Notas iniciais
Eeee capítulo dois. Não tenho muito a dizer, só que não gostei muito de como algumas descrições ficaram. Oh well. O diálogo aqui é meu favorito. Se divirtam ;)

A cidade se espalhava como uma mancha de tinta em papel irregular, as silhuetas silenciosas de prédios recortadas contra o sol nascente. Mesmo assim, pouca luz chegava em Hosu, não com a névoa cada vez mais grossa que lentamente abraçava a cidade como uma coberta. Do lugar onde estava, Midoriya conseguia ver seu avanço, se espalhando em todas as direções, mais opaca no centro. De onde está vindo. Exatamente como o Kouta disse.

Houve um som metálico a seu lado, e o rapaz notou a figura de Iida, as botas reverberando contra o metal da passarela abaixo quando se aproximou. “Você tem certeza disso, Midoriya? Quer dizer, é um comportamento sem precedentes…”

“O que o Kouta falou corrobora várias das informações estranhas que coletamos nas últimas explorações. Como a falta de infectados nas beiras da cidade, quando deveriam estar se espalhando.” Ele explicou, pulando do alto da caixa d'água para o telhado abaixo, ficando frente a frente com o amigo.

“É difícil de acreditar que eles estão inteligentes o suficiente para estarem colaborando dessa forma.” O rapaz de óculos franziu a testa. “Me faz pensar se não há algo mais por trás disso…”

“Bem, é isso que viemos aqui descobrir.”

Depois do depoimento de Kouta sobre a colaboração dos infectados e as outras informações de seu comportamento que observara ao longo de quase seis meses em Hosu, o comando aprovara uma missão de exploração de caráter emergencial, com o objetivo de atingir a área que o garoto definira como o centro da atividade dos infectados. As duas equipes foram ordenadas a não se afastar muito uma da outra se possível, e não lutar mais do que o necessário. Se Kouta estivesse certo, a quantidade de infectados apenas aumentaria o quão mais próximos eles estivessem do centro, e cada ataque corria o risco de atrair uma turba.

Midoriya gostaria de ter discutido mais com Bakugou a respeito de planejamento da missão. No entanto, o loiro estivera ainda mais irritadiço nos dias anteriores, evitando sua presença ao máximo e explodindo com ele quando isso não era possível. Isso deixava o garoto de cabelos verdes em ambas as partes magoado e preocupado. Katsuki parecia estar mal, com as olheiras ainda maiores e estranhamente pálido, mas se até Kirishima estava evitando questioná-lo sobre seu regime de sono, era porque não havia nada que se pudesse tirar dele a respeito.

Um clique suave no metal indicou a chegada de Uraraka, que, como a mais rápida do time, havia sido enviada como batedora a frente. A garota estava sem fôlego, as bochechas mais coradas ainda se possível, mas sorria, o que era sempre um bom sinal.

“Achei um caminho possível! É um pouco longo, mas deve ter menos infectados.” Ela sorriu para os dois amigos, fazendo sinal de positivo para ambos de forma que Midoriya foi incapaz de não sorrir de volta, achando absurdamente adorável. Ela pareceu confusa, no entanto, olhando duas vezes pelos arredores antes de perguntar: “Cadê o Todoroki-kun?”

“Nós achamos que ele viria com você…?” Iida perguntou, com súbita preocupação.

“Será que aconteceu alguma cois-”

Antes que a apreensão se espalhasse ainda mais por sua equipe, o vulto vermelho e branco de Shouto Todoroki aterrissou em um dos telhados próximos do prédio onde se encontravam. Por sorte, ele parecia bem, sem mais do que algumas manchas de poeira em seu traje de exploração, mas seu rosto normalmente estoico parecia ainda mais sério, e o que falou pegou todos os seus colegas de surpresa.

“A equipe Alfa já está seguindo em direção ao centro.”

“Quê? Como assim, sozinhos?”

“Eles acharam um caminho e já estão nele.”

“O que o Bakugou tem na cabeça??” Uraraka exclamou.

Num pulo de sua Individualidade, Midoriya já estava de frente ao amigo, determinação em seu olhar e no tom de comando que raramente usava como capitão de sua equipe. “Me mostre onde eles foram.”

