Delirium
24 Miss Mystic Falls
Mãos agarraram meus braços, tentando me tirar do chão. Me debati, chutando e me soltando.
—Calma, calma. Sou eu. -Parei, imóvel. Tirei meu cabelo do rosto, era Damon. Já tinha amanhecido.
—Você os viu?
—Quem?
—Meus pais. Estavam com Robert. -Olhei em volta. Não havia sinal deles, nem da névoa ou do som.
—O que estava fazendo aqui?
—Eu não sei. Não me lembro de vir pra cá. -Encarei o nada. -Estou ficando maluca, não é? Essa punição nunca acaba. Não aguento mais. -Toquei meu anel. Se eu o arrancasse... Tudo acabava. Damon segurou minha mão.
—Ludmille.
—Eu só quero que isso termine.
—Eu também, mas não assim.
—Então o que eu faço? Continuo surtando, vendo coisas que ninguém mais vê e sendo atormentada por meus pais e o maldito Robert? Estou cansada. Só quero colocar um fim nisso.
—Esse não é o melhor jeito. Você não estará não estará livre, estará morta.
—O que eu faço?-Me soltou.
—Apenas... Espere pelo melhor.
***
—Você consegue. -Murmurei, descendo as escadas. -Você não é louca, você está bem. Agora sorria e conviva civilizadamente com as pessoas...
Parei de andar der repente, quase escorregando no último degrau. Agarrei o corrimão com força. Mais um fantasma pra sua coleção.
—Jeremy. -Engoli seco. -Se... Se está aqui... Pra se vingar, por favor, não faça isso.
—Ludmille...
—Eu sei que te matei, mas não queria fazer isso. Aquela era uma outra Ludmille... E eu sinto muito pelo o que aconteceu...
—Ludmille. -Me calei. -Não vim me vingar de você. E não estou morto. Bonnie conseguiu me trazer de volta.
—Ela conseguiu? De verdade? Isso é incrível! E não digo isso por que anula minha culpa. É bom te ter de volta, pequeno Gilbert. -Sorriu. -Mas não conta pra ninguém que eu disse isso, eu tenho uma reputação a manter.
—Claro. Bom, a gente se vê no Baile dos Fundadores. E boa sorte.
—O que?
—Ah, Damon não te contou ainda?
—Parabéns, pequeno Gilbert. -O Salvatore mais velho zombou, se aproximando. -Estragou a minha surpresa.
—Será que posso entrar na conversa?-Perguntei.
—Eu te inscrevi no Miss Mystic Falls.
—Você fez o que?
—Qual é, você já participou duas vezes!-Cruzei os braços. -Será uma ótima distração. Eu serei seu par, mas, como não é novidade pares sumirem, temos um reserva, que é o Stefan, e um reserva do reserva, que é Jeremy.
—Vocês pensaram em tudo. É uma pena que eu tenha que recusar.
—Ludmille, nem pensar. Você precisa disso. -Suspirei.
—Tudo bem, eu vou. -Sorriu.
—Ótimo. Aposto cinco dólares que você ganha.
***
Nos dias seguintes, uma “preparação massiva” para o Miss Mystic Falls. Aparentemente, o concurso não tinha mudado muito desde que eu participei pela primeira vez.
Naquela tarde, Jeremy e eu estávamos ensaiando a dança, enquanto Elena ficava rindo, no sofá.
—É bom eu não te pegar tentando gravar isso de novo, Lena. -Avisei
—Você está indo muito bem. Só que não está em sintonia com Jeremy. Vamos lá, do começo.
—Quem disse que você é a coreografa?-Ergueu a mão.
—Eu mesma. -Alguém entrou na sala. Bonnie. Elena parou a música, Jeremy e eu nos afastamos. -Hey, oi, Bon.
—Eu acho que vou subir...
—Eu preciso falar com você. À sós. -Bonnie interrompeu. Elena e Jeremy saíram rapidamente. Fiquei preocupada, esperando a bruxa soltar um phasmatos incendia em mim.
—É sobre Jeremy?-Perguntei.
—É. Eu estava muito chateada... Acho que fui muito dura com você, mesmo sabendo que não teve culpa.
—Eu entendo. Também teria reagido assim se estivesse no seu lugar.
