Dejame Ser
1 A pergunta melancólica
Grimmauld Place, n. 12. Ano de 1995
Voldemort havia regressado. Aos poucos, a paz ia se dissolvendo no ar, até que não restasse nada mais. Nesse meio tempo, Tonks sentia-se diferente quando Remo estava por perto: sentia-se mais segura, mais firme, mais confiante, mas ao mesmo tempo sentia-se bastante boba, infantil, como se desejasse chamar a atenção do lobisomem para si.
Ambos já sabiam do amor sentido um pelo outro — assim como todos ao seu redor -, porém Remo não se deixava levar por esse amor, alegando ser velho demais, pobre demais e perigoso demais para a garota dos cabelos rosados. Ela já havia dito que não se importava com nenhum dos itens citados por ele, dizendo que eram motivos bobos, que poderiam superá-los. O problema era que o lobo não queria ceder à maior tentação de sua vida: Ninfadora Tonks.
— Hey, Tonks! – chamou ele.
— Sim, Remo? – ela o responde, sempre com aquele olhar esperançoso.
Estavam somente os três na casa – Remo, Tonks e Sirius – e por isso ele tomou a iniciativa, pois sabia que seu melhor amigo o apoiaria em seus atos e decisões, e ainda não passaria com cara de bobo na frente de todos os outros.
— Bem... eu estava pensando se, por acaso, você não gostaria de sair algum dia desses? Por exemplo, algum dia em que haja alguém em casa para cuidar de Sirius...
— Eu ouvi isso, Remo “Poodle” Lupin! – gritou Sirius, da sala de estar, e sua voz chegou firme e alta até a cozinha, onde Remo e Tonks conversavam tranquilamente, até que ele se prontificou a fazer o convite.
— Não tem problema, Sirius “Saco de Pulgas” Black! Realmente era pra você ter escutado!
— Ah, já entendi como vocês dois se amam... – riu-se Tonks
— Isso vem desde a escola, priminha! – respondeu Sirius, dirigindo-se até a cozinha – Desde sempre esses apelidos carinhosos circularam entre os marotos.
— É, percebe-se. – Tonks parecia chorar de tanto rir dos dois.
— Mas sério. Eu fiquei magoado agora, Remo, por você ter me chamado de saco de pulgas. – disse Sirius, fazendo sua melhor imitação de cachorro sem dono, o que, obviamente, ficou bem convincente.
— Ai, que meigo esse cachorrinho – disse Tonks, apertando as bochechas de Sirius, momentos antes de este transfigurar-se num enorme cão preto e sentar-se ao lado da prima, apoiando a cabeça ao colo dela.
— Pronto, Sirius? Pode terminar logo com essa ceninha?
— Ah, Remo! Deixe-o, é tão fofo! – pediu Tonks, acariciando a cabeça e as orelhas do cão.
— Não, priminha. – disse Sirius, voltando à forma humana e respondendo a prima. – O Sr. Lupin sempre foi muito certinho, nunca gostou de brincar, de rir...
— Ah, pronto. Demorou pra começar o drama, não, Sirius? – perguntou Remo, um pouco o repreendendo, um pouco rindo do amigo.
— Nem demorei, Remo. Até achei que foi cedo demais... Mas, de qualquer forma, vou deixar de incomodar os pombinhos, ok? Vou voltar pra sei lá o que eu estava fazendo, até já esqueci.
— Estava dormindo, Sirius?
— Caramba, Remo. Parece mesmo que nos conhecemos há um bom tempo. Mesmo sem ter visto sabe exatamente o que eu estava fazendo! – respondeu o animago, com um tom sarcástico.
— Nem precisa te conhecer o tanto que eu conheço pra saber isso, pulguento.
— Humpft, está bem. – e saiu da cozinha, rindo-se.
— Mas então, Tonks, o que acha do contive?
— Pode ser, eu gostei da ideia.
— Certo então. – Remo sorri, e fica sem jeito para continuar, puxar algum outro assunto. Em resposta igualmente encabulada, Tonks sorri também.