“Capitão!” Yaoyorozu exclamou, depois de mais um tiro bem sucedido derrubar um novo infectado. Bakugou abria caminho pelo que estivesse à frente, se impulsionando com explosões e cambalhotas enquanto estourava e empurrava para fora das plataformas qualquer infectado que cruzasse seu caminho. A equipe Alfa o seguia como podiam, numa formação ponta de flecha improvisada devido à impaciência de seu líder. “Não devíamos esperar a equipe Bravo??”

“Não! Seguimos em frente.”

“Kacchan!” A voz que ele menos queria ouvir agora soou, ainda longe. Katsuki travou a mandíbula, se forçando a ir mais longe com uma explosão mais potente. Deku não poderia manter o mesmo ritmo, ele não tinha tanto treino.

Foi com surpresa então que ele viu o garoto sardento quase alcançá-lo depois de pulos que ele julgava que Deku não seria capaz de fazer, mesmo com sua Individualidade veloz. A própria movimentação era semelhante à dele, na forma de buscar pontos de apoio, até mesmo em como se projetar no ar. Ele está me copiando. O pensamento o deixou com ainda mais raiva, e ele ignorou os gritos de Midoriya no primeiro momento.

“Kacchan! O que aconteceu? KACCHAN!”

“Vai embora, Deku!”

“Não! Essa é minha missão também!”

“Não é sobre a porra da missão, idiota!”

“Sobre o que é então??”

Bakugou parou abruptamente, os olhos focados abaixo. Quando o alcançou, alguns segundos depois, Midoriya entendeu o motivo.

A praça abaixo deles não parecia mais o mesmo mundo, nem o mesmo universo. A substância vermelha estava por toda a parte, formando um lago borbulhante ao redor do qual se encontravam vários infectados. Máquinas complexas sugavam o líquido do lago e o processavam junto de materiais como terra e metal, soltando uma fumaça ocre que subia nas nuvens escuras que Midoriya lembrava de ter visto em sua primeira visita a Hosu.

Os infectados não vagavam a esmo como antes. Alguns cuidavam das máquinas, alimentando-as com matéria ou checando seu funcionamento. Outros se ocupavam de modificar as estruturas ao redor de acordo com algum critério desconhecido, reforçando partes, demolindo outras. Alguns simplesmente entravam no lago e se deixavam mergulhar no vermelho até sumirem de vista. Todos trabalhavam numa coesão perfeita, realizando tarefas em grupo sem se comunicar ou interromper uns aos outros.

“O-o que é isso…?” Izuku se perguntou em voz alta.

“E eu sei, cacete? Se um nerd como você não sabe, como eu vou imaginar?” Katsuki soava ainda mais agressivo do que o normal, o que indicava que estava com medo. Ele olhou por cima do ombro, para os colegas igualmente chocados, e se referiu a um deles. “Ei, Yaomomo. Que porra é essa?”

A moça hesitou antes de responder, as mãos a frente da boca, os ombros tremendo levemente. “Parece… Terraformação. Eles estão tornando este planeta habitável… Para alguma coisa.”

“Então eles não são somente infectados.” Todoroki foi quem expôs o pensamento sombrio que rondava a mente de todos no momento. O temor em sua voz sempre composta de alguma forma deixava tudo pior. “Eles estão sendo controlados.”

“A-acho que vimos o suficiente. Vamos embora?” Denki foi o primeiro a propor, os olhos fixos no lago, e eles foram lentamente se arregalando quando o rapaz começou a dar passos apressados para trás.

O lago se tornara ainda mais turbulento, gêiseres de ferrugem líquida se erguendo para o céu acima deles, acumulando mais e mais fluido que engolia máquinas e infectados sem distinção. As duas equipes se afastaram rapidamente da borda, observando o fenômeno com apreensão. Seria aquilo alguma forma de mecanismo defesa? Sua presença tinha sido detectada? Aquela coisa estava viva?

Midoriya só sentiu a pressão em seu tornozelo quando já estava no chão e gritando, puxado subitamente em direção à borda do telhado por um fio acobreado fino e viscoso enrolado em sua perna. Imediatamente ele tentou se segurar em algum lugar, sentindo suas manoplas deslizando no plástico macio do telhado ao se debater, desesperadamente tentando se soltar. Pensamentos de como ele seria infectado ou afogado naquele lago horrível cruzaram sua mente, isso se uma coisa não levasse a outra e seu corpo fosse usado como marionete para alguma coisa que ele nem sabia o que era…

Eu vou sorrir, sorrir como eles sorriram quando aconteceu. Ele estava sendo controlado naquela época também? Todas essas pessoas ao longo dos anos estavam?

