Demons
1 Capítulo Único - I can see the demons of my mind
Notas iniciais
Não é uma história para divertir, e sim para refletir.
Até breve.
Sentada no chão da banheira, a água batendo no corpo e a música alta saindo dos auto falantes do celular, ela pensava. As duas mulheres sentadas nas duas extremidades da banheira se encaravam, irritadas. A de cabelos vermelhos suspirou, estendendo a mão e tocando nos cabelos molhados da garota sentada.
- Reconsidere. Por favor, reconsidere. Você sabe que essa não é a única saída, querida.
A menina levantou o olhar, encarando-a. Os olhos vermelhos e inchados, o rosto borrado de rímel, a lâmina afiada na mão, sangue pingando do corte superficial e acidental em seus dedos.
- Faça o que quiser, menina. Não a ouça. – A outra, de cabelos quase dourados, sorriu-lhe, os olhos verdes brilhando.
- Cale-se. – A ruiva encarou a outra, o olhar novamente irritado. Voltou-se para a mais nova. – Você tem irmãos, você tem família, tem um namorado e também tem amigos. E quanto a eles?
A menina suspirou, olhando de uma para a outra, a expressão indecifrável.
- Você é fruto da minha mente. Sabe o que vai acontecer no final. Por que insiste tanto? – Indagou, encarando a ruiva.
- Se existe uma parte da sua mente que está tentando te impedir de fazer isso é por que você mesma não tem certeza de que esse é o caminho certo. Você sabe disso.
— Sabe pelo que passei. Sabe que você é mais fraca. Por favor, me deixem em paz. – Ela abaixou novamente a cabeça, escondendo-a entre os olhos, as mãos apertando a lâmina mais forte e fazendo sangue pingar. Lágrimas escorriam novamente. Ela estava cansada de lutar. – Me deixem em paz.
A ruiva aproximou-se, tocando-lhe novamente os cabelos e sendo imitada pela loira, que sorria-lhe ternamente.
- Faça o que quiser, menina. Você se lembra de todos os maus momentos. Não são eles em muito maior quantidade que os bons? Seus amigos estavam lá quando você precisou? Seu namorado te defendeu quando aqueles idiotas falaram de você? Sua família aceitou seus problemas e tentou encontrar uma solução? – Ao ver a menor negar com a cabeça, a loira sorriu. – Então por que precisa continuar aguentando tanta dor, se nenhum deles te ajudou a suportá-la?
A menina encarou a loira, sorrindo-lhe, ignorando totalmente o fato de que a ruiva havia simplesmente desaparecido.
- Dê-me sua mão, menina. Deixe-me salvá-la. Deixe-me tirar sua dor.
E ela deixou.
♠ — ♠ ♠ — ♠ ♠ — ♠ ♠ — ♠ ♠ — ♠ ♠ — ♠ ♠ — ♠
Mãe, por favor, pare de chorar. Não desperdice suas lágrimas comigo, não mereço tanto. Prometo explicar-lhe meus motivos nas linhas seguintes, mas prometa-me não chorar. Eu vou saber se você vai cumprir a promessa.
No começo do ano você me disse que tudo seria diferente. Que a cidade nova seria melhor, divertida e que eu faria amigos. Foi assim nas primeiras duas semanas, admito, mas depois tudo desandou. Primeiro que eu sentia falta de meus amigos, meu namorado, vovô, vovó e, principalmente, papai. Segundo que percebi que os alunos do meu colégio novo eram cruéis, e que nada seria como na cidade passada.
Inventaram um boato sobre mim. Começaram a me chamar de coisas terríveis. Mentiram sobre mim. Jogaram coisas em mim. Eu tentava te falar, mas você nunca, nunca ouvia. Meus irmãos também passam por coisas parecidas, e peço que ouça-os quando eles clamarem por socorro.
Um dia, voltando da colégio, alguns garotos do último ano me abordaram. Eles disseram que tinham ouvido os boatos sobre mim e que queriam me ajudar. Eu, idiota, acreditei. Fizeram coisas terríveis comigo, mãe. Disseram coisas terríveis para e sobre mim. Foi aí que os cortes começaram.
Outro dia, passaram a aula inteira jogando bolinhas de papel, borrachas, apontadores e coisas variadas em mim. Os professores não acreditavam quando eu reclamava e aquilo começou a se tornar frequente. Minhas notas diminuíram, e eu me lembro bem do quão decepcionada você ficou por isso. Gritou comigo por horas, enquanto seus outros dois filhos, tão novos, choravam no andar de cima.
As coisas começaram a piorar. Eu, antes uma ótima aluna, comecei a ir mal nas provas. Perdi contato com minhas amigas, e meu namorado e eu começamos a brigar. Você me dizia que era por que eu era chata demais, e eu acreditava. As crianças no colégio começaram a me insultar e eu acreditava em cada palavra do que elas diziam. Você descobriu sobre o primeiro boato e me deixou de castigo. Consegue lembrar disso?
Comecei a sair menos, comer menos, falar menos, interagir menos. Mas nunca deixei de sorrir. Por meus irmãos. Por que eu me preocupava com eles e não queria que percebessem que algo estava errado.
Papai me ligou um dia e você ficou furiosa. Vocês discutiram no telefone e nós discutimos em casa, enquanto os meninos estavam na escola. Ele nunca mais voltou a me ligar. Diga a ele que o amo, por favor.
Tudo piorou quando você descobriu que eu não passei no vestibular. Gritos, gritos e gritos. Quanto tempo fiquei de castigo mesmo? Três meses? Acho que perdi a conta. Você me chamou de burra, inútil e incapaz. E eu acreditei. E chorei, desesperadamente. E você me ignorou. Ignorou meus pedidos de desculpa. Ignorou minha dor.
Entenda, não quero que se sinta culpada – apesar de dar a entender isso. Quero só que compreenda meus motivos. Entenda seus erros e não cometa-os com meus irmãos e qualquer outra pessoa que passe pela sua vida e precise de ajuda.
Papai, caso você leia essa carta, não se irrite por favor. Chega de brigas. Vocês brigavam por mim, eu me lembro. Eu cansava vocês, física e psicologicamente. Me perdoem por isso. E, pai, seja mais presente na vida dos meninos. Eles precisam de você.
Meninos, eu amo vocês. Vou cuidar de vocês, onde quer que eu esteja. Sempre fiz isso, sempre farei. Fiquem bem, façam amigos e confiem neles, mas confiem, protejam, suportem e amem um ao outro acima de todos os outros. Acima de qualquer garota ou garoto, também.
Quanto aos outros... Eu amo vocês. E perdoo vocês.
Talvez eu me arrependa dessa decisão nos meus últimos instantes de vida e não tenha como voltar atrás. Mas está tudo bem.
Eu estou sorrindo.
Já não dói mais.
Fale com o autor