Dentro de um Coração Vazio
8 O Despertar
Notas iniciais

Bonnie
Aproveitando que estava sozinha no dormitório em Whitmore, decidi que era o momento perfeito para seguir para o meu último ato. Deixei o diário escrito para Elena junto com mais três cartas: uma para Caroline, outra para Damon (com a correntinha que ele havia me dado de presente de natal) e a última para Stefan que seria o meu mensageiro. Tanto o diário quanto as cartas deixei sobre a minha cama. Depois segui para o meu próximo passo... — O SUICÍDIO.
Eu escolhi a forma mais óbvia e clássica: cortando os pulsos, sentada dentro da banheira cheia de água, enquanto via o vermelho escarlate de meu sangue se misturar com a água transparente. Dolorosamente, o sangue ia se esvaindo de meu corpo me enfraquecendo, enquanto a minha visão tornava-se enevoada, me fazendo vacilar e escorregar dentro da banheira e afundar. Senti a água fria penetrar por minha boca e nariz, trancando a garganta, bloqueando o oxigênio para os pulmões, me deixando sem ar. Eu podia sentir o gosto do meu próprio sangue ali me afogando, até que não pudesse mais me mover, nem respirar. Sufoguei entre dor dilacerante, agonia e pânico, à medida que eu caminhava lentamente de encontro à morte. Pouco a pouco, fui me perdendo numa completa escuridão, até que meu coração parou de bater e já não pudesse sentir mais nada.
Assim, como Damon havia tomado a sua própria decisão, eu também tomei a minha. Eu estava pronta para dizer adeus a toda essa dor, desilusão e tormento que consumiam minha alma, esperando que, assim, conseguiria ser livre e encontrar a minha paz. Todavia, o que encontrei ali, não era nem um pouco parecido com paz. Era algo sombrio e assustador, me arrastando para dentro de uma névoa densa e gélida. E dentro daquela névoa podia ouvir vários sussurros sinistros e impetuosos retumbando sobre mim:
"A Sentinela..."
"Ela é chave para um novo tempo..."
"Esse é o seu destino..."
"Você não pode fugir do seu destino..."
"Ela deve ser implacável e poderosa..."
"E caçar e destruir as criaturas das trevas..."
"A pedra mística deve se fundir a Sentinela..."
"Então, elas se tornarão um. E nada irá pará-las!"
As vozes continuavam repetindo e se confundindo entre si. De repente os sussurros ganharam imagens e eu podia ver através da névoa meu próprio reflexo, mas era diferente, parecia mais forte, com uma postura sombria e parecia imortal e selvagem. Através de meu reflexo, vi meus olhos verdes escurecidos de poder e fúria. E, o mais bizarro de tudo, era que vi a Pedra da Fênix, pulsando intensamente em meu peito, como se fosse meu próprio coração, que começou a arder como se tivesse em brasa.
— Vamos Bonnie, respire, respire! Apenas respire! — Repentinamente, a névoa foi desaparecendo, junto com o meu reflexo e as vozes medonhas foram se tornando familiares.
— Bonnie, você não pode fazer isso comigo! Vamos, respire! — Senti mãos frias pressionando meu peito, freneticamente.
— Droga, eu só preciso que você abra olhos! — As vozes familiares ecoavam desesperadas me deixando tonta, enquanto as mãos frias continuavam pressionando meu peito com mais precisão e força, depois senti gosto quente e metálico de sangue sendo forçado por entre meus lábios, escorrendo para dentro de minha garganta e fluindo suavemente para todo o meu corpo, até me trazer de volta a vida.
— Bonnie fale comigo! – Subitamente, fui tragada para a realidade entre os braços de Caroline e Stefan. Eu estava anestesiada, emocionalmente, e esgotada, fisicamente.
– Olha, você está sangrando, precisamos cuidar de você. – Eu estava tremendo de frio, desorientada e suja de sangue, mas eu já nem me importava, deixei que eles cuidasse de mim, porque já não tinha mais forças.
Meus olhos pousaram em Stefan, seus verdes que estavam carregados de preocupação, ele seguiu até mim trazendo uma toalha, foi então que percebi que meu corpo havia sido colocado sobre o piso branco ao lado da banheira. Caroline me embrulhou na toalha por cima das roupas molhadas que se grudaram em meu corpo me fazendo sentir mais frio. Ela me abraçou tentando me aquecer, vi tristeza irradiar de seus belos olhos azuis.
– Não, vocês não podiam ter feito isso! – Eu reclamei trêmula, piscando várias vezes, tentando não demonstrar o quando derrotada estava me sentindo.
