Defying Gravity

10 Capítulo 9 - Uma trégua de grego... ou do diabo.


Notas iniciais
Oi gente!!!
É vcs não estão alucinando, sou eu mesma!!
Eu sei que passou-se muito tempo, peço mil desculpas e só tenho uma palavra a dizer como explicação: MONOGRAFIA.
Sinto muito,mas ela esta me tomando o tempo de dormir, de comer, a vida social,a sanidade, enfim....

Mas quero deixar claro que eu NAO DESISTIREI DA FIC!!!!
Por favor,não desistam de mim também.

Mesmo que ninguem mais leia, que se passem milênios,eu estarei aqui! Estou escrevendo o outro capitulo já, mas farei assim: se eu não conseguir terminar rapido pra postar, vou postar um aviso, uma explicação, alguma coisa pra vcs, que apagarei quando colocar o capitulo em si. Tudo bem?

Perona-chan amo vc viu? De verdade! Muito obrigado por se lembrar de mim!

No mais, vamos continuar a historia, que ainda tem muita coisa >_< ... ah e me digam se o ritmo mudou muito, ok? É que o que ando escrevendo não é lá muito divertido, alem de ser completamente diferente, então pode ser que tenha influenciado minha escrita.

E desculpem pelos erros!São 4 horas da manha T-T

Kissu ne!!

It's getting late to give you up

Está ficando tarde para desistir de você

I took a sip from the devil's cup

Eu tomei um gole do copo do demônio

Slowly it's taking over me

E lentamente está tomando conta de mim

(Britney S. – Toxic)

Ciel já tinha perdido as contas de que horas deviam ser. Lá pelas tantas ele resolvera fechar os olhos, nem tanto para enganar Elizabeth, se bem que isso seria um bônus maravilhoso, mas porque sua cabeça doía e os olhos queimavam de sono, embora não conseguisse dormir por causa do falatório da menina e do desconforto que passava. Seu corpo já havia se acalmado e tentou usar o tempo de tortura para entender toda aquela bagunça, mas o latejar insistente em suas têmporas não permitiram que fizesse nada além de agonizar.

Em um dado momento a menina calou-se, abriu levemente os olhos e a viu dormindo na beira de sua cama, quase se apiedou dela, mas a câimbra que sentiu ao tentar levantar-se, por ficar tanto tempo propositalmente sem se mexer, impediu esse bondoso sentimento. Sentiu foi raiva e resignação, ficaria daquele jeito até o amanhecer. Alternou cochilos desconfortáveis com períodos de vigília, nas quais abria os olhos para verificar se Lizzie já tinha ido embora e sempre constatava que não.

Ouviu a porta sendo aberta e não soube dizer se estava acordado ou não, mas ao ouvir a voz do mordomo chamar Elizabeth, teve certeza de estar desperto.

-- Senhorita Elizabeth... – Sussurrou – Senhorita, por favor, acorde. – Repetiu tocando-a levemente no ombro, fazendo pressão necessária apenas para que acordasse.

--Hum... – A menina resmungou, mas não deu mostras de ter acordado totalmente.

-- Por favor, se a senhorita dormir aqui poderá pegará um resfriado e acordará com dores no corpo. – Insistiu e viu a pequena levantar a cabeça do colchão, meio perdida.

-- Sebastian? – Perguntou grogue e olhou em volta – Onde eu estou? – Piscou pesado.

-- A senhorita adormeceu no leito do Jovem Mestre, é tarde e esta frio. – Disse ainda aos sussurros, mas notou uma movimentação com o canto dos olhos, impediu-se de sorrir. Ciel não tinha sono pesado, provavelmente este estava acordado desde que saíra do quarto.

-- Ai meu Deus... – Olhou em direção a Ciel e viu que ele dormia tranquilamente, sorriu — Me desculpe Sebastian. – Levantou-se ainda tonta.

-- Não se preocupe com isso, sei de sua afeição para com o Jovem Mestre e agradeço muito que goste tanto dele. – Disse com seu típico sorriso simpático, cruzando o braço no peito, um perfeito gentleman – Só me preocupo com sua saúde. Sua serva está lhe esperando no quarto para ajuda-la.

-- Ah sim... – Corou — Obrigada Sebastian, e boa noite. – Abriu um bocejo enorme enquanto passava pela porta que o mordomo mantinha aberta.

Ciel estava nesse momento agradecendo não a Deus, mas sim ao Diabo por ter dado a Sebastian um timing tão bom! Se bem que ele podia ter aparecido antes não é? Na verdade foi ele que o deixara ali, daquele jeito, até agora. Desgraçado!

-- Jovem Mestre, desculpe a demora. – Disse sem esperar qualquer movimento voluntario do menino. – Sei que não está dormindo, levante-se, por favor, para que eu o dispa.

-- É lógico que você sabe, afinal ninguém poderia dormir no estado em que estou, ou melhor, no estado em que me deixou. – Abriu os olhos sonolentos e vermelhos fuzilando o mais velho.

