Deixe-me ir
8 1993
Notas iniciais
Faíscas. Nada. Impacto.
Assim que registro a viagem perturbadora. Quando abro meus olhos para mais um dos futuros, me assusto. Aqui não há algo anormal ou um ambiente natural e vívido. Tudo que vejo é chuva. Forte e intensa ela recai sobre tudo do lado de fora. Respiro fundo numa tentativa inútil de aliviar o peso em meu coração. Abro a porta e então olho para Makayla.
– Mak, por favor me espere aqui, certo? Nessa chuva é possível pegar um resfriado – Antes de fechar a porta, concluo a minha afirmação do modo adequado – Até mesmo em sonhos.
Deixo o carro e sou encharcada pela chuva. Sinto as gotas invadirem-me, escorrerem pelo meu corpo e molharem minhas roupas. Olho em volta e em meio à luz rasa do final da tarde, percebo pela primeira vez onde estou. Algo encolhe em meu interior e arregalo os olhos, assustada. Isso é um cemitério. Estou em um cemitério.
Os túmulos se encontram por toda parte e me vejo perdida. Onde estou? Para onde ir? Corro às cegas, pela chuva. Sinto-me desorientada e penso em desistir. Onde vim parar? Eu deveria estar em 1993. Será que...
Balanço a cabeça e rejeito a ideia absurda que me veio à mente. Não estou no meu próprio enterro. Isso é bobagem minha.
Prossigo o caminho com relutância e paro abruptamente quando um choro firme e desesperado entoa. Tão alto e triste. Ecoa sobre o som da chuva e dá um aspecto ainda mais melancólico ao local. Penso reconhecer esse choro. Seguindo esse som, me movimento através das lápides que me rodeiam. A terra mancha minhas roupas e forço-me a conseguir enxergar. Está ficando cada vez mais escuro.
O choro se intensifica e ao longe, avisto uma mulher caída sobre a terra, em frente à uma das lápides. Apresso o passo e corro até ela.
– Senhora? – Coloco uma mão sobre seu ombro.
Gemidos se libertam por entre seus lábios e então seu rosto contorcido se vira em minha direção. Os olhos azuis estão mergulhados em lágrimas e o seu rosto se contorce em tristeza e desespero. Ainda assim o choque que eu pressinto me faz recuar. Aquela sou eu. Não pode ser. Sou eu. Pânico se infiltra em meu interior e de olhos arregalados encaro-me.
A versão de 1993 não parece ter mais de 25 anos. O cabelo molhado está todo sujo, o que evidencia o fato de que ela jazia ali há muito tempo.
– O que você... – ela se interrompe e arregala os olhos – Você...
Como num impulso, meus olhos sobem em direção ao nome entalhado na lápide.
Makayla Mees
Arregalo os olhos e recuo alguns passos. Não. Não. É mentira. Isso não é verdade. Balanço a cabeça em sinal de desprezo. Makayla não está morta. Ela não pode estar.
– O que significa isso? – Berro em meio as lágrimas repentinas, que se projetam.
A mulher me encara assustada, erguendo-se. Lágrimas escorrem de seus olhos.
– Minha irmã morreu em um acidente há poucas semanas.
Balanço a cabeça.
– Mentira.
– Ela e meus pais... – A mulher que deveria ser eu, desabrocha em outro ataque de choro.
Encaro a paisagem vazia e amargurada. Makayla morreu?
Como um soco, todas as pequenas peças se encaixam. Eu não a ter visto em 2020. Ava ficar tão triste ao falar dela. Ela não estar presente no casamento. Nem ela, nem meus pais. Meus olhos enchem de lágrimas e sinto meus joelhos cederem ao chão.
Estão mortos.
Todos mortos. Eu estou sozinha. Desamparada. O que estou fazendo afinal?
“Você não está fazendo isso pela humanidade, Ava.”
Em alguma profundidade do meu ser, eu sei. Estive fazendo isso por não desejar ver a morte da minha família. Eu queria que não morressem por minha culpa. Meu desejo fora este, acima de tudo. Lágrimas quentes e dolorosas se misturam à chuva.
Por que estou salvando esta droga de mundo afinal?
Me levanto com ódio e desespero. Olho ao meu redor e em meio às lágrimas, abro um sorriso insano. Por que estou salvando essa droga? Qual o motivo para me sacrificar por um mundo tão idiota?
As únicas pessoas no mundo que eu queria proteger estão mortas. Eu me iludi todo esse tempo. Como sou idiota. Eles estão mortos. Minha irmãzinha, aquela que me espera naquele carro, pensando que tudo isso é um sonho, morrerá. Independentemente do que eu faça. Independente do quanto eu sofra ou me esforce. Ela vai morrer. Não consigo controlar as lágrimas. Ela vai morrer e não posso fazer nada.
Me afogo nas lágrimas densas. Não há nada capaz de me consolar. Por quê? O que fiz para merecer isso?
Liberto um grito estrondoso e vejo que à Ava na minha frente, estremece com a minha reação.
Por que salvar esse mundo estúpido? Por que eu deveria? Não faz sentido. Estão mortos mesmo.
– Eu acho que você... – A Ava mais velha, faz menção de se aproximar, porém levada pelo impulso brutal que se manifesta, empurro-a com toda a força para longe.
Com um estrondo ela se choca contra a lápide. Sangue escorre e o ignoro. Que morra.
Que eu morra.
Que todos morram!
Começo a correr para longe, desorientada, levada pelas lágrimas, num caminho sem rumo. Avisto o DeLorean e corro até ele, como se fosse o meu abrigo. Incontáveis lágrimas escorrem pelo meu rosto, enquanto eu tento correr da dura realidade. Agarro a porta idiota. Adentro o carro.
– O que houve, Ava? – A doce voz da Makayla piora a situação e começo a manusear o controle de forma desatenta.
Quem se importa com essa merda?
Eu não quero ficar nesse mundo. Eu quero ir embora!
Aciono o controle do carro, aperto a mão delicada de Makayla e desaparecemos pelas conexões do tempo.
Por entre faíscas e lágrimas.
Por entre a dor inevitável.
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