Demônios: Pacto de Sentimentos

1 No beco, no apartamento pequeno


Era um dia normal na minha vida. Certo, muitas histórias começam assim.

Um dia eu não sabia da existência de demônios e nem do inferno, e no outro encontrei dois em um beco, envolvidos em um embate, com alguém saindo perdendo. Foi assim que conheci Mateo.

Ainda não há um consenso científico sobre quantas emoções humanas existem. Aparentemente, existem as emoções básicas: alegria, tristeza, raiva, medo, surpresa e nojo. Além dessas, atualmente existem algumas pesquisas sobre os 27 sentimentos humanos, mas algumas teorias afirmam que são apenas variações das básicas. Esses sentimentos incluem amor, empatia, ansiedade, culpa, vergonha, inveja, esperança, desesperança, desejo, frustração, orgulho, satisfação, euforia, solidão, tédio, nostalgia, melancolia, ceticismo, admiração, desprezo e calma.

Naquele dia, eu estava experimentando um misto das piores emoções que um humano poderia ter. Considerava estar muito mal, embora tivesse sido ensinada a nunca achar que estava ruim o bastante, pois tudo poderia piorar. E bem, piorou.

Começou com uma caminhada inocente pela cidade. Ruas vazias, postes ainda ligados, neblina noturna e chão levemente molhado. Aliás, é uma péssima ideia levantar-se antes do sol nascer para caminhar, pois há mais chances de encontrar criaturas sobrenaturais, estupradores e assaltantes (surpresa: nessa noite encontrei duas dessas categorias). Não estava preocupada, o capuz do moletom me protegia contra possiveis olhares e os fones do barulho do mundo. Nas noites em que eu não conseguia dormir, minha ansiedade por fazer algo útil gritava alto, e eu não podia esperar o horário normal em que as pessoas saem de casa tranquilamente. Dormir se mostra uma tarefa cada vez mais difícil com o acumulo de preocupação.

Resumindo, fui pega de surpresa enquanto passava perto de um prédio antigo de tijolos, em um beco qualquer com um container fedido. Um homem me apontou uma faca e exigiu, não muito amigavelmente, meu celular com a tela trincada, o fone de ouvido e meu smartwatch falsificado.

O ladrão de bugigangas, com um moletom parecido com o meu, me empurrou contra a parede. Cai, deixando meu corpo escorregar até me encostar no container. Cheiro de lixo invadiu meu nariz e fechei os olhos com força, torcendo para que o dia que mal começou acabasse. Pensei em ficar ali mesmo por um tempo, quem sabe alguém aparecia, me estendia a mão e me levasse até a delegacia. Foi quando a temperatura do beco pareceu mudar abruptamente, um vento forte chicoteou meu rosto e eu protegi meus olhos contra uma luz que surgiu. E então, dois estranhos se materializaram na minha frente.

Raios irrompiam pelo céu ainda escuro. Senti medo, mais do que senti do assaltante. Um dos homens estava envolto em sombras e sua presença parecia ocupar cada espaço do beco, tornando minha existência minúscula e insignificante. Eu não conseguia respirar e pensei que talvez tivesse batido a cabeça. Traumas podem causar colapsos.

— Você não tem esse direito — Mateo, que na época eu não conhecia, era alto e, apesar de magro, tinha um corpo bem definido, mas seu irmão era como um muro naquele momento. Ambos estavam com os cabelos esvoaçados e despenteados. Mateo se vestia com uma calça de alfaiataria preta e uma camisa da mesma cor, o outro cobria o corpo enorme com um casaco bege.

— Quem não tem mais direito é você, Mateo — vociferou. — Desrespeitou regras que estão acima de qualquer pessoa. Ou aceita o acordo que vou te propor ou te entregarei ao conselho, e você será banido eternamente.

O beco ficou silencioso. Respirei com cautela, sem saber se tinham notado minha presença. Provavelmente não, já que aquilo era um sonho e logo eu acordaria.

— Você sabe que estou sendo bonzinho com você — continuou o homem, segurando o mais magro pelo colarinho da camisa. — Nosso pai teria arrancado seu coração no primeiro passeio em áreas humanas.

O outro gargalhou, como se tudo fosse uma grande piada. A última coisa que eu faria seria rir numa situação como essa, mas também arrisquei minha vida vagando sozinha...

— Já que você gosta tanto da companhia de humanos, está banido da nossa casa e de suas responsabilidades. Só poderá voltar quando sentir 13 sentimentos humanos, vivendo como um deles.

— Você não pode fazer isso.

— Posso, e você sabe disso.