-- Ora Jovem Mestre, o que eu poderia ter feito? Sua noiva exigiu um tempo contigo, fiz o que me cabia. – Disse dando seu sorriso de praxe.

-- Você podia ter dado uma desculpa qualquer já que é sua culpa eu estar na cama vestindo, inclusive, meus sapatos. – Disse incisivo, a voz rouca de sono, queria xingar o cretino, mas sua cabeça doía. Parte do seu cérebro dormia.

— Minha culpa? Não é bem assim que eu vejo os fatos, mas não é o momento para discussão. – Disse puxando a coberta de cima do menino, ele ainda estava na exata posição que assumira ao ser jogado na cama. – Sente-se Jovem Mestre.

Emburrado, o garoto se levantou e sentou na beirada da cama, o movimento fez sua cabeça parecer vazia, com qualquer coisa solta chacoalhando lá dentro e o corpo todo pinicava, era irritante.

— Seja rápido. – Disse lutando contra as pálpebras.

Sebastian abaixou-se em um joelho e desabotoou a casaca e a camisa, retirou as peças e descalçou o jovem, tirou as meias e abriu a bermuda. Tudo num piscar de olhos,

— Levante um momento, Jovem Mestre, para que eu p...

O mordomo pretendia banhar o menino antes de pô-lo para dormir, afinal tinha deixado-o grudento de suor ao sair do quarto, mais cedo, mas seus planos teriam de ser modificados. Ao olhar para o pequeno viu que seus olhos estavam fechados e seu tronco balançava incerto para frente e para trás, ele dormira sentado assim que se viu livre das roupas. Um nobre em sua essência, mesmo uma ervilha não o deixaria dormir.

Sebastian não pode conter o sorriso dessa vez, nem ao menos notou que sorrira, e não fora nenhum de seu arsenal. No fim das contas Ciel era apenas um menino, um dos piores com certeza, mas um menino.

Levantou-se, desamarrou o tapa-olho e apoiou o pequeno tronco em seu peito, erguendo-o um pouco para acabar de despi-lo. Trouxe uma ânfora com água quente e óleo de lavanda junto com duas toalhas pequenas do banheiro. Improvisou um banho de gato, obviamente o melhor já dado em toda historia, limpou e refrescou o menino da melhor maneira que pôde, colocou-lhe uma camisola longa e o cobriu.

Era impressionante como o sono do garoto podia ser pesado, nem as badaladas do novo Big Ben o acordaria agora. Também era incrível como aquele petulante podia possuir uma expressão tão angelical e vulnerável. Antes que percebesse e se impedisse, deslizou o dorso da mão pela bochecha macia, ele era aquele que mataria o pequeno, era o demônio, o chacal, a ruína de Ciel Phantomhive. Desceu o rosto até próximo da face infantil e com a mão retirou a mecha de cabelo azul cobalto que caía sobre os olhos cerrados. Se era assim, se ele era a parte inescrupulosa e inegavelmente má, se ele era o feitor, como podia então aquela frágil criança ser sua tentação? Se Ciel era sua vítima, como podia ser também sua perdição? Depositou um beijo nos olhos fechados e se ergueu. A vida e suas contradições.

As cortinas ainda estavam abertas, fruto de sua saída forçada e antecipada do quarto. Adiantou-se para fecha-las, pois o infante não teria muito mais tempo de sono e não poderia dormir até mais tarde, iria precisar de todo o tempo disponível agora.

Ciel acordaria exausto e de mau humor.

Antes de puxar o tecido o mordomo espiou a noite, sua velha parceira, e no céu estava a lua, brilhante e enxerida, que se metia por entre as frestas revelando o que a escuridão devia guardar. Lá estava ela, aquela pequena tratante, espiã noturna do Sol, a zombar da sua cara. No limiar do horizonte ela ria, satisfeita por ter visto e saber do mordomo que queria seu pequeno mestre maculado, do demônio que desejava um anjo corrompido, sua pequena parcela do remoto Éden.

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A primeira coisa que Ciel ouviu ao acordar, na verdade foi acordado por ela, não foi o “bom dia” costumeiro do mordomo, ou o som das cortinas sendo puxadas nos trilhos, mas uma melodia arrastada, que até poderia ser bonita caso ele a tivesse ouvido em qualquer outra circunstancia.

Apertou o travesseiro contra as orelhas amaldiçoando o som. Passos cruzaram o quarto pouco depois de a porta ser aberta, ouviu o tilintar da louça na bandeja quando esta foi depositada na mesinha e então o barulho das cortinas. Apertou mais ainda o travesseiro.

— Ah que bom, já se encontra acordado Jovem Mestre! – Disse o mordomo numa falsa alegria – Achei que teria de usar métodos mais agressivos para lhe tirar da cama hoje. – Falou carregado de ironia.

Não obteve nenhuma resposta a não ser o virar de bruços do corpo infantil.

