Deixo - Ernesto e Ema
3 Decisão
Notas iniciais
O mês se passara não tão rápido quanto ela queria. Arrastara-se na verdade. Mas os preparativos para o casamento de Mariana lhe foram muito bem vindos, lhe distraía durante o dia. As noites, porém eram iguais, assim como os amanheceres. Mas graças aos céus uma de suas amigas estava à véspera do casamento para ocupar suas mente e afastá-la um pouco de sua solidão.
E então chegara o dia! Todos já estavam a postos na igrejinha do vale, trajados elegantemente. A cidade estava em festa já que seu grandioso herói iria casar-se com sua bela heroína. Ema sorriu, era o casal perfeito. A capela estava linda, bem decorada com flores de laranjeira que emanavam aquele cheiro especial de jovialidade, retratando bem o casal.
E foi com uma última olhada ao redor, já de cima do altar que ela o viu entrar na capela. Seu coração pareceu ter escorregado para estômago. Ernesto discutia com o irmão alguma coisa sobre a gravata. Depois de finalmente ajeitar a gravata de Luccino, lhe deu um tapa na nuca e sorriu satisfeito. Emanando aquele sorriso lindo, sincero e jovial que Ema todas as noites via em seus sonhos. Ela petrificara e perdeu o ar quando ele a mirou. O viu paralisar pelo momento de reconhecimento, depois ele o fez a antiga e debochada reverencia, com o mesmo sorriso petulante brincando em seus lábios.
Meu Deus! Ela soube que realmente estava petrificada, quando não conseguiu mover-se para ir até ele. Porque era sua maior vontade. Correr até ele e atirar-se em seus braços, e de lá não sair jamais. O pigarrear do marido a despertou.
— Você podia ao menos disfarçar — sussurrou ele.
Ela baixou os olhos, finalmente os desviando de Ernesto que procurava um lugar.
— Não seja inconveniente! — sussurrou de volta.
— Inconveniente?! — ele sorriu. — Você nem para ser discreta e respeitar a presença de seu marido. E sou eu o inconveniente? — Ema o olhou, os olhos crispando. — Não adianta me olhar assim, Ema! Não tenho culpa das suas escolhas.
— Não precisa atirar isso em minha cara, acredite. Se realmente o arrependimento matasse não estaria o incomodando com minha inconveniência!
— Devia tomar mais cuidado com o que fala querida! A qualquer hora me zango com você, com essa sua falta de afeto!
Ela revirou os olhos, tratou de ignorar Edmundo. Há quase um ano não via Ernesto, e o tinha agora ali a sua frente e em realidade. Nem que ela quisesse conseguiria evitar olhá-lo.
A cerimônia decorreu belíssima. A felicidade dos noivos era o adorno mais bonito tanto da capela quanto da recepção na casa do Coronel. A animação era devida. Tudo saíra com perfeição graças aos esforços de Ema e Cecília que se apegaram a tudo com mãos de ferro e ali estava o resultado.
— Então, para onde vão de lua de mel? — perguntou Camilo, que segurava nos braços o pequeno rebento de poucos meses.
— Rio de Janeiro! — respondeu o coronel.
— Estou ansiosa para conhecer o mar. — disse Mariana com os olhos brilhantes e o sorriso estampado.
— Conhecerá muito mais, meu amor! — respondeu-lhe Brandão apaixonado.
— Olhe que você me fez uma promessa! E irei cobrá-la!
— Podem revelar tal promessa? — sugeriu Elisabeta sinuosa, entusiasmada com os feitos da irmã.
— Conheceremos cada estado do Brasil, um em cada férias! — contou Mariana.
— Que ideia maravilhosa! — disse Charlotte, também entusiasmada.
— É verdade — opinou Darcy. — Falam-se em viagem e as pessoas já pensam no exterior. Mas creio que o Brasil em si seja todo muito belo. Um prato cheio para o turismo.
— Diga isso a minha esposa. — adentrou Edmundo na conversa. — Ela não abre mãos da 'Avenue des Champs-Élysées'.
Ema não se atinha muito a conversa, tinha Ernesto sob seu olhar. Tantos meses apenas em sua mente, em seus sonhos, o ter ali era um alento, mesmo que tão distante. Porém a voz de seu marido invadiu seus pensamentos e ela deu um meio sorriso com o escárnio incontrolável.
— Há tempos Paris não é mais minha prioridade. — respondeu-lhe.
— E quais seriam suas prioridades agora? — perguntou-lhe Ernesto, fazendo seu coração falhar uma batida, a voz rouca ainda despertava nela arrepios. O olhar ainda um tanto magoado, a pergunta sinuosa... Droga! Ela ainda o amava com toda força.
— Soube mesmo que é muito viajada. — comentou logo em seguida a Doutora Mariko a impossibilitando de responder a ele, também, ela desconfiava que não soubesse o que dizer.