Será que elas sentiram esse mesmo medo de morrer, ou nem estavam conscientes disso?

Várias mãos o seguraram pelos braços e pela cintura, puxando-o na direção contrária, num cabo de guerra que lançou agulhadas de dor por sua coluna e o fez soltar outra exclamação de dor. Olhando para cima, ele podia ver que Iida e Uraraka puxando seu braço esquerdo, Kirishima e Kaminari seu braço direito, trabalhando em coordenação para impedir que a coisa o derrubasse. Através dos olhos cheios de lágrimas, ele reconheceu que a pessoa que o segurava pela cintura era Katsuki, segurando-o como se sua vida dependesse disso, o rosto contorcido de determinação.

Mesmo com o esforço conjunto deles, Izuku ainda sentia como se seus braços fossem ser arrancados fora, seus ombros estalando com as forças opostas querendo rompê-lo em dois. Ele escutava o som das botas de seus colegas arrastando no chão quando eram puxados junto com ele, cada vez mais para a borda…

Ele ouviu um sibilo abafado quando Todoroki cortou o fio, e com ele veio o alívio da dor interrompida. Izuku foi puxado definitivamente para longe da beirada, caindo com um baque rude por cima dos colegas.

“Midoriya! Você está bem?” Iida foi o primeiro a perguntar, ajudando o amigo a se levantar de forma cuidadosa. Uma expressão de dor passou pelo rosto de Deku ao pisar no chão com a perna que fora agarrada, uma dor que pareceu subir e descer sua coluna numa descarga elétrica. Mais alguém o amparou, dessa vez passando o braço por baixo de seus ombros, permitindo tirar um pouco do peso corporal de coluna machucada. Kacchan… O loiro nem olhava diretamente para ele agora, mas não precisava.

“Obrigado, Iida. Eu vou ficar bem.”

Muito cansado para ter vergonha da situação, Izuku se deixou apoiar o queixo no ombro reconfortante do amigo de infância, se sentindo mais seguro com o perfume e o calor do corpo dele tão perto. Era como sua infância de novo, quando eles brincavam de herói e Katsuki o resgatava, ou quando escapuliam para ver filmes juntos, ou mesmo quando seus pais começavam a brigar e ele ia pedir conforto na casa dos Bakugous. Por um instante, era como se nenhum daqueles anos de distância tivesse acontecido, e Katsuki fosse seu porto seguro de novo.

Pela primeira vez em anos, também, o loiro não reclamara, apenas deixando que Midoriya recuperasse o fôlego de forma confortável. Ele mesmo se sentia melhor com o garoto ali, perto, em seus braços, depois de quase perdê-lo daquela forma. Seu coração batia tão rápido que ele temia que o próprio Deku fosse ouvi-lo. Às suas costas, ele conseguia sentir o olhar de Uraraka sobre si, como um gavião particularmente desconfiado.

“Yaomomo… Aquela coisa não está viva, está?”

“Não temos como saber, Kaminari-kun. Até conseguirmos uma análise definitiva…”

“Pode ser cortado. Disso sabemos.” Todoroki interrompeu.

“Foda-se o que seja isso por enquanto! Vamos cair o fora dessa porr-”

Dessa vez, veio da direita. O fio avermelhado deu duas voltas ao redor do pescoço de Bakugou antes de puxá-lo, derrubando Midoriya no chão. Kirishima se pôs de pé novamente em instantes, estendendo a mão para seu capitão, tentando agarrá-lo num gesto desesperado. Izuku se forçou a levantar também, ignorando as agulhadas de dor subindo por suas pernas, e se projetou atrás de Katsuki junto com Kirishima, seus dedos a centímetros de alcançá-lo.

Mais rápido do que qualquer um deles era capaz de reagir, mais dois fios se enrolaram no braço esquerdo e cintura de Bakugou, puxando-o para fora do telhado e para o lago muitos metros abaixo.



