Deidade
5 Capítulo V: O Deus
Notas iniciais
Era um auditório inclinado, como um anfiteatro grego. Não havia absolutamente uma alma viva naquela sala. Só cadeiras de cor azul marinho e um ar condicionado barulhento. No palco havia uma mesa retangular, cor de bronze e uma cortina vermelha atrás que provavelmente levava pra coxia.
O cheiro era de mofo e ar condicionado sujo. Também conseguia sentir um cheiro de mar e floresta. Eu realmente devo ter sido drogado em algum momento, pensei novamente.
— Alô? — Minha voz ecoou forte pelo lugar. Inesperadamente, houve uma resposta.
— Olá. — Era aquela voz, porém mais direta e dura; Era a fonte real. E dessa vez, ele estava ali. Saindo da coxia, por detrás da cortina vermelha em direção à mesa. — Você queria me ver, não é? Causou alguns constrangimentos nos meus representantes.
Eu estremeci completamente. Suei tão frio quanto era possível, pude sentir todo meu corpo enrijecendo com sua voz e à medida que falava. Coloquei a mão no peito em resposta e senti meu coração batendo como se eu tivesse corrido uma maratona. Eu sequer corro. Minhas mãos tremiam e logicamente minhas orelhas balançavam. Tive que me conter para não sorrir de nervoso. Eu estava dividido entre ódio, medo e admiração. De perto ele era tão imponente. Suas tatuagens, seus olhos, seus cabelos, seu corpo. Tudo.
— Por favor, aproxime-se. Essa é uma sala feita para reuniões individuais, apesar do tamanho. — Ele puxou uma cadeira e sentou-se calmamente nela, apoiando a cabeça em uma das mãos.
Tentei dar o primeiro passo, mas minhas pernas não respondiam, ou eu não queria que elas o fizessem. Senti um frio absurdo na barriga, como se não comesse há semanas e meu corpo implorasse por ajuda. Pensei em sair correndo de lá o mais rápido que podia. Havia essa chance ainda.
Respirei fundo, muito fundo, e me forcei a caminhar. Diante do olhar daquele homem eu não tinha escolha se não parecer forte, ou no mínimo determinado. Desci as escadas laterais em direção ao palco e à fatídica mesa.
— Imagino que esteja nervoso, não é? — De perto, seu olhar era ainda mais profundo. Seus olhos eram tão amarelos que pareciam brilhar e sequer havia uma pupila ali. Seus cabelos também eram bem cuidados e quase perfeitos. O ódio só aumentava. As tatuagens pareciam fazer parte de seu corpo, não como se tivessem sido pintadas, mas como se existissem na sua pele e fossem parte de quem ele era.
— Nem tanto quanto pareço. — Mentira, provavelmente estava ainda mais.
— Então, sente-se. Me diga qual seu nome e vamos conversar. — Ele apontou para a cadeira em frente a ele.
— Meu nome é Ian. — Disse enquanto me sentava.
— É um prazer imenso poder te conhecer, Ian. Mas o que deseja? Eu diria que você veio de longe, se houvesse um longe para vir.
— Eu queria ter uma conversa contigo. Pessoalmente. — Quando me dei conta, não sabia exatamente o que dizer. Fui tão movido pelo ódio e pela aventura, que não elaborei um discurso mental. — Mas não tenho certeza do que quero falar, sinceramente. — Recuei o olhar para minhas mãos que estavam suadas.
— Tudo bem. Creio que seja normal para os humanos se sentirem coagidos diante de uma presença maior. Tem sido assim desde o começo dos tempos. Mas comece falando o motivo que te fez sair de casa, talvez te ajude.
— Eu saí de casa porque estava indignado. Essa é a palavra: indignado.
— Com o quê exatamente?
— Com você. — Tremi, meu coração tremeu e minha visão se apagou por um instante. Eu senti um medo anormal tomar conta de minha mente. Achei que fosse vomitar.
— Comigo? — Seu tom era neutro e apático a todo instante, seus olhos não piscavam e ele mal se movia na cadeira. Mas eu sabia que havia incomodado de alguma forma. — Por favor, seja mais específico.
