Delirious
11 11. Quando a galera se reúne.
Capítulo 11. Quando a galera se reúne.
Narrado por Miguel:
Começo com um suspiro inconformado.
Ele me socou e agora meu rosto dói. Mas não estou com raiva dele, estou com raiva de mim. Afinal o que mais podia esperar, além de um soco depois do que fiz? Me meti com quem não devia e agora tenho que sofrer as consequências.
Porque não contive minha língua?
Confesso que estou raiva dele também, mas é normal sentir isso depois de toda a discussão. Ele não aceitou a verdade de jeito nenhum, não consegui argumentar o suficiente para fazer as verdades entrarem naquele cérebro.
Depois o deixei no portão de sua casa sem dizer mais nada, virei e fui embora. Não tinha clima para ficar na casa dele.
Também não queria voltar para minha casa. Meu destino era ir para casa do Pablo, pois sempre que acontece uma tragédia é lá que encontro meu refúgio.
Encontrei Vinicius sozinho no pátio. Ele estava escorado no muro fumando. Cumprimentei e ganhei um aceno em resposta.
Vinicius até agora é o único não mencionado, isto porque ele não faz nada, não diz nada, mas acredite: em todas as cenas até agora ele esteve sempre presente. Vinicius está sempre por perto. Se acham Pablo calado e indolente, não imaginam como é esse cara. Ele simplesmente não fala, de sua boca só saem coisas do tipo: Uhum, sei, hum, huh?
Difícil ouvir um "não" ou "sim" dele, apenas faz um leve aceno respondendo alguma pergunta. Ninguém o entende. Vinicius é o baixista do Bitch. De todos nós ele é o que mais chama a atenção, não só pela carinha bonitinha, pelo estilo e esse jeitão todo caladão que deixa qualquer um de quatro.
Qualquer um menos eu.
— Cadê o pessoal? — perguntei iniciando um assunto. Ele fez um gesto sutil com a cabeça indicando que estavam dentro da casa. — E porque você tá aqui fora?
Deu os ombros e eu compreendi na mesma hora.
— Ah entendi. — Rodei os olhos. Provavelmente aqueles dois estavam de perversão lá dentro.
Acendi um cigarro também. Me escorei numa arvore na frente do muro e fiquei ali com ele, observando o nada, naquele silêncio agradável.
Acho que agora me sinto um pouco melhor.
— Aconteceu alguma coisa? — questionou Vinicius de repente. Pisquei surpreso.
Difícil (para não dizer impossível) ouvir ele fazer alguma pergunta, geralmente faz pouco caso dos problemas alheios. Mirei meus tênis sujo.
— Tá tão na cara assim que tô bolado? — assentiu. — é acho que não sou tão bom em disfarçar quanto pensei.
— Você é mais transparente do que pensa. — Sabe aquele momento que você fica completamente pasmo com algum acontecimento muito sinistro? Pois é, eu estava bem assim.
— Cara, você tá doente? Bebeu, cheirou ou fumou algo diferente hoje?
— Por quê?
— Sei lá, não te ouço falar tanto. — Vinicius soprou a fumaça para o alto e me olhou. Uau! O que foi aquilo? O cara é sexy mesmo. Tá, antes que alguém surte, já me adianto dizendo que não vai rolar. Tá? Não é meu estilo.
— Falo só quando acho necessário. — respondeu. É, percebe-se. — também não gosto de falar quando tem muita gente junto.
Mesmo assim é estranho. Pois quando nosso grupo se reúne ninguém fala muito, eu sou o cara que mais fala no meio desses loucos. Pensa comigo: Pablo é calado, Vinicius é um cara de poucas palavras (muito poucas). Marcelo, o outro guitarrista também não é muito de falar, exceto quando bebe. E o vocal... Ah é, tinha me esquecido dele, o Junior (ou Juninho) é aquele que fala pelos cotovelos.
