Deixe a música falar
1 Can't Help Falling In Love
Grissom e Sara estavam retomando uma amizade desde o dia em que ela foi detida por conta da bebida, ele sabia o que havia desencadeado nela os problemas que ela estava mostrando gradualmente durante todos os meses, mas a gota que havia feito tudo transbordar foi ele ter dado a promoção para Nick. Mesmo que ele negasse para si mesmo, sabia que os boatos que corriam no laboratório que ela seria favorecida por questões pessoais pesou muito em sua decisão, não que Nick não fosse um grande CSI, mas Sara tinha uma aptidão natural para aquele trabalho, ela havia nascido para isso. Mas qual o peso que isso teria na carreira dela? Desde o caso Debbie ele refletia sobre sua carreira, sobre o discurso que havia feito para o médico, que ele tinha toda certeza que era o culpado. Ele conhecia a dor dele, toda a dor que ele sentiu quando soube de Hank, quando soube que ela estava vivendo sua vida sem ele, o grande covarde que não tinha coragem de arriscar se quebrar. Mas agora era diferente, desde o sequestro de Nick ele percebeu que não poderia mais ficar longe dela com o medo de perdê-la, porque isso poderia fazer com que ele realmente a perdesse. Sara o confidenciou durante uma manhã de café da manhã, que havia virado uma rotina deles, que ela estava pensando em ir embora, deixar Vegas e tentar curar o seu coração longe dele. E agora, em um domingo de folga que os dois conseguiram conciliar, ele estava cozinhando para ela. O disco do Elvis do seu pai tocava baixo, ele estava pensando no amor que seus pais compartilhavam. Ele era muito novo quando seu pai morreu, mas conseguia lembrar dele fazendo os sinais de todas as músicas para ela. Take my hand, Take my whole life too. Ele sinalizou para ela, era a última lembrança que ele tinha dos dois juntos. Ele sempre ouvia seu pai cantar pra sua mãe, ela sorria como se pudesse ouvir a melodia. Ele sabia o que era o amor, mas sempre teve medo de um dia perdê-la, e sofrer como sua mãe quando o seu pai se foi. Ele conhecia a dor de perder um amor através da dor que via no olhar da sua mãe durante meses. Ele continuou a tocar o disco toda semana, como seu pai fazia e acompanhava sua mãe na melodia. Suas lembranças foram cortadas com o som da campainha. Ele correu até a porta, o pano de prato apoiado em seu ombro e um sorriso nos lábios quando a mulher o olhou sorrindo.
— Boa noite!
— Boa noite, Sara. — Ele ainda olhava para ela quando a sentiu tocando o seu braço. — Me desculpe, entre.
Ele deu passagem para ela e sentiu o delicioso aroma que ela emanava, era delicado e caloroso como ela. A roupa confortável que fazia parte do guarda roupa dela sempre lhe caia bem, ela tinha um cachecol fino em volta do pescoço, calça jeans escura e uma camisa clara de botões. Perfeita. Ele se aproximou mais dela.
— Me dê o casaco. — Ele estava atrás dela e tocou seus ombros e fez um movimento mais demorado que o necessário para retirar a peça de roupa. — Espero que esteja com fome.
— Não estava, na verdade, mas o cheiro abriu totalmente o meu apetite.
— Estava sem apetite? Você está se sentindo bem?
— Ansiedade me deixa sem apetite.
— Uhn, eu entendo.
Ele parecia tímido quando entendeu o que ela estava querendo insinuar, ou dizer diretamente. Ele amava isso nela, ele não conseguia expressar mais do que o necessário no trabalho com ela, ou em qualquer outra situação, com o passar dos dias em que conviviam foi que ele conseguiu desenvolver a mínima comunicação com ela.
— Você quer algo para beber? Separei um vinho para o nosso jantar, mas posso lhe trazer uma taça.
— Só se você me acompanhar.
— Tudo bem, eu, uhn. — Olhou para ela que sorria para ele com as mãos escondidas nos bolsos de trás da calça, ela estava mesmo nervosa. — Só um minuto e já irei trazer.
Sara caminhou pela sala dele, não era mais uma grande surpresa a casa dele, havia o visitado para alguns café da manhã, mas nunca inspecionou com cuidado, sempre o acompanhava para a cozinha e tomavam seus cafés entre conversas sobre os casos. Ela notou que Elvis tocava baixo e se aproximou do aparelho para pegar a capa conservada do disco, parecia bem velha, mas era mantida com muito cuidado.
