Delirium

14 Festas, Lembranças e Duplicatas


Notas iniciais
Olá, pessoas. Feliz véspera de Natal.

Eu mal podia ouvir Damon contando a Stefan o que tinha acontecido. Apenas parte de mim estava sentada no sofá, a cabeça apoiada nos joelhos, e um copo de whisky nas mãos.

A outra parte de mim estava revivendo o que tinha acontecido horas antes, e do que tinha acontecido anos atrás: Robert e suas torturas.

O copo escorregou da minha mão e se espatifou no chão. Damon e Stefan olharam pra mim rapidamente.

—Desculpa. -Murmurei, começando a catar cacos.

—Você está bem?-Stefan perguntou.

—Sim. Eu apenas... Com licença. -Terminei de pegar os pedaços de vidro e fui pra cozinha.

Eu tinha que esquecer Robert. Esquecer o passado. O medo. A dor. Tinha acabado. Eu era livre agora. Ou nem tanto.

Joguei os restos do copo no lixo.

—Você está horrível. -Murmurei, me olhando no micro-ondas espelhado. Minha mãe surtaria ao me ver tão desalinhada. O pensamento me deu vontade de rir histericamente.

Uma forma masculina foi refletida, atrás de mim. Robert. Gritei e me virei. Ele não estava mais lá.

Em segundos os Salvatore estavam na porta, falando ao mesmo tempo.

—Estou bem. -Menti. -Achei... Ter visto... Estou bem. Vou dormir, com licença.

***

—O que acha que vai fazer com isso?-Perguntei, recuando. Caroline revirou os olhos.

—Vou tentar maquiar você.

—Não vai, não.

—Care, não incomode a Ludmille. -Elena pediu, olhando por cima do ombro e parando de maquiar Bonnie.

—Ela nunca usa nada. -Comentou, tentando me atacar de novo com um pincel. -Ia ficar linda com um pouco de blush. Você tem cílios longos, nem precisa de rímel.

—Eu não preciso de nada. -Avisei.

—Beleza natural, você é confiante. -Começou a maquiar a si mesma.

—Por que o momento salão de beleza?

—Nunca esteve numa festa do pijama?-Neguei com a cabeça. -Sério? Gente, ajuda aqui!

—Bem, -Bonnie começou -nós nos maquiamos, fazemos as unhas, comemos, vemos alguns filmes, falamos de garotos...

—Já que tocaram no assunto... Nenhum interesse romântico?-Olhou pra mim. -Mystic Falls tem garotos bem bonitos...

—Hum. -Murmurei, olhando os esmaltes de Elena.

—Qual é, nenhum garoto?-Fiz que não com a cabeça. -Oh meu Deus, você é um alien.

—Garotos não me interessam. Nem garotas. -Acrescentei, antes que ela pudesse perguntar.

—Por causa do seu casamento. -Bonnie arriscou. -Não é?-Assenti.

—Acho que eu preciso de um tempo antes de... Tentar algo.

—Nós entendemos. Não é, Care?-Elena perguntou. A loira assentiu.

—Mas se quiser uma ajudinha... -Sussurrou. -Eu conheço uns caras bem legais que...

—Caroline!

—Isso quando ela estiver pronta. Mas seria bom que tivesse um par para o baile... Matt vai sozinho, você podia ir com ele, já que não é uma ameaça...

—Caroline!

—O que?-Segurei o riso.

—Damon disse que se não encontrasse ninguém melhor, ia comigo. -Contei.

—Damon? Vocês tipo... Estão saindo...?

—Como assim?

—Ela quer saber se vocês estão juntos. -Bonnie traduziu.

—Juntos...? Ah. Não. Não. Definitivamente não. Só bebemos juntos e... É isso.

—É verdade que vocês quase casaram?-Caroline perguntou. Elena jogou um travesseiro nela, resmungando “Care, não”. -O que?

—Na verdade, nunca foi dito qual Salvatore teria sido meu marido. Provavelmente teria sido Damon, por que os mais velhos casavam primeiro.

