Defying Gravity

6 Voltando a vida


Notas iniciais
LaLiHo!!! xD Então, desculpem o sumiço gente! Foi início de férias, tudo o que tinha se acumulado, e sido ignorado durante a loucura do periodo de provas, precisava ser feito >_Agora já terminei e pretendo me dedicar a fic!Avisos: sem pegação dessa vez! Tem que ter historia né meu povo? kkk Mas não se preocupem que a pegação já vai voltar. Como eu pensei, a fic será grandinha sim, mas eu avisei no inicio sem rvws sem continuação. *bico triste Uahh tenho 20 leitores *o* e só recebo 6 rvws por capitulo, vou tentar Ouija(jogo do copo) pra conseguir contato =pNo mais, amo vocês, mesmo *_* Fico toda boba quando releio os coments rs Obrigada á quem favoritou a fic o/E plz não esqueçam de me avisar se eu viajei na maionese, se tá chato ou se os personagens enlouqueceram xD ok?Ah, capitulo super gigante porque eu queria dar a noção de como estavam as coisas de uma vez só rsKissu ne!!!!

How can you see into my eyes

Como você pode ver através de meus olhos

like open doors

Como portas abertas

leading you down into my core

Conduzindo você até meu interior

where I've become so numb?

Onde eu me tornei tão dormente?

Without a soul;

Sem uma alma

my spirit's sleeping somewhere cold,

Meu espirito dorme em algum lugar frio

until you find it there and lead it back home

Até que você o encontre e o leve de volta pra casa

(Bring me to Life – Evanescence)

*

*

*

*



Ciel ainda estava encarava as paredes, perdido.

Elizabeth, depois de um tempo que não sabia quantificar, parara de chorar e desatara a falar do que aconteceu enquanto dormia, de como aconteceu, do porque, onde e quando. Enfim, ela falava sobre um monte de inutilidades que seu cérebro se negava a absorver, mas uma coisa ele captou: realmente tinha dormido por uma semana inteira?

Olhou para o lado, havia uma cadeira colada a sua cama. Sebastian teria mesmo ficado ali, durante 7 dias? Ao seu lado?

–- Nee Ciel-kun, está me ouvindo? Ah você deve estar com fome, não é? Ou sede?

As palavras entravam por seu ouvido e passavam direto pela mente vazia, saindo do outro lado. Somente balançou a cabeça, se concordando ou não ele nem percebeu, mas pareceu fazê-la calar a boca, e ele queria muito que ela calasse a boca! Não conseguia pensar direito assim.

–- Ciel-kun, Ciel-kun? – Disse chorosa – Você não está bem! Nem está me enxergando direito! O que eu posso fazer? Me diz!

Aquela era a realidade, ou ainda estava sonhando? Como podia saber? Aquela historia toda de alma parecia fantasiosa demais agora, e Sebastian? Seu corpo arrepiou inteiro ao pensar no nome dele. Nada daquilo podia ter realmente acontecido! Seria além da fantasia, era absurdo, impraticável, uma ignomia! Nunca se permitiria aquilo, jamais!

–- Ciel-kun... CIEL!! Ai meu deus, você está mais branco ainda! Você vai desmaiar de novo não vai? Ai meu deus! Não Ci-

–- Elizabeth! – Disse rispidamente, ela tinha que calar a boca! Sua cabeça doía como se uma tropa inteira tivesse passado em cima dela, mas se corrigiu quando viu a expressão de choque no rosto feminino – Lizzie, por favor, eu preciso ficar sozinho. – Disse suavemente, numa suplica.

–-Nee Ciel-kun. – Ela sacudiu negativamente a cabeça, fazendo os cachos loiros balançarem – Não vou te deixar sozinho não, você pode...

–- Lizzie, escute. – Interrompeu a menina. Estava extraindo cada gota de paciência sobrevivente a sua enxaqueca retumbante – Estou cansado, vou me deitar apenas e não posso dormir com você aqui, seria uma grosseria. Agradeço imensamente sua companhia por todo esse tempo, mas peço que escute Paula e vá para casa se cuidar.

Elizabeth estava sem argumentos, podia ver isso por seus imensos e chorosos olhos verdes. Ela anuiu com a cabeça, levantando-se da cama e postando-se a sua frente. Baixou o rosto, encarando o chão e ele esperou por mais uma crise, que não veio. Quando ela ergueu a face seus olhos estavam tristes, suspendeu a mão e tocou de leve as bochechas do noivo.

–- Nee Ciel-kun, me desculpe. Vou embora se isso te deixa melhor, mas se cuide, sim? Por mim? – Sorriu um sorriso triste, que não condizia com sua alegria estúpida de sempre – E me chame se... quando eu puder vir. – Ela se corrigiu.

A menina baixou a mão, virou as costas e saiu do quarto.

Ciel se preocupou e até se culpou pelo estado de animo de Elizabeth, mas o que ele podia fazer? Gostava dela, realmente, porém nada que se aproximasse do que a menina sentia por ele, era apenas o suficiente para poupá-la de algumas coisas, manter por mais tempo sua alegria, seu sorriso, como um relicário do passado. Contudo naquele momento nada podia fazer, seu mundo parecia virado de ponta-cabeça.

Agora que se encontrava sozinho podia raciocinar melhor. As cortinas estavam entreabertas e era dia, suas roupas pareciam limpas, perdera peso e o quarto recendia a um aroma familiar, porem não se recordava qual. Lizzie tinha mencionado que estava branco. Algum tempo sem pegar sol? Não que se expusesse ao astro rei com frequência. Tentou se levantar, mas seus joelhos reclamaram do peso, levando-o a cair sentado no colchão, realmente deve ter ficado de cama por um período prolongado, reforçando aquela como a linha verdadeira da realidade. Era o mais lógico correto?