—Então você pode... Me desculpar?
—Você não precisa ser desculpada, Bonnie. Acredite em mim. -Sorriu.
—Bem... Me disseram que você vai concorrer ao Miss Mystic Falls.
—É, não consegui escapar disso. -Riu
—Então vamos voltar aos preparativos.
***
—Pronto. -Caroline anunciou, dando um passo para trás, analisando seu trabalho. -Você está linda.
Me olhei mais uma vez no espelho. Care tinha feito uma trança lateral, prendendo todo o meu cabelo. Fazia séculos que eu não usava penteados assim.
Mesmo que Caroline tivesse surtado e reclamado, eu me neguei a usar algo que não fosse meu vestido preto, presente dela e de Elena. “Você devia parecer uma princesa!”, avisou. Apenas revirei os olhos.
O concurso estava prestes a começar. As outras garotas e eu saímos do quarto e esperamos, enquanto Caroline, lá embaixo, começava a falar.
Passei os olhos pela pequena multidão e não localizei Damon ou os outros, apenas Matt.
—Donovan. -Sussurrei, tentando chamar a atenção dele. -Donovan!-Peguei uma flor num vaso e o joguei no garoto, que ergueu o olhar, confuso. -Cadê Damon?-Deu de ombros. -Stefan? Jeremy?-Repetiu o gesto. Suspirei. Onde tinham se metido?
As outras garotas já tinham descido. Caroline demorou um pouco para me chamar, parecendo reler algumas vezes suas anotações.
—Ludmille Morgan. -Anunciou. -Acompanhada por Klaus Mikaelson. -Olhou pra mim, como se pedisse desculpas.
Klaus? Klaus era meu par? Eu nem tinha o notado, até que ele se aproximou do fim das escadas. Hesitei. Talvez devesse recuar e me negar a continuar no concurso. Ou talvez devesse jogar o jogo que estava em andamento.
Desci as escadas sem pressa e estendi a mão para Klaus, um sorriso falso bem plantado no rosto.
—Acho que você é o responsável pelo sumiço do meu par e seus substitutos. -Começamos a sair da casa.
—Não dessa vez. Estou tão surpreso quanto você.
—E apareceu magicamente para ser meu par.
—Eu teria vindo de qualquer maneira. -A dança começou. -Preciso que dê um recado para a Noiva de Sangue.
—Você não sabe quando é hora de parar.
—Nunca te ensinaram a não desistir?
—Claramente alguém não devia ter te ensinado. -Olhei em volta, Caroline estava mexendo no celular, desesperada, enquanto tentava ser discreta. -O que fez com Damon, Stefan, Elena, Bonnie e Jeremy?
—Nada. Quando cheguei, eles já não estavam aqui.
—Eu não acredito em você. -Deu de ombros.
—Como quiser. Quanto ao recado... Apenas diga a ela que eu ainda estou esperando-a.
—Vai cansar de esperar.
—Eu tenho toda a eternidade para esperá-la. -Foi difícil resistir à tentação de socá-lo no rosto, repetidas vezes.
Quando a dança acabou, Klaus se afastou e eu o perdi de vista. Matt se separou de seu par e veio falar comigo.
—Onde estão os outros?-Perguntei.
—Eu não sei. Uma hora estavam aqui e na outra... Acha que Klaus fez alguma coisa?
—Queria pensar que não, mas estou com uma sensação horrível.
Não faço ideia de como me recompus e subi no pequeno palco, minutos mais tarde. Eu só queria dar um fim naquela baboseira e ir procurar os outros. Não conseguia tirar isso da cabeça. Por isso Caroline precisou repetir meu nome duas vezes.
—Ludmille Morgan.
Dei dois passos para frente, então entendi. Ganhei o concurso. Eu era a Miss Mystic Falls.
—Apenas sorria. -Caroline sussurrou, colocando a faixa e depois a tiara em mim. -Você conseguiu.
—Eh, parabéns pra mim. -Segurou o riso.
Depois dessa enrolação toda, encontrei Matt, que ainda tentava ligar para Elena, Stefan e Bonnie. Liguei para Damon, sem resultados.
—Estou prestes a ter um ataque de nervos. -Murmurei.
—Vou perguntar por aí se alguém viu os outros. -Matt disse. -Aviso se souber de alguma coisa.
