Demônios

8 Capítulo 8: Um primo, um castiçal e correntes


Notas iniciais
Olá!!!! Gostaria de agradecer a BrunaO pela recomendação! Cada vez fico mais contente pelas recomendações, isso apenas motiva-me a tentar sempre estar avançando, escrevendo capítulos melhores. Ah! Gostaria de agradecer mais uma vez a todos os reviews, não pude respondê-los hoje pois fui a casa de um grande amigo meu junto de outros colegas e acabei tomando um bom tempo por lá, mas amanhã a tarde já os respondo e os deste capítulo também.
Good read.

Abrindo a grande porta da casa a sua frente com um pouco de força, Sakura adentrou a residência. Algo a chamava para aquela casa em si e, havia desviado-se do caminho que supunha levar a real casa dele. Aquela casa detinha uma penumbra maior que as demais, um aroma emadeirado mais marcante, e as sombras naquele lugar tornavam-se mais presentes. Era a construção de maior altura, cujas janelas centrais ultrapassavam os telhados das outras. O Alto... Ele subira com facilidade todos aqueles andares que levavam ao seu quarto. Quando o vira pela primeira vez, ele parecia ter surgido do próprio céu ou, da própria calçada. Não ouvira som algum de portas sendo abertas ou portões antigos sendo arrastados.

Os saltos finos da Haruno faziam um grande ruído por entre o cômodo que, ao seu ver, deveria ser uma sala de entrada. Cerrando levemente os punhos, Sakura tentava mover-se naquela escuridão. Tinha certeza. Ele deveria estar ali. Mesmo sob as sombras, ela podia avistar as formas dos móveis de alto escalão que ocupavam o recinto. Um grande sofá com traços antigos, inúmeros quadros cujas arestas em um brilho estranhamente dourado era tudo que poderia avistar vindo deles, sinais da presença de um extenso tapete em que a textura assemelhava-se a veludo e, próximo da única janela que conseguia ver, uma baixa estante em madeira.

Não conseguia assimilar corretamente o que ele pretendia atraindo-a para seus domínios, porém, o timbre das palavras dele codificavam exatamente isto: ele não repelia sua vinda. Talvez, fosse aquela a verdadeira intenção dele: trazê-la até aquele lugar que ele deveria chamar de lar. Tocando com os dedos gélidos, pelo frio que enfrentara no trajeto, Sakura avaliava alguns porta-retratos em moldura de prata, que repousavam empoeirados naquela estante aparentemente esquecida.

A fotografia parecia um enigma. Não conseguia vê-la de modo algum sem um pouco de luminosidade. Suspirando, a Haruno sentiu os braços tremerem, traindo-a. Toda aquela escuridão era como os olhos ônix sempre inexpressivos dele, perguntava-se como ele poderia viver em um ambiente tão fúnebre. Aquela casa exalava um aroma mortal, sangue. Então aquele era o mundo dele? Um mundo imerso no escuro e na morte? Lembrou-se de tudo que lera nos relatórios a respeito da criatura amaldiçoada que o habitava. Aquela maldição... Certamente, o atentado que todos na cidade se referiam e que constava nos relatórios, tinha uma linha direta com aquela maldição pregada nele.

Por breves instantes, Sakura perdeu-se em seus pensamentos. Não sabia se estava na casa correta. Poderia ter invadido a casa errada e, estar relacionando à ele os objetos errados. Entretanto, nenhuma das demais casas tinham um ponto de luz sequer aceso. Já se passava das dez da noite... Como ele conseguiria guiar-se sem um fio de luz? Ele deslocava-se nas sombras, apesar de deter um fraco brilho no olhar, era como se ele tivesse junto àquela pele alva seu próprio fardo, um terror que não assustava-a, mas, chegava a preocupá-la. Sua tarefa era matá-lo, ganhar a confiança dele por sua segurança e matá-lo. Mas, algo a atraía naquele mundo obscuro dele. Um mundo que, de alguma maneira, ele queria que ela conhecesse.

A passos lentos e totalmente silenciosos, Sasuke descia a grande escadaria em mármore que dava a sala principal. Ela estava lá, perdida, observando os porta-retratos sepultados há mais de doze anos naquela estante. Porque ela ainda não havia tentado fugir? Porque não havia gritado ou se apavorado? Ela dava-se bem com a escuridão? Não, todo deslocar dela fora feito com desequilíbrio e por puro instinto. Mas, ela não tinha desistido. Não tinha ido embora.