E então, mais um raio cruzou o céu e o homem desapareceu, deixando-me apenas com o outro estranho, Mateo.

Aquele amanhecer no beco me fez questionar se eu estava alimentando minha mente com alucinações quando resolvi falar. No entanto, eu sabia que, independentemente do que estivesse acontecendo, não faria diferença na minha vida. Eu estava desempregada, usando os últimos meses do meu seguro-desemprego para pagar o aluguel do meu futuro ex-apartamento minúsculo. Minha mãe já estava planejando meu almoço de boas-vindas. Ah, ainda fui assaltada.

— Parece que alguém se deu mal — minha voz ecoou pelo beco. Tinha chances que eu me desse mal, bem mais mal que ele. Alguns raios de sol ousaram penetrar o local. Minha mente estava confusa.

Mateo apenas me olhou com desprezo, como se eu fosse um ratinho. Jogada no chão, eu realmente parecia um.

— Ele se considera tão correto e fez seu show na frente de uma humana. — Mateo se aproximou, me analisando. — Eu deveria apagar suas memórias, mas não me importo com essas malditas regras.

Levantei-me e fiquei de frente para ele. Era bem mais alto do que eu. Observei seu rosto: olhos verdes e uma aparência que parecia ter sido esculpida pelos deuses. Se não fossem as poucas pintas pretas espalhadas, poderia ser um rosto de mármore. Senti-me nua sob seu olhar analítico, com meu rosto imperfeito, marcado por espinhas, pintas, sardas, poros e cravos. Caso não estivesse desempregada, eu já teria ligado para minha amiga para marcar uma limpeza de pele.

— Você é humana — ele disse, pensativo.

— Obrigada por perceber.

— Por que você estava jogada no chão? — Ele deu mais um passo em minha direção. Senti um desconforto que um rato sentiria ao ser encurralado por um gato. Era um medo humano que eu sentiria estando sozinha com qualquer homem em um beco, mas também era um medo do sobrenatural. Intenso.

— Fui assaltada e empurrada. Depois, loucos chegaram gritando. Paz? Não tenho desde que acordei.

— Sabe quem eu sou? Aposto que você vai cair no chão de novo quando descobrir. — Ele perguntou, com um sorriso divertido. Está aí uma pessoa que sabe aproveitar até os momentos ruins. — Um demônio. Acabei de ser banido pelo meu irmão mais velho, e não posso voltar até que possa experimentar 13 sentimentos humanos. Vou precisar da sua ajuda.

Meu corpo se arrepiou. Não respondi. Seu rosto perdeu o brilho, como se estivesse decepcionado com o fato de a frase anterior não ter tanto efeito em mim.

— Claro, sr. Demônio — ironizei.

— Para você, é só Mateo, lindinha.

— Como posso confiar em você? — falei, revirando os olhos. — Ajudar em troca de quê?

— Quer mesmo fazer uma troca de favores com um demônio? Isso soa como venda da alma.

Não sabia se ele estava falando sério ou apenas brincando. Fiquei preocupada, mas ao mesmo tempo não. Minha alma não valia muito, e eu estava levando a sério uma conversa com um possível demônio. Nem minha sanidade valia muito nesse momento.

— Estou apenas brincando, não me olhe assim — disse ele. — Podemos negociar.

— O que você pode me oferecer além de sofrimento eterno?

— Dinheiro? Fama? Um desejo maligno do seu lindo coraçãozinho? — sugeriu.

Ponderei bem. O que eu mais precisava no momento? Dinheiro era uma opção, com certeza. Fama não. Mas e se...

— Não posso trazer alguém de volta dos mortos — interrompeu Mateo, como se tivesse lido meus pensamentos. — Nem fazer alguém te amar. Precisamos respeitar a morte e o livre-arbítrio.

Nesse caso, eu precisava pensar melhor. Assim poderia escolher a opção certa.

— Você realizará um desejo meu se conseguir retornar para o inferno. Qualquer desejo que não esteja relacionado às coisas que mencionou.

Ele pareceu ponderar a ideia. Não sabia como estava fazendo um pacto com um demônio tão tranquilamente.

— Vou precisar do seu sangue.

— O quê? — falei, dando um pulo.

— Estou apenas brincando, lindinha — ele piscou, estendeu a mão e eu a apertei. Senti um calor subir por minhas mãos e um brilho fraco nascer das nossas palmas unidas. Cheguei à conclusão que fazer pactos eram bem mais suave que nos filmes de terro. — Me passe o seu endereço, temos muito trabalho pela frente.