—Que horror. -Ri. -Imagine que pesadelo.

—Ele não era tão ruim. É quase... Como Stefan é hoje. Éramos amigos. Fomos a alguns bailes juntos, aqueles que podíamos ir, é claro. E Stefan foi meu par quando fui Miss Mystic Falls.

—Você foi Miss Mystic Falls? Isso é incrível.

—Treze anos. Naquele tempo garotas mais novas podiam participar. Éramos treinadas desde cedo. As campeãs eram vistas como bons partidos.

—Tudo bem, vamos lá: se você tivesse escolha, com qual dos Salvatore teria se casado? Esqueça que Elena namora Stefan.

—Não sei se escolheria um deles. Eram meus amigos, seria estranho casar com eles.

—Verdade. Tudo bem, hora do filme! E quero todas quietas para que eu possa apreciar a beleza do Tom Cruise. -Bonnie jogou seu casaco nela.

—Você é a que mais fala, Care. -Acusou.

—Que mentira!-Ficou de pé. -A última a chegar na sala casa com Damon Salvatore!

Então estávamos todas correndo escada abaixo, rindo e tentando chegar primeiro.

Nunca me senti tão normal, tão... Humana. Era uma sensação maravilhosa.

***

—Ludmille? Ei. Ei. -Abri os olhos. Elena estava cutucando meu ombro. Estávamos deitadas lado a lado no chão. -Acho que teve um pesadelo.

—Eu falei alguma coisa?-Sussurrei de volta. Bonnie e Caroline dormiam tranquilamente.

—Estava... Pedindo socorro. -Fiquei feliz por ela não poder me ver no escuro. -Tudo bem?

—Sim, eu... Shh, ouviu isso?-Me sentei. Elena fez o mesmo.

—Isso o que?

—Tem alguém aqui. -Fui para a porta do quarto. -Não saia daqui.

—Ludmille, pode ser o Jeremy voltando do Matt...

Mas eu não estava mais ouvindo. Avancei pelo corredor, localizando o intruso no escuro. O imobilizei, um braço em volta de sua garganta. Com certeza era um homem, e alto.

—Ludmille!-A luz ascendeu. Elena, Caroline e Bonnie estavam amontoadas na porta do quarto, todas com armas improvisadas. Jenna apareceu também, assustada.

—O que está... Ah, meu Deus. Solte-o!-Soltei Alaric, que tossiu um pouco, acho que o apertei demais. A tia de Elena parecia querer se enfiar num buraco.

—Senhor Saltzman?-Caroline disse. -Hum... Você nos assustou.

—Desculpem. -Pediu, levemente vermelho. -Não foi minha intenção.

—Como você fez... Aquilo?-Jenna perguntou. -Alaric é alto, e um homem... Você conseguiu rendê-lo...

—Ela me pegou de surpresa. -Explicou, ao mesmo tempo em que eu dizia “Fiz aula de defesa pessoal”.

—Ah. Certo. Acho... Melhor irmos todos para a cama. -As garotas na porta fizeram som de engasgo, enquanto seguravam o riso. -Vocês quatro, já para a cama!

—Sim, senhora. -Murmuramos.

—Desculpe, Alaric. -Pedi, passando por ele.

Todas entramos no quarto, Elena fechou a porta, aí finalmente começamos a rir.

—Estou ouvindo risadas!-Jenna avisou.

—Desculpe. -Pedimos em uníssono. Mais risadas.

—Vou fazer uma contagem regressiva e é bom estarem dormindo quando chegar no um!-Nos jogamos nos colchões. Jenna abriu a porta. -Ótimo.

—Você não chegou no um. -Elena provocou. A mulher lançou um travesseiro na sobrinha.

—Durmam! Agora!-Fechou a porta. Aí ninguém segurou o riso.

***

—Você foi imobilizado por uma garota?-Damon debochou. Alaric olhou feio pra ele, me ignorando completamente.

—Por uma vampira.

