Delusion
1 ONE-SHOT - Alucinação
Notas iniciais
~ Watari ~
Eu estava correndo por todos os lados da Wammy’s House para, junto com o Roger e mais algumas pessoas da casa, preparar a festa de aniversário do Lawliet. Ele, desde cedo, não gosta de festas, mas mesmo assim nós estamos preparando uma, afinal, essa data não pode passar despercebida. O tema era Halloween, afinal, também era o dia das bruxas.
Estávamos tão preocupados em acabar de arrumar a festa que não notamos quando um ser de cabelos negros e bagunçados, olhos azuis, olheiras, bom, resumindo, o Lawliet saiu de casa e pegou ser carro, fugindo da festa.
~ Lawliet ~
Ótimo, consegui sair sem que ninguém me notasse, e isso é bom, afinal, eu realmente detesto festas. O Watari sabe disso muito bem, então não sei por que insiste em fazer uma.
Então peguei meu carro e sai rodando pela a cidade: não ia voltar pra lá até essa palhaçada acabar. Fiquei rodando por aí, vi muitos lugares que eu não conhecia, mas, de repente fiquei sem gasolina na frente de um posto de abastecimento.
Que ironia não? Pois é. A ironia maior é que estava de noite, e ele estava fechado. Então sai do carro e fiquei rondando por ai pra ver se achava alguém, ou algo, tudo que eu vi foi uma casa abandonada. Tinha três andares e um sótão no topo, as janelas estavam embaçadas, sujas, e pareciam estar travadas... Aquela casa parecia mais uma daquelas casas de filmes americanos de terror mau-feitos. Muito clichê. Então resolvi entrar. Afinal, não tinha dono, tinha? Não era invasão nem nada.
Eu andei até a entrada dela. A madeira era velha, o chão parecia oco quando eu pisava. Quando toquei a maçaneta, uma parte de mim gritava para que eu não entrasse, enquanto a outra parte me desafiava. Ora, vamos, eu sou o grande detetive L, não tenho medo de uma simples casa. Girei a maçaneta e entrei.
A sala de visita já devia ter sido acolhedora, algum dia. No momento, ela estava mais para assustadora. Estava escura, mas dava para ver algumas coisas com o reflexo da lua, que entrava pela janela. Olhei em volta e achei um abajur: acendi-o. Olhei para a sala e consegui ver melhor: dois sofás que, algum dia, foram brancos e uma poltrona da mesma cor. No meio, uma mesinha de madeira – mogno ou macieira – que já aparentava não ser tão nova. O tapete era verde claro desbotado, e parecia ter uma manchinha pequena e vermelha – tem 50% de chances de ser mancha de suco de morango.
Desviei minha atenção da sala e olhei para a mesa de jantar, que ficava no cômodo ao lado. Andei até lá, ouvindo os barulhos que a madeira oca do chão fazia. Era uma sala de jantar bonita – imaginei algumas pessoas sentadas em volta dela, rindo, conversando, servindo bebidas e comendo várias coisas. Aquele lugar, algum dia, tinha sido um local onde a família se reunia diariamente, onde contavam o que aconteciam com eles, sua rotina e tudo mais. No canto da sala, havia uma porta que devia dar para a cozinha.
Voltei para a sala de estar e vi dois lances de escada. Cheguei até o início dela e olhei para o lado – sala de estar. Tinha uma estante com alguns livros, um sofá azul-escuro desbotado, uma mesinha e uma televisão pequena e antiga. Entrei naquela sala e vi também uma pintura atrás da televisão. O que era estranho era o fato que não havia nenhuma foto da família, nem nada do tipo. Fico me perguntando: o que será que tinha acontecido de tão ruim para que abandonassem aquela casa? Sinceramente, eu não queria descobrir.
Voltei para a escada e a olhei. O que será que tinha no segundo andar? Bem, só subindo para ver, e foi isso que eu fiz. A cada degrau que eu subia, a madeira parecia gritar. Quando cheguei ao segundo andar, eu vi que era onde a família passava o tempo livre: uma pequena biblioteca com umas três estantes de livros, um quarto-ateliê, uma sala com brinquedos espalhados pelo chão e um baú fechado no canto, uma sala com três estantes de madeira penduradas paralelamente – deviam ter troféus ou miniaturas de carros antigamente – e uma sala vazia. Totalmente vazia, sem móveis, tapete ou nada... Exceto por uma cadeira posicionada no meio dela, de frente à porta. No fim do corredor daquele andar, havia uma câmera antiga.