— O quê?! Você queria que deixássemos você agonizar até morrer? O que aconteceu com você, Bonnie?! — Caroline me censurava. Fechei meus olhos não querendo enfrentar os dois vampiros e seus olhares acusadores.
– Eu falhei com vocês. Eu falhei com todos. — Murmurei apática, decidindo olhar direto para Stefan que carregava uma expressão carrancuda.
— Bon, porque você fez isso? — Carol continuou cheia de desespero. — Por quê?! —Enfatizou em tom de decepção e, ao mesmo tempo, parecendo incrédula com a minha atitude.
— Caroline dê tempo a ela. — Stefan disse ponderado, tentando manter o controle da situação. Eu ainda podia sentir minha garganta arder, olhei para as minhas mãos sujas de sangue, o corte do pulso já estava cicatrizado.
— Nosso sangue curou você. Mas, se não tivéssemos chegado antes... Você sabe o que teria acontecido? — Caroline começou a passar as mãos, carinhosamente, entre os meus cabelos molhados. — Você é minha amiga, é tão importante para mim. Eu não posso perder mais ninguém que amo, Bon. — De repente ela desabou a chorar e agora era eu que precisava acalma-la.
— Eu sinto muito. — Eu disse fracamente com a voz embargada, olhando para Stefan, suplicando, silenciosamente, para que ele me ajudasse. O vampiro se aproximou novamente de mim cobrindo meus ombros com seu casaco e depois me pegou em seus braços.
— Carol, preciso que você se concentre e limpe todos os vestígios do que ocorreu aqui. — Ele sussurrou enquanto me levava para o quarto onde poderia ser aquecida diante da lareira. Caroline fez o que foi pedido me deixando sozinha com o vampiro.
— Eu sinto muito. — Continuei se lamentando e me sentindo envergonhada. — Eu tinha um plano e eu falhei...
— Que plano, Bonnie? — Stefan resmungou frustrado. — Espera... isso era um sacrifício? Você ia se matar por Damon? Por Elena? — Eu fiquei em silêncio apenas ouvindo sua voz me reprovando. — Bonnie não vou te julgar, mas também, não vou deixar você destruir a sua vida.
— Vocês não entendem! Não fiz por eles. Fiz por mim. Porque eu precisava ser livre. — Eu murmurei com olhos distantes me sentindo fora de órbita. — Eu estou preso a Elena e isso é horrível. Sou um obstáculo e enquanto eu viver, Damon estará lá dessecando, até que ela acorde. — Eu repliquei confrontando seu olhar, desesperada para me libertar de toda essa agonia que me dominava. — Isso é um fardo que já não suporto mais carregar.
— Eu sinto muito por isso, Bonnie. Não é justo consigo mesma se martirizar por algo que você não pode controlar. — Ele dizia firme me abrigando num abraço acolhedor. — Você é Bonnie Bennett, a pessoa mais forte, corajosa e altruísta que já conheci. Você também é parte dessa família e não pode desistir assim de nós. — Me senti aquecida, não apenas pelo fogo da lareira, mas também por suas palavras sinceras.
— Tudo está em seu devido lugar. Ninguém irá saber o que aconteceu aqui. — Carol reapareceu nos interrompendo. — Agora precisamos trocar essas roupas molhadas e conversar de amiga para amiga. —Eu me encolhi mais nos braços de Stefan, esperando que ele pudesse me proteger dessa conversa. Porém, ele me deu um beijo na testa, antes de sair do quarto nos deixando sozinhas.
Segundos depois, já estava devidamente vestida em roupas limpas e secas, assistindo Carol queimar minhas cartas na larareira, deixando apenas o diário para Elena intacto. Houve um breve silêncio até que decidimos conversar francamente.
— Tentando salvar Damon de seu próprio inferno pessoal, eu acabei perdendo a razão e a minha própria alma. — Eu relutei em acreditar que estava tão mal assim, ou que precisasse de ajuda. Mas, a verdade estava ali diante de meus olhos. — Paguei um preço muito alto por uma amizade que, no fim, não significou nada para ele.
— Damon é egoísta demais, nunca mereceu ter alguém como você por perto. Ele sempre será assim, um alguém impulsivo, egoista e covarde. — Sua voz era firme e seu olhar transmitia segurança. Isso me fez tomar coragem e abrir meu coração para ela.
— Eu cometi o meu maior erro. — Hesitei por um instante, tomando fôlego. — Eu me apaixonei pela pessoa errada. — Caroline ficou em silêncio, processando o que eu havia acabado de revelar.