Aproximando-se, Sasuke analisava cada gesto de Sakura. Ela estava tentando de todas as formas possíveis ver a fotografia. O sangue fervia nas veias do Uchiha, à medida que dava mais uma passada em direção a Haruno. O que ela acharia? Ainda continuaria a agir normalmente após vê-lo? Nervoso, Sasuke finalizou seu último passo.

_ Vire-se. – ordenou o Uchiha, em um sussurro próximo ao ouvido da rosada.

Surpreendendo-se, Sakura se virou imediatamente, levando uma das mãos os lábios para abafar um grito. Assustada, ela tentava crer no que via. Olhos vermelhos... Vermelhos como sangue... O espírito amaldiçoado. Ela estava mesmo diante dele? Agarrando os dedos em um castiçal pesado atrás de si, Sakura tentava manter-se aparentemente calma. No entanto, seus olhos esmeralda arregalados e a respiração alterada a condenavam.

Sasuke aproximou-se mais, conseguia ver o medo estampado na face dela. Ela estava com medo dele? Uma dor profunda o atingiu, assim como a fúria sem coordenadas que há muito não surgia nele. Avistando os dedos dela pressionados contra o castiçal, o Uchiha rangeu os dentes, em cólera. Ela pretendia acertá-lo com aquilo?

Possesso, Sasuke pegou com violência o castiçal das mãos de Sakura. Apavorada, a Haruno correu em direção a porta.

_ Você não vai a lugar algum!!! – esbravejou Sasuke, jogando o castiçal com brutalidade contra a janela ao lado da estante, cujos vidros antigos partiram-se em um ruído terrível.

Forçando a maçaneta, Sakura pensou em gritar, no entanto, aquele era o bairro mais afastado de Konoha, e possuía apenas um morador. Ninguém a ouviria. Em pânico, era como se aquela alternativa fosse também inútil, suas cordas vocais pareciam estar travadas. Tentou forçar a porta mais uma vez, mas sentiu o braço ser puxado com força pelo Uchiha, que jogou-a no chão.

_ Você não vai fugir de mim... – decretou Sasuke, furioso pelas ações da rosada, caída ao chão, a olhar-lhe com as esmeraldas aterrorizadas. _ Você não vai sair daqui... Eu não vou permitir que fuja de mim!!!

Os olhos dele demonstravam uma cólera sub-humana, uma raiva incontrolável. Encurralada, Sakura o olhava assustada. No entanto, ela deveria saber... Deveria saber que estava lidando com um demônio e não com um homem qualquer, este havia sido seu maior erro: ter acreditado que ele poderia ser diferente dos demônios já mortos que ameaçaram o Oriente.

_ E então? Gostou? Essa é a minha casa! Seja bem-vinda senhorita Haruno!! – ironizou Sasuke, erguendo os braços. _ Não insistiu em vê-la?! Pois essa é a minha casa!!! Espero que saiba se virar no escuro... Nenhum lustre é aceso aqui. Normas da casa.

_ Sasuke... Sasuke você não está bem! – se manifestou Sakura, julgando os atos do moreno como loucos.

Erguendo-a pelo braço novamente, Sasuke a aproximou de si, enraivecido.

_ Você quem invadiu meus domínios!!!! Portanto, não está no direito de fugir!!! – exclamou o Uchiha, sacudindo-a.

Sakura encarava assustada os olhos ônix furiosos tão próximos dos seus. Eles continham chamas de cólera, porém, um certo pesar, resquícios de medo e dor também estavam presentes. Ele estava com medo? Temia que ela fugisse dele? Porquê? Ele era sozinho, havia perdido violentamente toda a família. E havia encontrado no modo autoritário de ser, na própria violência imposta aos seus olhos naquele atentado, o único caminho a seguir. A única forma de demonstrar o que queria e o que o atormentava.

_ Eu não vou fugir... – garantiu Sakura, com a voz baixa, ainda imersa no susto. _ Sasuke, me solta. Eu não vou fugir de você...

Os raios sonoros no céu pareciam se cessar, com o passar dos segundos.