Katsuki achava que iria se afogar. Assim que passou pela superfície do lago, seu mundo inteiro se tornou vermelho. Ele via vermelho, ouvia vermelho, sentia vermelho, respirava vermelho. Estava ao redor dele e dentro dele, em sua mente e seus pulmões e suas veias…

Até que, tão rápido quanto se aproximaram, as sombras se foram. Ele sentiu o impacto contra o chão antes que seus olhos pudessem focar, um grunhido de dor arrancado de sua garganta junto com o ar que acabara de inspirar. A superfície sobre ele era áspera e fria como concreto antigo, desgastado, e ele sentiu que rasgara alguma coisa. Uma luz fraca que ele não conseguia precisar iluminava o ambiente, mas não o suficiente para que conseguisse enxergar, por enquanto.

Uma voz soou em meio à escuridão — uma voz que eram várias, um coro perfeito sobreposto de vozes de todos os tipos que ele conhecia. “Então essa é a pele que usa agora. Muito bem. Deixe-nos vê-lo, Tomura.”

Alguém o puxou pelos cabelos, forçando-o a se ajoelhar. Katsuki rosnou e se debateu, tentando atingir quem quer que fosse, e foi aí que percebeu que de alguma forma estava com os braços firmemente amarrados atrás das costas. Seus olhos lentamente se acostumavam à penumbra, o suficiente para que visse uma pessoa perto dele, olhos brilhando vermelho sob a luz ambiente fraca, o cabelo pálido emoldurando um rosto magricela. “Shhh, quietinho. Não quer se machucar por engano, quer?”

“O quê…?”

Tenko Shimura sorriu, uma mão acariciando delicadamente o rosto de Katsuki, e ele deu uma risada quando o loiro se afastou tão rápido de seu toque que quase perdeu o equilíbrio. “Qual o problema, Kacchan? Até parece que viu um fantasma.”

“Você sumiu, desgraça!” Katsuki conhecera Tenko Shimura na época de seu treinamento, como o veterano esquisito, antissocial e preguiçoso com um esquadrão igualmente não convencional. Na época de sua graduação, ele já tinha se tornado um dos melhores capitães da corporação… Até desaparecer em Titania, abrindo a vaga para as duas novas equipes que o substituíram. E no entanto, ele estava ali agora, sorrindo como um louco no escuro, provavelmente controlado pela mesma coisa que o jogara no lago.

“Que porra é essa?? Me larga! Que caralho tá acontecendo??” Ele teria gritado mais, mas fora interrompido pela sensação do joelho de Tenko se chocando contra seus rins. O rapaz mais velho o segurou de novo pelo cabelo para impedir que caísse, irritação e um pouco de tédio presentes em sua voz.

“Quieto, Kacchan. Você não cansa de gritar não? É irritante.”

Katsuki cuspiu no chão em resposta, tentando acertar Shimura apesar do ângulo pouco favorável em que se encontrava. “Vá se foder, seu nerd, se você não está morto eu vou te matar eu mesmo!”

“Ele realmente fala bastante, não.” A coisa — as coisas? O coletivo de coisas? Haveria forma gramaticalmente correta de se referir a isso? — deu uma risada sombria. Parecia estar se divertindo, na medida de que era possível encontrar reação emocional humana em suas múltiplas vozes. “Há alguns de seus anos nos encontramos, Katsuki. Desde Sagitta, nós lembramos. Você, e o Midoriya.”

Aquelas palavras fizeram um medo frio como gelo correr pelas veias de Bakugou, uma realização de que aquela coisa sabia, causara, criara tudo aquilo que ele se comprometera a lutar contra, e que agora ele não tinha a menor ideia de como fazer para matá-la. Ele estava tão fora de patamar que era até vergonhoso.

“Nós o vimos na cidade, do outro lado do portal. Você matou aquele corpo.”

“Vocês… Controlam os infectados…”

“Ele é inteligente para um cérebro só.” A criatura sabia o suficiente de humanidade para utilizar o sarcasmo, pelo menos. “Nós somos tudo e todos. Somos muitos juntos. Impossível de matar o que é tudo. Sabemos que você quer. Idiota. Perde-se partes, nunca o todo.”

A criatura desviou seu foco de Katsuki, ao invés disso voltando suas atenções para Tomura. “Vamos focar na adaptação do planeta. Vai ser preciso que se encarregue dele e dos outros, Shigaraki Tomura. Você já é capaz disso, nós acreditamos.”

“Como quiser, sensei. Farei isso com prazer.”