— Vamos Jovem Mestre, sabe que tem compromissos.

— Está muito cedo! – Resmungou, mal havia claridade quando Sebastian puxara as cortinas.

— Sei disso, mas será necessário usar tempo extra para compensar aquele que terá de dispensar a sua noiva, e o que perderá com atividades fora do planejamento a fim de que Senhorita Elizabeth não perceba nada.

Ciel gemeu de frustração, não conseguia nem abrir os olhos e teria de levantar antes do nascer do sol, fora aguentar toda a energia e curiosidade desmedida de Lizzie depois de menos de quatro horas de sono. Ficava esgotado só de pensar.

Rolou para o lado, ficando de costas novamente, e soltou o travesseiro. Abriu os olhos com esforço, eles ardiam, e deu um sonoro bocejo.

Sebastian o ajudou a se vestir, serviu-lhe o café e passou a nova agenda que Elizabeth tinha programado, vendo a expressão de desgosto aumentar no rosto infantil. Engraçado era que o menino não parecia em nada desconfortável com os acontecimentos da noite anterior, ou talvez fosse apenas o sono.

— Esqueça toda essa bobagem de ”chá temático” e “baile intimo” que Lizzie inventou, assim como todos os outros eventos felizes que ela imaginou. – Ordenou, apoiando o queixo nos nós dos dedos.

— Não sei se será prudente, certamente a senhorita ficará magoada. – Não que gostasse daquela palhaçada, na verdade detestava as fantasias idiotas e os laços bufantes que a garota o fazia vestir, contudo fazia parte da estratégia do conde alegrar a menina.

— Sei disso e por esse fato nós faremos um jantar hoje à noite, nos jardins. Avise Finian. Espero que o tempo colabore. – Deu uma olhada de lado, sugestiva, para o mordomo – Amanha faremos um piquenique perto do rio prepare doces para que meu humor não fique tão ruim, e sexta à tarde quero um pequeno concerto de violinos. Contrate dois músicos para que possamos dançar, avise aos servos, desse jeito Lizzie ficara feliz e eu posso ver como estará minha dança. – Terminou dando um pequeno gole no chá verde.

Sebastian estava absorto no discurso da criança, era muito interessante como o pensamento analítico do menino criava ambientes e eventos românticos sem que ele pretendesse esse romance. Tudo com Ciel era fachada, uma encenação. Sorriu de lado.

– Sebastian, por que chá verde? – Perguntou Ciel não gostando muito do amargor.

– Ah, ele é excelente estimulante e acorda o corpo. – Sorriu de praxe.

— Entendo.

Ciel rodou a xícara entre os dedos algumas vezes, estava cansado e de mau humor, não tinha nenhuma disposição para encarar Lizzie o resto do dia, mas de forma alguma havia esquecido o motivo de estar assim, apenas era melhor que as coisas voltassem ou parecessem normais enquanto Elizabeth estivesse ali. Faria seu melhor para isso, afinal mesmo que fosse um fingimento de sua parte, ele era noivo da menina e de nenhum jeito a desonraria com algo assim.

Sebastian o viu pensativo, mas não se importou, tinha mesmo muito que tramar se quisesse que tudo desse certo até sábado... e depois.

O mordomo mudou suas atividades aquele dia, claro!

Quando o sol nasceu Ciel já havia tido aulas de conhecimentos atuais franceses, etiqueta feminina e moda. Depois de seu segundo café da manha, junto a Lizzie, Soma e Agni, estudou francês informal e revelações do mundo artístico francês. Quando Elizabeth o questionou sobre as aulas deu a desculpa de que estava pensando em uma possível expansão da empresa na França, no mercado artístico, por isso queria conhecer melhor essa área e suas especificidades.

A desculpa colou.

Já na hora do almoço o menino estava esgotado, Sebastian via isso claramente, mas o mais importante foi que durante toda manha Ciel tinha evitado olhar em sua direção, não que isso fosse claro para os demais, mas era impossível que o pirralho conseguisse dissimular para alguém como ele. Isso o estava intrigando, estaria constrangido? Não parecia.

O Conde comeu o Foie Gras com esforço, espetando as ultimas ervilhas e sentindo suas forças irem embora quando a moleza pós-refeição o atingiu.

— Jovem Mestre... – Sussurrou o mordomo em seus ouvidos, curvando o corpo – ... não pode descansar agora, perderá toda a noite confraternizando, precisamos desse tempo para suas aulas.

Os pelinhos da nuca do menino se arrepiaram e ele levantou como se picado por um inseto.

— Sinto muito, mas preciso resolver assuntos da empresa, fiquem a vontade. – Disse levemente constrangido por quase ter derramado a taça de água em seu rompante.

— Mas Ciel, você nem comeu a sobremesa ainda! – Elizabeth se indignou, fazendo um bico de protesto.

— Eu sei Lizzie, sinto muito, mas preciso ir. – Deu um sorriso condescendente à menina e saiu da mesa – Me acompanhe Sebastian e chame Meirin para que sirva a sobremesa. – Completou já saindo pela porta.

