Deixe Ir

1 Capítulo Único


Os olhos se perdiam para além da bola de fogo que coloria de alaranjado o céu da tarde. Suspirava recostando-se no banco. Não parava quieta. Debruçava a cabeça sobre as mãos amparadas pelos cotovelos fincados em suas coxas, no mesmo instante cruzava os braços e em seguida seus joelhos balançavam, os calcanhares afundavam o solado da sapatilha vermelha no chão, a cabeça era jogada para trás, os dedos eram levados à franja rubra e esta jogada de lado.

A verdadeira imagem da impaciência.

Pense em agonia.

Pense em inquietação.

Pense em uma ameaça de bomba em um avião cheio de americanos.

Não pensava que sentiria aquilo, nem se preocupava com aquilo, nunca parou para entender o que era aquilo... Aquilo... Aquilo que os humanos tinham, aquela coisinha que os tornavam tão diferentes, aquilo... Como eles chamavam?

Sentimento? Era isso mesmo?

Era esse o nome do poder diferente que eles possuíam que normalmente manifestavam suas atitudes, indiferente da existência dos imortais? Eles possuíam aquilo naturalmente, as entidades imortais foram a forma mais simples de Jerry conseguir colocar tudo aquilo em ordem e poder administrar melhor o que essa coisa tão complexa causa a tantas vidas, consequentemente suas criações — coisa de pai coruja, todos sabiam.

Suspirou mais uma vez, levando as costas da mão direta à testa, enxugando as gotas de suor frio que brotavam de seu tormento.

“Ele já se foi”. A voz rouca de Dennis soou atrás dela, ele arrodeou o banco sentando-se a seu lado. “Vou sentir saudade dele”, ele disse quase secamente.

“Não, não vai.” Ela respondeu ainda mais seca. "Você nem sabe o que é isso."

Dennis encarou Destino com os olhos espremidos. Para sua surpresa viu que a atenção dela se perdia para além daquele lugar, cruzava o tempo e as lembranças. Sentiu sua garganta dar um nó. Contra sua repulsa natural ao contato entre corpos, não sabendo o motivo, simplesmente fez, puxou-a para seus braços, afagando os cabelos cor de fogo.

“Se eu pudesse ou soubesse chorar, eu choraria”. Ela declarou baixo, com seu tom de voz amargurado.

“Foram os planos de Jerry”

“Que se dane Jerry”

Ela fungou, inflando o já abastardo busto.

“Você sabe o que vai acontecer a ele, não sabe?”

“Não posso dizer.”

“Eu também não pedi”. Ele suspirou procurando as palavras certas. “Pelo menos você sabe que ele estará bem.”

“Ele não será ele mesmo.”

“Isso faz diferença?”

Destino levantou os olhos e encarou Dennis, o vazio opaco nos olhos da morte.

“Talvez, só talvez, eu tenha me afeiçoado a ele.”

“Só isso?”. Aquele frio irritante de Dennis não ajudava, mas o esforço que ele fazia a deixava em dúvida sobre o real motivo daquilo. Dizem que a morte consola as dores daqueles que sofrem, levando-os para um confortável e estável sono de tranquilidade e meditação. Ela duvidava que Dennis realmente fizesse isso por alguém, inclusive ela.

“Afinal, o que você quer?”

“Fábio me pediu para te dizer uma coisa”. Ele engoliu a seco quando sentiu os olhos de Destino se arregalarem e ela se afastar de seus braços com o sobressalto da surpresa. “Ele pediu para você ir se foder.”

Destino encarou a morte por alguns segundos constrangedores que pareceram horas.

“É? Eu vou fazer isso essa noite mesmo... Sem ele.”

Dennis começou esboçou um pequeno sorriso no canto do rosto.

“Tá vendo? Destino continua e não espera por ninguém.”

Ela exalou com força e recostou-se no banco.

O sol já havia caído no horizonte e o luar resplandecia em seu azul celeste.

Destino levou o dedo do meio em sua mão fechada e apontou para Dennis.

Ele desapareceu, dando a língua para ela.

Ela levantou-se do banco e contemplou o céu noturno. Todas aquelas estrelas brilhando independente dos problemas da humanidade, como Fábio deveria ter feito.

Ela não pôde deixar de não forçar um sorriso, tinha feito o que a maioria dos humanos deseja: mandar a morte ir se danar.

Talvez Fábio risse.

Talvez Fábio fizesse a mesma coisa.

Talvez Fábio é quem realmente devesse se danar.

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