— Você... O que você fez. Não vejo como algo correto. Você tomou das pessoas o direito de escolher como viver suas vidas pelo mesmo motivo que antigos ditadores executavam pessoas. Pelo “bem do mundo”. — Finalmente tomei coragem para olhar diretamente para ele por mais de dois segundos. Ele continuava imóvel, me olhando profundamente. E me senti pelado. Pude ver toda minha vida passando nos meus olhos, meus erros e acertos, meus medos, vitórias, derrotas, as vezes que transei, que menti e omiti, todos meus anseios. Momentos que preferia não lembrar e outros que eu pensava ter esquecido completamente. E no fim vi uma cor, preto tão escuro quanto o universo e um par de olhos amarelos brilhantes. Seus olhos.
— Entendo. — A sua voz me tirou do transe. — É normal que haja dúvidas quando uma mudança tão grande aconteça, ainda mais para seres que vivem tão pouco em relação ao universo. Mas se você mantiver esse pensamento de que tudo é passageiro, inclusive vocês, essas preocupações se tornarão ínfimas e fáceis de ser superadas.
Eu estava chocado. Como podia uma criatura tão velha e poderosa ser tão filha da puta e burra?
— Veja bem. Eu não vim aqui para uma consulta com um psiquiatra divino intergaláctico. Eu vim para prestar uma queixa. João 7;37, né? Eu estou com sede, colega, e quero beber! — A fúria começava a superar o medo. O que normalmente não era uma coisa recomendada, ainda menos quando você está frente a um ser de poderes infinitos.
— Acho que você entendeu errado o versículo e a mim. Eu não sou Jesus. Não sou Deus, não sou Jeová, Alá, Thor, Odin, Rá, Hórus, Zeus, Mitra, Pan ou Satanás. Eu sou o que sou. Sou por mim mesmo aquilo que sou e deveria ser. Não sou nada se não Eu e Eu sou tudo. E por isso, esses textos não se aplicam tanto quanto você pensa. Eles servem como guia para aqueles perdidos na escuridão e em dúvida sobre para onde devem ir mesmo quando estão na luz, mas não se aplicam a mim.
“Compreendo que tenha dúvidas e receios, Ian. Mas Eu, que sou desde sempre, sou também a resposta. O que posso fazer por você é lhe dar as respostas.”
Não, não! Tá tudo errado! Ele parece uma criança burra discutindo com um adulto usando uma lógica absurda. Ou talvez seja o contrário e eu seja a criança burra.
— Boh, não é?
— Se assim preferir.
— Eu não tenho dúvidas e receios, eu tenho uma certeza baseada no empírico. As pessoas se acomodaram lá fora. Completamente. Você tirou toda a essência do ser humano. Se você é o que é desde sempre, deve já ter visto a capacidade do ser humano de viver e sobreviver, de fazer seu curto tempo de vida valer a pena. Mas ainda assim retirou isso de nós.
— Você tem razão, eu vi do que o ser humano é capaz. E você também viu, mas não como eu. Era para mim que as orações de salvação vinham quando as bombas desciam cortando as nuvens e logo as vozes cessavam. Os gritos de dor e agonia das pessoas sendo carbonizadas, eu os ouvia até o último segundo. Cada um deles fica gravado em mim eternamente. Cada voz, cada choro, grito, gemido, oração. Lembro de todos eles. Inclusive os seus.
Senti meu peito queimar levemente e meus olhos se arregalaram. A ficha estava começando a cair de verdade. Eu estava falando com um deus eterno. Com um ser tão antigo quanto o universo e de mente tão elevada que jamais eu seria capaz de acompanhar seu raciocínio. Mas isso não significava nada pra mim. Eu ia fazê-lo mudar de ideia.
— O que você sabe sobre mim? — Perguntei temeroso com a resposta. Ele provavelmente sabia tudo que tinha pra saber.
— Sei tudo que tem pra saber. Cada pedaço do seu ser, a exata quantidade de fios de cabelo na sua cabeça, quantas células há no seu corpo, quantos litros de esperma você já despejou em si mesmo e em outra pessoa. — Nojento e perverso.
— Ok, ok. Entendi. Mas eu não sou a pauta desta reunião. O que você tem feito é.
