Delírio ou Lição?
1 Delírio...
“É querer demais?! Querer que a poesia ame todos é demais?!” – disse minha barriga, num tom indignado.
Eu vinha tendo muitas alucinações ultimamente, mas, ouvir minha barriga falar sobre a poesia “amar todos ou não” era o cúmulo! Eu precisava sair daquele poço urgentemente!
— Tem alguém aí? – gritei. Porque escalar as paredes velhas e absurdamente lisas e sujas pelo musgo não era uma boa opção. Acredite. Eu já havia tentado e minha camisa polo bege nunca esteve mais verde. – Alguém me tire daqui! – choraminguei. Mas isso também não adiantava.
E o tempo que não passava. E a ajuda que não vinha. E os musgos cada vez mais inconformados pelo fato de eu não querer mais tentar subir por eles.
— Não, por favor. Não me levem a mal. É claro que eu não tenho preconceito algum. Acontece que é inútil tentar. – eu tentava justificar-me com eles. – Aliás, vocês só querem zombar de mim, fazendo-me escorregar em todas as vezes! – eu disse finalmente, desabafando! O que eles estavam pensando, afinal?!
— Ei! – chamou alguém. Olhei imediatamente para cima, “Alguém” estava apoiado nas bordas da minha atual casa, mas o sol não me deixava distinguir o que, exatamente, era aquilo. – Com quem você está falando?
— Já faz cinco dias! – eu disse, num belo ritmo musical.
— O que?! Ora, deixe pra lá. Precisamos tirá-lo daí!
— Aqui não tem água não!
— Oh, que pena... Alguém me ajude aqui! – gritou. Mas... “Alguém” já não era ela?!
Um grupo de seres incompreensíveis, para mim, se juntou ao redor da boca do poço. Eu cheguei a pensar que quisessem ajudar, mas, em vez disso, jogaram-me uma cobra.
— Segure nisto.
— Querem me matar! – dei um grito esganado. – Tirem isso daqui!
— Amarre-se na corda, homem. – dessa vez, talvez, eu pude quase-reconhecer a voz, que tinha um som delicado e fino, parecendo feminina. E ora, se era uma mulher, eu podia confiar, certo?! Afinal, mulheres são gentis. Vai ver que a cobra era domesticada...
E era mesmo. Enrolei-a em mim e ela nem sequer ameaçou me morder ou me esmagar. Que ótimo! Eu iria dar os parabéns ao treinador dela, quando saísse dali.
— Quem foi que a treinou? – perguntei entusiasmado para o grupo de seres pretos, que contrastavam com o fundo ofuscantemente branco do local, que amontoou-se em minha volta quando finalmente fui puxado do buraco. Engraçado. Não me lembro de estar em um lugar tão claro antes de mergulhar no poço. – HÁ-HÁ-HÁ-HÁ-HÁ... – eu ri vivamente. Engraçado mesmo.
— Eu trouxe água. – disse algum deles, entregando-me um copo com líquido dentro. Apoiando minha cabeça e brigando com meus braços, que estavam cansados e insistiam em ficar inertes, bebi do líquido. Tão doce quanto sem gosto.
“O que você acha disso agora, barriga?! Será que é “poesia”?” – comuniquei-me com ela por meio do pensamento; nós tínhamos esse poder. – Oh, droga! Deveria haver um limite para até onde a loucura de uma pessoa pode ir.
O que aconteceu a seguir eu não lembro. Acho que pelo fato de ter dormido... Talvez eu não devesse... Nunca se sabe o que seres que, supostamente, te salvam, querem, de fato, não é?!
Mas, felizmente, quando acordei estava incrivelmente bem. A não ser pelo fato de estar me sentindo sujo como um porco. Jurei nunca mais sequer pensar em viajar pelo deserto sozinho e, menos ainda, dependurar-me sobre a borda de um poço fundo à procura de água. É preferível passar sede.
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