Demons
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura!
Olhe nos meus olhos
É onde meus demônios se escondem
É onde meus demônios se escondem
Não se aproxime muito
É escuro aqui dentro
— Demons, Imagine Dragons
Tsunade mordia a ponta do dedo enquanto encarava a porta de sua sala; fazia isso sempre que precisava pensar em algo sério. Naquela tarde ensolarada, a atual líder da Folha desejava ter a velocidade de pensamento pertencente a Shikamaru. Em qualquer outra ocasião, seria fácil escolher as palavras que usaria para executar seu discurso mas quando tratava-se de Naruto — e de um dos seus grandes objetivos — todo cuidado era pouco.
Fazia pouco tempo desde a última conversa semelhante à que em breve ocorreria. Havia anunciado a morte de Orochimaru ao time Sete; a animação e o brilho no olhar de Naruto percorriam a mente de Tsunade, sabendo que dessa vez a histeria seria ainda pior. Era sempre um desafio lidar com as reações do jovem Uzumaki nas poucas ocasiões que tinham informações de Sasuke. Não poderia culpá-lo, no entanto. Os sentimentos sempre estavam à flor da pele naquela idade; ela mesma já havia vivenciado isso algumas vezes na própria juventude.
Por isso, tomou algumas precauções.
A primeira delas foi chamar Kakashi para receber a notícia; ele sabia lidar muito bem com Naruto e, se essa tarefa não fosse atribuída a ele, a mais nova mesa de madeira maciça do escritório provavelmente seria partida em duas. Na verdade, o correto seria convidar o time Kakashi inteiro para receber a atualização sobre Sasuke Uchiha, mas sua aluna estava ocupada demais no hospital cuidando do novo surto de gripe que chegou ao País do Fogo. Pensando nisso, quis que Jiraiya terminasse logo sua missão de investigação no País da Chuva. Ele tornaria tudo tão mais fácil…
Ser Hokage era um saco.
A segunda medida foi garantir que os ninjas ANBU que a notificaram tinham certeza daquele fato. Não duvidava de seus homens, mas aquela situação iria mudar drasticamente o rumo de como tratariam a Akatsuki. O garoto uchiha, para a vila e naquele momento, era o menor dos problemas.
Ou ao menos ela achava ser.
Deu um último gole em seu chá antes de ouvir alguém batendo na porta. Apenas pelo padrão dos toques, sabia que era Shizune, provavelmente acompanhada dos dois ninjas que aguardava.
Sentindo-se mais cansada que o normal, Tsunade soltou um suspiro que apenas ela ouviria. Não que houvesse alguém mais na sala.
— Entre.
Shizune abriu a porta e entrou, sendo seguida de Kakashi Hatake e seu aluno. O trio parou em frente à sua mesa.
— Tsunade-sama. — disseram em uníssono.
Não era hora para rodeios.
— Kakashi, Naruto. — a loira prolongou-se mais ao olhar o segundo, colocando os cotovelos sobre a mesa e unindo as mãos na altura do rosto. — Eu tenho notícias que podem interessar a vocês.
— Fala logo, vovó!
— Itachi Uchiha está morto. — empurrou as palavras. Aquela ainda era a parte fácil. — Sasuke o matou.
Surpresa invadiu as expressões dos dois homens à sua frente. Não disseram uma palavra sequer durante longos segundos, mas os olhos de Naruto indicavam uma felicidade que ninguém no recinto seria capaz de sentir.
Bom, ninguém amava Sasuke da forma que Naruto amava.
— Ele conseguiu, dattebayo… — a voz do Uzumaki saiu quase como um suspiro. Ainda caía a ficha.
— Conseguiu. — Tsunade repetiu para tomar a atenção de volta para si. Ainda havia uma notícia que certamente não seria tão bem recebida. — Mas…
— Agora Sasuke irá voltar, certo?! — interrompeu. — Ele finalmente voltará pra casa!
— Não é tão simples, Naruto. — anunciou ela. — Um ANBU subordinado a mim estava em missão com seu pelotão durante o ocorrido. Por coincidência, ele passou por ali e viu a cena…
— Sasuke está bem, não está, vovó?! — havia um certa urgência na voz de Naruto.
Depois de tantos anos e tantos contratempos, ele finalmente poderia se declarar ao melhor amigo e rival. Sem medo, sem arrependimentos. Mostraria de uma vez por todas que Sasuke não estava sozinho, nunca esteve, e que seu coração ansiava por poder recebê-lo em Konoha. Finalmente teria a chance de dar a ele o carinho e o amor que só pôde proporcionar em sonhos.