—Sim. E você é um caçador. E ao que parece, um dos ruins.

—Não provoca. -Pedi, dando uma cotovelada nele. -Eu o peguei de surpresa. E estava motivada.

—Motivada?

—Eu achei que era... -Abaixei o tom de voz. -Robert.

—Quem?-Alaric perguntou, se inclinando na nossa direção. Damon estava entre nós.

—O marido psicopata dela. -Respondeu.

—Ele não estava morto?

—Más notícias: parece que ele está bem vivo, e em Mystic Falls. Supostamente. Ninguém mais o viu.

—Damon, está insinuando algo?-Perguntei, encarando-o de perto. Eu estava um pouco bêbada, então via dois Damon’s.

—Talvez.

—Imbecil.

Peguei meu copo e me afastei, encostando-me na parede, longe o suficiente de Damon.
Eu não era louca, era?

—Você não pode ficar chateada comigo.

—Salvatore, desapareça. -Mandei, fuzilando-o com o olhar. Não fez efeito algum, pois ele se apoiou com o braço na parede atrás de mim.

—Não ficou irritada de verdade, ficou?

—Você me chamou de louca.

—Nós estamos bêbados.

—Você feriu meus sentimentos.

—Que?-Ri.

—Estou confusa. -Terminei com meu copo.

—Está bêbada. E são apenas sete horas. A noite começou agora.

—Pra mim já terminou. -Pisquei. Ele estava tão perto... -Está tentando me beijar?

—Provavelmente. -Tão perto, tão perto... Virei o rosto.

—Acho que preciso ir. -Entreguei meu copo a ele. -Boa noite, Damon. -Sorriu.

—Boa noite, Lud.

***

—Não diga, eu vou adivinhar!-Caroline pediu. Assenti. -Hum... Madonna?

—Acertou, Cindy Lauper.

—Como você...?

—Eu vivi nessa época. E fui em uns shows.

—Oh, certo. Eu tinha esquecido desse pequeno detalhe. -Riu.

O tema do baile era famosos da música dos anos 40 até 90. Madonna foi minha cantora favorita daquele tempo, então nada mais justo do que ir vestida como ela.

Caroline estava ótima de Cindy Lauper. Éramos as únicas prontas, esperando as outras na casa de Elena, que decidiu ir de Laura Branigan.
Bonnie desceu as escadas.

—Whitney Houston. -Arrisquei.

—Era o que eu ia dizer. -Caroline avisou, me dando um empurrão de leve.

—A culpa não é minha se eu sou mais rápida. -Me mostrou a língua.

—Elena, você estará pronta nesse século?

—Por que a pressa?-Perguntou, vindo até nós.

—Por que os garotos estão nos esperando! Todas prontas?-Assentimos. -Okay, vamos lá. -Abriu a porta principal. Na varanda, Jeremy, Tyler e Stefan estavam conversando, e pararam quando nos viram. -Parece que Damon não é pontual. Ou ele encontrou outro par.

—Caroline.

—Foi mal.

—Você pode ir com a gente, Lud.

—Não vou ser um candelabro. -Avisei. -Podem ir, encontro vocês lá.

As garotas insistiram mais um pouco, mas logo estavam nos carros, indo para o baile. Lentamente, comecei a fazer meu caminho para o colégio. Não estava brava com Damon. No fundo eu sabia que ele não ia aparecer.

—Deixe-me adivinhar. -Me virei, parando de andar. -Sandra?

—Errou. Madonna.

—Sempre confundo as duas. Desculpe o atraso, tive um pequeno contratempo.

—Imagino que esse contratempo seja uma linda garota que foi facilmente manipulada. -Limpei a mancha de sangue que havia no rosto dele. Damon sorriu.

—Acertou. -Revirei os olhos.

—Você não entrou na brincadeira, devia estar fantasiado.

—Sou velho demais para brincar disso.

—Idiota. Vamos, antes que o baile acabe.

—Tudo bem. -Fez um gesto, me deixando ir na frente. -Primeiro as damas.