— Er... Remo?
— Sim?
— Posso fazer uma pergunta?
— Tecnicamente você já fez, mas eu deixo você fazer outra.
— Ha, ha, ha, três vezes “ha” pra você, Remo. – disse Tonks, com olhar e voz irônicos.
— Ta, o que você precisa?
— Eu, bem... eu queria saber por que exatamente você nunca se entregou a um amor? Se não quiser responder, não tem problema.
— Olha, não é que eu nunca tenha querido, me entende? – ele começou a falar, e ela apenas concordou com um aceno de cabeça. – Eu tive algumas namoradas em Hogwarts. Uma delas, chamada Annabeth, foi a que eu mais gostei, quase a única de que eu me lembre. Eu até cheguei a pensar em largar tudo pra vivermos juntos, ela inclusive sabia da licantropia, e apesar do receio que ela sentia, ela dizia que nós poderíamos superar qualquer coisa, porque nós realmente nos amávamos. – algumas lágrimas encontraram permissão para escorrer pelo rosto cicatrizado do lobisomem.
“Até que um dia Annabeth estava indo até a minha casa, e na frente dela se lembrou que era noite de lua cheia, e que seria melhor que estivesse longe de mim, pela própria segurança, já que naquela época não existia a Wolfsbane. O problema é que eu a vi antes que ela desse meia volta, e quis atacá-la. A sorte maior de nós dois, foi que Sirius estava nesta noite comigo, e pôde me segurar.”
Nesse momento, Sirius que havia retornado à cozinha e estava recostado ao vão da porta, suspirou. Remo viu o amigo pelo canto do olho e continuou a falar.
— Porém, mesmo assim eu consegui arranhá-la no braço direito.
Tonks olhava para ele assustada com o que ouvia.
— Mas ela não se machucou mais que isso? – perguntou a metamorfomaga.
— Infelizmente sim, apesar de não ter sido nada muito grave. Mas na manhã seguinte, quando acordei, Sirius me contou o que havia acontecido e eu fui atrás dela, ver se estava bem. O braço dela havia se deslocado e ela ainda sentia muita dor. Apesar de ter dito pra que eu não me sentisse culpado, ela falou que era realmente melhor que terminássemos o namoro: ela percebeu que era perigoso ter um relacionamento tão próximo a um lobisomem. – Remo suspirou antes de continuar – Então depois dela, não me relacionei dessa forma com mais nenhuma mulher.
— Ah... Remo, eu... sinto muito, pela Annabeth – disse Tonks, pausadamente, sentindo-se emocionada e ao mesmo tempo triste com a historia dele. Esticou os braços por cima da mesa e segurou as mãos de Remo entre as suas.
— Tudo bem, eu superei a falta de Annabeth...
— Foram mesmo bem tristes aqueles dias – começou Sirius aproximando-se, ao que Tonks soltou as mãos de Remo e voltou à postura, corando. – Mas sabe como é o nosso amigo Remo aqui, não é, priminha? Aprendeu a lidar com a solidão tão facilmente que até assusta. – Sirius apoiou os braços sobre o ombro do amigo, fazendo uma voz de piedade para Remo.
— Ah, Sirius, dá um tempo, vai! – o lobisomem tirou os braços do amigo de sobre os ombros e riu-se. – Não seja tão dramático.
— Você que toda a vida foi dramático, Remo! Não sei por que está me repreendendo agora!
— Eu... – Remo tentou se explicar – Ah, deixa pra lá.
— Ei, interrompendo os dois aí, mais alguém além de mim está com fome? – perguntou Tonks rindo.
— Eu estou. – respondeu o lobisomem. – E você, Sirius?
— Sempre, não é mesmo?
— Então vamos ver o que há nesta cozinha pra fazer de jantar. – disse Remo, levantando-se.
— Olha, Remo... se tiver comida já está muito bom!
Então, deixando as lágrimas secarem por si só sobre seu rosto, Remo preparou algo para comerem antes de dormir.
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