—Okay.
Comecei a andar entre as pessoas, procurando sem encontrar. Será que Klaus tinha matado... Não, não... Isso não podia ter acontecido...
—Ei, olha só, ganhei cinco dólares. -Me virei, era Damon. -Você parece uma princesa das trevas.
—Onde você estava? Achei que Klaus tinha te matado! E onde estão os outros?
—Estão todos bem. Não se preocupe.
—O que aconteceu?
—Achamos que Klaus estava armando algo, e tentamos descobrir, mas... Não descobrimos nada.
—Ele esteve aqui... Foi meu par.
—Filho da mãe. -Fez uma pausa. -Você está me devendo uma dança.
—Tudo bem. -Estendi a mão.
—Não vai fazer drama, dizendo que não dança e blá, blá, blá?
—Não dessa vez.
A música que tocava era a versão de Oonagh para Enjoy the Silence, era perfeita para uma dança lenta.
Quando a música terminou, me afastei, mas Damon deu um passo na minha direção. Eu acho que eu nunca tinha o deixado fazer aquilo antes, a não ser quando tínhamos nos carregado ou quando o abracei, mas... Não se tratava disso, agora parecia uma aproximação diferente. Aproximou o rosto e parou. Então eu entendi. Ele estava esperando minha permissão pra... Me beijar?
Ele sabia. Sabia que se simplesmente me beijasse, eu ia entrar em pânico, como acontecia quando Robert me beijava a força.
Assenti lentamente. Tudo bem, vocês podem fazer isso. Está tudo okay, Ludmille. Continue.
Então a gente estava se beijando. Eu não entrei em pânico. Não tentei empurrá-lo ou gritar, nem me senti presa e suja. Era incrível, como se fosse algo totalmente diferente. Era lindo.
Me afastei. O que a gente fazia depois de beijar alguém por vontade própria? Ai, Ludmille, você é um desastre. Damon recuou um pouco, como alguém que não queria assustar um animal acuado. Quase ri, mas me segurei.
—Desculpe?-Pediu, parecia uma pergunta, então levei como uma.
—Não precisa se desculpar. Está tudo bem. Por que isso?-Sorriu.
—E por que não?-Acabei sorrindo também.
—Não acredito, você ganhou!-Elena gritou, surgindo do nada e me abraçando. -Eu sabia! Sabia que ia ganhar!
—Precisa me esmagar pra dizer isso?-Perguntei. Ela riu e se afastou. Olhei para o lado, Damon já não estava mais lá.
Quando o baile acabou, voltei para a sala onde tinha me preparado para pegar minhas coisas. Aproveitei para me olhar mais uma vez no espelho. Aquela garota no reflexo não era a Ludmille Morgan.
Arranquei a tiara, tirei a faixa e soltei o cabelo. Bem melhor. Só faltava tirar os saltos e o vestido. Aí sim a verdadeira Ludmille apareceria de novo.
—Achei que já estava pronta. -Damon disse, entrando sem bater. -Quer uma carona?
—Sim, obrigada. Só vou me trocar e podemos ir. -Peguei minha mochila.
—Tudo bem. Hã... Sobre antes... -Me virei para olhá-lo, então Klaus apareceu e quebrou seu pescoço.
—Você ficou louco?-Larguei a mochila. -O que você quer?-Parou na minha frente. Me obriguei a não recuar. -O que você quer?
Quebrou meu pescoço.
***
A dor tinha atingido um nível em que eu não conseguia nem gritar, o mesmo aconteceu com Damon, ao meu lado.
Nós sabíamos que era uma questão de tempo até não aguentarmos mais e afundarmos. Klaus tinha nos jogado num poço com água e verbena.
Não fazia ideia de que horas eram. Parecia uma eternidade. Uma eternidade sentindo a pele queimar como se fosse fogo.
Eu estava errada. Damon não era como Robert. Klaus era.
Meu corpo não aguentou mais, então eu afundei e tudo escureceu.
***
POR DAMON
—Ele está acordando!
—Pegue a bolsa de sangue!
—Damon? Está me ouvindo?
Meu corpo não estava mais queimando, mas a sensação de desconforto ainda estava lá. Sangue foi derramado na minha boca e eu finalmente consegui me mexer e sentar.