Sua cabeça pulsava devido à dor absurda, baixou-a até os joelhos e a segurou com a duas mãos, queria arrancá-la se pudesse! Ao apertar as têmporas sentiu uma forte pontada na da direita, o que o lembrou: tinha caído e batido a cabeça! Seria por isso que... Não... Não podia afinal fora apenas um so-

–- Jovem Mestre, que bom que finalmente voltaste à consciência.

A voz do demônio interrompeu-lhe os pensamentos, mais uma vez, e lhe atingiu com tanta intensidade que seu corpo estremeceu. Ainda não tinha chego a uma conclusão, mas teria que formular uma resposta rápida para seus questionamentos, senão com que cara iria olhá-lo? Levantou a cabeça do colo. Seu coração disparado não estava contribuindo nada em sua tentativa de concentração. Se tudo aquilo realmente tivesse acontecido iria puni-lo severamente! Mas se não...

Ouviu os passos do mordomo dentro do quarto, estava de costas para a porta, até que esse entrou em seu campo de visão com o sorriso de praxe na cara, olhos apertados numa expressão de falsa simpatia e nos braços uma bandeja de prata. Nada de incomum. Nada fora do lugar, contudo Ciel o encarava desconfiado.

–- Sente alguma coisa? Dores no corpo serão comuns, mas peço que me avise delas para que eu possa medicá-lo, sim? – Ele falava enquanto apoiava a bandeja na mesinha, virando-se posteriormente para o garoto, solícito e sorridente.

–- ... – Nada, nenhum olhar diferente, nenhuma aproximação estranha, nada. Mas também, esperava ver alguma outra coisa?

–- Jovem Mestre, estou começando a ficar preocupado com seu silencio. Diga-me, por favor, o que está acontecendo? – Questionou o mordomo se aproximando alguns passos.

O menino estudou a face enigmática do homem a sua frente e tudo que pode ver foi o que sempre viu: uma excelente mascara de preocupação e gentileza, olhos de um vermelho escuro profundo e imperscrutável, a postura rígida e gestos mecânicos. Apenas Sebastian, apenas o demônio indecifrável.

Nada daquilo podia ter acontecido mesmo, fora um sonho louco que tivera, sem motivos ou explicações. Sebastian nunca teria aquele comportamento. “Eu jamais teria aquele comportamento”. Baixou a cabeça e um suspiro imperceptível deixou seus lábios, de alivio talvez?

–- Nada Sebastian, estou um pouco desorientado. Em que dia estamos? Gostaria de saber por quanto tempo dormi. – Seu timbre era inflexível, monótono.

–- Bem, Jovem Mestre, passaram-se oito dias desde o incidente, creio que dormiu uma semana completa. Fico feliz que tenha despertado, todos sentiram muito sua falta.

O menino suspendeu a cabeça e encarou o mordomo, o sorriso falso enfeitava a expressão artificial. Geralmente aquilo seria o suficiente para lhe estimular uma provocação ou praga, mas não na atual situação. O rosto do demônio lhe parecia vazio depois de observar tantas de suas expressões, sua fala soava oca depois de ouvir risadas tão abertas... achava que havia um novo vazio em si mesmo, algo estranho e sem nome, não era remorso, raiva, dor ou saudade, conhecia todos esses e o novo inquilino não se assemelhava com nada disso. Baixou novamente a cabeça.

A íris azul do menino estava mais escura, ligeiramente vaga, pode perceber. Suas sobrancelhas tremeram levemente, mas o sorriso não vacilou, estava preocupado com o garoto, afinal de contas já lhe tinha dado muito trabalho, contudo não o mimaria, não agora. Manteve as mãos para trás, cruzadas nas costas, e essa levemente arqueada, serviciente.

–- Todos, você disse? A quem está se referindo? – Sua voz parecia longe até mesmo em seus ouvidos.

–- Ora Jovem Mestre, essa casa esteve apinhada de gente durante sua convalescência. Senhor Lau e a sua irmã passaram boa parte da semana aqui e apenas foram embora quando eu os convenci que era suficiente vir no fim dos dias receberem noticias suas; O Príncipe Soma e Agni estão aí desde que chegamos e tem sido extremamente difícil impedi-lo de dormir contigo...

Toda aquela gente esteve ao seu lado?

–- ... Lady Elizabeth permaneceu grudada a sua cabeceira e até mesmo a senhora Middleford e o senhor Edward passaram um dia aqui; o conde Grey também veio, representando a rainha... – Estreitou o olhar, não tinha acreditado naquilo. Não que a rainha não quisesse notícias de Phantomhive, contudo deveria haver mais alguma coisa por trás da visita inesperada – e os ser-

–- Já entendi Sebastian. Agradeça a todos em meu nome, quando for possível. – Disse secamente.

–- Mas Jovem Me- — E fora cortado pela segunda vez consecutiva, aquilo lhe irritava.

–- Há algo na minha fala que você não foi capaz de entender Sebastian? – Cortou de forma ferina. Por que estava fazendo isso? Não sabia, mas um profundo mau humor se instalava juntamente ao vazio e a dor de cabeça.

–- De forma nenhuma Jovem Mestre, farei o que ordenou. – Curvou-se apropriadamente, certamente aquela não era hora de contrariar o menino.

Ciel abanou a cabeça levemente, olhou para os travesseiros e lençóis, eram idênticos aos de seu sonho, uma nostalgia ameaçava as beiradas de sua mente. Oras mas que coisa ridícula! Teve vontade de se esbofetear, apertou os lábios com raiva. Deitou-se novamente na cama, sentindo os músculos doloridos relaxarem.

–- Jovem Mestre, trouxe seu desjejum, é importante que se alimente.

–- Sei muito bem disso, acha que sou algum imbecil? Meu corpo dói e sinto-me indisposto, volte daqui a pouco. – Despachou o mordomo de maneira mal educada enquanto tentava alcançar a barra do cobertor.