Enfim, quase ninguém dentro do grupo fala muito — acho estranho ouvir Vinicius argumentar aquilo. Ah dane-se.
— Hm. — resmunguei, melhor não contrariar. Passou-se um tempo e Vinicius voltou a tocar no assunto.
— Se quiser conversar fique a vontade não me importo em ouvir. — pra quem não fala muito ele tá falando demais para o meu gosto.
Acho que não falei das características físicas desse cara ainda né? Ele é um pouco mais alto que eu, cabelo preto e longo, olhos castanhos e sua pele é bronzeada. Imagine um poste e você chega lá.
— Briguei com o anão. — respondi com chateação. Mas fomos interrompidos por uma tosse encatarrada que vinha da porta. Era o Pablo. Ele saía da casa descalço e sem camisa. Quando notou nossa presença ali se aproximou já pedindo cigarro.
Vinicius estendeu seu maço. Eu que não ia dar o meu cigarro.
— O que vocês dois estão fazendo aqui, porque não entraram? — Pablo vestia apenas uma calça jeans preta e desbotada, estava com o peito desnudo todo suado e alguns fios da franja caiam nos olhos.
Assobiei.
— Pelo jeito a coisa lá dentro foi animal. — Ele riu de canto, mas não disse nada. — Que inveja, hein?! — continuei provocando-o, mas novamente não comentou nada a respeito. — Não é todo mundo que tem uma vida sexual tão ativa como a sua.
Pablo detesta falar de sua vida intima, pois ela envolve seu primo.
— Todo mundo ou só você? — provocou com um sorriso malicioso. Meu sorriso morreu no mesmo instante.
— Vejam só, ele sabe fazer gracinha — sim estou ofendido. — Faz tempo que não faço sexo.
Bufei e acrescentei. — Tô me sentindo virgem outra vez.
Vinicius sorriu de canto e aquele sorriso me pareceu malicioso demais para o meu gosto. Ah, acho melhor ficar longe desse cara, vai saber o que um louco desses pensa. Aliás, o que ele quer rindo de mim? Ele não parece alguém que faz sexo.
Verdade não dá pra imaginar esse cara trepando.
Impossível imaginar.
Totalmente impossível.
Definitivamente ele não deve fazer muito sexo.
Esse cara faz sexo? Já fez sexo alguma vez na vida? Não, não espera! Ele com certeza não é mais virgem, ainda mais com tanta mulher no pé dele. Porém também não faz sexo. Tenho certeza. E também não parece o tipo que se masturba.
Não dá pra imaginar algo do tipo, sinto náuseas quando penso nisso. Eca! Ele não deve fazer nenhum tipo som, deve ser o mesmo que fazer sexo com um robô. Tá chega disso. Ah, cacete quero vomitar.
— Alô, Piêtro. — era o Pablo no telefone. — Tem uma garrafa de vinho aí dentro, pega e me traz aqui fora. — pausa e eu ouvi os gritos histéricos do Piêtro do outro lado da linha.
Acho que toda rua ouviu os berros dele. Pablo falou mais alguma coisa e em seguida desligou. Não tardou e um Pietro vestindo uma regata larga e uma bermuda de surfista apareceu no pátio, trazendo nas mãos uma garrafa.
— E os copos? — perguntou Pablo.
— Se quer tanto, pegue você mesmo. — Dito isso o garoto retornou para dentro de casa com passadas largas. Pablo ficou um tempo olhando o caminho percorrido pelo primo com um olhar distante.
— É impressão minha ou as coisas andam um pouco... Tensas entre vocês? — perguntei. Pablo me olhou, fez um bico de lamentação e suspirou.
— Não é impressão, o clima anda tenso mesmo. — Pablo sentou-se na grama debaixo da árvore aonde eu me encontrava em pé, imitei seu gesto, sentando ao seu lado. — Ele tá numa fase rebelde.