***

—Época favorita?

—Fácil, 1990. -Respondi, sem parar de dançar. -A música era incrível, bem melhor que hoje em dia.

—Havia muitos CDs antigos naquela caixa de sapato que você chamava de apartamento.

—Eu meio que coleciono essas coisas. CDs, DVDS, objetos, ingressos de shows, fotos... É um jeito de manter a memória viva.

—Um museu de si mesma. -Ri.

—Mais ou menos. Não sou do tipo que escreve em diários, então tento guardar o máximo possível, para o futuro. Devo ter uns dois depósitos cheios na cidade vizinha, com coisas antigas.

—Você é uma colecionadora compulsiva!

—Não. Eu estou apenas preservando memórias.

A música Gloria (da Laura Branigan) começou a tocar, me empurrando para lembranças de Gustav e eu indo a boates nos anos 90, quando na verdade ele deveria estar se preparando para o próprio casamento. A noiva dele, uma bruxa irritadinha do Brooklin, ficou tão brava quando descobriu, que tentou prender Gus e eu num prédio abandonado, mas ele acabou quebrando o pescoço dela antes que a garota fizesse o feitiço.

Gustav era um grande filho da puta, mas éramos meio amigos. Até Damon enfiar uma estaca nele.

—No que está pensando?-O garoto perguntou.

—Em Gustav. -Franziu a testa. -O cara que você matou quando foi atrás de mim.

—Ele era seu namorado?

—Que horror, não. Ele era meu amigo. -Fiz uma pausa. -Você nunca me disse por que o matou.

—Ele não quis me dizer onde você estava ou quando voltava. Ainda está brava por isso?

—Acho que nunca perdoei aquele idiota por tentar me dar em casamento para um cara árabe cheio da grana. -Sorriu.

—De nada.

—Okay, preciso de uma bebida. Ou duas. Talvez três. -Me virei e dei de cara com Stefan, que parecia ter assaltado o guarda roupa de Damon.

—Eu não preciso lembrá-la de que não deve ficar bêbada, preciso?-Perguntou.

—Eu vou tomar conta dela. -Damon disse, colocando o braço por cima dos meus ombros.

—Acho que isso piora a situação.

—O que pode dar errado?

—Vocês matarem metade da cidade antes do amanhecer, enquanto Ludmille usa um vestido de noiva?

—Isso seria bem ruim. -Comentei, pensativa. Damon parecia estar considerando a opção. -Vamos nos manter comportados.

—Eu não prometo nada. -Damon murmurou.

—Ele está brincando.

—Não estou não... -Pisei no pé dele. -Eu sou um anjo.

—Vou tomar conta dele, juro. -E o arrastei para longe. -Você não sabe mentir?

—Por que vou mentir se posso ser irritantemente sincero e ver Stefan ter um ataque?

—Você é terrível.

—Eu sei.

***

No fim das contas, Damon e eu não matamos metade da cidade antes do amanhecer. Nós nem bebemos tanto. E Stefan não teve um ataque. Foi... Uma ótima noite.

Estava pensando nela enquanto saía do banho, naquela manhã. A casa estava em silêncio, apenas comigo nela. Tudo estava tranquilo... Até eu encontrar meu vestido de noiva em cima da cama.

Ele costumava ser lindo, de um branco perolado, com mangas rendadas e uma cauda curta. Agora, com o sangue e os rasgos, ele parecia uma fantasia de Halloween.

Mas... O que diabos ele fazia fora do baú?

—Por que você guardou isso?-Robert perguntou, atrás de mim. Congelei no lugar, incapaz de fazer algo que não fosse tremer de medo. -Acho que você gosta do seu lado “Noiva de Sangue”. Você gosta de matar. E sabe o que isso significa? Que você é um monstro pior do que eu.

—Não... Não...

—Sabe o número de pessoas que matou? Ou já perdeu a conta? Ao contrário de você, o monstro que você pinta por aí, eu nunca matei ninguém.

