlei de praia com os outros garotos.

—Hey._ ele disse se jogando no banco e fechando a "porta”.

Eu balancei a cabeça e continuei lendo.

—Eu falei com a Annie agorinha, antes de entrar.

Eu continuei lendo mesmo estando interessado no que ele tinha dito a ela.

—Você não quer saber néh!?

Eu me deixei vencer e guardei o livro.

—Sinta-se importante, eu fechei um livro por você._ falei rindo.

—Obrigado._ ele falou._ Falei sobre o que nós conversamos ontem. Eu tinha pensado bastante sobre aquilo, e percebi que você estava certo, eu não amo realmente a Annie.

Eu assenti e ele continuou.

—Mas mesmo assim eu não conseguir terminar com ela. Eu sei que não amo ela, mas ainda gosto muito de tê-la como amiga e se eu terminar com ela pode ser que isso não aconteça. O que você acha?

—Acho que eu faria a mesma coisa._ falei.

Nós ficamos em silencio. Os acontecimentos de hoje de manhã ainda me faziam sentir culpado.

Arthur era o namorado de Annie e eu sabia quão apaixonada ela era por ele. Eu precisava me afastar de Arthur de algum jeito que eu não perdesse sua amizade. O que eu senti por ele não podia crescer.

—Acho que estou com sono... Já vou dormir... Boa noite._ falei me virando pra janela.

—Boa noite. _ Arthur respondeu confuso.

Olhando o reflexo na janela eu que ele ficou me olhando por alguns segundos antes de se virar também. Alguns minutos depois nós dois dormimos, mas só pra acordarmos de madrugada.

Se não me engano era por volta de quatro ou cinco da manhã e mesmo em pouco tempo nós já havíamos nos mexido bastante. Estávamos deitados de lado, um encarando o outro mais perto do que deveríamos. Uma de minhas pernas estava entre as dele e uma das pernas dele entre as minhas.

Provavelmente nós não teríamos percebido isso, porque até acordarmos na manhã seguinte já teríamos mudado de posição. Mas eu fui arrancado de meu sono por uma sensação de calor que tomou minha perna.

Acordei sobressaltado, assim como Arthur que me olhava aparentemente assustado.

—Que merda! _ ele disse ainda sonolento._ desculpa, eu não queria que isso tivesse acontecido.

Eu dei um meio sorriso tentando deixa-lo mais calmo.

—Na maioria das vezes a gente não controla isso._ eu falei.

Ele tentou dar um sorriso, mas ao que parece estava com vergonha demais.

—Acho que você é que está corado dessa vez._ tentei fazer uma piada.

—Mas confesse que isso é bem mais constrangedor._ ele disse, rindo dessa vez.

Eu sorri e dei de ombros.

—Acho que vou me lavar._ falei.

—Eu também._ ele disse.

—Você tem problemas!?_ eu retruquei._ Um cara saindo à noite pra limpar um "acidente" pode ser considerado normal... Mas dois caras, que estão ficando na mesma cabine, saindo juntos por causa desse "acidente" é suspeito demais.

—É... Você tem razão._ ele concordou._ mas eu também preciso me limpar.

Eu o encarei e falei.

—Cara... Tem esperma na minha coxa! E não é meu! Acho que eu tenho prioridade.

(Um rápido adendo. Às vezes enquanto dormem, podemos ter alguns sonhos um pouco quentes. E algumas vezes quando isso acontece com homens, eles inconscientemente ejaculam, foi o que aconteceu nesse caso)

Pra minha surpresa Arthur começou a rir e depois de alguns segundos, eu estava rindo também.

—Você podia lavar meu short então._ ele disse.

Eu assenti e me virei pra janela pra que ele trocasse a roupa.

—Não precisa se virar,_ ele falou rindo._ não é estranho ver um cara pelado enquanto ele trocar de roupa.

— Pra mim é._ eu o interrompi.

—Ok... Se você prefere assim._ ele disse.

—Na verdade eu prefiro esperar lá fora._ disse saindo e tentando convencer a mim mesmo do que tinha dito.

Era estranho demais o que eu sentia perto de Arthur, era como se todo meu corpo quisesse ficar perto do dele.

Eu me encostei-me à porta quando saí. Minha cabeça girava e eu tinha borboletas na barriga. Meu coração estava acelerado. Eu queria voltar, mas ao mesmo tempo correr para o lado oposto.Antes que eu me decidisse a porta se abriu.

Arthur estava com um monte de roupas na mão. Eu as peguei e sem falar muito fui em direção aos banheiros e me tranquei lá.