— Nunca odiei tanto Damon, como o odeio agora. — A vampira disse entredentes, com seus azuis faiscando em fúria.
Mas, a culpa era minha, porque sabia que... ele era impossível para mim. Porque sabia que entre nós sempre existiria a sombra de Elena. Nesse instante, senti meus olhos nublarem com as lágrimas.
— Eu sei que as coisas não serão mais as mesmas, mas eu estou aqui e eu vou te ajudar, Bonnie. Eu serei uma melhor amiga e vou cuidar de você. — Nós sentamos lado a lado em cima da minha cama.
— Você diz como se eu fosse incapaz de cuidar de mim mesma. — Sussurrei amargurada. — Eu não sou Elena!
— Eu sei que você não é Elena. Você é forte, mas até os mais fortes e corajosos, às vezes precisam de um anjo da guarda. Precisam ser protegidos e amados. — Ela parecia transmitir tanta calmaria e confiança.
— Você será meu anjo da guarda? — Eu disse sorrindo tímida com a ideia de Caroline.
— Sim, o tempo todo. Eu vou ser um anjo muito bonito, sexy e controlador. Se você sair da linha, eu vou ser cruel. Bem cruel!
— Isso soa assustador. — Tentamos sorrir para aliviar toda aquela tensão. — O que eu faço, Carol? Eu sinto que estou enlouquecendo e estou perdendo o controle da minha vida.
— Bonnie, já passei por isso quando desliguei minha humanidade e me arrependo muito. Mas, aprendi com isto e decidi seguir em frente. É isso que você precisa fazer, Bon... seguir em frente. Vamos esquecer o passado e pensar no futuro.
— Então, esse é o plano? Parece tão fácil. — Eu deixei minha cabeça descansar em seu ombro, ouvindo ela continuar.
— Não, não é fácil, mas o mais importante é que nós estaremos juntos nessa. Eu não vou te abandonar. Você está presa comigo e nós vamos passar por isso juntas... — Fechei os meus olhos em agonia ao se lembrar de tais palavras:
"Afinal, estamos preso nisso juntos. E você vai me ajudar a esperar por Elena." A voz de Damon agora ecoava em minha mente, cheia de promessas vazias...
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Já se passara oito meses desde que comecei a tratar a depressão. No começo as coisas não foram fáceis, pois sempre haveria a desconfiança e apreensão pairado sobre nosso grupo. Eles nunca me deixavam sozinha, sobretudo, Caroline que sempre estava por perto, cuidando de cada passo meu, quase como se fosse um cão de guarda. Sem controle de minha própria vida, assombrada e sofrendo de insônia, passei a viver, constantemente, de remédios até para conseguir dormir sem sonhos. Desde então, tenho feito tratamento para depressão, junto com uma psicologa e algumas sessões em grupo.
— Eu cometi um erro e perdi alguém que amava. — Era estranho conseguir falar sobre Damon tão, abertamente, diante dessas pessoas. Mas, segundo a Doutora St. John era bom ter essa troca de experiências em grupo, onde cada paciente dividiria seus traumas. — Eu faria tudo para tê-lo de volta, mas não posso.
— Você ainda se culpa por ele ter te abandonado?
— A questão é... Eu me preocupava com ele, mais do que qualquer outra pessoa. Mas, no fim não foi o suficiente. Ele foi embora como se fosse a coisa mais fácil do mundo. — E lá estava a dor do abandono me corroendo por dentro.
E durante esses oito meses, também veio tentando vencer a ausência que Damon deixou em minha vida. O abandono ainda era algo que pesava sobre mim, quase como se tivesse de luto.
— Mas, não vou deixar uma traição definir a minha vida. — Eu dizia convicta, decidida que era hora de seguir em frente e experimentar novas emoções.
— Então, você está pronta para florescer e seguir em frente? — Havia uma estranheza no tom de voz da Doutora St John, me causando calafrio. — Você não pode continuar fugindo de seu destino, Sentinela.
— O que você disse?! — Exclamei nervosamente. Parecia que ela via muito além de mim, como se pudesse com o seu olhar decifrar os meus segredos mais obscuros e isso me causava certo medo. Ela se aproximou de mim sem perder contato visual.
— E os pesadelos... Eles pararam? — Ela perguntou olhando para mim, com seus grandes olhos castanhos que, lentamente, se desfaziam em azuis insanos, estranhamente, familiares.