Pra quem não sabe Pablo é órfão, ele morou por anos com a tia (mãe de Piêtro) Greice. Bem, é um drama familiar muito pesado. Pablo perdeu os pais num assalto, quando tinha doze anos. Greice é irmã caçula de sua mãe, não sei o nome dos pais dele, tudo que sei é que a tia é viciada em drogas. E que ao completar dezoito anos Pablo fugiu de casa arrastando Piêtro junto, segundo ele a vida com Greice havia se tornado um inferno. Os dois foram atrás do pai de Piêtro, mas o homem não queria ver o filho nem pintado de ouro, no entanto ajudou-os com a comprar aquela casa onde viviam e o resto deixou nas mãos de Pablo. Por isso ele trabalha, estuda e cuida do primo ingrato. É, nem todo mundo vive num mundo cor de rosa como os idiotas dos amigos de Natan.
— E por que? — perguntei um tempo depois.
— Porque? — ele abriu a garrafa e bebeu um gole, estendendo pra mim. Bebi um gole longo ouvindo-o concluir. — Meu primo não aceita que enquanto estiver vivendo as minhas custas, terá que aceitar as minhas regras.
— O que houve dessa vez? — perguntou Vinicius para o meu espanto.
Pablo ergueu os olhos para mirá-lo e eu notei de relance um certo abalo.
— Eu sinto que ele 'tá querendo se afastar de mim.
— Como assim? — perguntei estendendo a garrafa para o Vinicius. Fiquei realmente interessado no assunto.
— Ele não aceita minha natureza monopolizadora. Quando eu digo que não quero ninguém no meio de nós é porque não quero e tem que acabar o assunto.
Depois eu que sou o monstro.
— 'Tá, mas ele quer alguém no meio de vocês? — perguntei espantado.
— É, tem alguém que ele olha na escola.
— Quem?
— Você não conhece.
— Vocês precisam sentar e conversar sobre isso. — Disse Vinicius.
Porra hein, o Vini tá empolgado hoje.
— Vocês brigam demais. — falei lembrando de quantas vezes vi Pablo com hematomas pelo corpo.
— É e todas nossas brigas acabam na cama. — respondeu ele, rindo.
— O único jeito de deixar seu primo vulnerável é levando ele para cama. — tanto eu quanto Pablo olhamos para o Vinicius espantados.
— Me devolve essa garrafa aqui, você já tá falando demais. Anda passa logo essa merda. — ele me estendeu e eu entreguei para o Pablo. — Cara, não dá mais vinho pra ele.
Rimos.
O Vinicius podia ser quieto, mas no fundo no fundo eu gostava de sua honestidade.
— Tá chega de falar disso. — sentenciou Pablo mostrando cansaço e em seguida me encarou e perguntou. — E você por onde andou nesta tarde?
— Por aí. — desconversei também, Pablo ergueu uma sobrancelha.
— Aposto que tava com aquele idiota. — não foi uma pergunta, e sim uma afirmação.
— Não fale assim dele.
— Falo se eu quiser. — riu. — você fala o mesmo ou pior do meu primo.
— Porra, cara chato.
— Anda vomita logo suas frustrações. — disse.
— Não faço ideia do que você tá falando.
— Sempre que faz merda você corre para cá, eu te conheço com a palma da minha mão. E esse troço roxo na sua cara entrega tudo.
Rodei os olhos.
— Preciso de um cigarro. — murmurei.
Acendi a porcaria do cigarro, dei uma tragada longa e demorada. Tenho que parar de fumar, detesto o cheiro do cigarro. Olhei o céu estrelado. Mas que porra de melancolia era aquela?
Caralho, isso não combina com a gente, comigo principalmente.
Depois de tudo o que aconteceu ontem, eu pensei que as coisas iam melhorar, mas não: o idiota aqui tinha que abrir a boca e colocar tudo a perder.
— Porra, ninguém queria o cara e agora que eu resolvi investir todo mundo resolve querer. — Explodi cansado atraindo olhares curiosos.