Sebastian sorriu de lado, agora fazia alguma ideia do que estava acontecendo.

— Claro Jovem Mestre. – Se inclinou.

Ciel teve uns vinte minutos dadivosos para descansar sentado na cadeira de espaldar alto do escritório. Tinha fechado os olhos, ainda constrangido pelo susto que levou.

“Pelo amor de Deus, preciso ser mais discreto!”

Ainda precisava entender direito o que estava acontecendo e o melhor era ficar afastado do traiçoeiro demônio até lá, assim que tivesse tempo iria pesquisar sobre o assunto, certamente não era o primeiro a ser “degustado” antes do tempo por um da raça dele.

Queria saber com que tipo de situação estava lidando, precisava saber como lidar com isso, com ele! Não gostava nem um pouco de estar “ás cegas” nisso tudo.

Concluía o pensamento quando três batidas soaram na porta, suspirou e o mandou entrar, sabia que era ele porque parecia ser o único que batia antes de entrar naquela casa. Que ironia, o demônio era o exemplo de educação ali.

— Demorou demais. – Disse ainda com os olhos fechados, ouvindo a porta bater.

— Perdoe-me, mas aconteceram acidentes, precisei intervir. – Uma veia pulsava em sua testa, perdera 15 minutos impedindo Meirin de assassinar acidentalmente Elizabeth enquanto a servia.

Abriu os olhos e encarou o mordomo, cruzou as pernas e braços antes de começar a falar.

— Então o que tenho para fazer agora? – Seu tom era de desgosto.

— O jantar que programou está marcado para as cinco então adiantei o horário da aula de equitação e caça com o Sr. Fisher para agora, e as três terá sua aula de dança. – Concluiu profissional.

Ciel teve vontade de engolir em seco, mas não o fez, aula de dança? Não queria mais aula de dança nenhuma! Só de pensar no que tinha acontecido na última seu rosto começou a esquentar, apoiou os cotovelos na mesa, cruzou as mãos no alto e baixou a cabeça dramaticamente.

— Às três da tarde? Então pularemos o chá de novo? Não gosto disso. – Manteve o rosto escondido entre as mãos cruzadas, esperando que o outro mudasse de assunto, que seu rosto voltasse à palidez normal, que ele não tivesse percebido nada.

— Sinto muito Jovem Mestre, mas foi o único jeito, lhe prepararei um chá antes de se deitar. – Sorriu simpático.

Sebastian entendia que o garoto devia estar cansado, mas não deveria reclamar já que tudo fazia parte de seu cenário. Esperava ele se recompor quando viu as janelas abertas, se irritou. Pirralho teimoso, já havia dito umas cem vezes que mantivesse as janelas fechadas, muita gente queria aquele garoto morto, ele tinha mesmo que dificultar tanto o seu trabalho?!!

O menino respirou fundo, achou que já dava pra continuar, levantou o rosto e ia começar uma frase quando notou o mordomo ao seu lado.

— Será que o Jovem Mestre aprecia tanto ser sequestrado que aumentas as chances para que isso ocorra? – Disse incisivo enquanto fechava as janelas.

O maior estava muito perto, o suficiente para que o menino sentisse o aroma amadeirado de suas roupas, de sua pele. Um calafrio arrepiou os pelinhos da nuca de Ciel novamente. Levantou-se de supetão novamente, mas dessa vez com menos estardalhaço, lembrou-se.

— Talvez... – Disse ferino, com o olhar enviesado – ... Ou eu somente goste de lhe dar trabalho, não acho que faça o suficiente. – Virou o rosto e se encaminhou para a porta — Vamos.

Sebastian o viu caminhar e sorriu de lado, não conseguia se conter, por mais que lhe desse trabalho, valeria a pena, valia a pena. Apressou-se para frente do menino e lhe abriu a porta com um leve reclinar de corpo, ele não lhe dirigiu o olhar.

As três em ponto o Senhor Fisher despediu-se do garoto ainda no campo a beira da floresta e Sebastian o acompanhou até a saída da propriedade, Finian levou os cavalos para o estábulo e Ciel o avisou que não dissesse nada sobre a aula já ter terminado, especialmente aos hóspedes.

Tinha tido uma ideia durante a aula, praticava equitação e caça em uma sessão isolada e distante de sua propriedade, uma área perfeita para praticar dança, ao menos para si. Não queria ninguém espiando a situação constrangedora em que ficava quando dançava, e nem a outra situação que esperava, não acontecesse.

Sebastian tinha reclamado um pouco das condições do lugar, mas não importava, encarregou-o de deixar tudo preparado para a aula antes que o Sr.Fisher partisse, agora apenas esperava o mordomo voltar e lhe mostrar onde estava a “sala” improvisada.