XXX

Colocando sua camisola em seda azul, Hinata olhava-se no espelho. O cabelo ainda estava desorganizado devido às várias estrelas feitas, as correrias naquela casa tão simpaticamente desordenada e a volta apressada ao hotel em meio a todo aquele enorme e longo matagal, que separava a isolada residência amarela do loiro do último bairro de Konoha.

Pegando a pelúcia feita de tecido que havia ganhado dele, a Hyuuga sentou-se na cama. Havia perdido o dia de trabalho, cinco chamadas do primo constavam no comunicador e tinha comido mais doce que Ino nos finais de semana. Tudo havia virado do avesso! Mas, ela não se importava em estar de cabeça para baixo. Havia sido um dia bastante divertido, tinha de admitir. Há muitos anos não fazia tantas coisas como as que havia feito. Estrelas, jogar ludo, comer bolinhos industrializados, correr pela casa inteira em busca de um patinho de borracha escondido. Realmente, ele era uma criança gigante, mas, uma criança adorável, de espírito radiante e de bagagem extensa. Ele havia passado por muitos dilemas na vida.

Tinha perdido os pais de uma maneira trágica. Estava sozinho em um mundo conturbado, onde, ele certamente seria objeto de caça. Como, infelizmente, já estava sendo... Suspirando, mais uma vez Hinata esteve a repensar na missão lhe imposta. Ele não merecia. Não merecia aquele fim. Entretanto, sabia da importância de sua missão, havia uma criatura maligna e extremamente perigosa vivendo dentro da pele levemente bronzeada dele. Uma criatura que em minutos destruiria todo Oriente, matando milhares de pessoas inocentes.

Apertando o sapo de tecido por entre os dedos, Hinata lembrou-se da alegria de Naruto ocasionada por sua visita. A solidão dele lhe incomodava... Lhe comovia e a motivava a manter a meta de fazer todos os momentos com ele os mais vivos e agradáveis possíveis... O sorriso dele ocupava toda a casa quando ele se permitia abri-lo. Mas, não havia compreendido o porquê do interesse dele em saber quem havia ligado para ela.

Durante todo o caminho, estiveram a falar a respeito de Neji. Ele fizera tantas perguntas sobre seu primo que por pouco não ficou tonta de tamanhos os questionamentos. A Hyuuga não entendia os motivos que deixaram o loiro tão amargo até a metade do percurso, quando trancaram a casa, ele havia agradecido pelo gatinho de pelúcia que comprara para presenteá-lo de volta, mas, não tinha sorrido. E, daquele momento em diante, tudo girou em torno de Neji. Até que a metade do caminho se passou e, as perguntas dele também. Havia resumido toda sua infância ao lado do primo para o loiro.

Quando a deixou no hotel, notou que o espírito radiante dele voltara, mas, todas as perguntas dele ainda a intrigavam.

Deitando-se em sua cama, Hinata ligou a antiga tv de canais somente abertos. Sakura havia declarado guerra contra o aparelho, dizendo que qualquer programa nos sinais abertos eram horríveis. Puxando o edredom branco, a Hyuuga olhou para a cama arrumada da amiga. Onde ela estaria? Estava preocupada. Sakura não costumava sair a noite e, se ela tivesse resolvido instalar-se na casa de seu alvo como Ino, poderia ao menos ter avisado. Porém, sabia que a Haruno não possuía tamanha cara-de-pau para fazer uma coisa daquela.

Repentinamente, o comunicador da agência apitou, fazendo Hinata esticar-se até o criado-mudo entre as camas para pegá-lo.

_ Agente Hyuuga Hinata. – saudou Hinata, com seu tom baixo e delicado costumeiro.

_ Agente Hyuuga Neji. – comunicou o rapaz da outra linha, que tinha um tom grave e marcante de voz e, não aparentava estar contente.

_ Primo? Desculpe-me não ter atendido aos seus chamados mais cedo. – prontificou-se Hinata, já percebendo apenas pelo timbre de voz do primo que ele estava furioso.

_ Desculpe-me não ter atendido seus chamados mais cedo?! Hinata a obrigação de vocês é estar SEMPRE com esses comunicadores!!! Isso não é como um celular que você deixa em casa se quiser, é para não desgrudar deles!!! Digo vocês porque aquela avoada da Ino não apresentou relatório algum desde o início da missão e não responde a nenhum chamado!!! – exclamou Neji, perplexo com a falta de responsabilidade da prima e da loira.