“Com prazer ou não, faça. Estamos esperando.”

Katsuki finalmente teve a impressão de que a presença se afastara — provavelmente para resolver seus próprios problemas. Imediatamente, ele se contorceu para fora do alcance de Tenko, caindo de cara no chão novamente.

“Resistir não te ajuda em nada, Kacchan. Você sabe disso.” O tom deixava claro que aquele filho da puta estava se divertindo com a situação, o que apenas irritava Katsuki mais ainda. Ele se remexeu, tentando reconhecer algo sobre suas amarras, achar uma fraqueza que pudesse ser explorada. Enquanto isso, foi distraindo Shimura o quanto podia.

“Foda-se você. O que diabos tem de errado na sua cabeça? Comeu bosta?”

“Hm? Você se refere ao quê exatamente?”

“A ter começado a trabalhar pra uma coletividade alienígena genocida?”

“Genocida? Ninguém morreu até vocês começarem a matar parte de nós.” Tomura se sentou em frente a ele no chão, o queixo apoiado em uma das mãos. “É uma forma diferente de ver o mundo, Kacchan, uma forma que realmente abre os seus olhos. Você sabe o que quer… Se livrar da dor… Da culpa... Da sua fraqueza.”

“E me tornar o escravo fiel de uma inteligência desconhecida?” O loiro bufou de impaciência. “Porra, um negócio do caralho que você tem aqui.”

Tomura não pareceu ter se afetado em nada com as palavras mordazes do outro ranger. Ao invés disso, sorriu. “Você não vai conseguir se soltar assim, sabe. Essas amarras são do mesmo material que te trouxe aqui.”

Ah, merda.

“Você pode se fazer de forte e superior o quanto quiser, Katsuki. As suas defesas não funcionam aqui. Por trás de cada vez que conta vantagem, eu vejo sua insegurança. Por trás da determinação, eu vejo seu medo do fracasso. Por trás de seus palavrões e agressividade, eu vejo seu medo de ser vulnerável. Mas a verdade é…” Shimura se inclinou por cima dele, segurando Katsuki no lugar apesar de seus esforços em se afastar. O cabelo longo dele roçou em seu rosto, os lábios quase tocando sua orelha, e ele se encolheu, tentando deixar o máximo de espaço possível entre eles. “Você já é vulnerável. Por mais que tente esconder isso maltratando o Midoriya… Nós sempre soubemos que ele era a sua fraqueza.”

“Ah, eu sei. Você falhou com ele, de novo e de novo e de novo. Até mesmo dessa vez, já que ele está vindo atrás de você…” A risada de Tomura era seca, ecoando dolorosamente no local onde se encontravam. “Acha que eu estou mentindo? Veja por si mesmo.”

Katsuki estremeceu quando algo viscoso entrou em contato com sua pele, lentamente subindo para sua bochecha em direção a sua orelha. Ele se debateu o quanto pode, tentando cabecear Tomura ou derrubar o que quer que fosse que buscava seu canal auditivo, mas o veterano parecia imperturbável, e seja lá o que tivesse colocado nele também. Ele foi incapaz de segurar o som que saiu do fundo de sua garganta quando a coisa deslizou para dentro de seu ouvido, a sensação o fazendo se arrepiar de estranheza e desconforto até a ponta dos pés.

...E então ele estava de volta à base. Deku estava sentado à cabeceira no refeitório, com os colegas a seu redor, explicando alguma coisa num tom sério.

“O comando não quer que tentemos resgatar o Kacchan. Eles acham um risco desnecessário. Agora que descobrimos sobre a origem da infecção, eles pretendem bombardear as coordenadas e garantir que seja lá o que for não se espalhe mais.

“Eles querem que a gente simplesmente abandone o capitão assim??” Kirishima estava revoltado, quase pulando de sua cadeira. “Isso é um absurdo, Midoriya — com todo o respeito, foda-se o conselho se eles nos pedem pra abandonar um dos nossos!”

“Na verdade, eu concordo, Kirishima-kun.” “É por isso que eu chamei todo mundo. Vim apresentar meu plano para resgatar o Kacchan, e saber quem está disposto a ir comigo.”