Parado ali a sombra avançada das arvores sua consciência lhe dizia que não deveria praticar coisa nenhuma com aquele demônio e não conseguia deixar de concordar com ela, mas quais eram as opções? Ser descoberto na mansão Druitt e falhar com a Rainha? Jamais! Era um Phantomhive, tinha seu orgulho e nome a zelar. Engoliu em seco.

A opção de dançar com Sebastian também não era muito pró-orgulho aristocrático, mas era menos pior, acreditava piamente nisso, se não acreditasse não ficaria ali esperando o demônio, em um lugar remoto e escondido, para valsar com ele. Em todos os quadros que sua cabeça pintava aquilo parecia um conto de fadas deturpado virado do avesso. Era simplesmente ridículo que estivesse com o estomago embrulhado de nervoso.

Foi pego de surpresa pela voz do mordomo ao seu lado, ele era traiçoeiramente silencioso quando queria.

Sebastian guiou o menino até uma clareira nova em folha, afinal precisava de uma, na qual havia um enorme tapete azul Royal, entremeado de vermelho, rigidamente estendido e preso ao chão por estacas, sobre ele estavam uma mesinha com o gramofone e outra com uma bandeja de chá e duas cadeiras, no encosto de uma delas havia uma muda de roupa. Espaço não faltaria ali.

Ciel parou a beira do tapete, realmente Sebastian era de impressionar, tinha ficado quase tão bom quanto à sala original de musica, e não fazia ideia de onde ele tinha tirado o tapete. Ergueu a sobrancelha, não se lembrava de ter um gramofone, na verdade havia pouquíssimos no mundo, Berlini acabara de inventar aquela coisa. Deu de ombros, não importava.

— Sebastian, tire minhas botas de montaria, não quero enlamear o tapete. – Estava agradecido por ter uma muda de roupas, pois as de cavalgada eram terrivelmente desconfortáveis e justas.

— Claro Jovem Mestre. – Ajoelhou-se e retirou as botas de couro do menino, dispondo-as em uma reentrância da arvore ali próximo.

Ciel passou pelo mordomo e caminhou sobre o tapete macio, seu corpo doía e o vento frio que bagunçava seus cabelos lhe fazia ter vontade de deitar-se e esquecer-se das horas e dias.

Sebastian viu o menino cruzar o tapete e inclinar a cabeça para trás, parecia satisfeito com o vento, tinha pequenas olheiras sob os olhos. Sorriu, vê-lo usar todo seu potencial e forçar seus limites era encantador.

O conde foi “acordado” por uma composição e um arrepio desceu sua espinha ao ouvir a voz profunda do demônio intervir na canção.

— Arietas Esquecidas. – Disse Sebastian com um sorriso inquisidor.

— Mais Debussy, Sebastian? – Respondeu ao desafio que o outro pôs nas entrelinhas, era óbvio que já tinha estudado e conhecido o sujeito e as obras que tanto estavam lhe dando dor de cabeça.

O sorriso do mordomo foi discreto.

— Creio que sim Jovem Mestre, sua popularidade anda alta e é necessário que você o conheça e reconheça com facilidade. – Moveu-se de perto do gramofone e pegou a muda de roupas do encosto da cadeira – Agora vamos trocar de roupa para começar.

Ciel por pouco não ficou vermelho, mas a estupidez do gesto lhe atingiu antes do próprio.

O mordomo trocou as calças justas e o colete apertado pela muda costumeira do Conde, uma bermuda lisa, a blusa drapeada e a casaca, terminou o laço no colarinho e sorriu com a cabeça de lado.

— Está perfeito. Podemos começar.

O menino tinha mantido a cabeça virada o tempo todo, evitando encarar o maior. A proximidade era perigosa e não queria perder o controle de nada. Daquela vez estaria preparado, nada que o outro fizesse o iria surpreender, precisava manter a postura, a expressão e a dignidade.

Ciel caminhou para o centro do tapete e esperou.

Sebastian reiniciou a musica e se colocou a frente do menino.

O mordomo estava maior ou era impressão? Percebeu, logo em seguida que não era o mordomo que estava diferente, ele é que estava sem seus saltos. Tsk, tinha mesmo que ficar ainda menor frente ao demônio? Não lhe agradava nada. Disfarçou a demora pigarreando e colocou os braços na posição correta, dessa vez não iria teimar, não faria nada que desse qualquer abertura ao outro. Estava extremamente ansioso e isso era tremendamente ridículo.

Sebastian pegou a pequena mão no ar e rodeou a cintura estreita com seu braço, aproximou somente o necessário e o infante levantou a face resoluta para a sua. Não pode deixar de sorrir e o esgar maligno se pronunciou, sabia disso, sempre transparecia em seu prazer.

E o conde estava melhor! Não sabia se por sua teimosia em se mostrar superior, ou apenas por temor de que usasse um método de ensino mais agressivo, riu-se por dentro, mas o fato era que o pequeno insolente estava conseguindo mexer os pés sem pisar nos seus. Embora mais lento, parecia mais habilidoso que no dia anterior, ainda atrapalhava-se nos giros e isso seria um ponto no qual focaria, mas no valsar estava indo bem, precisava apenas de um pouco mais de ritmo. Sorriu abertamente, um aluno como aquele era o ideal dos tutores.