_ Desculpe-me Neji! Eu acabei esquecendo o comunicador aqui no hotel onde estamos hospedadas e fui executar mais uma parte em prol da missão! Eu prometo que não acontecerá de novo! Eu sempre o levo comigo, hoje foi um ato em falho. – assentiu Hinata, olhando para o comunicador em sua mão.

_ Que isso não se repita novamente!! Só a Sakura tem enviado relatórios descritivos da missão agora! O que Ino e você tem feito que não enviaram nada?! – questionou Neji.

Ouvindo o sinal que lhe permitia responder, Hinata aproximou o comunicador dos lábios.

_ Eu achei melhor enviar um relatório só ao final de cada semana, porque não iria ficar desgastante e eu teria mais tempo para missão! – explicou-se a Hyuuga.

_ Okay, faça como quiser, mas responda a minha pergunta. Prima, o que você e aquela loira metida à capa de revista masculina tem feito nesse lugar isolado? – indagou o Hyuuga.

_ Eu arrumei um emprego em uma lanchonete no início da cidade para ficar mais próxima do meu alvo, já o que a Ino anda fazendo não sou eu quem tenho que responder primo, mas garanto que logo ela deve fazer contanto. – respondeu Hinata.

_ Tem razão, os assuntos dela ela quem vai ter que nos prestar contas. Acha que está progredindo na missão, Hinata? – perguntou Neji, em tom mais suave.

_ Acredito que sim primo... É... Vou ter que encerrar o contato, estou ouvindo ruídos, acho que alguém pode estar vindo. – finalizou Hinata, sentindo o peito doer.

_ Tudo bem, até o próximo contato, se cuida. – finalizou o Hyuuga, encerrando o chamado.

Jogando o comunicador na cama de Sakura, Hinata rodeou os braços por entre os joelhos. Alvo? Ouvir ela mesma referindo-se à ele de uma maneira agora tão profissional estava causando-lhe uma sensação ruim. Era como se a realidade batesse a porta e ela acordasse, constatando que não estava de férias naquele lugar e sim, a trabalho. Um trabalho de consequências irreparáveis. Apertando o sapo de tecido, a Hyuuga suspirou. Ela tinha que manter-se no chão, nem que fosse de uma maneira inconsciente, mas teria.

XXX

Acordando aos poucos, Ino sentia-se em um ambiente espaçoso. Sentindo uma leve brisa tocar-lhe a face e os ombros, ela abriu os olhos. Vendo a figura do ruivo ao seu lado, a olhá-la, a loira ergueu-se enérgica abraçando-o.

_ Gaara!! Gaara ainda bem que voltou!! – exclamou Ino, jogando o corpo contra o ruivo que, sentado na cama, apoiou-se na cabeceira para não cair.

Assustado, Gaara respirava com dificuldades. Não esperava um contato tão brusco como aquele, muito menos que ela aparentaria estar feliz em vê-lo. Era a primeira vez que se deparava com uma situação daquela, as pessoas pareciam estar felizes quando ele mantinha-se afastado e, diante de sua presença, a felicidade sempre falecia. Porque ela estava contente em vê-lo? Ela não estava brava por ele tê-la ferido?

Percebendo a nítida confusão nos olhos verdes opacos que olhavam-na espantados, Ino separou-se do ruivo. Ela era mesmo uma desastrada! Tinha assustado-o tocando-o com aquela brusquidão. Ele não estava acostumado com toques, abraços, sensações. A loira temia estar dando um nó em sua mente.

_ Desculpe... Me empolguei. – explicou-se Ino, sorrindo e ajeitando a ponta dos cabelos loiros, levemente embaraçados.

O semblante dele estava abatido. A loira havia pensado em questioná-lo sobre a onde ele teria ido, no entanto, muitas outras questões surgiram em série. Como ela havia chegado até o quarto? Lembrava-se de ter adormecido no sofá da sala, a esperá-lo com a velha lareira acesa. Ele tinha levado-a para o quarto? Baixando os olhos azuis, Ino notou grandes hematomas na pele muito alva do ruivo, exatamente onde os seus aos poucos estavam a desaparecer.

_ Gaara... O que foi isso? – interrogou Ino, dedilhando com cuidado um dos braços do ruivo, com calma, para não assustá-lo.

_ Não quero que fique brava comigo. – respondeu o ruivo, nervoso, a espera da reação dela.