“Não… Não, Deku, eu te disse pra ficar longe, caralho!!” Katsuki gritou, alto, desesperado, mas Midoriya não podia ouvi-lo. Isso era apenas uma imagem de algo que ele não tinha controle sobre, nem tinha como mudar. Izuku estava disposto a ir atrás dele, e, Katsuki sabia, provavelmente a morrer no processo. Eu sou amaldiçoado. Isso é minha culpa. Ele sentiu seus olhos se encherem d'água e dessa vez, não lutou contra ela.

“Ele vai morrer, Kacchan.” Tenko Shimura, ou Shigaraki Tomura, a criatura usando sua pele, disse docemente, afagando o rosto de Bakugou enquanto assistia as grossas lágrimas caírem, uma a uma. “E a culpa é novamente sua.”



Ele tinha começado com os sonhos desde que era criança. Ele os contava a sua mãe no dia seguinte, e ela ria e afagava seu cabelo e lhe falava sobre como ele era imaginativo. Batalhas espaciais, aventuras subaquáticas, viagens aos limites conhecidos do universo, a planetas hostis, a grandes capitais de civilização. Lutar com bestas e gladiadores, campeões e generais, sempre com um sorriso no rosto, pois ele não tinha medo quando estava sorrindo na frente do perigo.

E havia Deku. Deku estava sempre lá de um jeito ou de outro; ainda que estivesse diferente, ele conseguia reconhecê-lo. Deku sempre tinha aqueles grandes olhos curiosos, sempre chorava fácil, sempre se machucava por motivos estúpidos como fazer alguém sorrir. Deku sempre mexia o cabelo como fazia no dia a dia deles, murmurava suas besteiras, levantava as mãos quando pego de surpresa, e tinha covinhas no rosto quando ria.

Ele lutava com Deku e contra ele, mas ele sempre estava lá. De alguma forma, isso era acalentador para Katsuki, ter alguém para contar, alguém sempre perto. Seus sorrisos o faziam bem, por mais que se irritasse com suas manias, e ficasse absolutamente doente quando Deku se destacava mais que ele mesmo que num sonho bobo. Ele era um idiota, mas era seu idiota.

Nem todos os seus sonhos, no entanto, tinham finais bons. A maioria não tinha. Toda vez que Katsuki chegava ao final de um daqueles sonhos, ele acordava com lágrimas nos olhos e soluçava contra o travesseiro. Coisas ruins sempre aconteciam, coisas horríveis, com Deku acima de tudo. Ele o vira queimar, sangrar, chorar, morrer de tantas formas que mais de uma vez sua mãe teve que ir a seu quarto consolá-lo. Ele olhava para o Deku de agora e pensava no que podia acontecer, e suas mãozinhas tremiam e ele garantia que iria protegê-lo. Iria garantir que isso não aconteceria de verdade.

E então a Infecção aconteceu. Ela veio do nada, uma praga silenciosa, se espalhando entre os colonos da estação em que viviam. Sagitta entraria para a história como um dos primeiros surtos de muitos mais, mas para Katsuki e Izuku, era uma coisa muito mais pessoal.

Katsuki tinha se perdido de seus colegas de escola, e estava procurando a mãe quando encontrou Izuku, coberto do sangue do próprio pai, chorando mais do que já o vira chorar na vida.

O que ele aprendeu naquele dia é que iria acontecer, de novo e de novo. Ele iria matar Izuku. Todos aqueles sonhos eram reais, ele tinha matado ele todas aquelas vezes antes, e se as coisas continuassem como estavam ele mataria de novo.

Então Katsuki se afastou. Ele se afastou com ações e palavras horríveis, fisicamente e emocionalmente. Ele entrou em uma das academias de treino para rangers, para continuar matando aquelas coisas até que estivesse satisfeito. Se no processo ele ficaria longe de Deku e não seria mais capaz de matá-lo, melhor ainda.

Ele seguiu sua vida, fez novas amizades e quase tinha conseguido se convencer a deixar tudo para trás quando ele e Midoriya foram ambos alocados para a mesma frente de batalha: Titania. Izuku tentou retomar o contato, mas Katsuki se manteve focado, se motivando com ressentimento para manter a barreira entre eles firme e forte. Segura. Mantê-lo seguro e longe e vivo.

Seus colegas de equipe, de certa forma seus amigos, reclamaram sempre. Mas eles não sabiam com o que ele sonhava toda noite.

Algumas vezes, em seus sonhos, ele sentia seu gosto, misturado com sangue.