— Por que o sorriso Sebastian? – Perguntou contrariado, estava se esforçando ali e se o maldito viesse com sarcasmos... – Por acaso não estou me saindo bem?

— Com certeza está Jovem Mestre, não me entenda errado, estou apenas orgulhoso.

A sobrancelha do menino ergueu-se e um sorriso, se é que pode ser chamado assim, irônico se desenhou nos lábios finos.

— Não poderia ser diferente. – Pontuou no final da musica – Agora coloque outra coisa – Disse soltando-se do mordomo.

Sebastian assentiu e foi ao aparelho trocar o compositor. Ao que parece o menino estava muito controlado e seguro, ainda que sua confiança fosse ser necessária, não estava bom para os planos. Teria que lembrar Ciel de que ele estava interpretando uma delicada dama parisiense e toda aquela rigidez não combinava em nada com as francesas.

Ciel aproveitou o afastamento do demônio para tragar uma lufada de ar, não conseguia deixar de sentir a essência do maldito quando este estava próximo, então se limitava a inspirações curtas, porque, por algum motivo, aquele cheiro lhe nublava os pensamentos e o fazia ter ideias imbecis. O sol descia no horizonte parcialmente nublado, fechou os olhos e deu um sonoro bocejo, estava com sono, muito, e ainda havia tanto a se fazer até seu descanso. Aproveitava uns minutos de intervalo quando ouviu a melodia começar, era diferente, agitada e açucarada, arrastava as notas graves e as agudas eram persistentes e suaves... talvez pudesse ser bonita se menos melosa, e seu pensamento foi interrompido...

Sebastian postara-se atrás de si e agarrara sua mão que descansava rente ao corpo, levantando seu braço até que esta estivesse na altura dos ombros dele, de alguma forma a outra mão enluvada do demônio rodeara novamente sua cintura e apoiava-se sobre seu abdômen. Em questão de segundos estava sendo abraçado por trás, o mordomo não o tocava em nenhum outro ponto que não a mão e a cintura, mas toda a situação lhe fez engolir em seco, o sangue esquentou seu rosto e permitiu-se respirar fundo antes de abrir os olhos.

— Sebastian... – Disse incisivo, ele não faria nada louco novamente...

— Shiii... – Soou a voz grave do demônio perto de seu ouvido – Vou ensinar-lhe outra dança apenas preste atenção.

E arrepios, seus conhecidos arrepios, correram pela espinha do Conde. Obvio que não lhe deu qualquer resposta, em lugar disso tentou se afastar um pouco, mas a mão firme em sua barriga não permitiu.

— Jovem Mestre, jovens parisienses não são tão recatadas, uma distancia maior que essa será vista com estranheza. – Quis sorrir – Agora, dance.

Sebastian moveu-se com graça para frente e ao menor contato com o menino, este se movia apressado, querendo manter a distancia. Tão doce. Contudo os passos para os lados eram mais difíceis, na verdade quase impossíveis, para trás eram impensáveis, o mordomo teve de usar a força para mover o garoto para trás. Era mais cômico do que Debussy, e ainda não havia ensinado Ciel a se portar como uma parisiense... seria interessante e difícil, seus olhos reluziram com a expectativa.

— Jovem Mestre, sabe que estamos tentando dançar, certo? Não é para parecer um jogo de cricket, mova-se com mais suavidade.

O menino emburrou, detestava ser criticado, mas como ia se mover se não via o que o desgraçado do outro fazia? Além do que, não queria correr o risco de colar-se ao corpo do maior caso chegasse para trás. Fechou os olhos, puto.

Sebastian sorriu, no fim, seu método era realmente o mais eficaz. Firmou a mão no abdome da criança e deu um passo a frente. Pode sentir o pequeno corpo retesar e congelar no lugar quando sua silhueta moldou-se a menor. Baixou a cabeça e sussurrou com um tom carregado de ironia.

— Se acalme Jovem Mestre, estamos apenas dançando, lembra-se? Apenas dançando. – reforçou ao se recordar da resposta aos questionamentos do infante.

Quando Ciel sentiu o maior se aproximar quase entrou em pânico, sentir-se pressionado contra o corpo do mordomo não era em nada calmante!! Não queria perder o controle, e então ele fez novamente, a voz rouca e maldosa do demônio entrou por seus ouvidos, a respiração quente dele soprou em sua bochecha e sua cabeça perdeu a linha de raciocínio por um momento.

Tempo o suficiente para Sebastian, pressionando firmemente o pequeno contra si, dançou em círculos pelo tapete, era difícil fazê-lo mover os quadris de forma correta, pois não se alinhavam aos seus, corrigiria isso posteriormente.