Sebastian moveu-se para perto da cama e com um gesto rápido cobriu o menino. O conde assustou-se com a movimentação repentina, arregalando um pouco os olhos, e pensou ter visto algo nos do empregado, mas após nova analise, acreditou ter sido impressão.

–- Yes my Lord.

Sebastian se dirigiu às cortinas e fechou-as completamente, olhando de esguelha para o menino, que acompanhava seus movimentos, retirou o café e saiu do quarto. Depois de fechada a porta não pode se impedir de sorrir, sua dúvida estava sanada. Sim, o pequeno conde se lembrava se não de tudo, das partes mais relevantes e isso era mais do que o suficiente.



****

O dia se passou, seguido de outro, com o conde fazendo manha e sendo turrão. Negando-se a comer mais que algumas colheres rasas de sopa, a levantar-se da cama e a banhar-se de forma adequada. Evitou os convidados que foram vê-lo, proibiu que abrissem as cortinas e rejeitou qualquer tentativa de tirá-lo do quarto. Os servos da casa, especialmente Meyrin, encontravam-se preocupados e mais distraídos que o normal, resultando na implosão da cozinha e na total devastação do jardim, até Tanaka dispensou sua caneca de chá do dia.

Toda essa cena finalmente irritou alguém. Vamos lá! Essa palhaçada acabaria de uma forma ou de outra, sua paciência havia se esgotado.



***

Ciel foi despertado por passos no quarto, seu sono estava leve e o corpo doía. A cabeça, ao menos, havia melhorado e sua confusão mental se acalmado, decidira esquecer toda aquela inusitada historia, na verdade podia dizer que mal se lembrava de partes. Negava-se a continuar remoendo aquela loucura. Manteve o cobertor sobre o rosto, não queria ver ou ouvir o mordomo hoje também.

–- Bom dia Jovem Mestre. – Ouviu a costumeira saudação, porém sua voz tinha uma pitada de... irritação?

–- ... – O mordomo recebeu apenas o silencio em troca.

Tsk, seria da maneira difícil então?

–- Hoje preparei filé grelhado de truta com verduras frescas para seu desjejum, esta comendo muito mal...

Ciel deu de ombros sob o cobertor.

–- ... e isso vai acabar hoje. – Pontuou a frase, não deixando espaço para qualquer argumentação.

Com quem Sebastian achava que estava falando? Retirou o edredom da cabeça e encarou o mordomo, ele tinha uma das mãos no quadril, estava resoluto, e o principal, não sorria.

–- Não quero comer nada disso. – Disse inflexível.

–- Acredito que não me ouviu bem, não perguntei se o Jovem Mestre deseja comer... – Disse inclinando, de leve, a cabeça para o lado – estou dizendo que você irá comer – Seu timbre havia mudado, a voz estava soturna.

Ciel estreitou os olhos no mesmo tempo que o mordomo. Aquele desgraçado estava o ameaçando?

–- Bem, parece-me que necessita de ajuda para sair da cama? – Foi à cama em passos rápidos.

O menino se encolheu quando viu o demônio aproximar-se, mas manteve a expressão fria e a cabeça erguida. Seu corpo estava reagindo com reflexos inapropriados.

–- Não pedi sua ajuda. – Seu tom arrogante fez com que o mordomo interrompesse seus passos.

–- Realmente não o fez, mas acredito que não consegue se levantar sem ajuda. Afinal pirralhos mimados não sabem fazer absolutamente nada sozinhos.

Os olhos de Ciel abriram-se me choque. Como era?

–- Querido Mestre, acaso não notou que se encontra em péssimo estado? É uma vergonha para mim que seu cheiro assemelhe-se ao das ruelas em dia de chuva, e seu cabelo sirva de moradia aos ratos... – Disse sarcástico e continuou seu andar, parou em frente à cama do conde e arrancou seu cobertor com um puxão — ... seus ossos estão aparecendo e está manchando a reputação da casa Phantomhive ao ignorar seus hospedes.

O garoto ainda não acreditava no que estava ouvindo, era constrangedor que recebesse um sermão logo dele, um demônio, além disso, ele não tinha esse direito!

–- Agora pare de agir como um pequeno rato covarde, o que eu acredito que seja ainda que não combine com a imagem que esteve tentando construir, e levante-se daí. Caso contrario eu mesmo o farei. –

O demônio o olhava de cima e isso o incomodou, apertou o lençol nas mãos, era um ultraje! Embora realmente cheirasse como um cão vadio e não estivesse fazendo um papel de que se orgulhava, era seu direito escolher como agir.

–- Sebastian, a quem você acha que se refere? Tenha mais respeito! – Sentou-se na cama e encarou-o raivoso.

–- Tsk, não me faça perder mais de meu tempo. Ao contrario de você não tenho passado meus dias dormindo.

Sebastian agarrou o menino pela cintura, o içando no ombro, e o levou ao banheiro enquanto o mesmo se sacudia.

–- Hei Sebastian, seu desgraçado, me solte! Agora! – Ciel socava o ombro esquerdo do mordomo e sacudia as pernas enquanto berrava em seu ouvido. O que aquele maldito estava fazendo? – Você não me está ouv-

Foi cortado quando, já no quarto de banho, o demônio lhe colocou de pé, um choque lhe subiu pelas pernas com o contato brusco das solas no chão. O mordomo dobrou um joelho e passou a tirar-lhe as roupas. Suas bochechas esquentaram de imediato e como reflexo, mais um dos inapropriados, tentou dar um passo atrás.

Sebastian estava realmente irritado, moleque petulante e mimado, tanto trabalho e ele achava que ficaria deitado naquela cama como se ela fosse sua cova?! Pro inferno que iria! Na verdade até que havia sido complacente o suficiente com aquele ali, se tinha duvidas de que as mudanças acontecidas foram para pior, não tinha mais. Agora o pequeno desaforado tentava lhe escapar. A impaciência guiou suas ações e quando o sentiu afastar-se um passo sua mão voou para o pequeno queixo, agarrando-o e impedindo de se mover um milímetro sequer. Com a outra mão terminou de despir-lhe o pijama.

