Deixo - Ernesto e Ema
1 Sonhos
Notas iniciais
Era lindo. Era sempre lindo. O sorriso dele, aquele sorriso que iluminava inteiramente sua face, fazia até os olhos sorrirem e brilharem, mesmo na penumbra do fim da madrugada. Eu ouvia o som da cachoeira derramando no rio suas águas agitadas, mas o cenário era calmo.
— Vem baronesinha! Vai perder a melhor hora... — ele estava em cima daquele bendito tronco, onde encostamos nossas cabeças na primeira vez que ele me levara ali, e me estendia mão, adiantadamente, em minha opinião, porque eu ainda me encontrava a metros de distância, tentando desenganchar meu vestido que ficara preso num galho.
— Se me ajudasse, eu não perderia! — bufei, e puxei com força a renda da saia, claro que rasgou. Eu gritei! E ele, mesmo ao longe, sorria ainda mais.
Por algum motivo eu sabia que não podia ficar com raiva dele. "Não pode! É perda de tempo." dizia-me meu cérebro. Eu o ouvi, esquecendo a renda francesa rasgada e me apressando até Ernesto. Segurei a mão que ele me estendia, subindo junto a ele no tronco. Sorrindo. Sentindo que ria tão largo quanto ele. Felicidade era isso. Sorrir largo até as bochechas doerem e não se incomodar com isso, porque era como se o coração brilhasse e agradecesse.
— Respire baronesinha! — disse-me ele, fechando os olhos e suspirando fundo. Eu o obedeci. Ouvindo o silêncio da paz que invadia meu peito e parecia que me faria explodir de felicidade. A cachoeira continuava a derrubar suas águas, mas aquele barulho fazia parte da paz. E de repente, misturado ao som da água corrente, a natureza nos dando "bom dia!". Os pássaros começaram a cantar, despertando-se. Suas afinadas, porém distintas melodias faziam aquela orquestra divinamente apreciativa. — Vamos! — ele disse, e eu abri os olhos, ele já havia decido e me estendia à mão novamente. — Ou vamos nos atrasar!
Segurei sua mão, e me deixei ser puxada para o outro lado do bosque. Ernesto dava passos largos. Um dele era dois meus, e ainda por cima tropicava, vez ou outra na saia do vestido.
— Arre! — reclamei. — Não dá para andar mais devagar?!
— Não entendo quem calça saltos para um passeio no bosque em plena madrugada! — respondeu-me ele sem diminuir os passos.
— Ora?! Não entendo que tipo de cavalheiro, convida uma dama para um passeio no bosque em plena madrugada! — retalhei.
— Ora! Pois, eu não entendo que tipo de dama aceita o convite de tal cavalheiro para um passeio no bosque em plena madrugada!!
Soltei minha mão da dele, e lhe bati no braço.
— Está tentando me ofender?
— Sem drama, baronesinha, sem drama! — ele disse, e de repente me tomou em seus braços, colocando-me por cima de seu ombro como um saco de batatas, e simplesmente continuou a andar.
— Ernesto! Solte-me! Solte-me! — me debatia e socava suas costas.
— Não vou perder meu espetáculo por causa de seus finos saltos alto! — disse-me ele, em seguida me deu um tranco, assustando-me, ameaçando-me com aquele gesto para que eu ficasse quieta. – Vamos! Aquiete-se e aprecie a viagem!
Não me restou alternativas a não ser obedecer, apoiei o cotovelo em seu ombro, para que minha mão pudesse sustentar-me o queixo. E sim, pude realmente apreciar a viagem. O verde das folhas ainda um pouco apagado por causa da ausência de luz deixava o bosque com um aspecto minimalista que encantava. O cheiro também era apreciativo, era o cheiro dele amadeirado, o dos cabelos dele a qual eu tinha total acesso, misturado com o dá relva fresca do Vale. E o som ainda era da sinfonia afinada do bom dia dos pássaros. Respirei fundo, querendo guardar para mim aqueles sentidos.
— Enfim, chegamos! — ele me pôs no chão, e logo reconheci onde estávamos. Era o fim do Vale, perto do precipício que tinha vista para a construção da ferrovia. — Quase perdemos, olha lá! — ele apontou para o horizonte e eu pude ver. Era o nascer do sol!
Os raios começaram a despertar timidamente ao longe, clareando alvo ao seu redor com o amarelo claro, sobrepondo o laranja forte que o vinha seguindo, pintando um lindo degradê no céu. Perdi o ar, senti os olhos brilharem.
Eu o olhei, ele estava concentrado. Como realmente estivesse apreciando a belíssima obra de arte do artista mais renomado do momento. Eu, de meu lado, fazia o mesmo. Apreciando-o. Tão lindo que era o meu amor. E era tanto amor que me doía o peito. O claro ainda não tinha nos alcançado, vinha se aproximando bem lentamente e no meu íntimo eu agradecia por isso. Acho que o encarei demais, ele virou-se para mim. Sorriu.
— É para apreciar o nascer do sol, senhorita! — disse-me risonho. — Não o carcamano aqui!
Não me zanguei, sorri. O sol se aproximava de nós.
Acariciei-lhe o rosto.
— Senti saudades! — disse a ele.
Ele sorriu ainda mais.
— Também senti... muitas! — disse-me e abraçou-me, forte, bem forte. Doeu meu coração. Agarrei-me a ele, às lagrimas vieram a meus olhos.
— Não me deixa! Por favor! — pedi, por algum motivo que eu realmente não entendia. Talvez fosse o medo de perdê-lo.
— Eu?! Nunca lhe deixaria, baronesinha! Nunca! — disse-me, afastou-se um pouco e colou a testa na minha, olhando em meus olhos. Os deles não mais tão negros, o reflexo do sol já se achegava a eles, tornando-os mais claros. — Eu a amo! — meu coração se aqueceu.
— Hoje lhe procurei tanto, Ernesto! Você havia sumido!
— Apenas não procurou direito! Estive lá o tempo inteiro!
— Eu sei! Mas... Ah, Ernesto! — suspirei ainda mirando em seus olhos que cada vez mais reluzia. — Eu também o amo! Por que demorei tanto a admitir isso?
— Porque você é orgulhosa, meu amor! — ele me respondeu, embora eu não precisasse da resposta. — Mas, de que importa o tempo agora? Está vendo o nascer do sol? — perguntou-me ele, mas eu não quis olhar para o horizonte e perder aquele toque de olhares. — É constante. Não importa o que fazemos durante as vinte quatro horas do dia, sabemos que no final, ou talvez no começo, ele estará lá. Assim deve ser o amor, baronesinha. Constante. Confiante. Ter fé. Fé no amor. Que não importa o que passe em nossa vida, o amor sempre será o nosso final, ou talvez o nosso começo.
Um raio do intruso sol refletiu forte o rosto dele, demonstrando assim que realmente despertara dessa vez. Senti um familiar aperto no peito. A consciência me atingindo. Ele me sorriu novamente, e eu assenti. A dor no peito era atroz, mas eu não podia evitar, entendi que não mais podia. Aprendi que era menos desesperador e angustiante deixá-lo ir. Acariciei-lhe a face querendo guardá-lo em meu tato para sempre, as lágrimas já escorrendo. Então um raio do sol finalmente alcançou a mim, cegando-me...
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