Quando voltei pra cabine Arthur estava deitado. Eu coloquei as roupas dele ainda molhadas em uma sacola, deixei no chão na frente dele e me deitei.

—Me desculpa de novo._ Arthur sussurrou.

—Não tem problema._ falei._ como já disse, acontece... Mas diz ai, sonhado com a Annie?

Ele sorriu e se deitou de barriga pra cima.

—Não exatamente._ ele disse.

—O que quer dizer?_ perguntei.

Como sempre... fomos interrompidos. Annie bateu na porta e sussurrou.

—Hey, Arthur, lembra que iriamos ver o nascer do sol na praia hoje?_ ela falou._ São 5:30 e nós já chegamos.

Só então eu percebi que o ônibus havia parado. Eu olhei pra ele e dei um aceno pra porta.

—Ela sabe que eu só acordo ás 10, se me ver acordado agora vai perguntar e eu não quero que ninguém fique sabendo do “acidente” de ontem.

Ele riu, eu me virei pra janela e fingi dormir enquanto ele abria a porta.

—Hey, _ ele disse com sono._ pode juntar suas coisas, em quinze minutos te encontro lá fora.

Eu encarei o reflexo deles na janela e os vi se beijando. Fechei os olhos e só os abri quando se fez silêncio na cabine. Eu encarei o lugar vazio ao meu lado e aquela sensação estranha voltou. Na verdade ela estava comigo desde o inicio da viagem, mas depois dessa noite eu sentia que ela ficaria mais forte.

Fechei os olhos e passei alguns minutos assim. Ou achei que eram minutos, até que ouvi Lucia batendo na porta.

—Hey garotão._ ela chamou.

—Hey moça._ eu respondi abrindo a porta e deixando e a deixando entrar.

Ela entrou e fechou a porta atrás de si.

—Como andam as coisas?_ ela perguntou.

—Bem e você?_ antes de esperar resposta eu continuei._ Aonde vamos hoje?

—Eu estava pensando em irmos ao cinema. Passar o dia lá.

—OK gata, você que manda._ falei tirando a camisa pra trocar de roupa.

—Que corpão garotão!_ ela disse rindo.

—É gata... Eu sei que você não resiste._ falei rodando a camisa e jogando no rosto dela.

Nós rimos, eu terminei de me trocar e fui para o banheiro, de novo. Depois de um tempo me encontrei com Lucia do lado de fora.

—Você demora mais que eu pra se arrumar._ ela falou andando.

—Só quando você não vai se encontrar com um dos caras da turma 800._ eu falei.

Ela riu, eu também e nós fomos em direção ao Shopping mais próximo.

〄〄〄

Nosso dia shopping me fez parar de pensar em Arthur, por algum tempo.

Nós ficamos duas horas esperando a primeira seção e quando ela terminou nós compramos ingressos pra outro filme. Ficamos assim durante o dia inteiro.

—Você não tá bem néh!_ ela falou na saída do último filme.

Eu balancei a cabeça e comecei a rir.

—Não da pra esconder nada de você._ falei.

— É... Mas ta meio óbvio. Acho que esse foi o filme mais engraçado que eu já vi e você não pareceu nem interessado. Na verdade você tá ausente desde que fomos ver o primeiro filme.

Eu fiz uma careta e continuei andando, tentando parecer o mais "presente" possível.

— Vamos tomar um sorvete? _ perguntei, deixando claro que conversaríamos mais quando chegássemos lá.

—Se você pagar._ ela respondeu.

Eu ri e baguncei os cabelos de Lu como sempre fazia, nós começamos a andar.

Ela era uma menina um pouco mais baixa que eu, tinha os cabelos pretos cortados bem curtos. Sua pele era clara e seu rosto, como o do irmão, era cheio de sardas. Não era magra, mas não chegava a ser gorda. Era uma garota linda em quem eu dei meu primeiro beijo.

Nossos pais eram amigos e nós nascemos com poucos meses de diferença, por isso, nós crescemos juntos, por isso também, sempre contamos tudo um pro outro.

—Hey garotão!_ ela chamou._ Chegamos.

Eu me virei e a vi parada na frente de uma sorveteria. Eu voltei, nós entramos na loja e fomos até a bancada.

—Eu gostaria de dois milk shakes. Um de chocolate com ovomaltine e um clássico de morango. E queria também uma Banana Split dupla com duas bolas à mais de sorvete de chocolate._ falei.