Falei, mesmo sabendo que não era uma boa ideia. Então, fomos engolidos por sombras, era como se todo a luz do mundo tivesse se desligado, não existia nada e ninguém. Meu corpo vazio e leve no nada. Quando abri os olhos, estava no meu apartamento.

Eu sabia que tinha alguém me observando, era aquela sensação que ficava lá no fundo do meu inconsciente, mas não me incomodava o suficiente para me acordar. O que realmente me despertou foi a respiração impaciente. Abri os olhos e deparei-me com o olhar de Mateo. Minha primeira vontade foi sair correndo, mas logo foi substituída pelo desejo de dar um soco naquele rosto bonito.

— Então, humana, quais são os planos para hoje? Dormir não vai fazer com que eu vá embora.

Continuei encarando Mateo enquanto limpava um pouco de baba seca do meu rosto. Pelo menos a touca de cetim estava em minha cabeça, mantendo meus cabelos escondidos. Aquilo era humilhante até mesmo para mim.

— Ok, lindinho — comecei, com a voz meio rouca — se vamos manter nosso... acordo, precisamos estabelecer limites: 1) Não entre no meu quarto sem ser chamado. 2) Não fique me encarando enquanto eu durmo, isso é coisa de psicopata, e nosso acordo não me envolve te proteger caso alguém intérprete suas intenções de forma errada.

Terminei de falar sem fôlego, mas seu rosto permaneceu impassível: olhos verdes, sobrancelhas cheias com uma levemente arqueada, cabelos escuros e lisos caindo na testa, queixo marcado. Minha missão seria muito mais difícil do que eu pensava. Desconfiada, levantei-me.

— O que faremos hoje? — perguntou ele, impaciente.

— Bem, vou ao banheiro e depois preparo o café da manhã. Podemos traçar um plano enquanto comemos. Pare de me seguir.

Entrei no banheiro e bati a porta.

— Isso não deve ser difícil, vocês não sentem coisas lá no... inferno? Vocês não ficam felizes em roubar almas ou ouvir gritos dos condenados e coisas do tipo?

— Sim, mas a maldição se refere a sentir sentimentos humanos e, como humanos — ele enfatizou a palavra "humanos".

— Ok. E o que te fazia feliz no inferno?

Ele deu um gole no meu café e fez uma careta, mas parecia ter gostado especialmente do pão de queijo e do bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

Tínhamos um estranho em casa e esse estranho era um demônio, literalmente um demônio, mas uma visita é uma visita, e minha mãe me ensinou a tratar bem as visitas.

— Não era muito sobre ser feliz. Eu seguia as regras do meu irmão e do meu pai, ajudava a governar nossas terras, supervisionava e garantia a execução das tarefas atribuídas a outros demônios. Até que Henry roubou essas tarefas e, quando não queria fazer nada disso, ele fugia para o mundo humano e experimentava algumas coisas. Henry era quem fazia as tarefas mais interessantes. Fui banido por isso, aliás.

— Henry é seu irmão?

— Adotivo.

— O quê? Demônios têm um sistema de adoção? — Perguntei com genuína curiosidade.

— É apenas uma brincadeira.

Ele falou com desprezo, como se fosse apenas mais um dia normal em sua vida. Ele tinha sido banido por seu irmão mais velho por não cumprir suas responsabilidades no... inferno (isso sempre soa estranho), e vinha para o mundo humano se divertir. Certo, tínhamos um rebelde aqui.

— O que costumava fazer quando vinha para cá? — perguntei, observando o demônio comer seu terceiro pedaço de bolo.

— Há alguns bares e festas que apenas os demônios frequentam — respondeu ele.

— Por favor, me diga onde eles ficam para que eu nunca vá — soltei.

— Você só os encontraria se tivesse a intenção de ir. Alguns humanos acabam descobrindo, mas a maioria não sai de casa com o propósito de ir a uma festa com demônios — ele sorriu maliciosamente. — Você não faz ideia do que está perdendo, aliás.

Imaginei as piores formas de profanação possíveis, mas talvez minha imaginação ainda fosse insuficiente.

— Então você gosta de bares e festas? — perguntei. — Ótimo, hoje à noite iremos a uma balada. Você vai beber, ficar feliz. Se beber o suficiente, talvez até fique irritado e triste na mesma noite, caso tenha uma ex-namorada-demônio para assombrar suas memórias.

— Suas experiências não são compatíveis com as minhas. Primeiro, ninguém jamais quebraria meu coração a ponto de assombrar minhas memórias.

— Por que não tem um coração? Ou por que ninguém namoraria com você?

— Quem sabe? — ele sorriu, com migalhas de bolo na boca. Era um demônio engraçadinho, afinal.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.