Levantou o rosto para encarar o menino e viu o azul assustado e arredio lhe encarando de volta, estalou a língua com irritação, aquele pirralho era teimoso em demasia! Contudo alguns sinais fizeram sua raiva momentânea se esvair, substituindo-a por outro sentimento, um que fez os pelos de sua nuca arrepiar e prendeu seu olhar rubro na pontinha de reconhecimento que havia nos olhos de Ciel.

Quando os dedos do demônio apertaram seu queixo um calafrio correu pela espinha do conde, cenas perpassaram sua mente, como um dejavú. Seu rosto ardia e a respiração tinha ficado presa na garganta, não percebia o que o maldito estava fazendo porque naquele momento via seu rosto pairando, ilusório, a centímetros do seu, com seu sorriso rasgado.

Havia tempo que não tinha nenhum tipo de desejo autodestrutivo como o de agora, a felicidade que ameaçou despontar em seu âmago lhe deu enjôo, ânsias. Como podia ter deixado aquilo acontecer? A cor que aquecia o rosto do menino, o tremular da íris índigo, o ofegar sutil, lhe trazia um contentamento revoltante! Estava parecendo um daqueles pequenos diabinhos que se deixavam tomar pelo êxtase das sensações, perdidos e indefesos. Tudo isso por aquele pequeno anjo caído!

Ignorou a sensação e levantou-se, soltando o queixo do pequeno, quebrando a “magia”. Postou-se de costas e tirou o paletó do fraque, apoiou a roupa sobre uma cadeira e dobrou as mangas da camisa. Tomou fôlego, disse a si mesmo para parar com tanta estupidez e voltou-se novamente para o infante.

Quando o olhar do mordomo se encontrara com o seu uma espada em brasa parecia ter sido enfiada por sua garganta! Isso não era para estar acontecendo, já tinha decidido dar como encerrada toda aquela insanidade, então por que estava tão expectante?!

“Recomponha-se Phantomhive, agora!”

Mas apenas um segundo depois o demônio estava de pé, longe de si, se preparando para lhe banhar e seu olhar não pode deixar de acompanhar os movimentos do outro enquanto despia-se. Outro calafrio o percorreu e deu-se conta de sua nudez de uma só vez. Seu coração descompassou, era ridículo, mas estava com vergonha. O demônio dissimulador já havia lhe visto dessa forma um milhão de vezes antes, o que era diferente?

Pensou em entrar na banheira correndo, porém achou humilhante demais. Não existia nada para se envergonhar. Respirou fundo, ergueu o queixo e desconsiderou a desagradável pressão que ainda sentia no estomago. Era o mestre daquele maldito, ditava as regras e não o contrario.

Sebastian notou a mudança no olhar do menino, principalmente o fato de que havia aberto os dois olhos. Sorriu, aquela criança teria se tornado um homem interessante se o destino assim tivesse permitido.

–- Bem, lutará contra o banho como é típico de sua espécie ou posso fazer meu trabalho sem temer mordidas? – Agora sim era Sebastian, lá estava seu sorriso irônico odioso, carregado de provocações.

–- Meça suas palavras mordomo, não sou nenhum roedor imundo, e não volte a me tratar assim. – Disse rispidamente.

–- Vou tratá-lo como um pequeno rato quando agir como tal. – Seu tom soturno deu peso a sentença.

–- Hunf... – Ciel ignorou o homem a sua frente e entrou na água, estava quente e relaxante. Fora mesmo uma estupidez tê-la evitado.

Sebastian suspirou lastimoso ao ver Ciel sentar e relaxar na banheira, tanto teatro e luta para algo, que no fim, era de seu agrado. Seres humanos eram tão tipicamente irritantes, sorriu, gostava de brincar com essa irritação infantil do pequeno.

Agachou atrás da tina de louça e pôs-se a molhar o pequeno corpo, tinha, propositalmente, deixado sua atenção voltar-se para pequenas tarefas a serem cumpridas, o preparo do almoço e as lições do menino. Banhou o conde mecanicamente.

Ciel agradeceu por Sebastian ficar atrás de si, pois a cor de seu rosto não parecia querer obedecer a sua resolução de desconsiderar certas sensações desconcertantes. Não queria apreciar o banho mais do que devia, mas seus músculos estavam doloridos, não lhe deixando muita opção além de relaxar, o toque lhe pareceu diferente, contudo não prestou atenção em Sebastian. Por que estava respondendo de forma tão exagerada às atitudes do servo?

O banho fora rápido, até demais. Antes do que esperava Sebastian já lhe esticava a toalha, parecera assim por sua concentração em ignorar tudo e qualquer coisa que estivesse acontecendo? Era possível.

A troca de roupa acontecera do mesmo jeito, rápida. O mordomo estava calado, sentou o pequeno na mesinha e estendeu-lhe seu desjejum, que parecia acabado de ser servido apesar do tempo do banho.

Sebastian viu o menino erguer uma sobrancelha em questionamento e seu olhar de reprovação, sabia que não devia usar suas habilidades, mas por todos os demônios, queria que todo aquele processo passasse logo. Escovou as madeixas cinzentas enquanto o conde se alimentava e amarrou seu protetor ocular sem se aproximar demais, em menos de meia hora tudo já estava terminado.

–- Que maravilha, parece que o líder dos Phantomhive renasceu. – Sorriu torto juntando as mãos no peito de forma dramática, uma brincadeira para aliviar a tensão.

–- Muito engraçado Sebastian. Então me diga o que tenho para fazer hoje? – Ainda bebericava o suco.

–- Obrigado Jovem Mestre. – Consertou-se e rumou para a janela, abriu as cortinas deixando o sol entrar – Como está saindo de sua recuperação fará apenas as aulas teóricas, terá história alemã hoje.