Observando o movimento dos dedos dela sobre as marcas, Gaara sentia a respiração voltando ao normal, devagar. Como se ligasse os pontos, Ino olhou-o chocada. Paralisada, a loira não conseguia crer nas hipóteses que lhe vinham à cabeça. Ele tinha ferido a si mesmo por pensar que ela estaria brava devido aos hematomas provocados por ele no ocorrido há dias no banheiro?

Aflito com a demora de Ino em proferir algo, Gaara retirou o braço das mãos da loira. Encolhendo-se, o ruivo rodeou os braços envolta dos joelhos. As lembranças do instante em que voltara a si corroíam-lhe a mente. Ele era um ser detestável. Apenas conseguia machucar as pessoas, causar mal à elas. Olhando para os olhos azuis incrédulos ao seu lado, ele baixou a cabeça. Conhecia aquele olhar, ele havia feito alguma coisa muito errada.

Ino não sabia quais as palavras adequadas deveria pronunciar. Não sabia nem mesmo se deveria falar alguma coisa. Não acreditava no que ele havia feito, nunca alguém fora tão longe por ela. As pessoas não costumavam dar crédito algum a ela, afinal, se não fosse uma agente há tanto tempo, seria somente uma inútil de face bonita, como alguns na agência costumavam fofocar. Ele estava triste, aparentava estar fraco fisicamente e o olhar pela primeira vez, dolorosamente deprimido. Ele havia saciado a vontade do demônio com certeza, por todo aquele tempo fora, e deveria estar devastado.

Aproximando-se, Ino retirou de modo delicado os braços do ruivo de seus joelhos. Encaixando-se, a loira transpassou as pernas ao redor da cintura de Gaara, que não se opôs, somente acompanhou seus gestos com os olhos. Repousando lentamente a cabeça no peito dele, Ino tocou-lhe um dos ombros, sentindo a respiração acelerada do ruivo e os batimentos cardíacos nervosos dele, ainda acostumando-se com o contato.

_ Obrigada... – agradeceu Ino, em tom cálido e suave.

O ruivo não compreendia o porquê do agradecimento, todavia, não disse nada. Fechou os olhos e concentrou-se em senti-la, aquecendo seu corpo frio e acalmando-o. Ele havia feito algo muito errado para ela olhá-lo daquela maneira e ela lhe agradecia? Não entendia, mas, não sentia-se bem. Era como se precisasse daqueles toques, era como se mais uma vez, precisasse dela para fazer a dor passar.

_ Abrace também... – disse Ino, acariciando com cuidado os hematomas no braço esquerdo do ruivo.

Desta vez, ela não precisou ajudá-lo. Trêmulo, Gaara repetiu o que ela havia lhe ensinado, passando os braços ao envolta da fina cintura de Ino.

_ Como ele aprende rápido... – brincou Ino, sorrindo travessa.

Gaara apertou levemente as mãos envolta da cintura da loira, ele estava fazendo corretamente. Olhando-a ainda manter o sorriso, o ruivo sentia uma pontada de satisfação, ele havia conseguido. Tinha aprendido a abraçá-la como aparentemente se deveria abraçar alguém.

_ Não precisava ter me carregado até aqui, o sofá estava de bom tamanho. – manifestou-se Ino, impressionada em como o coração dele era vívido e batia como tal. Era como se demônio nenhum o habitasse.

_ Você não parecia estar em mundos agradáveis dormindo nele. – opinou Gaara, com o tom de voz um pouco mais rouco que de costume.

Mundos agradáveis? A loira olhou-o em interrogação. Seriam os sonhos? Curiosa, Ino ergueu a cabeça.

_ Você habita esses mundos agradáveis quando dorme? – perguntou a loira, encarando os olhos verdes um pouco acima de si, que como notado por ela, ficaram ainda mais opacos e carregados de dor.

_ Eu já lhe disse que não durmo. As poucas vezes que isso me ocorreu não habitei mundos agradáveis, as correntes não deixavam. – respondeu Gaara, sincero, ansioso pela resposta que viria. Ela não o abraçaria de novo agora que sabia que ele não era como ela? Que ele nunca havia estado nos mundos agradáveis assim como ela?

Ino deixou o rosto se empalidecer. Correntes? O mantinham acorrentado?!