—Mentira... Você me matou... E matou meu bebê... -Fechei os olhos, sentindo lágrimas escorrerem pelo meu rosto.

—Eu matei?

***

—Dolores!-Gritei, em pânico. -Dolores! Socorro! Socorro!-A porta abriu e a mulher entrou, assustada.

—O que houve, senhora? O que foi?-Afastei a coberta, revelando o sangue no lençol e na camisola. -Meu Deus...

—Meu bebê... O que está acontecendo? Dolores...

—Eu sinto muito, senhora. Sinto muito, muito...

***

—Tudo o que eu fiz foi consequência dos seus atos, Ludmille. -Robert continuou. -Você causou tudo aquilo.

—Não... Eu não... -Abri os olhos e me virei. Ele já tinha sumido.

Tropecei até a cama e caí ao lado do vestido, sendo sufocada por lembranças.

***

—Meu marido não está. Pode esperar aqui no escritório se quiser. -Comecei a ir para a porta.

—Meu irmão sabe que está grávida e planeja fugir?-Parei, em choque. Me virei. James parecia calmo até demais.

—Do que está falando?

—Tive duas esposas, nove filhos. Posso reconhecer uma mulher grávida de longe. Você sempre foi magra, agora está engordando, usando vestidos mais largos... E sobre a fuga...

—Carmilla te contou. -Assentiu.

—Ninguém pode culpar a criada por falar demais quando há ouro em jogo, pode?

—Vai contar a Robert?

—Não. Vou ajudá-la. Vou ajudá-la a escapar.

—Por que faria isso? Está sempre me caçando para o seu irmão quando fujo.

—Agora será diferente. Se me der algo em troca, eu a ajudo.

—Eu não tenho nada a oferecer. -Me olhou de cima abaixo.

—Não tem?-Engoli seco. -Quer sua liberdade, não quer? Então deixe-me ajudá-la. -Passou por mim e trancou a porta. Respirei fundo. Era minha liberdade em jogo. A minha e a do meu filho. Eu não tinha escolha.

***

Eu não confiava em James, mas o desespero venceu e era tarde demais. Eu fugiria no dia seguinte, com a ajuda dele, mas não me passou pela cabeça que eu poderia ter sido traída tão rápido.

Naquela noite, Robert entrou no nosso quarto como um furacão. Ele gritava muito, demorei a entender. Me acusava de coisas que não fiz: de me oferecer a James como uma qualquer. Só tive tempo de pensar “ele me enganou”, então levei o primeiro soco.

O primeiro soco de muitos naquela noite.

***

Eu podia ouvir Carmilla e Dalila cochichando no corredor. Reclamavam da presença de alguém.

—Carmilla!-Chamei. A criada entrou no quarto, ajeitando as tranças ruivas. -Quem está no escritório?

—O seu cunhado, senhora. -Me obriguei a ficar de pé. -A senhora precisa de descanso... Perdeu muito sangue quando... -Acertei um tapa no rosto dela, mandando-a para o chão.

—Não fique no meu caminho, ou juro que a matarei com minhas próprias mãos.

Antes de sair, peguei o revólver que vi Robert esconder no armário de manhã e rumei para o escritório. James estava encostado na escrivaninha quando cheguei.

—Ludmille... Você está... Horrível.

—Seu irmão matou o próprio filho ontem, sabia?

—O que...?

—Aquela sua mentira acabou levando a uma agressão. Meu bebê não resistiu.

—Eu não... Fazia ideia. Achei que uma surra apenas a faria entender que não há como fugir... -Ergui a arma, mirando nele. -Ludmille, abaixe isso.

—Você é baixo, desprezível e nojento, como seu irmão. Eu espero que arda eternamente no inferno.

—Ludmille...

Comecei a disparar, descarregando a arma. James caiu sobre a mesa, ferido. Alguém gritou meu nome e me agarrou, tirando o revólver das minhas mãos. Desarmada, fui empurrada para o lado e caí, batendo a cabeça num móvel, antes de atingir o chão.

