Delírio suicida - Ato de desespero
1 Único - Atos.
Notas iniciais
Delírio suicida: Ato de desespero.
O pequeno cômodo onde a garota morava parecia cada vez maior e ela, cada vez mais só. Pairou relutante sob uma pequena caixa de madeira que a deixava alta o suficiente para alcançar o espelho de seu banheiro. O espelho era pequeno e aquilo nem de longe era vidro; era um plástico duro e marcado de unhas por causa de seu surto recente.
Na ponta dos pés, encarou seu reflexo no espelho. Pálida, apática e magérrima, com um peso desproporcional até para sua pouca altura; 1,55. Suas olheiras estavam enormes e ela tinha cortes pelo pescoço.
Sozinha, inútil, patética, feia e... Frágil.
Seus cabelos marrons não estavam mais enrolados e sim quebradiços, sua pele morena parecia mal tratada e seu olhar transmitia cansaço, desilusão, medo, angústia. Fechou-os lembrando de toda sua vida; rejeitada pelos pais, mal amada, traída, iludida pelo o único homem que amava; prostituída, drogada... Uma lágrima escorreu pelos seus olhos castanhos amêndoas. Presa, fugitiva, sem sonhos e expectativas. Encurralada em um quarto com banheiro minúsculo que quando se está só, parece uma mansão extensa. As paredes manchadas como sua alma, sem reboco e o chão sem piso, somente o cimento. Seus soluços esganiçados criaram eco com a falta de imóveis, ela dormia no chão, pois nem cama tinha e acordaram seu gato – negro e de olhos verdes – chamado Leão. Ele se enrolou nas pernas de Maria e ronronou, ela desceu do banquinho e abriu os olhos, fixando seu olhar no do gato.
“Ah, Leão... Mal sabes ti a sorte que possui.” Pensara a morena.
Largou o gato e arrastou seu corpo até a única coisa que possuíra, pois tinha roubado de seu “amor eterno”: Um celular. Nele só tinha uma única música.
Em uma terra de deuses e monstros
Eu era um anjo
Vivendo no jardim do mal
Estragada, amedrontada
O amor não existia, o amor nunca existiu. Sempre fora uma grande farsa para alimentar as expectativas tolas dos seres vivos de que há algo para se lutar.
Fazendo tudo o que eu precisava
Brilhando como um farol de fogo
Você tem esse remédio que eu preciso
Fama, licor, amor.
Dê-me isto devagar
Amigos? Mais uma farsa para tampar aqueles que não caíam no amor. Interesseiros.
Coloque suas mãos na minha cintura
Faça isso suavemente
Eu e Deus
Nós não nos damos bem, então agora eu canto.
Deus, onde está Deus agora? Seria ela mesma sua filha? Uma ilusão...
Ninguém vai tomar minha alma
Vivendo como Jim Morrison
Caminhando para um feriado fodido
Família, donde estás? Mais um buraco para os que não acreditam no amor ou na amizade, traiçoeiros...
Motel, bebedeira, orgias.
E eu estou cantando
Fuck Yeah dê para mim
Isso é o paraíso
O que eu realmente quero
É a inocência perdida?
Inocência perdida
Si mesma, como confiar em si mesmo quando não se sabe quem é e se és confiável? Perder a alma em um bar qualquer, ninguém liga mesmo.
Em uma terra de deuses e monstros
Eu era um anjo
Procurando ser fodida de verdade
Como uma fã anônima
Posando como uma verdadeira cantora
A vida imita a arte
Vida, vida... Para que estamos vivos, qual seria o propósito? Nascer, crescer, alimentar o espírito... Mas alimentá-lo de que, em um mundo tão poluído? Um cigarro a mais não irá poluir.
Você tem esse remédio que eu preciso
Droga atire-a
Direto no coração, por favor,
Eu realmente não quero saber
O que é bom para mim
Deus está morto, eu disse.
"Querido, está tudo bem comigo”.
Esperança... Mas em que ter esperança quando não se mantém em algo?
Ninguém vai tomar minha alma
Vivendo como Jim Morrison
Caminhando para um feriado fodido
Motel, bebedeira, orgias.
E eu estou cantando
Fuck Yeah dê para mim
Isso é o paraíso
O que eu realmente quero
É a inocência perdida?
Inocência perdida
Justiça feita para aqueles que molham a mão, empregos dados àqueles que vós convém.
E agora eu canto
Ninguém vai tomar minha alma
Vivendo como Jim Morrison
Caminhando para um feriado fodido
Motel, bebedeira, orgias.
E eu estou cantando
Fuck Yeah dê para mim
Isso é o paraíso
O que eu realmente quero
É a inocência perdida?
Inocência perdida
Humanos tolos, ridículos... Ela se sentia enojada de ser uma. Encolheu-se no canto do cômodo enquanto Leão perseguia um rato, lá fora chovia e algumas gotas caíam em seu rosto que fitava o teto quebrado e com algumas calhas ameaçando cair, o frio chicoteava sua pele. Lembrava-se de cada risada, de cada rosto, de cada acusação. Ela era apenas uma garota mal orientada, descuidada, fracassada.
Fracassada.
Ergueu os dedos trêmulos até os lábios que estavam com uma coloração arroxeada, arranhou com as unhas e desceu para o pescoço com raiva, marcando um pouco mais sua clavícula e sentindo-a arder. Desceu para os braços, com os pêlos arrepiados e marcou arrastando até o pulso, parou e fez mais força na veia, saindo algumas gotículas avermelhadas; sangue. Fez o mesmo com o outro, os olhos permaneciam fechados e ela soltava uns gemidos de dor.
Abriu novamente os olhos vendo que o gato olhava para ela com uma expressão triste. Será que ele entendia?
Maria jogou o telefone longe, fazendo-o quebrar em pedacinhos. Pegou um grande pedaço de vidro da tela touchscreen e posicionou no pulso, olhou para o gato. Desculpe-me Leão.
Apertou com força o vidro contra o pulso na horizontal para que não possam suturar, caso alguém tente. O sangue jorrou e ela fez o mesmo no outro pulso.
Levantou até o pescoço e cortou a frente, fazendo uma grande linha. Sentindo-se fraca alguns minutos depois, enfiou o vidro no coração e urrou com voracidade. Deitou-se no chão e Leão se aproximou, deitando em frente sua barriga com os olhos verdes brilhando.
Porque eu mereci viver isso tudo? Porque eu?
A última lágrima escorreu de seus olhos antes que ele perdesse a cor, o brilho. A poça de sangue encharcou o pobre felino, que subiu em cima do cadáver na dona e em sua sombra podia se ver claramente asas. Em um miado, a alma de Maria deslizou e as asas bateram.
Mais uma quebrada.
Fale com o autor