Quantas vezes tinha ensaiado confissões de seus sentimentos, aguardando o momento? Quantas vezes não tinha sonhado com o toque e os beijos do Uchiha? Sasuke precisava estar bem. Naruto acreditava nisso, afinal, seu amado era forte.
— Aparentemente sim, Naruto.
— Aparentemente?!
— Naruto Uzumaki! — elevou a voz. — Me deixe terminar!
O silêncio novamente penetrou a sala. Tsunade respirou fundo antes de continuar.
— Esse ANBU disse que havia mais alguém junto a Sasuke. Um homem mascarado, conhecido como Tobi; ele faz parte da Akatsuki. Parecia ser aliado ao Sasuke.
Kakashi reparou que Naruto estava atônito e, uma vez percebendo a falta de resposta, tomou as rédeas da situação completamente temeroso quanto ao tipo de gente na qual seu aluno mais rebelde estava se envolvendo.
— Você tem certeza disso, Tsunade-sama?
— Meu subordinado jamais inventaria algo desse nível.
Se Kakashi visse o estado no qual esse ninja, um dos mais talentosos da sua divisão, encontrava-se quando retornou à vila e relatou o ocorrido, ele não duvidaria.
Não podia culpá-lo por não controlar as emoções; Itachi foi seu amigo de infância, não deveria ser fácil encontrá-lo morto.
— Fato é que Sasuke não voltará para casa. E pior, pode estar envolvido com uma facção criminosa altamente perigosa. Com alguém desse tipo ao seu lado, dificilmente se livrará de tanta dor e tanto ódio.
— Ele jamais faria algo perigoso para a vila! — bradou Naruto, tentando acreditar nas próprias palavras.
— Precisaremos ficar de olho em Sasuke, ele pode se tornar alguém perigoso. Não o caçaremos pois até agora não ofereceu risco à Konoha e tenho consideração aos sentimentos de Naruto por ele. — esclareceu. — Mas é um forte candidato a virar um Nukenin e entrar no livro Bingo.
— Vocês estão errados! — o Uzumaki virou -se, buscando o rosto de Kakashi-sensei. — Fala, Kakashi! Fala pra ela que está errado e que Sasuke nunca cometeria um crime!
O Hatake não respondeu. Levou mais algum tempo até reunir seus pensamentos e falar com ele.
— Naruto… Feche os olhos e pense no olhar de Sasuke.
Ainda que a contragosto, o loiro fez o que seu professor pediu. Não era difícil encontrar o rosto de Sasuke em seus pensamentos. Focou nos olhos negros como a noite, na expressão desde o último reencontro. Na infância, costumava achá-lo inexpressivo, desinteressado; agora, no entanto, conseguia sentir mais do que nessa época tão distante. Via dor e, principalmente, ódio. Uma raiva longa e alimentada por toda uma vida, com um foco direcionado em um único objetivo; e nada nem ninguém havia sido capaz de pará-lo até que Itachi estivesse morto.
— O que vê, Naruto?
A pergunta de Kakashi o tinha trazido de volta dos seus pensamentos de uma forma um tanto quanto bruta. Naruto não sabia como formular a resposta, transformá-la em palavras.
— Escuridão…
— Correto. Ele está imerso em escuridão. E dentro dele há um demônio que o prende lá. Há muito ódio, medo e tristeza dentro do coração de Sasuke… depois de uma vida inteira sem lidar com isso da forma correta… a tendência é que esse demônio tome o controle. — o Hatake fez uma pausa para que seu aluno entendesse cada palavra. — Não iremos desistir mas… será mais difícil se aproximar.
Naruto encarou bem o sensei e a Hokage, sentindo as primeiras lágrimas descendo pelo rosto, molhando as bochechas marcadas pelo chakra do demônio que habitava em si. Bateu a porta com força e saiu do maior prédio de Konoha a passos velozes, pesados. Corria com a visão de olhos escarlate, mas incrivelmente frios e obscuros, impregnada na mente. Eram naqueles olhos que os demônios de Uchiha Sasuke estavam.
Ele também tinha um demônio dentro de si e, assim como o de Sasuke, foi colocado ali sem qualquer permissão. Naquele momento, porém, o peso de carregar Kurama parecia muito menor do que o peso de um massacre e do assassinato do próprio irmão. Isso porque poderia aguentar todos os problemas do mundo, mas não conseguia suportar a ideia de que Sasuke estava sofrendo daquela forma.
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