Achei a escada que dava pro terceiro andar. Subi e aquele andar era o dos quartos. Haviam 5 quartos, cada um decorado de uma forma diferente. No quarto do casal, havia uma cama King size no meio dele, com um criado-mudo de cada lado. O quarto na frente desse tinha as paredes amarelas, estavam desbotadas, sem vida. Pelo estilo da cama, era o quarto de uma adolescente. O quarto ao lado tinha as paredes azuis: quarto de um menino. Ele devia ter entre 5 e 9 anos, a julgar por um carrinho que tinha no criado-mudo ao lado da cama.
Já o último quarto, ao lado desde, tinha as paredes rosa-bebê. E lá não tinha uma cama: tinha um berço. Entrei no quarto e percebi que haviam alguns starfix no teto. Imagino a felicidade que aquela família passou aqui. O que será que os fizeram sair daqui, abandonar a casa? Sinto calafrios ao pensar nisso. Encontro a última escada – que dá para o sótão – e a subo. Quando chego no local, vejo uma cama, um criado mudo, um guarda-roupa e uma estante com vários potes vazios. Haviam três janelas, e a maior delas ficava no meio. A luz da lua entrava por ela. Aquela cena me deixou triste, por um lado. Faltava algo.
Olhei para a cama e havia um álbum de fotos em cima dela. Andei até ela e me sentei da forma usual, colocando o álbum na minha frente. O abri e havia algumas fotos. A família. O mais estranho é que não dava para ver o rosto delas – todas as fotografias estavam desfocadas. Cansei-me da posição que estava e me sentei normalmente na cama. Passei as fotos, observando-as durante algum tempo. Recostei-me na cabeceira da cama e continuei folheando o álbum. Minhas pálpebras foram ficando pesadas, meus olhos ardiam, as vistas começavam a embaçar... Então dormi.
No meu sonho, eu estava numa floresta. No meio dela. Estava escuro. Provavelmente era noite. Eu ouvia vozes de criança rindo, falando “doces ou travessuras”, mas não as via. De repente, uma voz me chama atenção. Uma garota começava a falar aquela frase típica do halloween quando solta um grito. Eu me assusto e corro na direção, mas então ouço risadas da mesma criança. E mais risadas vão surgindo. Eu corro e as risadas começam a ficar ainda mais altas, machucando meus ouvidos. Um cheiro estranho está no ar: parecia uma mistura de sangue e enxofre. Quando me canso e paro, percebo que corri em círculos. Olho para traz e me assusto com o que vejo: fogo. Quando volto a olhar para frente, fogo novamente. Um barulho de passos começa a vir na minha direção. Forço os olhos e percebo que havia alguém atrás do fogo à minha frente. Forço minha visão e vejo... Cabelos negros, blusa branca, calças jeans e olheiras embaixo dos olhos... Vermelhos. A imagem sorri e, então, eu acordo.
Abro meus olhos num impulso. Minha respiração está ofegante. Eu me sento, assustado, e percebo que a sala não está mais da mesma forma. Está escura. Eu olho para a janela e ela não deixa mais a lua iluminar a sala. Olho pela janela e não vejo mais a lua.
– Mas o que... – Paro de falar quando escuto passos no andar de baixo.
Eu sinto um calafrio percorrer minha espinha. Quando dou um passo para ir até a escada, vejo que a porta estava aberta e havia marcas de pés no chão. Marcas vermelhas. Eu me abaixo e toco a marca – é recente. Sinto o cheiro de sangue no ar, mas não era apenas sangue.
– Espere um pouco... – Sussurrei, esfregando os dedos e sentindo a textura – Isso é sangue e... – Quando estou prestes a terminar a frase, uma risada me assusta. Eu conhecia aquela risada de cor. Não era possível.
Eu desço as escadas e vejo que as luzes estavam acesas, mas não iluminavam muito. Eu poderia falar que era meia luz. A primeira coisa que vejo é a câmera. Meu 6º sentido me dizia para não chegar perto de lá, que eu devia sair correndo para longe. Ando lentamente até ela. Me agacho perto dela, na distância de 20 centímetros. Chego perto dela com o rosto. Parecia ter algo na lente dela que... SNAP!
Eu caio no chão, assustado. Aquela câmera tirou uma foto sem que ninguém a acionasse? Deve estar com algum defeito. Balanço a cabeça e passo as mãos no rosto. Dou uma risada rápida – mais de nervoso do que de graça. Fecho os olhos, respiro fundo, conto até 10 e volto a abrir os olhos. Olho para o chão e vejo que a foto estava lá, só estava ficando mais nítida. Eu a peguei e fiquei olhando. Lá estava eu, com os olhos curiosos. O fundo, que era negro, começa a ficar mais nítido. Eu vejo algo que me assusta. Olhos vermelhos. Cabelos negros. Blusa branca com manchas vermelhas. Apenas metade de seu rosto. Um sorriso assustador. Era ele...
– Beyond Birthday. – Eu sussurrei.