XXX

Observando o sol nascer pela janela de parapeito alto e vidros em tom curiosamente violeta, Sakura desviou mais uma vez os olhos para o Uchiha adormecido ao seu lado, que não soltara sua mão durante toda à noite. Ele estava nervoso, inseguro e temia que ela não quisesse nunca mais vê-lo se soubesse o que ele trazia dentro de si. Porém, ela já sabia, já tinha consciência do espírito amaldiçoado que vivia nele. No entanto, ele não sabia disso, e era estreitamente fundamental para sua missão que ele continuasse a não fazer ideia de quem ela era e qual fora o real motivo que a levara a se aproximar dele.

Jamais havia sentido tamanho pavor antes em sua vida, ele estava possesso em cólera e ela sem saída daquela casa. Não havia trago seu revólver consigo, muito menos o comunicador para pedir por socorro a Hinata, já que Ino estava a mais de uma milha de distância da cidade. Poderia muito bem ouvir a voz de Neji em sua cabeça, chamando-lhe atenção por estar se comportando feito à amiga loira, que nunca dera satisfações a ninguém na agência a não ser diretamente com Tsunade.

Ajeitando os travesseiros atrás de si, Sakura tentava encontrar uma maneira de sentar-se mais confortavelmente naquela cama. Esticando as pernas, a rosada fez uma careta de dor. Havia passado toda a madrugada ali, sentada naquela cama mediana, conversando com Sasuke que, aparentemente ao declarar que não fugiria dele, tornou-se mais calmo e bem semelhante ao que havia demonstrado nos últimos dias. Os familiares dele haviam tentado fugir quando todo o atentado se iniciou e, ao que parecia, o Uchiha restante carregava aquele grande temor. Aquele não era seu quarto, pelo que ele brevemente havia mencionado, ele cômodo havia pertencido a seu irmão mais velho que, estampado nas fotografias em uma cômoda próxima ao armário em madeira trabalhada, era bem parecido com Sasuke. Em uma das fotos que eram analisadas a distância pela rosada, a presença de um dinossauro de pelúcia por entre os dedos de Sasuke lhe chamou atenção. Sorrindo levemente, Sakura divertia-se. Não poderia imaginar jamais um rapaz tão imperioso e autoritário, de porte forte e semblante impassível, com um dinossauro de pelúcia nas mãos.

Tudo que ele queria era ter a certeza que ela não o deixaria se soubesse da verdadeira cor de seus olhos e o que havia por trás daquela coloração. E ela havia garantido a ele que não o faria. “ Não por enquanto...” pensou Sakura, sentindo-se desconfortável pela primeira vez com relação ao destino de sua missão. Sempre fora altamente profissional, no entanto, era como se desta vez, ela de fato lamentasse o que teria de fazer quando tivesse mais tempo de convívio com ele. Ele sofria ao seu modo, sentia muita falta da família e culpava-se pela morte de cada integrante desta.

Tentava manter seus próprios muros para acreditar que era imbatível, para conseguir uma força que ele não meios para retirar. Fazia de elementos tão temidos por muitos, como o breu completo e a altura, seus aliados. Aliados para crer mais uma vez, que detinha um pouco de força para continuar trilhando um caminho incerto.

Acariciando os cabelos ébano de Sasuke, Sakura já sentia os efeitos da noite praticamente não dormida. Estava dolorida por inteiro, com fome e desejando inteiramente que ele despertasse e lhe desse passe livre para voltar ao hotel. Ela tinha prometido não fugir dele, e, se saísse sem a ciência dele, estaria confirmando que sua palavra não tinha valor algum, que ele não poderia confiar nela. Ela não fugiria dele, não iria fazê-lo passar por aquela que parecia a maior dor estagnada nele. Iria aguardá-lo acordar naturalmente e, ver com os próprios olhos, que ela ainda estava ali.

Os olhos dele... Durante toda aquela madrugada ele havia os mantido como vermelhos... Um vermelho de íris curiosa, com alguns traços em preto. Seriam as marcas ou selos representativos da maldição? Não fazia ideia, mas, sentiu que ele havia ficado levemente contente em constatar que ela não havia pedido para retornar aos olhos ônix. Ele apenas queria ser aceito, como já pensado pela Haruno, que tratava de cobri-lo com o cobertor azul anil ainda dobrado na ponta da cama.