Ciel estava distraído e não ouvia o que dizia o mordomo. Devaneava vendo como o sol refletia-se no rosto claro do demônio, em como seus olhos pareciam ainda mais escuros sob a luz solar, ponderou se neles se encontrava a entrada para o inferno... Concordou com a cabeça.

–- Porém hoje o Jovem Mestre terá de socializar com seus hóspedes. – Saiu da direção do sol e pegou a bandeja, Ciel bufou.

–- Está bem Sebastian, se não há outro meio avise a todos que já me encontro bem disposto e prepare um chá da tarde mais elaborado. – Apoiou a cabeça nas costas da mão, passaria logo por esse inconveniente.

–- Yes my Lord. – Dobrou-se numa mesura.

Era bom que as coisas voltassem ao normal, ainda que “o normal” pudesse ser um pouco diferente a partir de agora.



****



Ciel saíra do quarto e passara toda a manha em seu escritório, com exceção das duas horas em que estudara com o especialista, de alguma forma aquele ambiente lhe ajudava pensar, ou talvez fosse o quarto que estava atrapalhando. De todo o jeito o dia parecia longo demais, arrastando-se tedioso. Lia um livro qualquer na tentativa de prender sua atenção, mas seus olhos desviavam para a porta a cada 10 minutos e isso estava lhe irritando profundamente.

Logo seria hora do almoço, logo Sebastian entraria, mas porque estava contando os minutos para que isso acontecesse? Sua rotina estava tão sem graça que todos os seus pensamentos tinham que se voltar para o demônio?

Fechou o livro com força. Maldita hora em que aceitou a funesta missão do Campania! Sentia-se estranho desde então. Desde então? Talvez... Sacudiu a cabeça. Sim, definitivamente sim! Estava confuso desde aquele balburdia com os zumbis.

E os sonhos? Ou O sonho. Por Deus, tivera sonhos dentro de um sonho? Isso parecia coisa de maluco! Apoiou a cabeça nas mãos, os cotovelos na mesa. De vez em quando tinha pesadelos estranhos, pesadelos com Sebastian, porem não se recordava deles ao acordar. Por que tinha de lembrar-se daqueles que teve dentro de uma alucinação? Mas lembrava-se, perfeitamente, das penas negras, da sensação das garras em sua pele. Seu estomago se contraiu e o menino fechou as mãos nos próprios cabelos.

E ainda havia aquela maldita sensação, ou aquelas. Hora era aquele novo vazio, oco, pulsante, hora era a angústia opressiva, pesada, que lhe contraia o abdômen e fazia parecer ter insetos em peito. Aquilo era obra de Sebastian? Não podia dizer. Fora o rompante que o demônio dera pela manha, não fizera nada alem de seu habitual, na verdade achava até que este estava um pouco mais serio e afastado que o normal.

Esfregou a cabeça nas mãos, estivera pensando desde cedo e não chegara a qualquer conclusão. Suas memórias lhe pregavam peças, mostrando alguns flashes e bloqueando outros, não tinha mais certeza do que acontecera naquele outro quarto. Mas seu corpo formigava quando algumas imagens lhe vinham à cabeça, insanidades, então evitava pensar nelas, focava nas perguntas racionais, sem se prender aos fatos.

“Mas que fatos? Nem sei se aquilo aconteceu! Na verdade nem deveria estar questionando isso, porque se ater á semelhante desordem mental?”

Tinha vontade de gritar, matar alguém! Onde estava Sebastian afinal? Maldito!!! Quantas vezes já pensara nele? Maldito, maldito!!

Batidas na porta lhe assustaram, e levantou-se rápido da pose em que estava, contudo seus cabelos meio desgrenhados não passaram despercebidos pelo mordomo.

–- Jovem Mestre? – A pergunta veio anasalada, como quem prende o riso e Ciel teve vontade de arremessar o livro no demônio despeitado, algo lhe dizia que ele sabia de sua confusão.

–- O que foi Sebastian? Onde estava? Tenho fome e você demorou! – Por que estava tão alterado afinal? Nem eram doze horas ainda. Tinha de se acalmar, mas a expressão zombeteira do desgraçado não estava ajudando. Recostou-se na cadeira e cruzou as pernas.

–- Sinto muitíssimo Jovem Mestre, mas se era o caso por que não me chamou? – Levantou uma sobrancelha e o menino desviou o olhar sem resposta. Sebastian 1, pequeno insolente 0.

–- Não importa, traga logo. — Ordenou emburrado.

Aproximou-se com o carrinho e serviu-lhe a refeição. Seu sorriso ainda torto, ainda contido.

–- Sabe que deveria parar com as desculpas e almoçar na sala de jantar – Disse enquanto enchia a taça do menino.

–- Tanto faz, teria lá a mesma companhia que aqui e quero aproveitar meus últimos minutos de silencio. – Deu um motivo qualquer, porque nem ele mesmo sabia o motivo de estar trancando naquele aposento.

–- Entendo. Bom apetite Jovem Mestre. – Terminou de servir e deu um passo atrás a fim de esperar que o pequeno comesse.

Via-o se alimentar. Seria interessante contar que estava ali desde a forte batida na mesa? Não, talvez não, senão como explicaria tê-lo visto pender a cabeça em descontrole? Afinal não era comum servos empoleirarem-se nas janelas para espionar, mesmo que fosse habitual para si. Além do que, entraria em outro ponto: porque espiara? Curiosidade?

“Essas desculpa já esta ficando batida.” Balançou a cabeça negativamente.

Sabia o porquê de ter espiado, o barulho fora apenas um pretexto. Ciel o chamara por toda a manha e ainda não estava acostumado à nova intensidade dos convites. Treinaria mais seu autocontrole, de modo a resistir melhor, mas até que não estava de todo ruim, afinal até então não tinha irrompido cômodo a dentro e... Engoliu em seco e sacudiu sutilmente a cabeça, precisava espairecer.

