Demônios na Floresta Negra
1 Capítulo 1
N’gani corria pela floresta sem coragem de olhar para trás. Seu medo tinha razão de ser, pois sabia que eles estavam cada vez mais perto. Tais quais verdadeiros quiumbas surgidos das velhas histórias de seu povo, os gigantes brancos pareciam decididos a capturá-lo.
E pensar que naquela manhã ele acordara embalado em sonhos de aventuras. Na noite anterior ouvira, em volta da fogueira, as tradições dos guerreiros antigos de sua tribo e N’gani ansiava pela emoção e pela glória.
Saiu de sua aldeia disposto a desbravar as matas como somente as lendas podem fazer. Tão distraído caminhava em seu sonho de vitórias que não percebeu o quanto se afastara. Quando notou o quanto estava longe, resolveu voltar. Mas seu caminho já não estava como o encontrara. O gigante branco o esperava. N’gani nunca antes o vira, mas soube imediatamente quem era. Muitas crianças vinham desaparecendo na mata, e os mais velhos diziam que haviam sido levadas por uma coisa que chamavam ‘mercadores de escravos’. Para N’gani, era um demônio!
Conhecia a floresta bem o suficiente para correr o quanto podia, mas o demônio branco não estava só, outros o acompanhavam e cercavam os caminhos da floresta, parecendo dar mil passos a cada vez e N’gani começou a cansar, a respiração de seus perseguidores cada vez mais perto.
De repente aconteceu. N’gani tropeçou de medo e cansaço e antes que pudesse levantar sentiu uma mão apertando seu braço como se fosse esmagá-lo, erguendo-o no ar como se ele fosse um nada, e quando foi amarrado e teve uma corda atada a seu pescoço foi isso que N’gani se sentiu: um nada.
Nem sabia há quanto tempo estava sendo arrastado quando avistou outros demônios brancos e outras crianças amarradas. N’gani pode reconhecer diversos deles e suas tribos Llongos, Wambesis, Sotos... o ar de desalento deles fez com que N’gani pensasse em si mesmo e em como deveria estar.
Dois demônios falavam estranhas palavras que N’gani não entendia. “Vai ver os demônios não falam os idiomas dos homens”, pensou o jovem mandinka. Suas gargalhadas soavam rudes e ainda mais assustadoras. A um canto, N’gani pôde ver uma menina wambesi morta, as roupas rasgadas, as pernas abertas; foi só então que entendeu que aqueles demônios eram do pior tipo: homens. Catorze homens perversos.
Puseram-nos a caminhar em três filas de mais ou menos dez crianças cada, com os braços atados atrás do corpo e uma corda que prendia sua perna direita à perna direita da criança à sua frente.
N’gani podia não ter muita certeza do que lhe aconteceria a partir dali, mas sabia que sua vida como conhecera estava acabada. Nunca mais as histórias em torno da fogueira, adeus sonhos de lendas. Pôs-se a chorar quando ouviu ao seu lado um murmúrio, um som baixo que dizia “Mimü ti o rin, ba de si wa [1]”. E enfim ele se lembrou das histórias de seu avô.
Logo aquele murmúrio foi crescendo, cada criança entoando o mesmo canto em seu próprio ritmo até formar-se um grande alarido. Os demônios humanos acharam graça no início, mas depois de um tempo começaram a perder a paciência e começaram a gritar com as crianças amarradas. N’gani entendeu que estavam mandando-os parar, mas continuou mesmo assim até que sentiu uma dor imensa na perna: um dos demônios os chicoteava.
O cântico deu lugar ao pranto e aos soluços.
A noite caiu na selva que se encheu dos sons que indicam a vida e a morte. N’gani não sabe dizer se dormiu ou não, pois o medo da selva noturna já seria grande sem a ameaça constante que a presença daqueles homens causavam. Mal o dia chegou e já estavam novamente andando. O jovem mandinka estava faminto, cansado e assustado, sentindo falhar as forças até mesmo para chorar.
Já não sabia o quanto tinham andado quando algo chamou sua atenção, um som a princípio baixo, longe, mas que foi crescendo; um som que em pouco tempo parecia sobrepor-se aos ruídos mais comuns da floresta; um som que encheu a ele e às outras crianças de esperança; um som que era mais do que apenas música, era uma mensagem que os brancos desconheciam; era o som de tambores...
O som durou toda a manhã, deixando os brancos irritados. Se soubessem o que diziam os tambores, eles não teriam ficado apenas furiosos, mas sim apavorados: O Espírito que Anda estava vindo!