XXX

Apreciando um copo de leite acompanhado por uma tigela de lamén industrializado, Naruto encontrava-se pensativo, sentado na pequena mesa de quatro cadeiras, onde ao que constava nos fleches de suas lembranças, sua mãe fazia questão que fizessem as refeições do dia.

Incomodado com o leite e o prato de lamén a sua frente, o loiro optou por despejar todo o líquido recém fervido na tigela, misturando-o ao lamén e, com um pacote de cereais à mão, fez o mesmo. Estava irritado. Nervoso. Tinha pressa em comer tudo aquilo. Uma pressa que ele aparentava não saber os motivos reais...

_ Neji... Que nome de almofadinha! – praguejava o loiro, despejando de modo inconsciente mais um pacote de cereais, que estava ao alcance de suas mãos na mesa.

Com raiva, seus pensamentos giravam em torno daquela ligação. Hinata havia lhe dito que o tal Hyuuga Neji era seu primo e, mesmo que detivessem o mesmo sobrenome e que ela tivesse lhe contado boa parte de como era o convívio com ele, era como se algo lhe alertasse. Algo que dizia que o tal Neji seria um mala, que conseguia toda a atenção de Hinata para si por serem da família.

No entanto, tudo que haviam feito na noite anterior, todos os doces sorrisos dela, eram como se lhe confirmassem que... Mais uma vez... Ele somente estava com medo da perda. Não queria que Hinata se fosse como seus pais, que deixaram apenas memórias. Mesmo que boas, elas não passavam de memórias, que não voltariam mais.

O gatinho presenteado por ela estava do outro lado da mesa, em uma das cadeiras, posto confortavelmente por ele, para que pudesse lembrar dos olhos perolados dela enquanto devorava qualquer coisa que ainda estivesse no prazo de validade. O lamén dela era o melhor. Todos os alimentos naquela casa pareciam não deter nenhum pouco de sabor semelhante.

Sentindo que o braço ainda movia-se freneticamente jogando cereal por toda mesa, Naruto bufou irritado.

_ Ótimo... Vou ter que limpar isso mais tarde. – lamentou-se o loiro, atirando a caixa vazia em um canto qualquer da pequena cozinha.

Mais tarde? Qualquer um que se preze limaria aquela bagunça imediatamente, no entanto, ele era Uzumaki Naruto. Não importava-se em ter uma tigela de mistura suspeita sobre sua mesa. Nem mesmo importaria-se com aquela mesa se, um dia, ela não tivesse sido de tamanha importância para sua mãe.

Desabando sobre uma das poltronas de tom nude, na sala, Naruto levou as mãos aos cabelos loiros. Ela ouvia-lhe, dava-lhe atenção e, principalmente, sorria de um modo sincero, real. Não importava se ela tinha um primo de cabelos compridos e lisos, como havia sido descrito por ela, que tinha uma dose de sua atenção. Ela era verdadeira com ele. Não lhe cobrava uma postura madura e mantinha contato com ele exatamente daquela maneira única que tinha de ser. Ela compartilhava de tudo que lhe agradava, sabia até dar perfeitas estrelas no chão! Não iria irritar-se por saber que ela tinha um primo. Ao menos, ela possuía uma família.

Erguendo-se do sofá em um rompante, o loiro recuperou o sorriso. Ela havia dito que voltaria a visitá-lo, que pretendia trazer um filme baseado em alguns contos de rock para assistirem assim que desculpasse-se com Ayame pela falta no trabalho e compensasse alguns dias. Ela voltaria! Aquilo lhe bastava.

XXX

Trazendo uma bandeja com duas tigelas de gelatina e alguns bolinhos de arroz, Ino encaminhava-se a sala. Ele precisava urgentemente se alimentar, havia vomitado outra vez e, como já era de se imaginar, a quantidade de sangue expelida foi grande. Ele tinha satisfeito a fome do demônio, no entanto, tinha condenado o frágil estômago mais uma vez. A loira havia permanecido todo o tempo a tentar acalmá-lo, deslizando as unhas esmaltadas em roxo vibrante sobre as costas alvas do ruivo, que permanecera mais de trinta minutos a passar mal naquele banheiro, cujo box ainda encontrava-se trincado por inteiro devido aos socos desferidos por ele no dia anterior. Com algum esforço, Ino havia convencido-o a permanecer deitado e aceitar o que ela lhe traria para comer. Ele estava relutante, uma aura levemente depressiva pairava sobre o ruivo, em função de, mais uma vez, o demônio tê-lo tomado o corpo e obrigado-o a machucar as pessoas.

