Demiurgo
3 7º dia, descanso
Notas iniciais
Na loja, que estava trancada nos últimos dias, percebia-se que a poça de sangue havia sumido, sobrando apenas uma mancha. Achei lógico que alguém a limpou, mas por qual motivo? Não perdi mais tempo e fui até a igreja para ver o que aconteceu.
Ao chegar, recebo a notícia que o padre local havia acabado de falecer devido à hipotermia. Percebi que o velho estava doente, mas não sabia que acabaria assim. Eu e meu grupo procuramos por mais vítimas durante três dias, sem sucesso algum. Com a população nos pressionando para deixar a igreja vazia, retiramo-nos para a capital da província. Informei detalhadamente aos meus superiores sobre a jornada à Naturno e recebi ordens de encerrar a investigação.
O tempo passou e nenhum caso tão intrigante e sem resultados como este apareceu novamente. Bolzano não era repleta de crimes e os que ocorriam eram classificados como de baixo nível, porém um fato chamou minha atenção. Um grupo de teatro que trabalhava com fantoches e marionetes se apresentou na cidade. Ainda com pensamentos sobre o caso de Naturno, resolvi apreciar a peça.
A apresentação foi fantástica. O tema era sobre o mito da criação da vida e envolvia temas bíblicos tradicionais, como Adão e Eva. Os fantoches faziam um papel menos importante, enquanto as marionetes, tão belas e realistas, se destacaram entre alguns críticos presentes. Eram realmente impecáveis, tinham o tamanho de um homem ordinário e detalhes sensacionais, trazendo bons olhos da cidade ao grupo teatral.
Cheguei a perguntar sobre quem trabalhou na criação destas marionetes. O grupo informou que foi a iniciativa de um artesão desconhecido, que residia na cidade de Campo Tures, a 70 km de Bolzano. Achei curioso, mas duvidei de uma possível relação com o caso arquivado. Prossegui para casa, até que fui surpreendido com uma carta do Departamento de Polícia. Voltei imediatamente para Naturno.
Encontraram o corpo do artesão debruçado em cima de um túmulo no vilarejo de Tablà. O cadáver estava em condições normais, intacto. Lembrei-me do detalhe da pele da segunda vítima e toquei a face do artesão. Estava um tanto dura, linear, não muito redonda... um tanto artificial, realmente diferente de algo normal.
Voltei a entrar na loja do defunto, novamente me surpreendi. Vi um protótipo de marionete em escala humana sobre uma mesa; faltavam dobradiças e fios. Só percebi o que verdadeiramente acontecia quando vi uma estaca presa em pé a uma peça de madeira, que correspondia à parte direita superior do tronco. Estava coberta de sangue. Finalmente, pensei. O teatro, eu sabia.
Meus superiores novamente arquivaram o caso, porém não me disseram do paradeiro do corpo do assassino. Corpo... não. Não era real. Foi criado, uma obra. Prima.
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