Delilah Winterbell, o Fogo da Morte
3 Requiem
Uma brisa fria. O cheiro de grama.
Um toque molhado tão conhecido. Delilah estremeceu, se lembrando das manhãs aconchegantes da primavera.
“Acorde, Delilah.”
Lentamente, a garota abriu os olhos. Estava em uma clareira, árvores grandes se erguiam ao seu redor e, quando olhou para o céu, viu que estava escuro, mas a luz do astro rei já começava a mudar a cor do céu e trazer luz ao mundo.
“Que bom que acordou.” A mesma voz falou, mas conseguiu sentir sua presença mais a frente.
Ao olhar, viu a figura de Harpe, um tanto transparente e lhe sorrindo. Ficou em choque por alguns segundos. Conseguiu sentir algo pulsando no seu peito, doendo. Inclinou-se para frente, sem conseguir não gemer de dor. A pulsação aconteceu novamente. Quando olhou, viu Harpe inclinado na sua frente, com a mão em seu ombro.
“Calma, respire fundo.”
Ela acenou com a cabeça, seguindo as instruções, respirando fundo. A dor foi cessando lentamente, até parar completamente. Delilah levantou o rosto para Harpe, que passou a mão no alto da sua cabeça, sorrindo.
“Boa garota. Boa garota.” Podia jurar que sentiu seu rosto ficar quente, e fez uma careta, Harpe riu. “Não faça essa cara.”
–... O que aconteceu?
O rapaz suspirou, cruzando os braços.
“Parece que o trem descarrilou, mas você foi jogada para fora antes disso acontecer.”
Harpe ficou encarando Delilah em silêncio, ou talvez o correto fosse dizer o contrário. O rapaz de cabelos branco pigarreou.
“E parece que parte das almas e até mesmo a fornalha se fundiu a você.”
A garota ficou boquiaberta e arregalou os olhos, ficando de pé imediatamente. Queria falar alguma coisa, mas nada saia da sua boca. Balançou a cabeça e literalmente gritou.
– Do que você está falando?!
Harpe suspirou, coçando a nuca.
“Bem, é algo difícil de explicar...” Ele respirou fundo. “Mas, não acho que você precise se preocupar sobre isso.”
– Por quê?! A... Coisa que tentou me destruir está preso dentro de mim! – Ela bateu no peito com ambas as mãos, sentindo a dor no peito de volta. – Como eu não posso me preocupar?!
“Por que não é mais um perigo.” Ele suspirou. “Eu diria que não demos tempo para ele conseguir tomar seu corpo, então só conseguiu passar parte do poder dele para você, e consequentemente, algumas almas.”
Delilah caiu no chão, boquiaberta. Agora, com sua mente em silêncio, na realidade conseguia escutar os gritos novamente. Balançou a cabeça, tentando espantar aqueles fantasmas da sua mente.
– Eu não os quero comigo! – Ela bufou, pressionando os lábios, olhando para Harpe de volta.
Ele parecia triste, olhando para baixo. Delilah se adiantou, tentando segura-lo pelos braços, mas suas mãos apalparam um nada, parando no meio do peito de Harpe. Ela recuou, assustada.
“... Eu sou uma dessas almas.” Ele suspirou, sorrindo para ela sem jeito. “Mas, somos mais do que eles.”
– O que você quer dizer?
“Bem, não sei bem. Apenas sei.” Harpe olhou para o lado, sem jeito, coçando a bochecha com o indicador.
Um cheiro de queimado encheu o ar, uma fumaça começou a aparecer debaixo dos pés de Delilah. Ela andou para trás, um tanto abobalhada, vendo que seus pés ficaram marcados com fogo na grama. Harpe se aproximou imediatamente, passando a mão no alto da sua cabeça.
“Por favor, se acalme Delilah. Tudo vai ficar bem, ok?”
– Eu... Eu... – Delilah abaixou o olhar assim como a cabeça, suspirando um tanto desanimada, sorriu tristemente. – O que afinal virou minha existência?
Harpe ficou em silêncio, sem saber o que falar. Ele olhou para o lado, tentando reunir palavras em vão.
– Eu por acaso tenho minha alma? Por acaso todas essas almas vão ser consumidas no meu lugar? — A garota permaneceu sorrindo tristemente. – Depois de tanto tempo eu consigo sentir meu coração bater novamente. Mas, isso é uma benção ou uma maldição? Afinal, eu só vou conseguir viver se outros morrerem em meu lugar... Não é?