Caminhando lentamente para não deixar a bandeja cair, Ino ainda sentia o ódio subir-lhe as veias. Havia descoberto que ele passava boa parte dos dias esquecido, acorrentado àquele quarto como um louco, como um doente contagioso. A loira desejava internamente que todos estivessem mortos ou, acabariam morrendo na base dos chutes, que ela faria questão de disparar se encontrasse-os. O ruivo encerrara o assunto assim que começara a sentir-se mal, não dizendo mais uma palavra sobre si ou sobre sua antiga família. Ela não persistira no assunto, apesar da curiosidade ainda aguçá-la. Sentia que ele não estava confortável em falar tanto, sempre optava por manter-se em silêncio, somente a observar.

Abaixando um pouco a bandeja para visualizar a escada, Ino notou que ele havia saído do quarto. Estava sentado ao chão da sala, atrás do sofá, aparentemente desenhando ou escrevendo algo em um papel. Desenhando? Ela não fazia ideia que apreciava desenhar ou escrever algo. Sorrindo, a loira deixou a bandeja próxima à lareira, aproximando silenciosa do ruivo, que prosseguia no que fazia calmamente, indicando os sinais de uma leve melhora momentânea.

Sentando-se atrás dele, a loira deslizou as mãos por entre o abdômen de Gaara, que tremeu de leve pelo contato inesperado.

_ Que desenho lindo... – elogiou Ino, colocando a cabeça acima do ombro do ruivo para analisar o que ele fazia.

Ele estava a desenhar o que aparentemente era uma paisagem. Porém, como notado pela loira, havia uma certa obscuridade no desenho. Ela estava impressionada, ele realmente sabia desenhar muito bem, no entanto, a paisagem retratada era acinzentada, mórbida.

_ Eu gosto destas coisas... – disse o ruivo, em tom baixo, referindo-se aos lápis de cor que estavam espalhados pelas tábuas de madeira do chão.

_ Lápis de cor? – questionou Ino, sorrindo. Ele era simples e, parecia ver o mundo de modo totalmente único.

_ Deve ser... – deu de ombros Gaara, concentrado no que fazia.

A loira apertava as mãos ao redor do abdômen trabalhado do ruivo, que suspirava levemente em função do toque. Ele era tão sensível aos seus toques, parecia querer interpretar todos eles, mesmo sem experiência alguma com toques. Ino mordeu o lábio inferior, outra vez, pensamentos pecaminosos vinham-lhe a mente. Gostaria de desviar as mãos em direção ao membro dele e pagar para ver qual seria sua reação, no entanto, sabia que estava ali em missão e que ele, há poucos minutos atrás, estava a vomitar sangue.

Notando o gesto da loira com os lábios, Gaara direcionou os olhos verdes até sua face. Ela estaria com fome? De novo? Não entendia como ela poderia ter tanta fome. Certamente ela havia devorado biscoitos na cozinha antes de chegar ali com aquela bandeja.

_ Está com fome? – questionou naturalmente o ruivo, voltando os olhos ao desenho.

_ Hã? – interrogou Ino, recebendo a frase com surpresa, fazendo as bochechas alvas tomarem cor rosada.

_ Está mordendo os lábios... Está com fome de novo? – explicitou Gaara, confuso pelas expressões faciais da loira.

Com um baixo suspiro de alívio, Ino apertou um pouco mais as mãos. Ele apenas havia interpretado-a da maneira que lhe parecia mais lógica. Era somente aquilo.

_ Não, já comi alguns biscoitos na cozinha. – assegurou Ino, sorrindo travessa em uma tentativa de fazê-lo sorrir também. Não havia visto o sorriso dele. Ele não sorria nunca? Carregava tantas marcas que não lembrava-se mais de sorrir?

Encostado os lábios levemente sobre o ombro coberto pela blusa branca que ele trajava, Ino prometeu a si mesma: iria fazê-lo sorrir.

Notas finais
Então gostaram? Um novo personagem surgiu na trama, o Neji, e em breve ele aparecerá muito mais, futuramente contribuindo para o surgimento de um novo casal. Quem aí curte Nejiten tanto quanto eu?? Kisses, Nita.