— Ian... Eu estou absolutamente certo do que fiz e dos motivos que faço. E até mesmo você consegue entende-los.
— Para de entrar na minha cabeça, caralho! — Bati com o punho fechado na mesa.
— Não preciso. Sua perda de compostura só revela isso. Além do mais, eu não entro na cabeça de ninguém, que fique claro.
— Vou fingir que acredito em você. Cara, entenda. Eu só quero minha vida de volta. Quero poder sentir as coisas da vida. Medo, amor, excitação, receio, vergonha, raiva e tudo isso foi tirado de mim e de todos os outros.
Ele ficou me avaliando por alguns segundos, que eu achei que ele estava vendo minha mente novamente. Deveria ter trazido papel alumínio comigo.
— Sinto muito, Ian. Não vou mudar o mundo todo por causa de uma pessoa.
— Você já o fez. Mudou por si mesmo e seu egoísmo. — Senti novamente um calafrio na espinha e na minha cabeça eu vi minha mãe chorando, uma imagem muito antiga. Fiquei triste por lembrar disso.
Não havia janelas na sala, mas eu sabia que lá fora a chuva estava ficando cada vez mais intensa pelo barulho no teto. O cheiro de chuva também estava impregnando o ambiente, se misturando ao cheiro de mar, mofo, ar condicionado e floresta.
— Não consigo compactuar com suas ideias e muito menos com seu tom, Ian. Seria agradável se você me acusasse menos e se expressasse mais. — A sua voz se tornou levemente mais intensa, combinando com o barulho de chuva, realmente parecia um trovão. Entretanto seus olhos continuavam reluzindo como sempre.
— Acho que devo pedir desculpas se ofendi Vossa Majestade. Ou talvez seja Sua Santidade, como se trata um deus egoísta e manipulador? — O medo era o que movia minha boca. Eu sabia, no fundo, que ele não me atacaria, mesmo sendo fácil pra ele esconder qualquer coisa que acontecesse lá, se quisesse, já teria feito.
— Ian. Peço que pare. — Eu estava, de alguma forma, conseguindo deixa-lo incomodado e isso estava se tornando engraçado. — Eu tenho 14 bilhões de anos. 4,5 bi de anos encarregado deste planeta e nunca fui afrontado por outro ser, fosse ele o que fosse. Não como você está fazendo.
Ele levantou-se e minha pressão foi junto. Minha cabeça começou a doer e senti meu coração acelerar tremendamente, tanto que eu podia ouvi-lo.
— E eu com isso? — Continuei o jogo perigoso. Despertar a fúria de deus era o objetivo de vida que eu não sabia que precisava até começar. — Sinceramente, você me parece uma criança mimada que viu seus primos brincando com sua bola sem você e decidiu pegar de volta pra cortar a brincadeira de todo mundo.
Ele passou a mão sobre os cabelos de olhos fechados, alisou levemente o chifre que apontava pra cima e respirou fundo. Sussurrou alguma coisa ininteligível entredentes e olhou pra mim.
— Já notei que seu problema não é exatamente com o que fiz, mas comigo. Você é uma das crianças que mesmo tendo sua própria bola pra brincar, prefere pegar a dos outros. E quando é privado disso, desconta em outra pessoa. Eu não sou o problema, Ian. Eu estou fazendo o melhor para perpetuar a sua espécie. Eu poderia ter tomado outra atitude e ter simplesmente assistido todos vocês explodirem indiscriminadamente enquanto ocupava minha mente com outra coisa, mas preferi interferir, mesmo que não seja ortodoxo.
— Eu entendo seus motivos, Boh. Mas ter motivos não faz a atitude ser menos egoísta! Você fez o que você achava certo, mas sem perguntar a ninguém. Você interveio quando ninguém quis, onde você estava quando a peste devastou a Europa? Ou nas Três Guerras? Só ouvindo o clamor de seu povo? Isso é sádico, cara.
Ele me olhou profundamente. Talvez fosse minha imaginação, mas pude sentir que ele estava sofrendo com o que eu dizia, sofria de verdade. Entretanto isso não faria minha língua amolecer.