***

James passou o resto de seus dias numa cama. Morreu antes que eu me transformasse em vampira, aos 18 anos. Foi outra morte da qual eu não me arrependia.

No fim das contas, James teve sorte. A “Noiva de Sangue” podia ter ido visitá-lo.

Essas não foram minhas únicas lembranças.

***

—Você sequer parece triste. -Minha mãe alfinetou, do outro lado da mesa. Obrigada por destruir o jantar, mamãe.—Podia agir como uma viúva...

—Eu só estaria de luto por Robert se tivesse perdido o juízo. -Retruquei. -Ele era um homem ruim, cruel e violento. Passei cinco anos sofrendo nas mãos dele, enquanto vocês se faziam de surdos e cegos.

—Ele era seu marido. -Meu pai lembrou.

—E isso significa que ele podia fazer o que bem entendesse comigo? Que tipo de sociedade é essa, que se cala diante ao sofrimento de suas mulheres?-Fiquei de pé. -Vocês nem se importam, não é? Não se importariam se fosse eu num caixão em vez de Robert.

—Como ousa falar conosco desse jeito, dentro da nossa casa?

—Eu quero que vocês vão para o inferno!-Avancei nele, quebrando seu pescoço. Minha mãe gritou e tentou correr. -Aonde vai, mamãe? Nós ainda não conversamos...

***

Me sentei, repentinamente alerta. Eu tinha um plano.

Uma hora depois, Bonnie estava entrando na sala, com o grimório em mãos.

—Obrigada por vir.

—Você disse que precisa de um feitiço?-Perguntou. Assenti.

—Você pode impedir que alguém entre aqui, usando um feitiço?-Pensou um pouco, os dedos batendo no grimório.

—Posso. Mas preciso da permissão dono da casa e de algo da pessoa que não pode entrar.

—Permissão eu consigo de algum dos garotos, mas...

—Pode ser um pouco de cabelo, ou sangue... Ou um objeto pessoal.

—Só um segundo. -Peguei o relógio de bolso que pertencia a Robert e voltei pra sala rapidamente. -Era do meu... Marido. Está há anos comigo, será que funciona?

—Vamos descobrir.

Trouxemos algumas velas para a sala e uma vasilha de prata. Bonnie sentou no chão, as pernas cruzadas.

—O que estão armando?-Damon perguntou, entrando na sala.

—Preciso que me dê permissão para fazer um feitiço aqui. -Bonnie avisou.

—Que tipo de feitiço?

—Um que não permita o ex-marido de Ludmille entrar na casa. -Damon olhou pra mim, sem a expressão de deboche e voltou a encarar a bruxa.

—Permissão concedida.

Bonnie assentiu, e então começou. Me mantive um pouco afastada, assistindo enquanto a garota dizia palavras que eu não entendia e jogava o relógio na vasilha. Quando o fogo engoliu o objetivo, uma sensação de queimação encheu meu corpo.

—Ludmille, o que foi?-Damon perguntou, me alcançando antes que eu caísse. -O que você fez, bruxa?

—Tire-a da casa! Tire-a agora!-Damon me arrastou para fora, a sensação desapareceu.

—Que droga foi essa?-Tentei entrar de novo, hesitante, mas era como bater numa parede invisível.

—Me convide pra entrar. -Mandei, batendo na barreira.

—Mas você...

—Me convide!

—Entre. -Mas a barreira ainda estava lá.

—Bonnie? Droga... O feitiço me colocou pra fora, não é? O relógio estava comigo por muito tempo.

—Provavelmente. -Murmurou.

—Desfaça o feitiço, então. -Pegou o grimório.

—Assim que eu descobrir como.

***

DOIS DIAS DEPOIS

—Obrigada pela ajuda. -Jenna agradeceu. -Pode levar isso para fora?-Me entregou uma pilha de pratos de plástico. Churrasco na casa dos Gilbert.

—Claro. Eu... Ainda não vi Elena.

—Ah, ela está lá fora.

—Okay.