Sebastian já tinha retirado a prataria e saía do escritório quando Ciel o chamou.

–- Sebastian, tenho algo pra fazer à tarde? – Tinha o queixo apoiado displicentemente na mão.

–- Não Jovem Mestre, somente o chá com seus amigos – Sorriu – Já contatei todos, contudo a senhorita Elizabeth desculpou-se por não poder vir, disse que o visitará outro dia.

Nada para fazer, o vazio se pronunciou.

–- Bem então... – Pareceu refletir no que ia dizer – Venha jogar uma partida de xadrez comigo.

O sorriso do mordomo aumentou ligeiramente, engraçado como agora era capaz de perceber certas nuances do demônio, para depois ser substituído por uma expressão estranha.

–- Ah Jovem Mestre, sinto muito, mas não poderei. Preciso terminar os detalhes do chá – O rosto do conde não demonstrou nada, mas o mordomo pode ver o desapontamento em seu olhar – Embora eu possa mandar Bard ou pedir ao príncipe Soma para vir jogar contigo.

–- Não Sebastian, eles não são v... – Parou a frase quando percebeu o que dizia. Não queria jogar com ninguém menos que o demônio, apenas ele era capaz de disputar uma partida consigo, porem não diria isso! — ... não são válidos, não será divertido. Esqueça.

O menino virou-se para a mesa e tornou a pegar o livro. Sebastian sorriu novamente, deu as costas, entretanto não perderia a oportunidade.

–- Como quiser Jovem Mestre, mas obrigado. – Bateu a porta atrás de si.



****

A tarde arrastou-se como a manha e pareceu passar séculos até que o mordomo viesse avisá-lo que tudo estava pronto e lhe esperavam na sala de jantar.

Caminhou ao lado do demônio sentindo-se mais animado. Por que isso? Não queria ter de passar torturantes horas fingindo sorrisos, preso em uma socialização forçada, estava cansado dessa encenação, contudo estava animado! Era um paradoxo! Olhou, brevemente, a criatura a seu lado, ao menos ele também estaria lá. Suspirou. Opa! Que pensamento idiota fora aquele? Admitia que era divertido quando conseguia traçar jogos ou manipulações durante reuniões com seu mordomo, ou constrange-lo na frente de todos, mas parava por ai.

Sebastian observava o garoto em sua luta interna. Não deveria mesmo achar tudo aquilo tão agradável, distraia-se demais com esse jogo, mas era impossível não apreciar a batalha do infante contra sentimentos tão opostos, principalmente quando seu general era o orgulho. Quem ganharia? Pretendia fazer suas apostas e, quem sabe, até trapacear um pouco, porque no fim das contas ninguém gostava de perder.



****

Há quanto tempo estava ali mesmo? Até o chá já parecia amargo e frio. Fora imbecilidade ter se animado perante aquilo.

Quando chegara a mesa já estava cheia, Soma havia o agarrado no colo e tinha apertando tanto suas costelas que elas agora estavam doloridas, não o soltara por meia hora, foi sacudido, esmagado e esticado, ele sentava-se a seu lado e, na verdade, temia mais algum ataque. Apesar de Lizzie não ter ido, Edward tinha comparecido, juntamente com Agni e Lau especulavam motivos e explicações para os acontecimentos do Campania, mas Ciel não queria falar disso! Enquanto um estava em um barquinho seguro e o outro nem sequer estivera lá, o menino quase tinha sido devorado, cortado, morrido afogado, congelado e tudo isso de novo, até em ordem diferente.

Balançou a cabeça impaciente. Meyrin, Finny, Bard e Snake também estavam às voltas. Bard tinha lhe preparado um patê especial, dissera, para demonstrar seu contentamento, mas o gosto da coisa era terrível e adormecera sua língua dando-lhe ânsias até agora. As demonstrações de afeto dos demais não foram muito diferentes: se não fosse por Sebastian Meyrin teria derrubado todo um bule de chá fervente em seu colo; os galhos mortos que Finny chamava de planta decorativa eram deprimentes e pareciam venenosos e ainda não conseguia esquecer o beijo que Roger ou Oscar, não sabia, enfim, a cobra do Snake lhe dera. Fora traumático.

A xícara em sua mão tremia e respigava quando Ranmao exagerava nos movimentos de dança feitos do seu lado, pois Sebastian a tirara de seu colo rápido o bastante antecipando e evitando sua ordem para matá-la, para lhe agradar. Tinha os olhos apertados e um meio sorriso quase evanescido, tremido nos cantos, congelado na cara, por Deus! Por que a irmã de Lau tinha que andar seminua? E se arreganhar tanto?!! Uma dama não deveria fazer tal coisa despudorada!

Tentara focalizar o mordomo no inicio, mas posteriormente não foi mais possível, ele escondia-se atrás de si e pode jurar que o ouvira rir uma vez ou duas. Que ódio! Já havia desistido de entrar na conversa fazia uma hora e apenas assentia cordialmente com a cabeça, balbuciando monossílabos aqui e ali.

Perto das sete e meia Ciel não pode agüentar mais, sua cabeça zunia de forma estranha, estava cansado, de mau humor e com dores no corpo. Daria um ponto final naquela tortura, sua obrigação já fora cumprida, que a etiqueta se danasse, sairia dali.

–- Sebastian. – Chamou baixinho, baixando a cabeça e inclinando-a um pouco para o lado a fim de que somente ele ouvisse — Não suporto mais, vou para o quarto. Tome conta do resto.

Era sempre assim com aquele infante arrogante, ele se retirava e deixava a sujeira por sua conta.

Limpou a boca no guardanapo fino e levantou-se.

–- Com sua licença senhores, mas vou me retirar. Sintam-se a vontade para permanecer em minha casa esta noite, Sebastian cuidará de tudo que necessitarem.