— Você disse estar aqui desde sempre, mas parece ter esperado o momento certo pra aparecer como salvador. — Continuei com crueldade. Levantei da cadeira para olhar em seus olhos. — Você deixouos humanos sofrerem tudo que sofreram para então, no último momento, aparecer como salvador e ganhar glória. Era o que sempre quis, cara?
Ele ficou em silêncio. Um silêncio pesaroso. Durou o suficiente para que eu notasse que a chuva tinha parado e os cheiros confusos tinham ido embora e algumas perguntas que eu deveria ter feito antes começaram a surgir em minha cabeça. Por que ele aceitou me receber? Se já sabia tudo sobre mim, sabia o que eu pensava dele. Como eu acertei exatamente a sala que ele estava dentre tantas infinitas? Como havia no mínimo quarenta andares na Central se ela só aparentava ter dois? Por que ele ainda não me explodiu com um chacoalhar da mão?
— Você é astuto, Ian. Mas o que você diz não é verdade. Aparecer foi meu último recurso. Eu ponderei muito. Minha mente vai a lugares que os humanos sequer imaginam. Além dos buracos negros e brancos, além desse universo, na Criação. Você não entenderia nem se eu explicasse e eu não irei fazê-lo. Eu sinto que já te ouvi o bastante e compreendi seus anseios. Todos eles. E tenho pra você uma alternativa, uma única proposta.
Era claramente um ultimato. Era um pegar ou largar infantil. Mas eu estava pronto para ouvi-lo, talvez, respeitosamente. Talvez ele me oferecesse meu próprio planeta pra viver como eu quisesse, né?
— Para mim é vergonhoso admitir que as coisas que você disse sobre os humanos, sobre suas vidas, me é desconhecido. Esta é a primeira vez que ando e interajo com os seres deste planeta. Até então, eu não tinha interesse em interferir nas coisas, por mais que os acontecimentos me doessem. Cada vida aqui é uma vida minha e eu sinto suas dores. Mas talvez isso não seja o suficiente. Sentir e entender o que sinto são coisas completamente diferentes porque eu não sinto. Eu apenas tenho consciência desses sentimentos. E por isso eu peço perdão a você.
“Como eu havia lhe dito, você é o primeiro ser a me afrontar tanto desde que eu nasci e também o único a falar em voz alta seus anseios para mim. Mesmo os líderes deste planeta se amedrontaram quando precisaram se explicar. Alguns tentaram suicídio por achar que eu estava aqui para puni-los. Mas é bom te lembrar que você não é o único que não está gostando disso. O indicie de suicídio aumentou exponencialmente desde que apareci. As pessoas tiveram medo, ou estavam insatisfeitas e por isso se mataram. Eu quero poder mudar essa situação.”
Isso estava tomando o rumo esperado, mas ainda assim inesperado.
— Então — continuou — para que eu possa compreender melhor suas vidas, a sua vida, eu tenho uma proposta. Me deixe viver com você como um humano.
— Quê? — Meu queixo caiu, literalmente. Esse era exatamente o tipo de coisa que eu nunca esperava que fosse acontecer. Não estava em nenhum dos cenários que imaginei. Nenhum.
— Eu quero entender melhor os humanos. Mas sendo apenas uma imagem no céu, ou clones na terra se mostrou ineficaz.
— Clones?! Isso explica o cara que era o entregador e o atendente em dois lugares ao mesmo tempo.
— Eu precisava estar em contato com todas as pessoas e ajuda-las além de observar. Já observei por tempo demais.
— Tá, mas pera aí. O que você diz por viver comigo? Você quer ir lá pra casa e dormir no sofá enquanto eu te levo para lugares e você procura entender os humanos? Você espera que eu seja um intermediário em suas relações interpessoais?
— Sim. — A resposta me chocou um pouco. Não era hoje que eu ia ganhar meu próprio planeta.
— Eu preciso de tempo pra pensar nisso. Por favor.
— Tempo é tudo que você tem. Mas devo alertá-lo de que independente de sua decisão, isso deve permanecer como um segredo. Os mais fundamentalistas se revoltariam ainda mais se soubessem que estou em seu meio. O que mantém a ordem é minha imagem como divindade suprema e deve permanecer dessa forma.
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