— O que aconteceu? — Pablo perguntou.
— Tenho certeza que o otário do amigo do anão tem segundas intenções com ele.
— Qual dos otários você se refere?
— Aquele que apanhou. — respondi e Pablo abriu os olhos surpreso.
— Sério? — perguntou parecendo espantado.
— Sim.
— Mas tem certeza ou é só suspeita? — Vinicius perguntou. Fiquei um tempo pensativo.
— Não me diga que aquele desgraçado que fez isso no seu rosto? — Pablo quis saber cravando seus dedos de unhas pintadas de preto no meu queixo e estreitando os olhos.
— Ei, mais amor, por favor. — me esquivei e massageei o local que provavelmente ficará vermelho mais tarde. — Não, não foi ele. Acha mesmo que eu ia perder para aquele cara?
Pablo me olhou com a testa franzida.
— Não brinque com isso, aquele cara é bom de briga. — Ergui uma sobrancelha para o comentário.
— Não me leve a mal, mas eu sei me defender muito bem, obrigado. — ninguém riu da piada, Pablo ficou mais serio ainda.
— Se cuida, aquele otário sabe dar porrada. — respirou fundo. — Odeio admitir, mas dei sorte de ter caído em cima dele aquele dia.
Fiquei pasmo e rapidamente rebati:
— Tá brincando né?
— Não, aquele infeliz podia ter quebrado os ossos do meu primo e os meus junto. — riu como um infeliz. — Aquele desgraçado...
Respirei fundo.
— Mas e aí, o que te faz pensar que ele tem o mesmo mau gosto que você para estar atrás do seu franguinho?
Ignorei o comentário ofensivo do meu amigo Pablo a respeito do meu anão.
— O jeito que ele nos olha.
— Deve ser impressão. — rebateu Pablo sem pensar duas vezes.
— Não é.
— Convicto você, hein.
— Não é isso, eu sinto. O jeito que ele olha pro Natan é o mesmo jeito que você sabe quem me olha.
— Ah... Então é! — disse Vinicius e já nãos nos espantando — Mas cuide-se, o ciúme cega nossos olhos. Só vendo ao vivo e a cores para ter certeza.
— E você decidiu comentar isso com o garoto? — perguntou Vinicius e só então lembrei que ele ainda estava ali.
Suspirei inconformado.
— Sim.
Pablo fez um gesto negativo com a cabeça me censurando.
— Parabéns, você é um grande idiota. — ralhou.
— Eu sei.
— Pois é. — concordou Vinicius.
— Então o soco foi merecido. — comentou um sarcástico Pablo.
— Obrigado, grande amigo você, agora me sinto melhor. — Agradeci sorrindo. Sarcástico que só.
— Disponha.
— E agora não sei o que faço para ajeitar as coisas.
Pablo respirou fundo.
— Não sei cara. Aquele franguinho é muito esquentadinho. Eu tô fora dessa, ele fede a encrenca.
De repente o telefone do Vinicius começou a tocar. Observamos ele apanhar o aparelho do bolso, visualizar com a face serena, apática e em seguida guardar de volta.
— Quem era? — Perguntou Pablo.
— Uma mensagem do Junior.
— O que ele queria? — perguntei.
— Lembrar do ensaio amanhã a tarde.
— Porra, tinha me esquecido completamente do ensai- — Arregalei os olhos me lembrando de algo interessante. — Como eu não tinha pensado nisso antes?!! — exclamei atraindo a atenção dos dois. — Vou levar ele no Ninho de Ratos amanhã à noite
Ninho de ratos é quase uma casa noturna, onde o Bitch costuma se apresentar no centro de Nova Aliança. Vi os dois se entreolharem.
— Tem certeza disso? Olha sinceramente acho que não é uma boa ideia. — Resmungou Pablo com o cigarro na boca.
— É uma ótima ideia.
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