Ciel novamente parecia perceber cada detalhe do outro, apenas pelo toque, pois não podia vê-lo. A música rápida forçava giros mais intensos, que lhe tiraram todo o equilíbrio e propriedade, por causa disso e, provavelmente, por seu estado alterado, quando o mordomo parou e saiu de trás de si, se colocando a sua frente sobre um joelho, não foi rápido o suficiente para se situar e acabou desequilibrando, tombando em sua direção. Seus olhos deviam estar assustados, mas não por estar caindo e sim porque a cada segundo estava mais perto da face do demônio, e isso era o centro de suas atenções.

Para o mordomo a melhor parte foram as safiras assustadiças, o conde transparecia seus sentimentos quando pego desprevenido, contudo não esperava que ele fosse desabar em cima de si ao final da dança, pretendera agradecer a valsa como à uma dama, queria provoca-lo, mas... Agora se via abrindo os braços para que o menino não se machucasse, para que o amparasse, via-se gostando do “fim de valsa”.

Ciel perdeu o ar quando bateu no peito do mordomo, seu rosto se encaixou no vão do pescoço esguio do outro, vão que o mordomo criou chegando o rosto milímetros para o lado. Sentiu-o passar o braço sobre suas costas, segurando-o no lugar. Seu coração batia descompassado e sua respiração ofegante fez com que apreendesse muito do delicioso perfume demoníaco. Apertou os olhos quando seu sangue pareceu correr mais rápido em suas veias.

O mordomo conjecturou o que fazer entre o que queria e o que devia. O menino estava exausto pelas noites mal dormidas, pelo excesso de “atividade” e a sobrecarga de emoções, além disso, o sol estava perto do horizonte, o que significava que o horário do jantar estava próximo.

Ainda na mesma posição, apertou mais o braço em torno da criança, Ciel estava petrificado em seus braços, não o repelira com violência e nem se entregara, estava no limiar que começava a aprender a identificar, limiar que poderia ultrapassar com facilidade. Aproximou o rosto das mechas azul-acinzentadas e saboreou seu perfume, seu resfolegar fez o pequeno corpo se contrair e retesar ainda mais, a tensão do menino era palpável.

Olhou para a mansão a distancia, a noiva do Conde o esperava e ele havia programado um evento para ela. Soltou um suave suspiro de frustração, Ciel fazia tudo de maneira perfeita, de certo não seria agradável que se atrase ou... olhou de lado para o rosto que se encaixava em seu pescoço... não comparecesse... quis lamber o lábio inferior, tentado. Não, não seria nada adequado. Diabos! Odiava ter que optar pelo correto.

Desde que o conde se sentira envolvido pelo braço intransigente do mordomo não movera um músculo, sequer abrira os olhos, apenas o fato de a cada respiração o aroma opressor do demônio tomasse conta dele já era mais que suficiente. Então sentiu o empregado se levantar consigo no colo, passar o outro braço sob suas coxas, de maneira que ficasse sentado, e começasse a andar. Abriu os olhos e espiou por cima do ombro largo, estavam saindo do tapete.

Sebastian suspirou alto dessa vez, optara pelo correto. Maldito contrato! Sentiu uma leve diferença no menino, parte da tensão se partira.

— Não se preocupe, vou leva-lo e preparar para o jantar... – “E apenas isso...” acrescentou mentalmente.

Ciel limpou a garganta antes de falar.

— Preocupar? Ora... não estou preocupado. – Sua voz saira mais baixo que o pretendido, mas transparecia seu orgulho ferido.

— Achei que pudesse estar, pelo adiantado horário. – Sorriu irônico, daria uma desculpa pelo pequeno, daria uma trégua, ao menos até que estivesse descansado.

— Ah... – Ciel ficou constrangido, afinal não era em absoluto aquilo que estava pensando.

O andar do mordomo sempre fora leve, quase espectral, mesmo que o carregasse no colo fazia parecer como se não pesasse nada, e talvez, para ele, não pesasse mesmo. Mas havia algo o incomodando naquele momento, o que seria? Nada tinha acontecido no fim das contas, sendo assim tinha saído como queria, sem perda de controle, sem situações estranhas ou intimidades constrangedoras... Sebastian o estava levando para o jantar com Lizzy, tudo estava bem... mas então por que se sentia tão incomodado? Incomodado talvez não fosse a palavra certa... estava descontente, insatisfeito, frustrado, irritado, e olhar para a expressão meticulosamente indiferente do demônio fazia-o se sentir pior. Por quê?

Estavam nas escadas de entrada da mansão quando Sebastian viu Ciel desenhar os lábios num pequeno e infantil bico de insatisfação, tão sutil que provavelmente o menino não se apercebera do gesto. Sacudiu levemente a cabeça, Ciel era mesmo uma graça em sua contradição.

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Após deixar o conde arrumado em seu quarto, Sebastian se desculpou e saiu para se certificar se tudo já estava preparado, deixando o menino a sós pela segunda vez no dia.

