Delirium

20 I’m Falling to Peaces


—O que foi?-Damon perguntou, sentando ao meu lado no sofá.

Eu não conseguia parar de chorar. Era como se uma mão invisível tivesse arrancado alguma coisa de dentro de mim. E o vazio doía.

—Eu disse que ele não ia me quebrar, mas ele quebrou. E eu não consigo juntar os pedaços.

—Ninguém pode quebrar você. -Desgrudou algumas mechas de cabelo do meu rosto.

—Não aguento mais essas lembranças. É muito sangue, muita morte... E... -Olhei pra baixo.

—E...?

—Eu dormi com ele. -Sussurrei. -Você não imagina quão péssima eu me sinto. Todos esses anos... Fugindo, me esquivando de toques e olhares... E então... Aquela coisa, aquele monstro que vive sob a minha pele... Riu de mim e do meu medo. Eu a odeio.

—Por isso você precisa continuar forte. Se desligar sua humanidade, Klaus e seu monstro ganham. Não permita isso.

—Estou por um fio, Damon. É como se eu fosse de papel e estivesse chovendo em mim. Estou me desfazendo.

—Então se torne de aço. Não deixe Klaus desfazê-la. Resista. Resista até o fim.

***

—Matt Donovan!-Gritei, batendo o copo na mesa. O garoto suspirou e veio até mim. -Cadê minha bebida?

—Você já bebeu muito. Vá pra casa.

—Eu sou a cliente, Mutt, você tem que me servir.

—Você está bêbada, não precisa de mais álcool.

—Não me diga o que fazer, garoto. Vem cá...

—Não adianta tentar me compelir. Verbena. -Mostrou o pulso, onde tinha uma pulseira masculina.

—Tudo bem, eu posso fazer do modo antigo. -Agarrei a parte da frente da camiseta dele, obrigando-o a se aproximar. -É bom me servir, ou eu juro que vou te quebrar em dois pedacinhos e me alimentar de você.

—Ludmille, pare já com isso. -Caroline mandou, afastando Matt.

—Ele não quer me servir.

—Pela sua reação, você não precisa de mais bebida.

—Quer saber? Dane-se. -Levantei. -Tem que ter outro bar por aqui.

—Mas você vai direto pra casa. -Damon disse, se aproximando e segurando meu braço.

—Não vou, não.

—Dê tchau pros seus amiguinhos, você se comportou mal e agora está de castigo.

—Damon. -E saiu me arrastando pra fora. -Damon!

—Beber demais? Tudo bem. Ameaçar o Mutt? Sem problemas. Mas no estado que você está, pode acabar fazendo alguma besteira.

—É por isso que estou bebendo. Essas malditas lembranças não me deixam em paz. Você não entende, não sente culpa, mas eu sinto.

—Ludmille...

—Klaus está acabando comigo!-Gritei, me soltando dele. Algumas pessoas que passavam por nós se assustaram. Damon não pareceu ter notado.

—Ele só fará isso se você deixar. Está se deixando afetar, exatamente o que ele quer. Se continuar assim, vai acabar se desligando ou se matando.

—Você está certo. Eu não posso deixar Klaus vencer. Eu não posso.

***

Parecia aquelas casas de senhoras que moravam sozinhas. Flores no jardim, no caminho até a porta da frente, nas janelas. Ninguém imaginaria que dois vampiros psicopatas estavam instalados ali.

Empurrei a porta, que abriu com um rangido horroroso. O cheiro de sangue me atingiu. Segui a trilha de pegadas ensanguentadas, tentando me preparar para o que havia no fim dela.

—Como nos achou?-Stefan perguntou, enquanto eu entrava na sala. Sete corpos. Muito sangue.

—Klaus me mandou um convite. -Mostrei o envelope dourado e o joguei na mesinha de centro. –Quer que eu me junte a vocês.

—É o que veio fazer?

—Você sabe que não. -Me abaixei perto de uma mulher morta, era a única que estava inteira. O estripador já tinha “cuidado” das outras.

—É tarde demais. -Klaus disse, atrás de mim. -Está morta. Parece que Stefan se divertiu.

—Você adora isso, não é? Adora o fato de ter algum poder sobre ele. Afinal, o fez se desligar.

—Ele não aguentou as lembranças. Assim como você não está aguentando. Por incrível que pareça, você está resistindo. -Estendeu a mão, mas a ignorei e fiquei de pé sozinha.

—Você não sabe quão monstruoso é, sabe?-Sorriu.

—Como tem lidado com as lembranças? Nós realmente matamos muitas pessoas. Foi uma época sangrenta. Tantas mortes, tantos corpos em pedaços. Mas você sabe, não é? Tem algo que precisa ver. -Pegou um caderno grosso e me estendeu. -Vai adorar.

Me sente no canto da sala, onde havia uma mesa e abri o caderno. Parecia antigo, e tinha o cheiro de coisa velha.

Ignorando os olhares de Klaus e Stefan, comecei a passar as folhas.

—O que é... Isso não tem graça!-Empurrei o caderno, os olhos ardendo. Klaus se aproximou, apoiando-se na cadeira onde eu estava.

—Recortes de jornais sobre a Noiva de Sangue. Todas as vítimas, as fotos tiradas pela polícia... -Fiquei de pé. Agarrei o caderno e o joguei no fogo da lareira. -Isso não vai apagar o passado...

—CALA A BOCA!

—Lembra de quando fizemos uma festa no seu apartamento e você matou quase todos os convidados?

—Para!

—Você lembra, Stefan? Todos em pedaços na sala...

—Para, por favor... -Cobri os ouvidos com as mãos, caindo de joelhos.

—Você não consegue lidar com isso, Ludmille. Só tem uma maneira de acabar com essa culpa e você sabe.

—Não... -Se abaixou na minha frente.

—Desligue-se, Ludmille.

—Não... Não...

—Desligue-se...

***

—O que tem aí?-Damon perguntou, ficando no meu caminho. Tentou mexer na sacola de papel que eu carregava, mas dei um soco na mão dele. -Ei. Mau humor tão cedo?

—Sai da minha frente.

—Wou, alguém está estressada hoje. Qual é o problema?

—O problema é que está no meu caminho, Salvatore. -Arrancou a sacola da minha mão.

—O vestido de noiva. Está indo queimar isso?-O empurrei na parede, segurando-o pelo pescoço.

—Eu disse pra sair da minha frente.

—O que tem de errado com você?

—Você está surdo?-O soltei, Damon caiu no chão. Peguei minha sacola e fui para a porta.

—Droga, Ludmille. Você desligou, não foi? Desligou sua humanidade. -Me virei.

—Dez pontos para o Salvatore. Mais alguma constatação óbvia?-Demorou alguns longos segundos para uma resposta.

—Merda. -Sorri.

—Foi o que eu imaginei.