Saí, observando as pessoas que já estavam no quintal dos fundos: Alaric, Matt, Bonnie e Jeremy. O último veio falar comigo, enquanto eu deixava os pratos na mesa.

—Anna deixou a cidade.

—Olá pra você também, pequeno Gilbert. -Brinquei.

—Você disse a ela para ir.

—Mystic Falls é perigosa. Eu já vi o que um Conselho motivado é capaz de fazer. Pearl e Anna fizeram o certo. Lamento se gostava de Annabelle, mas é mais seguro para ela e a mãe...

—Que se dane. -E passou por mim.

—Garoto...

—Desculpa por isso. -A voz de Elena veio de trás de mim, continuei observando Jeremy se esquivar de Matt e entrar na casa.

—Eu entendo, ele está chateado. Mas vai superar.

—É o que os jovens fazem. -Me virei. Não era Elena. Era Katherine. Merda!-Tudo bem?

—Sim, só fiquei preocupada com o seu irmão. Vou ajudar Jenna com o resto das coisas.

—Okay.

Entrei na casa e fui para a sala, pegando meu celular no bolso do jeans. Comecei a digitar o mais rápido possível.

DAMON, PROBLEMAS. KATHERINE ESTÁ SE PASSANDO POR ELE...

Então alguém quebrou meu pescoço.

***

Eu acordei furiosa. Meu celular não estava em lugar nenhum e eu demorei a me localizar. Katherine tinha me arrastado para longe da casa. Já tinha anoitecido.

—Vou fazer picadinho daquela vadia... -Murmurei, voltando para a casa dos Gilbert.

A porta principal estava aberta. Eu podia ver Katherine lá dentro, falando com Matt e Bonnie. Comecei a entrar, quando alguém me agarrou e puxou para fora. Damon. Cobriu minha boca com a mão e fez um gesto, pedindo silêncio. Espiou pela porta, e deve ter visto que o caminho estava livre, pois me arrastou até o banheiro. Trancou as portas e ligou a torneira da pia.

—O que está fazendo?-Perguntei.

—Katherine está lá em baixo, se passando por Elena.

—Ah, jura? Estou chocada.

—Temos que tirá-la daqui. Mas não dá pra pegá-la pelo cabelo e jogá-la na rua.

—O que vai fazer?

—Eu não sei. Vou esperar Stefan chegar. Ele é o cara dos planos. Eu só participo da ação.

—Eu tenho um plano: você vai lá, fingindo não saber que Katherine está se passando por Elena. Jogue seu suposto charme nela...

Suposto?-Parecia muito indignado, ignorei.

—E a leva para fora, onde ninguém nos verá quebrar o pescoço daquela vadia. Entendeu ou desenhos serão necessários?

—Suposto charme?

—Desculpe se eu sou imune a esse tipo de coisa. Podemos partir pro plano agora?

—Nunca vou te perdoar por essa ofensa.

—Ah, Damon, vai se fo...

—Olha a língua. -Fechou a torneira e abriu a porta. -Vamos antes que... Ops. -Jenna olhou pra nós, um pouco espantada e confusa.

—O que estavam fazendo?-Perguntou.

—O que caras e garotas fazem juntos no banheiro. -Sorriu e passou por ela. Jenna olhou pra mim.

—Não é o que está pensando, eu juro. -Avisei.

—Okay. -Murmurou. -Então tudo bem.

Descemos juntas e fomos pra fora. Damon começou sua parte do plano, mas Katherine não parecia impressionada.

—Espera. -Jenna pediu. -Damon estava enfiado no banheiro com você, minutos atrás e agora está dando em cima de Elena?

—Nós não temos nada.

—Vocês estavam trancados no banheiro.

—Não somos namorados. -Jogou as mãos pra cima.

—Nunca vou entender esses relacionamentos de hoje em dia. -E foi falar com Alaric.

Um Damon decepcionado passou por mim e foi para a cozinha. O segui, ligando a torneira. Katherine devia ter uma ótima audição.