—Onde ela está?-Perguntei, tentando ficar de pé. -Ludmille!
—Ela não está aqui. -Stefan disse, me ajudando a levantar.
—Ela estava comigo, no poço.
—Você estava sozinho. -Bonnie disse, se secando. -Eu desci pra amarrar você. Ludmille não está lá.
—Tem certeza?
—Tenho.
—Então onde...
—Talvez ela tenha saído... -Elena começou.
—Não. Ela não iria embora e me deixaria aqui. Se você acha isso, não a conhece como eu. Você, bruxa, faça sua mágica e a encontre.
—Não é assim. -Disse. -Ludmille não tem nenhum parente de sangue aqui. Preciso encontrar outro feitiço de localização.
—Então faça isso.
—Damon, se acalme. -Stefan pediu.
—Me acalmar? Klaus nos jogou aqui. Sabe por que? Por que se ele conseguir destruir Ludmille psicologicamente, ela vai desligar a humanidade. Então teremos a Noiva de Sangue de volta.
***
—Onde Klaus esconderia Ludmille?-Stefan perguntou. -É num lugar em que ele pode entrar e sair facilmente. Se ele está a torturando...
—A mansão Mikaelson?-Mutt... Matt chutou.
—Ela não está lá. -Caroline avisou, entrando na sala. -E Klaus disse para pararem de me usar para conseguir informação.
—E se ele a tirou da cidade?-Elena arriscou. -Ele pode estar mantendo-a onde deixa os irmãos dele...
—Não. -Interrompi. -Klaus vai querer mantê-la por perto. Precisa garantir que Ludmille desligue a humanidade. Como a bruxa está indo?
—A bruxa, -Bonnie começou, parando na portada sala, junto com Jeremy. -não está obtendo sucesso. Seja lá onde Klaus escondeu Ludmille, eu não consigo alcançar.
***
Os dias passaram. Ludmille estava perdida, e se não a encontrássemos logo, ficaria perdida para sempre.
Caroline não conseguia convencer Klaus a devolver Ludmille. Nós o seguíamos, mas ele nunca ia no suposto cativeiro. Não fazia sentido. Como iria obrigar Ludmille a se desligar, sem estar com ela?
Bonnie não achava nenhum feitiço que nos levasse até a vampira desaparecida. Nem mesmo as bruxas mortas estavam colaborando.
—Se Ludmille não pode ser encontrada, então ela está morta?-Matt perguntou, em uma das reuniões armadas por Stefan.
—Repita isso e eu arranco sua língua antes de quebrar seu pescoço. -Avisei. -Ela não está morta.
—Então por que nenhum feitiço a encontra?-Essa foi Elena. -Por que Klaus não vai até ela?
—Pergunte a ele. Se Klaus está envolvido, não será fácil. -Olhei de rosto em rosto, irritado. -Não estão pensando em desistir de Ludmille, estão?
—Nós não vamos desistir. -Stefan disse. -Nós vamos encontrá-la, Damon.
***
Escuro. Sem ar. Espaço pequeno. Eu não conseguia me mexer. Ia morrer lá. Secar e virar pó. Ninguém ia me encontrar. Não. Não era eu. Era Ludmille.
—Por favor, me encontre. -Sussurrou.
Abri os olhos e me sentei, encarando o escuro do quarto. Eu sabia onde ela estava.
Agarrei uma camisa e corri até o quarto de Stefan, entrando sem bater.
—Eu sei onde Ludmille está!
—Que horas são?-Elena resmungou. Stefan se sentou, ligando o abajur.
—É hora de um resgate.
***
Ao contrário do que Bonnie achava, não havia um feitiço para prender vampiros na tumba, apenas para impossibilitar bruxos de rastrearem Ludmille até ali.
Stefan e eu empurramos a tampa de pedra, revelando uma vampira inconsciente.
—Você estava certo. -Caroline murmurou. -Ela estava aqui o tempo todo. Incapaz de sair, de se mexer... Presa não só aqui, mas na própria mente...
—Até que esta se deteriorasse, -Stefan continuou. -e então seria a hora perfeita para desligar a humanidade.
—Isso não vai acontecer, Lud. -Sussurrei. -Eu não vou quebrar minha promessa.
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