— Sim, mas curiosamente os sonhos ruins foram substituídos por sussurros estranhos, que só eu escuto. — Eu repliquei numa ação automática, recuando para longe dela e sua face que foi se transformando, morbidamente, em outro alguém.
— E o que esses sussurros dizem? — Engoli em seco me sentindo apavorada, olhando o corpo feminino num segundo dar lugar ao corpo másculo, duro e pálido de Damon Salvatore que, naturalmente, como um predador, caminhava em minha direção. Por puro instinto, comecei a recuar o mais longe possível dele.
— Eu... eu acho que tem a ver com a Pedra da Fênix. — Sussurrei se sentindo atraída por sua beleza majestosa e fatal.
— Ela é a chave de tudo. E tudo que aconteceu até agora estava predestinado a acontecer. — O vampiro continuava murmurando sem parar. — Então, você está pronta para aceitar o seu destino, Sentinela?— Sua bela face perfeita, foi se transformando em uma expressão demoníaca e seus olhos azuis escureceram, tornando-se desumanos.
— Pare de me chamar assim! — Isso não é real! Você não é real!— Entrei em pânico, confrontando um Damon em sua forma mais selvagem e cruel.
— Bruxa, eu posso sentir o seu sangue fresco e doce fluir cheia de medo, me implorando para ser sugado até a última gota de vida de seu corpo frágil. — Eu lutava contra mãos frias e ásperas que tentavam me assassinar. — Sua morte me fará tão feliz e satisfeito!— Ele rosnou mostrando suas presas como um animal faminto.
— Pare! Fique longe de mim! — Eu tentava me libertar de suas garras.
— Está na hora de me dar Elena de volta. — Ele sorriu com escárnio, antes de violentamente cravar suas presas em meu pescoço.
Foi nesse instante que senti uma fúria insana e descontrolável se enraizar em mim.
— Você é um monstro! — Esbravejei antes de cravar minha, mão, brutalmente, em seu peito e arrancar sem misericórdia seu coração.
Subitamente, despertei apavorada e ofegante em meu quarto. Não tive tempo nem de recuperar o fôlego, sendo surpreendida ao perceber que no cômodo ao lado da cama, estava a Pedra da Fênix brilhando, tenebrosamente, sabendo que ela não deveria estar aqui. Minha magia se agitou pressentindo algo maligno querendo se libertar através da pedra.
Enfurecida e me sentindo ameaçada, peguei a tal pedra reluzente e joguei para queimar na lareira. Nesse instante, tive flashes horrendos daquelas almas condenadas prisioneiras dela, enquanto o fogo se entrelaçava sobre aquele pedaço de rocha vermelho rubi. Eu caí no chão assustada e paralisada, assistindo o fogo monstruosamente ganhar vida própria e traçar um caminho perigoso direto a mim. Tentei fugir, mas antes que conseguisse chegar à porta, o fogo abruptamente formou um círculo mortal ao meu redor, me deixando encurralada entre suas chamas indomáveis.
Fechei os meus olhos tentando encontrar uma magia qualquer que me salvasse desse inferno, porém o nervosismo nublava as idéias. Também tentei gritar, mas a voz não saía.
Eu estava sozinha, chorando apavorada e presa entre as chamas que queimavam incessantes me asfixiando, sabendo que não importava o quanto eu lutasse, não havia escapatória.
No meio daquele terror, vislumbrei a Pedra da Fênix impecável flutuar no centro da sala acima de mim. Ela brilhou uma última vez, me atraindo com uma força sobrenatural e quando a toquei senti o fogo que estava ao meu redor consumir totalmente o meu corpo, ao mesmo tempo que os sussurros se tornavam audíveis:
"O destino já foi traçado." As vozes sussurravam frias.
"A pedra mística deve se fundir a Sentinela, se tornando um só..." Eu me contorcia no chão sentindo meu coração bater frenético e anormal, como se a própria Pedra estivesse sendo encravada cruelmente em meu peito.
"Então, ela se tornará um novo ser... Forte, poderoso e implacável!" Fechei meus olhos lacrimejados, sentindo a dor me penetrar por cada fibra de meu corpo.
”Assim como uma Fênix ela irá renascer..." Meu sangue fluiu intenso como fogo, me queimando verozmente por dentro, ao passo que algo sombrio e destrutível se enraizava em minha alma, consumindo lentamente minha vida. Extinguindo todo o ressentimento, culpa e dores que eu carreguei sobre meus ombros durante tanto tempo.
"É hora do despertar." Ouvi as últimas palavras, antes de ser abraçada pela escuridão e vazio da morte.
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