Ema havia conhecido a doutora no dia anterior. Elisabeta a tinha apresentado, e ela odiou a proximidade da mulher com a amiga, mas mais ainda depois que viu a intimidade dela com Ernesto de quem ela não saíra do lado desde que chegara ao casamento.
— Um exagero! Devo alertá-la de antemão. — disse tentando sorrir, estava constrangida com tal atenção.
— Está sendo modesta, querida! — disse-lhe Edmundo.
— Ah, mas insisto — disse Mariko, sorrindo, aparentemente, gentil. — A tão falada baronesinha do café deve ter conhecido lugares icônicos! Qual deles sugeriria para, por exemplo... uma inesquecível lua de mel?
Ema engasgara com a própria saliva, demorando-se a responder, porém se recuperou logo antes de causar algum embaraço maior.
— Eu não tenho tanta experiência assim, acredite! — disse por fim, com algo frio instalando-se em seu estômago.
— Ora Ema... — interveio Mariana. — Seu ainda é o titulo de casamenteira.
— E uma boa casamenteira tem essa resposta. — disse Ludmila. — O lugar perfeito para uma lua de mel perfeita é? — ela estalou os dedos e apontou para que Ema respondesse, como que de imediato.
— Depende do casal. – ela soltou de uma vez, ainda um tanto desconcertada.
— Agora eu comecei a gostar da resposta. Continue... Para os nossos novos noivos o Rio de Janeiro é mesmo o ideal?
— Para Mariana e Brandão, o Rio de Janeiro é perfeito, as praias vão incendiá-los no calor que eles já o tem. — ela desandou a falar, estava ficando nervosa. — Rômulo e Cecília, eu sempre sugeri Veneza, os mistérios da cidade flutuante encantará os dois. Ainda não perdôo Camilo por não ter levado Jane a um passeio as margens do Sena, a cidade dos apaixonados é perfeita para eles. Darcy tem meu eterno louvor por ter levado Elisabeta para conhecer Londres, o imperialismo no tom certo combina com ela, e digam-me — ela virou-se para os dois. — se não perceberam lá que têm mais coisas em comum do que pensavam? Luccino na hora certa deve levar Charlotte para conhecer o nordeste brasileiro. — os dois coraram instantaneamente. — Para vocês dois... — ela apontou para Ludmila e Januário. — Milão é imprescindível! E para mais alguma sugestão é só me passar os nomes. — terminou quase sem fôlego!
— Ema!! — espantou-se Elisabeta, olhos arregalados sorrindo juntos com os outros, e Ludmila puxou uma salva de aplausos.
— A nossa legitima casamenteira! — disse Jane.
— Depois dessa, agora estou curiosa para saber onde foi a sua lua de mel. — disse-lhe Mariko.
No Alaska, ela pensou em responder, mas por fim:
— Guarde sua curiosidade, nada mais excitante que o nosso querido Vale do Café!
— Ora... não menos surpreendente.
— A minha esposa está numa fase muito... minimalista! — comentou Edmundo, provocador. — Tentei realmente levá-la a Paris, mas... ela preferiu o Vale.
— Como eu disse: Paris não é mais minha prioridade! Com licença – ela pigarreou. — Acho já falei o suficiente e por isso preciso de uma bebida. — Sorriu e se afastou do grupo, com algo realmente preso na garganta, pois vira à hora da médica perguntar o lugar perfeito para sua lua de mel com Ernesto e realmente Ema se viu respondendo: "No inferno!" ou algo do gênero.
Estava escolhendo do que se serviria. Álcool não era muito confiável a ela, dada a situação. Mas, justamente por causa da situação parecia uma necessidade.
— Bela aula de turismo! — a voz grossa e debochada, sobressaltou-a lhe causando arrepios.
— Obrigada! — disse instantaneamente, porém sem virar-se, não teve coragem.
— O que me diz de Montepulciano, na Itália?
— Não conheço! — o coração pesou. — Mas vovô dizia que tinha os campos mais lindos da Toscana. — a voz não saiu firme.
— Bem, creio que saberei em breve.
Ela enfim, se virou. Encarando, finalmente em realidade, aqueles olhos negros afogadores. Sentiu os joelhos tremerem.
— O que quer dizer? — mal a frase saíra na sua voz tremula.
— Vim mais a este casamento para me despedir!
— O que? — perguntou atônita, com os olhos dele a distraindo.
— Recebi uma proposta de trabalho de um produtor de vinhos. Parto amanhã a noite!
— Está indo embora? — a realidade mais uma vez atingindo-a como um grande soco.
— Nada me prende aqui, baronesinha! E o meu espírito me chama para conhecer o mundo.
— Não pode fazer isso!
— O que? — ele perguntou confuso, vendo os olhos dela marejarem.
— Me deixar!
Ernesto olhou disfarçadamente ao seu redor, todos muito bem entretidos em conversa pela sala. Ele se aproximou um pouco mais dela.
— Você está bem, Ema?
— Não! — ela tapou os olhos com a mão. — Ainda não é dia!