— Era do meu pai.
— Grissom, por deus, eu não ouvi os seus passos. — Ela colocou a mão sobre o peito.
— Me desculpe. — Ele entregou a taça para ela e sorriu melancólico. O seu pai aprovaria Sara tão rapidamente quanto ele se apaixonou por ela e seu rabo de cavalo. — Eu não sei, hoje eu estou com meu pai em meus pensamentos.
— Você o amava, as pessoas que amamos não saem da nossa cabeça.
Ela abaixou a cabeça, sempre sentia que falava demais perto dele. Ele observou ela com cuidado, sua mão se ergueu sem que ele notasse e virou o rosto dela para o dele, de repente os olhos castanhos estavam molhados e o penetrando com tanta intensidade que ela não precisava de nenhuma palavra, ele sabia o que ela tinha preso em sua garganta.
— O meu pai fazia sinais das músicas para a minha mãe e eles dançavam todas elas, como se não houvesse nenhum problema de surdez ou problema no mundo.
— Isso é amor, Grissom, você sabe o que é ser amado.
— Mas nunca me permiti amar, com medo de um dia perdê-lo. — Ele tomou um gole em seu vinho e continuou olhando para o nada. — Eu vi o tanto que minha mãe sofreu e não queria o mesmo pra mim.
— Não podemos fugir da dor, Grissom.
Ele olhou dentro dos olhos castanhos mais uma vez e ela notou algo diferente nos azuis, eles pareciam entregues aos seus. A melodia familiar preencheu seu sentido e ele pensou que talvez a música poderia lhe ajudar a por para fora e finalmente se entregar para aquele amor que a vida lhe ofertava com tão bom grado, de uma mulher que o queria como ele era, todo quebrado e cheio de coisas para melhorar. Ela tomava um gole em seu vinho quando acariciou a mão dele.
— For I can't help.
Ele falou enquanto Elvis continuava com a declaração velada que não conseguia dizer. Ela ergueu a mão dele enquanto entrelaçou seus dedos nos dele, beijou o peito da mão dele e prendeu novamente o olhar no dele.
— Vamos jantar e podemos ver onde a noite e a vida irá nos levar, Grissom.
— Eu só preciso te pedir uma coisa, Sara.
— O que?
— Pelo menos por essa noite, me chame de Gil.
Ela sorriu para ele e pegou a taça enquanto o puxava pela casa dele até a cozinha. Ela encostou no balcão para observar ele os servindo enquanto tomava mais um pouco do vinho, ela não sabia exatamente onde aquela noite iria levá-los, mas ela queria ficar cada minuto que fosse possível aproveitando antes que o encanto da cinderela acabasse e tudo virasse abóbora. Ela ainda conseguia ouvir a música. Some things are meant to be. Ela esperou por tantos anos que só queria que essa frase estivesse certa.
— Eu fiz uma massa com um molho de tomate caseiro que minha mãe me ensinou, umas das primeiras receitas que aprendi.
— Parece delicioso, Gil.
Ele ergueu sua cabeça e olhou para ela com um sorriso genuíno e feliz. Ela o chamou de Gil e não teve som mais gostoso em sua cabeça depois daquilo.
— Fiz a massa também, procurei uma receita vegana. — Ele passou por ela com os pratos em mãos e continuou falando. — Devo admitir que errei algumas vezes até chegar no ponto certo.
— Você lembrou. — Ela parecia surpresa enquanto andava atrás dele.
— Eu lembro de muita coisa, Sara, eu, uhn — Ele colocou os pratos na mesa e se virou pra ela. — Eu só não consigo falar tudo o que penso. — Ele sentiu a mão dela em sua bochecha e ela sorria para ele de lado, seu olhar tinha compreensão. — Ou o que sinto.
— Quando for a hora certa você irá conseguir, por enquanto vamos comer, eu realmente fiquei faminta, a ansiedade desse jantar talvez tenha me feito pular algumas refeições.
— Sara. — O tom dele era bravo, ele sabia que ela passava horas a base de café enquanto dobrava turnos. — Me desculpe, só fico preocupado. Vamos comer então.
