Dentro da Solidão Insuportável
1 Único
Notas iniciais
‘Cause if I let him out
He’ll tear me up, break me down
Why won’t somebody come and save me from this?
Make it end!
A sensação é estranha. Um oceano negro do qual não se pode fugir. Um vasto infinito sem paisagem. Um mundo completamente solitário.
Posso sentir quando estou dentro da loucura, o sofrimento da insanidade. Uma falsa tranquilidade, tentando avidamente esconder o desespero por trás. É quase indescritível; algo a mais dentro do meu corpo além de mim, algo que o controla, sem dar ouvidos às minhas ordens. Eu consigo entender seus movimentos, ouço sua voz manchada na minha dizendo coisas que nunca pensei que me ouviria dizer, sinto o Sangue Negro correndo pelas minhas veias, controlando tudo, até eu mesma. Não, isto não sou eu. A loucura me controla – possui meu corpo, aprisionando a sanidade num pequeníssimo e quase invisível canto.
É vergonhoso. Não queria ser vista de uma maneira tão ridícula e descontrolada, mas essa é a última coisa que importa agora; preciso me concentrar. Se eu conseguir, poderei devolvê-lo sua sanidade. Isso importa mais do que nunca, agora que sei como ele se sente – ele, o motivo pelo qual eu decidira fazer isso. O alguém pelo qual eu aceitara arriscar perder minha sanidade para sempre.
É agonizante simplesmente estar aqui e não poder fazer nada.
Em algum lugar daquela Alma insana está escondido o garoto verdadeiro, o verdadeiro em todos os sentidos, não aquela imitação barata e nem um pouco fiel. Ninguém ficou e o confortou, ninguém o mostrou como lidar com outras pessoas. Ninguém veio para ajudá-lo, nem ele teve forças para ajudar a si mesmo. Agora, vejo um modo de fazê-lo, então o farei.
Ouço pensamentos confusos – e que não pertencem à minha mente; vêm de outra, ligada a minha como se fossem uma só –, se perguntando por que de repente me importo tanto com aquele que antes era chamado de meu inimigo. A resposta não vem com muita clareza ou de imediato, mas com o tempo formulo um raciocínio que parece ao menos um pouco lógico.
Nós já sabíamos desse controle que a insanidade poderia impor sobre alguém. Todas as pessoas possuem loucura dentro de si – umas mais que outras – e ela só se amplia com o estímulo de alguma coisa, deixando a personalidade verdadeira aprisionada e colocando algo controlado pela falta de razão em seu lugar. Sanidade e medo andam lado a lado, portanto, quando um vai embora, o outro segue. Uma Alma sem medo é uma Alma vazia, oca, insignificante. Tendo isso em mente, não consegui deixar de lado o fato de que alguém está preso numa escuridão como essa; um pobre garoto está envolto por uma camada espessa e persistente de loucura, usando e abusando de seu corpo e sangue. Agora que estou na mesma posição que ele, preciso no mínimo tentar salvá-lo. Porque ninguém se dispôs a fazer isso antes.
Meus olhos ainda não estavam abertos quando percebi uma presença próxima no oceano negro. Bastante reconhecível, na verdade. Tímida, porém forte; leve e ao mesmo tempo profunda – mas, acima de tudo, corajosa. Eu sei o que é, posso sentir.
É realmente muito pequena, pensei. Minha Alma cabe na união de minhas mãos em concha. A reconheço... acredito que seria impossível não fazê-lo. Deixo-a ir, este é seu lar, saberá se cuidar. Movimento minha cabeça o mais rápido que o oceano permite, procurando pelo outro alguém que deveria estar aqui. Talvez um pouco mais agitada do que a anterior, outra se aproxima, e essa é diferente. Um pouco rebelde, mas no fim está sempre lá para ouvir meus problemas egoístas. Um grande cara. A Alma do meu parceiro se afasta tão lentamente quanto se aproximara.
A terceira, última e nesse momento mais importante... onde está? Sinto uma presença, mas...
A Alma do garoto aprisionado é visivelmente diferente das outras; posso sentir uma sede profunda quando me aproximo. Algo disfarçado de tranquilo, mas que na verdade grita por socorro.
Aos poucos percebo que a luz por trás das minhas pálpebras é muito mais forte do que antes; o calor e o cheiro de areia substituem o frio e a sensação de mergulho. A paisagem infinita desta vez lembra uma praia – uma praia sem mar. Não há ninguém à vista, nenhum som, nenhum movimento, nem mesmo o vento. Mas de repente...
“A luz de um sol sem vida me ilumina”, ouço.
Não sei bem como aconteceu, não me preocupei em prestar atenção – apenas assisti enquanto meu corpo aproximava-se da criança que chorava, há pouco tempo tão silenciosa. O círculo desenhado na areia envolve o pequeno espadachim que sussurrava sozinho – os soluços moldam sua fala, chegando a ser perturbador ouvir sem desejar consolá-lo.
“Nunca soube como lidar com as coisas, mas se eu estiver dentro do círculo, estou seguro! Se você pode simplesmente entrar, qual o sentido...?” Ouço as indagações chorosas do menino sem olhá-lo. Movimento meu corpo para observar sua muralha protetora.
“Ela pode ser apagada com facilidade, também”. Meus pés chutam a areia no ar, desfazendo o círculo que o mantinha a acreditar que estava seguro, quando não estava. Ignoro as reclamações e os protestos desesperados e continuo minha missão. Logo o círculo desaparece por completo. “Pronto. Sumiu”.
Um grito agoniado vindo do lado de fora me leva de volta.
O êxtase da vitória. O frio da dúvida. O medo da falha. A pressa da fuga. A força de vontade.
Rápido, me tire da insanidade!
Minha voz, muito falha e quase rouca, envia um sinal alarmante e eu tento por tudo me apressar – mesmo não sabendo qual caminho é para cima e qual é para baixo, sigo a sensação que a presença do meu parceiro deixa e procuro por ele. É difícil enxergar seu rosto, quase impossível ouvir sua voz, mas reconheço a pessoa em que mais confio nesse mundo – alguém muito mais forte do que eu, o amigo que prometera me salvar da insanidade – e entendo que grita meu nome.
Vejo sua mão tentando penetrar a espessa camada de loucura que nos separa um do outro.
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