— Ema?!
Ela simplesmente afastou-se dele e saiu às pressas, porém discretamente, assim como ele a seguiu.
A noite caíra, estava frio. Ema estava no jardim, tinha uma das mãos no peito e outra no rosto. Ela chorava. Ernesto aproximou-se.
— Baronesinha o que está acontecendo? — perguntou preocupado, ela virou-se e simplesmente atirou-se em seus braços. Abraçando-o, finalmente chorando em seu peito toda sua mágoa e arrependimento. Ele a apertou com força a sentindo fazer o mesmo. Meu Deus, que saudade ele sentira do calor dela!
Afastou-a lentamente, mesmo sem querer fazê-lo, mas precisava mirá-la nos olhos.
— O que houve?
Ela não conseguia falar, não conseguia admitir para ele. E não acreditou que meses de sofrimento não fora necessário, que seu orgulho continuava ali. Chorou ainda mais.
— Ema? Por favor, me diga o que há?
— Eu amo você! — ela disse de uma vez. — Sinto sua falta, sinto sua falta mais que tudo na minha vida. Todos os dias vou dormir orando para sonhar com você, e todas as manhã não quero despertar porque perco você em meus sonhos. Não quero despertar porque eu tenho que te deixar partir. — ela puxava o ar com tanta força que parecia que seus pulmões iam explodir. — Sou a mais desgraçada das mulheres, Ernesto! Nem posso me olhar no espelho sem sentir raiva ou pena de mim!
— Não diga isso. Não diga isso, baronesinha! — ele puxou seu rosto a fazendo encará-lo. — É a mulher mais doce e arredia e linda que já conheci.
— Não sou mais assim! Eu perdi tudo! Tudo... Dessa vez fui eu mesma que perdi, não posso mais culpar ninguém. E pelo quê? Não tenho nada!
— Tem a mim! — ele segurou sua mão, forte. — Sempre terá a mim. Venha comigo...
Ema estatelou, os olhos arregalados. A euforia de repente lhe crescendo pelos poros.
— O que?
— Vamos fugir! — ele disse, olhando-a nos olhos para que ela não tivesse dúvida de sua sinceridade.
— C-como isso seria possível?
— Ainda lembra-se do precipício? — ela afirmou com um acesso. — É agora ou nunca.
Tudo nela se agitou. Viver! Finalmente viver! Pensar? Para quê? Ernesto estava ali, mais uma vez lhe dando a solução. Tornando doce os seus sonhos. Mostrando-lhe o caminho. E como ela podia recusar? Tão logo o sol nasceria e os alcançaria, e ela o perderia.
— Eu vou. Vou com você!
Ele parecia não está acreditando no que ouvira.
— O que?
Ela sorriu em meio às lágrimas.
— Fugirei com você! — a euforia só crescia dentro dela.
Ernesto parecia desconcertado.
— Não acredito!
— Estava fazendo troça de mim? — por um segundo o medo perpassou por ela. Óbvio que ele estava brincando com ela. Ela o magoara tanto...
— Não. — ele disse apressado e ainda um tanto desconcertado. — Não, é que eu n-nunca pensei...
— Eu amo você! — interrompeu-o, com a necessidade de fazê-lo entender. — Eu não posso mais viver nesse martírio, a sua procura! Você está certo! E eu simplesmente amo você!
— Ora...!
— Ora o que? — ela agitou-se se revoltando com sua demora de entendê-la. Para ela agora era tudo tão óbvio
— Me ama e eu estou certo? — ele disse sinuoso. — Tem certeza que está bem, baronesinha? — ele fingiu examinar-lhe os olhos. — Essa é a realidade: você me ama e eu sempre estive certo, mas você não admitiria isso. — estreitou os olhos.
Ela revirou os dela.
— Me quer ou não? – perguntou petulante e inquieta, apressando-o.
— Hm... — ele pareceu pensar, provocando-a. — Nunca deixei de fazê-lo! — respondeu por fim, vendo os olhos dela sorrirem e brilharem ainda mais. Ele de repente olhou ao redor. Lembrando-se de algo. Estavam sozinhos no jardim, porém se ouvia a música e as conversas na casa agitada. — Temos que ir... temos que ir agora!
— Certo! Certo! – ela respirou fundo. — Só tem um problema!
— Qual? — ele perguntou apreensivo, a adrenalina começando a correr pelas veias.
— Temos que ir à mansão do parque antes.
— Por quê? – ele franziu o cenho.
Ela o encarou com petulância.
— Não cometerei o erro de deixar meus vestidos para trás novamente.
Ele sorriu e então, não mais resistindo, finalmente a beijou.
Ema sentiu-se flutuar. Deus! Como conseguira viver sem aquilo? Sem aquela sensação? Sem aquela falta de ar mais que bem vinda? Iria com ele até o fim do mundo se fosse preciso, e de lá com toda certeza, se jogaria de seu precipício, agarrada a ele.
Fale com o autor