Ela sorriu para ele e tocou sua mão que estava sobre a mesa, os olhos deles foram de suas mãos para ela enquanto ele segurou a mão dela e começou a fazer carinho. Com a mão livre Sara ergueu sua taça e apertou a mão dele.
— Um brinde a nossa noite.
— Um brinde a nós, Sara.
Os dois sorriram enquanto brindavam. O jantar correu bem, com ele perguntando mais sobre ela, o que a surpreendeu, pela primeira vez o assunto não era trabalho. Os dois riam e falavam sobre si, como se realmente estivessem em um primeiro encontro. Foi leve e agradável, quando terminaram ele levou os pratos para a pia e os lavou enquanto ela estava encostada no balcão ao lado dele, o vinho entrava e mais as palavras conseguiam sair.
— Nosso vinho está acabando.
Ele enxugou suas mãos no pano de prato e o colocou de lado. Ele ficou de frente para ela e colocou uma de suas mãos na cintura dela enquanto se apoiava no balcão com a outra.
— Posso pegar uma outra garrafa se você quiser.
— Não vou poder dirigir tão cedo se aceitar mais uma.
— Você não precisaria. — Sua mão acariciava a cintura dela e a apertou enquanto falava- Podemos aproveitar esta noite.
— E como você, — Ela apoiou a taça no balcão e subiu a mão para acariciar o peito dele. — sugere que possamos fazer para aproveitarmos a noite.
— Tenho uma ideia ou duas.
Ele desceu seu rosto em direção ao dela e tomou seus lábios em um beijo suave, seus lábios encaixavam perfeitamente. O beijo se aprofundou e ficou mais intenso quando ela passou os braços em volta do pescoço dele e o puxou para si. Foi um beijo longo intenso e só se separaram quando o ar se fez necessário. Os lábios dele ainda desceram pela mandíbula dela e parte do pescoço que ele tinha acesso.
— Acho que vou aceitar a outra garrafa suas ideias de aproveitar a noite sejam assim.
— Sara, — ele riu e a puxou para um abraço e beijou os cabelos dela. — eu não sei se eu consigo mais ficar longe de você.
— Doutor Grissom está falando sobre os seus sentimentos?
— Talvez eu precise de outra garrafa para conseguir me expressar melhor.
— Então o que estamos esperando? Vamos para a próxima!
Ele riu e beijou os lábios dela rapidamente antes de se afastar e ir pegar outra garrafa. Ela pegou sua taça e caminhou de volta para a sala. O disco havia acabado e ela colocou para tocar novamente. Gostava de Elvis, aquela noite parecia perfeita demais para ser verdade, se fosse um sonho ela esperava conseguir o que queria antes de acordar. Ela olhava os livros dele quando sentiu uma mão em sua cintura e um beijo em seu ombro. O sorriso veio aos seus lábios sem que ela conseguisse segurar, seu corpo se inclinou em direção ao dele e ela sentiu o braço dele a abraçar com mais força, a mão dele em sua barriga estava trazendo reações ao seu corpo.
— Podemos ouvir outra coisa se quiser.
— Não, eu gosto de Elvis. — Ela se virou para ele e beijou os lábios dele suavemente, o gosto do vinho misturado com o dele era fantástico. — Obrigada por essa noite.
— Obrigado por não ser tarde demais, Sara.
Ele se afastou dela e encheu sua taça e a dela. Deixou a garrafa de lado e se aproximou do toca disco, moveu a agulha para que tocasse uma música em especial. Ela conseguiu ouvir Wise men say, Only fools rush in e sorriu para ele. Ele se aproximou dela e ofereceu sua mão, ela colocou a taça na mesa de centro e se aproximou dele. Ele colocou a mão dela em seu peito e segurou ali enquanto a livre foi pra cintura dela e a mão dela subiu para o ombro dele.
— Sara, eu não sei falar tudo o que eu sinto, mas por favor, deixe que essa música fale por mim, ouça com cuidado cada palavra.
— Eu sei o que tem dentro do seu coração, Gil, porque o meu está cheio de tudo isso.
A noite dos dois foi regada a Elvis e amor. No fim da segunda garrafa eles terminaram a noite entre sussurros e calor na cama de Grissom para celebrar e oficializar o amor dos dois.
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