Com um grito, o homem branco que o chicoteara mandou que todos parassem. Uma coisa qualquer foi servida a eles para que comessem e N’Gani teve certeza de que aquilo não devia ser comida de gente. Os tambores continuavam, deixando ainda mais irritados os demônios brancos. Pela expressão em seus rostos dava para notar que eles não entendiam porque as crianças estavam tão calmas, algumas até sorriam. Se conhecessem a selva como N’Gani conhecia, teriam percebido a montanha logo adiante que era conhecida como “Pico Cabeça do Fantasma”.
De repente, os tambores deram lugar a um som pouco comum na selva: o silêncio.
N’Gani nem viu direito como aconteceu. Num segundo, um dos homens que os guardavam estava parado há uns quinze passos de distância próximo a uma moita, foi só N’Gani piscar e o sujeito havia sumido! O menino mal podia acreditar naquilo. Pra onde ele havia ido?
Olhando ao redor, o jovem mandinka percebeu que faltavam mais homens, ele achou que pelo menos seis haviam desaparecido, e então os que restaram começaram a gritar os nomes uns dos outros, nervosos, assustados e assim ficavam mais perigosos.
Um dos homens, aquele mesmo que bloqueava seu caminho quando fora capturado, parou bem perto de N’Gani e gritou numa língua nativa que o menino compreendeu “Quem é que está fazendo isso?” e a resposta veio num som grave que fez gelar o sangue de N’Gani e empalidecer o estranho:
“Sou eu!”
O som seguinte foi o de um poderoso soco que derrubou o gigante branco tão perto que N’Gani pôde ver a marca da caveira em seu rosto, marca que nunca sairia. E ali, de pé, tão perto de N’Gani que ele quase podia ouvir seu coração, estava o imenso protetor da Floresta Negra, aquele que era conhecido por muitos nomes, O Espírito que Anda, O Fantasma!
Armas foram sacadas por todos os lados, mas os únicos disparos ouvidos foram os que saíram das mãos do Espírito que Anda, desarmando os demônios que, após o susto atacaram valendo-se dos punhos e da força do número. Foi nesse momento que N’Gani finalmente percebeu que eles não passavam de homens e homens nada podem contra as lendas.
O primeiro preparou um soco e ainda tinha a mão fechada quando tombou inconsciente; outro vinha correndo e foi suspenso no ar como se decolasse, sendo lançado para o ar e caindo de costas; um deles conseguiu agarrar o Fantasma abaixo do peito enquanto os outros o cercavam, neste momento N’Gani teve medo de que os homens superassem a lenda. Mas o Espírito que Anda agarrou dois homens com as mãos e chocou suas cabeças uma contra a outra, em seguida desferiu poderosa cotovelada naquele que o agarrava.
Era um só movimento fantástico, medonho, impossível de ser totalmente acompanhado, mas ao final restava apenas aquele gigante de pé, a vestimenta roxa, os olhos invisíveis por trás da máscara. Sem perder tempo, ele os amarrou um a um, com as cordas que os próprios traziam.
Então o gigante que era conhecido por tantos nomes voltou-se para as crianças e sua expressão era a de um pai que sentia em si a dor de seus filhos. Desamarrou a todos e cuidou de cada um; as crianças choravam em seus braços e quando N’Gani olhou bem, viu o que parecia ser uma lágrima rolando na face do Homem que não podia morrer. “Então as lendas também choram”, ele pensou.
N’Gani gostava de lembrar desse dia. Gostava de contar como ele e as crianças foram devolvidas a suas aldeias por bravos guerreiros de inúmeras nações. Gostava até de lembrar-se dos demônios sendo levados para longe, para onde ele nunca quis realmente saber. Ele nunca se tornaria o guerreiro que sonhara; ao invés disso chegara ao lugar mais importante de seu povo: ele era um griot, um jali, aquele que guarda a memória de seu povo em histórias e canções.
E N’Gani conhecia muitas histórias; vivera muitas histórias. Hoje, com seus cabelos brancos e apoiado em seu bordão, era ele quem encantava as festividades com as mais incríveis histórias que meninos e adultos viviam a pedir. Mas as suas aventuras favoritas, as que contava com maior vivacidade, eram as que falavam de seus encontros com o Espírito que Anda. Uma vez até recebera a marca da proteção por salvar a vida do Fantasma.
Mas isso é uma outra história...
[1] Do iorubá: “Espírito que anda, vem até nós!”
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