Todos o olhavam e murmuravam ‘Claros’ e ‘Obrigados’ enquanto o conde se retirava, mas pouco antes de alcançar a porta alguém a bloqueou.

–- Oh, mas o Conde Phantomhive não faria essa desfeita não é? Sair sem que eu tenha a oportunidade de parabenizá-lo pela recuperação! – Conde Grey acabara de chegar, sorridente, escoltado por Tanaka.

Os olhos de Ciel estreitaram-se levemente, aquele ali não lhe agradava. Deixou um educado sorriso cingir-lhe os lábios, em resposta ao do outro.

–- Conde Grey, estou honrado com a visita, como vê terminei meu chá, porém se não se importar gostaria de me acompanhar à sala intima? Assim posso recebê-lo apropriadamente. – Frisou suavemente a ultima palavra.

–- Ah! Mas estou com fome e o chá parece delicioso! – Disse esticando o pescoço para a mesa.

–- Com certeza Sebastian pode fazer algo quanto a isso, correto? Traga-nos algo do agrado de Grey – Seu olhar faiscou para o mordomo sorridente.

–- Certamente que sim Jovem Mestre, irei servi-los em instantes. – Disse curvando-se.

–- Ótimo! Então me acompanhe, por favor, Conde Grey... – E pôs-se a sair da sala — ... e Sebastian, cuide dos convidados.

Não foi necessário mais que um olhar sutil do conde, da mesa para o mordomo, para vê-lo descerrar os olhos como concordância. Ah sim, ambos adoravam essa parte. Sabiam que Lau prestara atenção, a cobra asiática sempre tentava arrastar-se por entre os assuntos da rainha e seu cão de guarda. Este era útil e bem vindo quando e enquanto interessasse ao conde, nada além. Ambos o perceberam e palavras não eram necessárias para comunicarem isso um ao outro, em nenhum momento ficavam tão conectados quanto em um jogo. A confiança mútua era inquestionável.

Tal situação divertia Sebastian, o momento em que o pequeno rato mostrava todo seu potencial, seus diabólicos dons, sabia jogar como ninguém e usava todos os peões que tinha no tabuleiro. O demônio adorava ser usado por ele, podia sentir a injeção de poder que isso dava á criança, era delicioso o ver vencer, vez após outra.

–- Yes my Lord. – Seu sorriso havia voltado, com o tom sádico que Ciel se lembrava.



****

Não fora difícil descobrir a estratégia de Grey. Sua visita enquanto na sua convalescência e a repentina aparição se tratava de uma curiosidade da rainha, uma curiosidade nefasta.

Grey tinha ido a sua casa trazer-lhe uma doce e preocupada carta real, contudo também havia ido entender o porquê de estar vivo. Os jornais tinham testemunhos o suficiente de que sua pessoa não entrara nos botes salva-vidas, que fora achado vivo após toda uma noite de frio mortal em outro bote, o qual deveria estar no fundo do mar preso ao navio, ao lado de seu mordomo ensangüentado. Realmente uma cena pra lá de suspeita, mesmo com a omissão dos fatos sobre a Ordem da Fênix, os periódicos marcavam bem o quão milagroso fora sua sobrevivência.

Sua majestade não estava satisfeita com a pouca informação que recebeu, queria ver de perto sua condição para tirar conclusões e Grey estava sendo seus olhos. A rainha Vitoria gostava de jogar, mas não era fácil vencer o líder dos Phantomhive. Após uma breve conversa que levou o rapaz de cabelos prateados a um beco sem saída, e algumas rodadas de um Darjeeling especial, preparado por Sebastian, que possuía uma nota ferruginosa entre seu típico aroma doce, Conde Grey levantou-se e despediu-se com um sorriso bem mais amargo e menor, deixando o de Ciel enorme e maligno.

O demônio permitiu-se um sorriso rasgado ao fechar a porta para o visitante indesejado, o pequeno insolente havia vencido mais uma vez e movera apenas um peão. Ah sim, Ciel era um achado.

Checou as horas enquanto voltava à sala de estar com seu candelabro, já passara das nove e também da hora do Jovem Mestre ir para cama. Entrou no cômodo e foi capturado pela fragrância pungente do chá, sorriu mais uma vez, havia sido mesmo uma idéia genial, um chá sangrento.

Ciel estava quieto na cadeira, tinha os olhos fechados, mas não dormia, Sebastian sabia disso. A carta real permanecia fechada em cima da mesa de centro.

–- Jovem Mestre, tudo já foi resolvido e está tarde, hora de ir para cama. – Disse de forma leve.

O conde abrira os olhos e o azul capturara o brilho vermelho do fogo, seu olhar estava cheio de arrogância, prepotência e poder, não havia inocência ali, como uma pedra de lápis lázuli, dura e preciosa. Novamente Sebastian teve vontade de passar a língua pelos lábios, lhe inspirava ver essa faceta de Ciel, mas durou um segundo, o pequeno piscou e o cansaço nublou seu olhar.

–- Claro... – Suspirou cansado, levantando-se da cadeira. Os membros doíam um pouco.

O mordomo viu quando o pequeno corpo vacilou ao se levantar e antes que pudesse pensar e, portanto, se arrepender de sua ação, tomou o conde nos braços, erguendo-o do chão.

Ciel segurou a respiração, em um momento o mordomo estava em frente à porta, no outro estava lhe segurando no colo. Podia sentir os braços firmes em volta do corpo e as cenas de seu sonho lhe assaltaram novamente, queria ordenar ser posto de volta no chão, mas a sensação de segurança que lhe tomou foi aconchegante e intensa.

–- Permita-me Jovem Mestre. – Encarou o menino.

Não foi um pergunta, mas Sebastian esperava ser rechaçado. Analisou o rosto arredondado e este não estava temeroso, tão pouco parecia desconfortável, quis sorrir, mas se conteve.