Ela levantou o olhar para Harpe, com lágrimas em seus olhos. Ele tentou sorrir, passando a mão em seu rosto, mas Delilah, agora prestando atenção, apenas sentia um choque leve onde ele passava a mão.
“Não, você não precisara consumir mais nenhuma vida dessa terra, Delilah.” Ele pousou a mão livre em cima do seu coração. “Ninguém mais terá de morrer se você controlar seu poder.”
A garota engoliu seco e acenou com a cabeça, tremendo.
– Delilah Winterbell. – Uma voz muito familiar soou logo atrás da Delilah, ela se virou assustada.
Lupus estava parado, com uma expressão inexpressiva.
– L-Lupus... – Um sorriso desbotou dos cantos dos lábios da garota, mas quando ele não moveu nenhum músculo, logo este desapareceu.
–... Você está com muitas almas que não deveriam estar nesse mundo. – O homem ergueu a mão direita, apontando uma arma escarlate para a garota. – Inclusive você.
– Não, você não está falando sério, está? – Delilah sorriu nervosa.
Uma explosão soou rapidamente e sentiu seu corpo ser empurrado para trás por uma força muito forte e localizada no seu coração. Uma dor aguda se apossou do seu corpo, e se inclinou para frente, colocando a mão sobre a dor se sentindo algo espesso escorrendo por entre seus dedos. Olhou, aterrorizada, para o sangue coagulado em sua mão.
“Delilah!”
No segundo seguinte, seu corpo se impulsionou velozmente para o lado, e um pouco de terra foi levantado com o segundo tiro de Lupus.
– Pare com isso! – Sua boca se moveu, mas o tom era obviamente completamente diferente do dela. – Delilah não é culpada de nada!
– Tsc... – Uma segunda arma surgiu na outra mão de Lupus.
Brilhos rosados começaram a cortar o ar em direção da Delilah, tirando pedaços de terra e grama do chão quando erravam. No entanto, apesar de Harpe saber bem como evitar algumas coisas, o corpo da Delilah não estava preparado para ação, inclusive a própria estava lutando para reaver o controle, o que fez com que alguns cortes surgissem em seu corpo pelos tiros que erraram e rasparam.
“Por favor, pare!” Delilah gritou, mas somente Harpe conseguiu escutar.
O corpo da garota deslizou os pés pela grama molhada, colocando a mão no chão, forçando uma curva abrupta e rápida, seguida de um avanço repentino em direção do atirador. Lupus soergueu os olhos, apontando ambas as armas na direção da garota, atirando varias vezes e certamente a acertando, mas ela não recuava.
A mão direita, que estava recuada junto ao corpo até agora, foi rodeada por uma luz avermelhada, que se estendeu para lados opostos, lentamente criando uma arma naquela posição, com um anel sendo seu centro, onde sua mão cabia perfeitamente para segura-lo.
Ela fez um impulso final contra o rapaz, deixando um rastro vermelho e púrpuro atrás de si, marcando o rastro da arma. Ao cair atrás de Lupus, ela se voltou para as costas do rapaz, usando novamente a mão esquerda para formar o centro do seu arco e avançou mais uma vez, mas dessa vez a arma rodava pelo anel. As lâminas que partiam do anel formavam um anel de morte, que foi lançado em direção do rapaz.
– Lâmina Encantada! – Ela gritou depois de fazer alguns sinais com a mão.
A arma pareceu ganhar vida própria. Lupus pulou para o lado, evitando a vinda acelerada da arma que emitia magia, mas ela voltou como se estivesse sendo controlada para voltar na direção do seu alvo, forçando o rapaz a pular mais uma vez. O ciclo repetiu mais duas vezes antes dela desaparecer no ar e reaparecer na mão da garota.
Lupus se voltou, encarando-a assombrado, e para sua surpresa, chamas pareciam cobrir pontos localizados de seu corpo, consumindo seu sangue escuro quanto seus ferimentos. Ao sumir, os ferimentos estavam fechados.
– Não acreditou que conseguiu forçar uma alma a trabalhar para você. – Um sorriso raivoso estava nos lábios de Lupus, que apontava novamente a pistola para sua cabeça.
– Ela não me forçou. – Foi a resposta, num tom surpreendentemente calmo. – Nossas existências estão entrelaçadas agora...
– Diga seu nome. – A arma foi engatilhada.
–... Harpe Noir.
– Ah, a alma de valor. Estavam sentindo sua falta em Hades mesmo. Acho que não posso esperar uma caçada fácil quando você está envolvido.
Uma das armas desapareceu e Lupus segurou a restante com ambas as mãos, a luz rosada ficou mais forte na ponta da arma, acumulando energia.