—Parece que você não é a única imune ao meu “suposto charme”.

—Então talvez você não tenha nenhum. -Alfinetei. -Que bom que temos uma arma secreta.

—Que arma secreta?

—Aquela. -Apontei para Stefan, na porta da cozinha. -Que bom que apareceu, precisamos do seu charme.

—O que?-Perguntou, confuso. Damon bufou e resmungou algo como “estamos ferrados”.

—É o seguinte...

Mas Katherine também não deu bola para Stefan. Damon disse “eu avisei”, quando o irmão voltou até nós.

—Algum plano C?-Perguntou, pegando um copo de bebida, que eu tirei dele. -Ei.

—Apenas observem. -Fui até Katherine, tentando minha melhor imitação de uma Ludmille bêbada. -Elena, você voltou! Katherine estava aqui. -Abaixei o tom de voz. -Ela se passou por você.

—O que aconteceu?-Perguntou.

—Não sei. Acho que ela se foi. Deve ter ficado com medo de ser pega... -Dei de ombros, fazendo o movimento ser um pouco desajeitado para encobrir o fato de ter despejado bebida nela de propósito. -Ops. Desculpa! Eu sou um desastre... Desculpa, desculpa!

—Tudo bem. -Largou o próprio copo. -Acho que vou trocar de blusa.

A segui até o quarto de Elena, continuando com o papel de bêbada.

—Sério, desculpa, Lena.

—Sem problemas. -Fechou a porta e cruzou o quarto em segundos, agarrando meu pescoço. -Você é uma péssima atriz. -Ajeitei minha postura. A porta abriu e os Salvatore entraram. Katherine me puxou para a frente dela, o braço em volta do meu pescoço -Olá, meninos.

—Cadê a Elena?-Stefan exigiu.

—Pergunta desnecessária. Como se eu fosse dizer. A única coisa é que... Tomara que hoje não seja lua cheia, ou Elena vai virar comida de lobisomem.

—O que?

Então ela me empurrou para frente, e de novo os garotos se moveram para me pegar antes que eu caísse. Katherine não estava mais lá.

—Vocês tem que agarrar ela e não eu!-Gritei, tirando o cabelo do rosto.

—De nada. -Damon zombou.

***

—O que ela quis dizer com “comida de lobisomem”?-Bonnie perguntou. Dei de ombros.

—Oh meu Deus!-Caroline gritou. -Eu sei, eu sei onde Elena está!

—É um milagre. -Damon murmurou.

—É onde Tyler vai quando está para se transformar. Sabem onde ficam?-Os Salvatore assentiram.

—Nós vamos pra lá. -Foram pra porta, os segui. -Você fica.

—Quero ajudar. -Avisei.

—Alguém precisa ficar caso Katherine volte. Caroline terá o pescoço quebrado no primeiro segundo de luta.

—Eu ouvi isso!-A loira gritou, da sala.

—Lud?

—Eu fico. -Cedi. -Vão.

Fechei a porta e sentei na varanda, vendo os garotos partirem. Era bom Katherine ficar escondida por uns dias. Ela tinha irritado Stefan e Damon pra valer.

Ouvi um som estranho, então uma forma masculina cambaleou até a varanda.

—Matt?-O segurei antes que ele caísse. Havia um corte grande no pescoço dele. -Quem fez isso com você?

—Katherine. -Sussurrou. -Ela tem um recado pra você. -Segurei melhor o garoto.

—Que recado?-Engoliu seco.

—Beba até o fim.

Notas finais
Eitaaaa, e agora, será que o Matt já era ou a Lud consegue segurar seu lado Noiva de Sangue? No próximo cap, o grupo sobrenatural e humano de Mystic Falls estará cara a cara com um Origial que pode ou não ser uma ameaça. Recadinho: eu vou viajar essa semana, e não sei quando volto, por isso não sei quando o próximo capítulo será postado. Bem, é isso. Boas festas, pessoal! Comam bastante, viu? E divirtam-se! ♥