Novamente a risada vem, mas estava muito mais intensa dessa vez. Quando ele volta a rir, a luz começa a falhar. Eu me apavoro e levanto rapidamente. Então, vermelho. A luz se torna vermelho, deixando tudo à minha volta da mesma cor. Eu olho à minha volta e percebo que os quartos também estão vermelhos. Corro até o primeiro que vejo – o do casal – e entro. A cena embrulha meu estômago.
Uma mulher no chão. Seus olhos ainda estavam abertos, da mesma forma que a sua boca estava. Parecia ser de afogado no próprio sangue. Mas o que mais me chocou foi o corpo dela. Estava aberto do pescoço ao ventre. Ela estava aberta, literalmente. Podia ver seus órgãos. Passos no corredor me acordam do transe que eu estava.
Eu saí pela porta e o próximo quarto era o da adolescente. Corro até ele. Quando entro, meu estômago piora. A garota devia ter entre 13 e 16 anos. Estava amarrada na parede. Suas mãos estavam amarradas para cima, penduradas em algo que eu não sabia distinguir o que era. Seus pés também estavam amarrados e não tocavam o chão. Seus cabelos eram ruivos e sua franja tinha corte reto, igual o resto do cabelo. Usava um vestido preto. Estava vendada e amordaçada. O pano que estava em sua boca estava com a cor vermelha predominando-o. Eu chego mais perto e percebo que havia furos em seu corpo todo. Faca. Ela havia levado facadas por todo o corpo. Olhando de perto, percebo que sua perna tinha sangue, que escorreu até o chão. A marca vermelha nele parecia uma poça. Ela havia sangrado até morrer.
– Lawliet... – Uma voz num sussurro me chama. Aquela voz era a de Beyond.
Eu saio do quarto e entro no do lado, seguindo a voz. O garoto estava deitado na cama... Com o pescoço cortado. Seu travesseiro estava totalmente manchado daquela cor. Seus olhos ainda estavam abertos. Olho para o chão e as marcas vermelhas estavam lá. Volto a olhar pro garoto: ele tinha um brinquedo na mão. Como aquele desgraçado teve coragem de matar uma crian... O quarto do bebê.
– Não... Ele não fez isso... – Eu me virei, caminhando lentamente em direção àquele local.
A porta estava fechada. Coloco a mão na maçaneta e a abro lentamente. Quando termino de abrir, empurro a porta. A cena me fez sentir raiva, nojo e dor ao mesmo tempo. As marcas de sangue na parede, na janela, no chão... Em qualquer lugar que eu olhasse. No meio do quarto, a criança. Ela devia ter uns 2 ou 3 anos. Ela estava completamente sem roupa, apenas com uma fralda. Seus olhos, ainda abertos, eram azuis, entrando em contraste com o cabelo ruivo. Em seu corpo, cortes. Em seu peito e barriga, simplesmente as iniciais “BB”. Aquele desgraçado havia passado dos limites. Sua risada novamente vem ao ar.
– BEYOND, SEU DOENTE, AONDE VOCÊ ESTÁ, DESGRAÇADO?! – Eu gritei, saindo no corredor. Os passos descem a escada, correndo. Eu sigo o som.
Quando chego no andar de baixo, as portas batiam. A luz ainda era vermelha, e agora estavam acendendo e apagando. Olho pelo corredor e não vejo sinal algum de Beyond.
– Apareça, desgraçado, covarde... PORQUE NÃO TENTA MATAR ALGUÉM DO SEU TAMANHO? – Eu gritei. Sua risada vem do quarto no fim do corredor, que estava com a porta trancada. Abro a porta chutando-a, e a cena é assustadora.
O quarto da cadeira. Esta, agora, estava no chão, caída. Em cima dela, pendurado por uma corda, um homem. Sua face me assusta. Em seu peito, as iniciais estão lá. BB. Suas mãos estavam amarradas na parte de traz de seu corpo. A corda o segurava, não deixando-o tocar o chão.
– AONDE VOCÊ ESTÁ, BEYOND? VENHA AQUI, QUERO VER FAZER ISSO COMIGO! – Gritou novamente, no meio do corredor.
– Proposta tentadora, L Lawliet. Pena que, por ora, terei que recusá-la... – Beyond falou. Eu procurava saber de onde vinha sua voz, mas não o encontrava em local algum – Ainda quero brincar um pouco com você... – Ele riu, fazendo um tremor subir pela minha espinha.
– Brincar? BRINCAR? – Eu fiquei extremamente irritado com o que ele havia falado – ISTO NÃO É UMA BRINCADEIRA, BEYOND, MAS QUE DROGA! – Eu gritei, socando a parede – VOCÊ MATOU 5 PESSOAS, ACABOU COM 5 VIDAS, E AINDA ACHA QUE ESTA É UMA BRINCADEIRA?!