A moça assentiu e nós fomos nos sentar.

Lucia parecia extremamente curiosa mas não tinha presa, sabia que, como sempre, eu contaria quando o sorvete chegasse.

E ele não demorou, poucos minutos depois que sentamos a moça do caixa veio até nós com uma bandeja. Eu paguei e ela deixou a bandeja na mesa antes de se afastar.

— E então... O que tá acontecendo?

—Eu acho que tô gostando do Arthur._ falei, sem rodeios.

—Meu irmão Arthur? Ou o Arthur ARTHUR?

—Antes fosse seu irmão._ falei rindo.

Ela comeu um pouco de sorvete e bebeu o milk shake antes de falar.

—Ele é namorado da Annie.

Eu a encarei sem expressão.

—Isso eu já sei... e por isso é tão complicado. Ele me disse que não ama ela, mas que não conseguiu terminar.

—Ele ia terminar com ela por você?!

—Não!_ eu disse._ ele nem sabe disso... e mesmo se souber, ele é hétero e o rei da escola.

—Nada que impeça vocês de ficarem juntos. Ele ser o "rei da escola" não muda nada e pelo que eu sei, você também era hétero antes da viagem e agora ta apaixonado por um cara.

Eu assenti e comi um pouco de sorvete.

—Mas nada disso muda o fato de ele estar namorando a Annie._ falei.

—E é por isso que eu te aconselho a não fazer nada, pode ser só uma paixonite de viagem. Ou você pode estar confundindo amizade e confiança com algo mais forte.

—Eu sei... e acho que você ta certa... é só uma paixonite de viagem. E mesmo se não for, ele é da Annie.

—Não quero te ver sofrendo._ ela falou._ mas ficar com ele vai contra o que a gente aprendeu.

Nós ficamos em silêncio até que terminamos o sorvete, já na hora de voltarmos.

—Obrigado._ falei.

—To aqui pra isso._ ela falou rindo.

E nós continuamos assim até chegarmos no ônibus. Rindo da peça que o destino havia me pregado.

—Lembra do que eu te disse._ ela falou quando eu estava na cabine.

—Eu vou._ respondi, antes de entrar.

〄〄〄

Era a quarta noite, Arthur entrou na cabine meia hora depois de mim e eu me virei fingindo dormir.

—Porquê isso?_ ele perguntou.

E eu continuei em silêncio.

—Eu sei que você está acordado._ ele continuou._ se isso é por causa do "acidente"...

—Não é por isso._ eu falei deitando de barriga pra cima._ É que eu não posso continuar desse jeito.

—Que jeito?_ ele perguntou, se deitando do meu lado.

Eu engoli o seco. Havia falado o que me veio primeiro a cabeça, e agora tinha estragado tudo.

—Achei que confiasse em mim_ ele insistiu.

—E eu confio... mas não tão simples assim.

—Por quê?

—Porque ela tem um namorado e ele é um grande amigo meu e eu nem mesmo sei se ela sente o mesmo.

Ele riu e se virou pra mim.

—Você nunca vai saber se não arriscar.

—Você faz parecer fácil._ falei me virando pra ele._ Mas não é.

—Na verdade é mais fácil do que você imagina.

Nós nos movemos ao mesmo tempo. Meu coração parecia estar sendo amassado, mas tudo voltou ao normal quando os lábios dele encontraram os meus e seus braços me envolveram em um abraço.

Eu fechei os olhos, me deixei levar pela dança que se seguiu.

Nossos corpos clamavam por mais um do outro e naquele momento não existia mais nada. Nem Annie, nem Lucia, ou mesmo o ônibus. Éramos só nos dois e os beijos quase ininterruptos que estavam cada vez melhores.

Às luzes se apagaram, devido ao toque de recolher, e nós nos afastamos, ofegantes.

—Isso não podia te acontecido..._ falei. Mas antes que pudesse continuar, Arthur pôs a mão em minha boca.

—A gente pensa nisso depois._ ele falou.

E eu me joguei novamente em seus braços para aquela dança recomeçar. E assim nós ficamos. Abraçados nos beijando até que fomos vencidos pelo sono e dormimos, ainda juntos.

Eu entre os braços dele, ouvindo seu coração, sentindo sua respiração, ainda ofegante, e sendo aquecido pelo calor do seu corpo.

E aquela foi uma noite longa e a melhor da minha vida até aquele dia. Na manhã seguinte, pela primeira vez em anos, eu acordei da mesma forma que havia dormido

Notas finais
E então... reviews não matam....