O corpo de Ciel esquentou de uma forma gostosa, seus músculos relaxaram e a dor pareceu diminuir com o simples toque do criado. Sua mente o incomodou, acusando a intimidade da situação, contudo qual era o problema afinal? Sebastian já tinha o levado no colo muitas outras vezes... “Todas elas foram justificáveis” disse sua consciência. Ora, essa também era! Estava cansado! O mordomo não estava fazendo mais que sua obrigação, e ele próprio só estava em seu lugar de amo. “Sabe que não, o lugar de um amo não é nos braços de seu criado” sussurrou ela novamente. Suas bochechas coraram um pouco e soltou um muxoxo.

Não recebendo qualquer tipo de reprimenda, Sebastian deixou a sala em direção ao quarto. O menino estava quieto, de cabeça baixa, mas relaxado em seus braços, viu sua face ganhar cor a teve que conter outro sorriso. Mania maldita de sorrir que tinha adquirido! O olhava quando o garoto voltou o rosto para o seu e pode ver que este se assustara um pouco, seus olhos correram de um lado a outro de seus ombros a ação fora rápida e velozmente disfarçada, mas não havia velocidade que escondesse as reações do conde àquela distancia.

–- Algum problema Jovem Mestre?

–- Hum, nenhum. Porque haveria? – Respondeu sério, esquivando-se do olhar do maior.

–- Por um momento o conde pareceu procurar algo em mim... – O sorriso espalhou-se por sue rosto, incontrolável — ... o que seria?

O rosto de Ciel esquentou mais e ele quase teve que cuspir as palavras. Será que o demônio maldito tinha que pegar cada movimento seu?

–- Pare de tanta estupidez Sebastian, não há em você para procurar. – Disse e olhou-o por cima do ombro, em aviso. Não queria mais perguntas.

Será mesmo que não havia?

O demônio evitou que seu sorriso rasgasse ainda mais seu rosto. Ah estava tentado a ceder, só um pouco, àqueles sentimentos mortais a fim de provocar mais o menino, mas ainda não tinha certeza se valeria o preço. Apertou suavemente o pequeno contra o peito e ao chegar à porta fechada do quarto sentiu a mão fria do menino agarrar, discretamente, a manga de seu paletó. Por quê? Tinha ambas as mãos ocupadas, com o garoto e o candelabro, acaso temia ele descer de seu colo? Gostou de pensar assim, contudo se fosse isso, deveria lembrá-lo de quem era, ou melhor, do que era.

Uma rajada de ar e a porta se abriu, Ciel estremeceu em seus braços e mais uma vez o sorriso lutou contra os músculos de sua face.

Depois de findo o ritual noturno de Ciel, sua troca de roupas e o fechar das cortinas, este bocejou longamente e se dirigiu ao mordomo, vendo-o recolher o candelabro.

–- Sebastian, guarde a carta de vossa majestade, eu a lerei amanha. – Disse deitando-se na cama.

–- Sim Jovem Mestre. – Interrompeu-se a frente da cama

–- Algum convidado ficou para o pernoite?

–- Bem, sim. Príncipe Soma e Agni ficaram e pretende irem-se no fim da semana. – Mas o que estava acontecendo ali? O jovem conde não era dado a conversas antes do descanso, porque estava procurando assunto?

–- Imagino que vejam minha casa como um albergue, tsk – Já havia se deitado e coberto, encava o sorriso de praxe do mordomo, porque não o deixava ir?

–- Jovem Mestre, está sem sono? – Sabia que não, as pálpebras pesavam o olhar nublado – Quer algo para ajudá-lo a dormir? Ou talvez... – Abriu os olhos, malicioso, mas Ciel o interrompeu antes que completasse.

–- Não Sebastian, obrigado. Pode ir. – Disse, virando-se na cama e apertando os olhos, os pelos de seu braço tinham arrepiado.

Não queria ficar sozinho, mas não pediria que o demônio ficasse ali como de costume, o motivo? Era estúpido e irracional, mas não o chamaria depois daqueles sonhos, tinha a intuição desagradável de que o maldito sabia o que se passava e a lembrança do olhar sarcástico, enquanto aquele corvo negro via dentro de sua cabeça, estava fresca. Mas ainda sim, não queria ficar sozinho...

–- Sebastian! – Chamou antes de ouvir a porta bater.

–- Sim jovem Mestre? – Ele pediria não é? Seria uma excelente oportunidade... mas para faze o que? Não deveria deixar sua imaginação solta demais, da ultima vez...

–- Deixe o candelabro. – Disse apenas e o mordomo ficou confuso.

–- Teme a escuridão mestre? – Dessa vez não pode impedir-se, um pequeno riso escapou de sua boca, que ridículo aquilo era.

–- Não faça perguntas estúpidas Sebastian, é obvio que não. Agora o coloque perto de minha cabeceira e saia.

O criado franziu as sobrancelhas, um novo e pequeno mistério, o que estaria Ciel Phantomhive tramando agora? Acatou a ordem e se retirou, mas continuava curioso, antes de fechar a porta resolveu tentar.

–- Posso perguntar o porquê?

–- Não acho que precise dele Sebastian, afinal você enxerga no escuro... – Ouviu a porta bater – ... e além do mais, ele lembra seu olhar, o fogo. – Sussurrou baixo, fechando os olhos e adormecendo instantaneamente. Aumentando o sorriso rasgado da sombra em uma quina do quarto.



*

*

*

*

You can't be too careful anymore

Você não pode mais ser tão cuidadoso

When all that is waiting for you

Quando tudo isso está esperando por você

Won't come any closer?

Não vai chegar mais perto?

You've got to reach out a little more

Você tem que se aproximar um pouco mais

More, more, more, more

Mais, mais, mais, mais

(Careful – Paramore)

Notas finais
*tabuleiro aberto ok copo de agua ok copo virado ok papel e lapis ok velas ok luz apagada ok vamos a Ouija! Se tiver alguem aí, por favor, responda. >_