– Vida? O que você sabe sobre vida, Lawliet? Você não tem uma própria – Beyond falou, me provocando. Eu olhei todos os quartos, procurando por ele – Não adianta, Lawliet, não estou neste andar. Porque não tenta me procurar no de baixo?
Então o canalha quer brincar? Ótimo, iremos brincar.
Desci as escadas correndo. Mas marcas vermelhas pela parede exalavam aquele cheiro metálico de sangue, o que fez o estado do meu estômago piorar. Quando cheguei ao andar de baixo, era pior do que eu pensava. Os móveis não estavam mais no lugar. Os sofás estavam rasgados, a mesinha estava quebrada. A mancha no tapete parecia ter crescido. Pela parede, mais marcas vermelhas.
A sala de jantar estava macabra. Parecia que havia tido um jantar e que ele não tivesse dado muito certo. Pratos quebrados, copos espatifados no chão, marcas vermelhas por todo o forro, cadeiras quebradas e jogadas... Mas, no meio da mesa, havia uma travessa coberta. Engoli seco, ao imaginar o que podia haver ali. Andei lentamente até lá. Pus a mão na tampa da travessa. Quando a tirei, meu estômago não agüentou a visão, eu virei minha cabeça pro lado e eu pus pra fora tudo o que havia nele. Naquela travessa, um coração estava num prato, com talheres ao lado.
– Sirva-se, Lawliet – Beyond falou, soltando uma gargalhada alta.
– O QUE VOCÊ QUER, BEYOND?! QUER ME MATAR?! É ISSO?! – Eu perguntei.
– Você sabe que sim, Lawliet.
– ENTÃO PORQUE NÃO O FEZ ATÉ AGORA? PORQUE NÃO VEIO ATÉ AQUI E ME MATOU?
– Porque eu quero que você sinta o que eu senti, até hoje. Lembra-se, L, quando todos me chamavam de estranho, na Wammy’s? Ou de quando eu sempre sobrava nas aulas que tinham que formar grupos? Lembra-se de quando me chamavam de estranho por causa da coloração de meus olhos? – Ele falou, transparecendo a raiva em sua voz – Pois eu me lembro. Eu me lembro de como todos queriam ser seus amigos, e me excluíam de tudo. Me lembro muito bem, Lawliet. Tudo culpa sua. Me disseram que eu era a versão piorada de L. Escutei isso até o momento que fugi de lá. E mesmo depois disso, minha memória de você ainda me assombrava. A mídia só falava do grande detetive L. Eu ainda via todos falando como eu era ruim em meus sonhos. Então, resolvi me vingar... Uma vingança ótima, que continua muito sangue e geléia de morango – A voz de Beyond falou a última frase com um certo divertimento.
– Você é um doente, Beyond. Um psicopata doente. – Eu falei, sentindo nojo e ódio dele.
– Qual o problema, Lawliet? – A voz distante parecia se aproximar – Não gosta de morango? – O hálito dele em meu pescoço e sua voz atráz de mim.
Mal tive tempo de virar – ele me pegou pelo pescoço e me prendeu na parede. Em seus lábios, um sorriso macabro. O mesmo da foto. O mesmo do sonho. Em sua blusa, manchas vermelhas de sangue e geléia. Cheiro de sangue e morango me deixam mais enjoado do que estava.
– Você não tem a mínima idéia do que eu passei, L. Espero que a minha imagem tenha lhe assombrado durante esse tempo também – Ele falou sorrindo, mas sua voz estava macabra. O ar em meus pulmões acabando, a visão ficando escura... – Adeus, Lawliet...
O escuro me consumindo. A sensação de nada. Nem dor. Nem raiva. Simplesmente, o nada.
Quando abro os olhos, estou em minha cama. Ouço a voz de Watari discutindo com Roger. Eles estavam discutindo sobre qual seria a cor do meu bolo de aniversário. Espere um pouco...
– Mas... Mas... – Eu me sento de uma vez. Como eu havia parado ali? Eu estava na casa, com Beyond, e... – O que aconteceu?
Coloco as minhas mãos no rosto, refletindo. Aquilo havia sido apenas um pesadelo.
– É, isso, um pesadelo.
Dou uma risada nervosa e rápida. Aliviado, tiro as mãos do rosto e respiro fundo. Um alívio me domina... Por pouco tempo.
Eu olho para o meu criado-mudo. A foto. Eu a pego, com cuidado. Era aquela foto mesmo: um na frente e Beyond no fundo. Viro-a, e o escrito atrás dela faz meu estômago revirar e um frio na minha espinha vem.
“Feliz Aniversário, Lawliet
Beyond Birthday”
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