Harpe ficou com o corpo tenso.
– Delegar! – Um tiro maior do que os anteriores foi disparado, uma energia avermelhada e destruidora em direção do corpo da garota.
Uma energia rosada foi emanada do corpo da Delilah e Harpe pareceu simplesmente se tornar um rastro de energia, avançando diretamente contra Lupus. A bala passou reto por aquela energia, para o espanto do caçador, que apenas viu os olhos brancos daquele contorno rosado que formava o corpo da Delilah encarando-o diretamente.
– Investida Astral!
A mão direita ganhou forma física, vindo junto com a arma de lâminas duplas. Harpe movimentou a arma para cima, criando um corte em vertical a partir da virilha do caçador, e ao terminar esse corte, seu corpo voltou completamente a sua forma física, enquanto realizava um arco, visando afundar a outra lâmina na barriga do caçador, com efetividade, mandando-o para o chão na sua frente.
O oponente perdeu o ar por alguns segundos, estremecendo com a mão na barriga. Harpe girou a arma em sua mão, com o corpo relaxado, mas o movimento parecia até um pouco ansioso de alguma forma.
– C-Como...
– Nunca subestime a Guarda Real de Canaban. – Harpe respondeu de forma séria, encarando o homem caído.
Delilah estava em choque, sem acreditar que seu corpo conseguia executar tudo aquilo. Talvez Harpe realmente tivesse noção de como poder ajuda-la...
Aliás, o que era a Guarda Real de Canaban?
– Seu... – Lupus se levantou, rosnando baixo.
Sem qualquer aviso, o caçador avançou contra Harpe, dando um salto no ar e virando o corpo no ar, apontando ambas as pistolas em sua direção e atirando sem parar, formando um arco para cair novamente no chão e começar a atirar mais uma vez, dessa vez a queima roupa. Harpe foi pego de surpresa, sem conseguir desviar ou se proteger. Quando houve uma pausa nos tiros e abriu os olhos, o caçador não estava mais na sua frente e quando ouviu o engatilhar de armas atrás de si, era tarde demais. Foi jogado contra o chão com a sequência de disparos. Seu corpo tremia, nem as chamas estavam dando conta de cuidar de tantos ferimentos ao mesmo tempo, ainda mais com aquele sangramento.
Sentiu ser forçada contra o chão com o pé do rapaz, a arma foi engatilhada, podia senti-la sendo apontada para a sua cabeça.
– Me desculpe, Delilah... – Murmurou Harpe, com dor.
– Morra.
O disparou foi feito. O corpo da Delilah permaneceu no chão, imóvel. Lupus tirou o pé das suas costas e olhou para um rastro de sangue dos seus ataques, se abaixando, tocando no sangue e o analisando.
– Já é incrível um corpo morto sangrar. – Ele esfregou o sangue escuro em seus dedos. – Acho que esperar um sangue podre é o mínimo.
Um calor atrás de si chamou sua atenção, assim como uma energia muito mais forte. Virou-se, encarando surpreso que Delilah estava de pé novamente, com chamas ao seu redor, mas estas pareciam fazer murchar mesmo a vegetação que não tocava. Ela o encarou com os olhos azuis brilhando de um jeito vazio.
– Por que simplesmente não morre? – Lupus apontou a arma novamente para ela, disparando algumas vezes.
Mas, os disparos dessa vez pareciam se dissolver antes mesmo de atingi-la, todos os ferimentos se fechavam quando ela começou a andar na direção do caçador.
–... Mas que merda é essa?
A segunda arma surgiu e ele começou a executar uma sequência dupla de disparos, tentando atingir a garota por trás daquele véu de chamas, em vão.
Ela começou a correr então, a arma surgiu mais uma vez em sua mão direita, e ela atacou formando um arco no ar enquanto girava o corpo, as chamas passaram perto de atingir Lupus, que recuou surpreso. Rapidamente, ela terminou de girar o corpo, fazendo mais um arco com a outra lâmina, tentando atingir mais uma vez em vão o caçador, que foi forçado a se jogar para trás, procurando cobertura atrás de uma árvore.
A árvore rapidamente perdeu suas cores e as folhas caíram secas.
– Apenas vá embora... – Ela murmurou, apertando o anel da arma. – Me deixe em paz.
Lupus não se moveu, nem respondeu, mas conseguiu sentir aquela energia lentamente se afastando e desaparecendo. Ele respirou fundo, passando a mão direita no rosto e no cabelo. O sol já começava a iluminar a leste, deixando-o na sombra da árvore. Ele permaneceu ali até que a presença de Delilah estava longe.
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