Ciel desabou na cama, abandonando toda a postura régia que sempre mantinha. Deus! Como queria poder ficar naquela cama! Esticou-se, ainda com as pernas dobradas para fora do colchão, e ouviu duas vértebras estalarem. Gemeu de dor e alivio.

Teria alguns minutos até que tivesse de descer, poderia tirar um cochilo, certo? Certamente Sebastian viria acorda-lo na hora correta... Seus olhos focavam o dossel da cama quando pensou no mordomo. A aula de dança... passara o dia ansioso por causa disso e nada havia acontecido, bem, na verdade algo acontecera, mas... uhm... não fora exatamente o que esperava...

Esperava o que afinal de contas? Franziu as sobrancelhas para o pensamento, não havia o que esperar, tudo havia saído bem, se mantivera no controle da situação. Era o que queria... não era?

Seus olhos pesaram enquanto se lembrava da sensação de estar preso nos braços do demônio e parando para pensar nisso, já tinha estado naquela situação incontáveis vezes, não foram poucas as ocasiões em que Sebastian o prendera nos braços para escaparem mais rapidamente ou para que não se machucasse... Seu rosto corou um pouco, nunca tinha se dado conta... Sua boca se abriu em um sonoro bocejo e seus olhos se fecharam com uma colagem de diferentes imagens do altivo demônio lhe segurando nos braços, em mente.

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Sebastian já havia adiantando muita coisa antes das lições do pequeno, então tudo o que fez após deixa-lo em seu quarto foi certificar-se que ninguém tinha estragado nada, foi preciso retocar uma ou duas coisas, mas no geral, e devia novamente a Agni por isso, tudo estava pronto e em ordem.

Depois de preparada a mesa nos jardins, dos arranjos prontos e bonitos, isso era importante, e de ter pedido que Meirin chamasse os hospedes, preocupou-se com Ciel. Aquele garoto não ia descer? Sabia que ele gostava de uma entrada triunfal, mas não era de bom tom demorar-se muito.

Quando viu Príncipe Soma chegar junto a Agni e Lady Elizabeth surgir no corredor, escorreu para as sombras, iria chamar o menino, apostava algumas penas que ele havia dormido.

Se tivesse apostado, teria ganhado. Lá estava o pequeno estirado na cama sem nenhum cuidado. Chegou sem fazer ruído algum e o observou em seu sono, sua mente alfinetou-lhe com as possibilidades, as orações infantis da hora de dormir tinham razão de ser, pensou, nada era mais tentador e convidativo que uma vitima em potencial totalmente desprotegida... mas aquela criança em especial já havia feito suas orações e pedira por um “demônio da guarda”, rui-se por dentro, para zelar seu sono, noite após noite.

Seus lábios rasgaram-se em um sorriso malicioso, ver a expressão angelical de Ciel e saber que ele se entregava dessa forma ainda que soubesse de sua constante presença, por saber de sua presença, lhe fazia extremamente presunçoso, enchia o ego e tentava seus pensamentos. O tilintar da prataria no andar de baixo o fez entrar em foco novamente, e outro suspiro chateado lhe deixou os lábios, já sem sorriso algum.

— Acorde Jovem Mestre, seus convidados lhe aguardam. – Pousou a mão no ombro infantil e pressionou levemente.

Ciel acordou assustado, esperava dormir, mas não percebera que o tinha feito. Viu o mordomo a seu lado, seu sorriso de praxe, seu fraque sem qualquer vinco e sua expressão indecifrável. Sentou na cama e passou a mão pelo rosto.

— Ah... eu dormi demais? – Viu o outro negar com a cabeça – Que bom, vamos então.

Saiu do quarto ainda sonolento e desorientado, mas ao chegar no salão de jantar já havia acordado totalmente, respirou fundo três vezes, testou um sorriso e torceu para que fosse rápido.

Sebastian assistiu tudo com diversão, parecia que estavam levando o menino para a forca, pensou. Abriu as portas duplas para o conde e o observou entrar, ereto e imponente, orgulhoso e gentil, preenchia todo o aposento com sua presença. Riu-se, aquele ali tinha jeito realmente. Fechou as portas atrás de si e se preparou para toda sorte de bobagens que ouviria o resto da noite. Postou-se atrás da cadeira de espaldar alto do garoto e pôs-se a esperar.

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Tudo correu tranquilamente e fora breve, perto das sete o Conde anunciou sua retirada, terminando com o jantar, não sem antes oferecer a menina um espetacular ramalhete de flores brancas e rosa bebê, a lady estava felicíssima com o gesto do noivo, beijou suas bochechas incontáveis vezes até que ele se aborrecesse, a afasta-se com uma desculpa e se retirasse para o quarto. Seguiu atrás dele, agradecendo mentalmente por sua cota de presença da loira, no dia, ter sido pequena.

Abriu as portas para o pequeno e ofereceu um banho, mas a teimosia típica de Ciel fez o menino recusar e lhe dar uma ordem para que esperasse no quarto até que ele terminasse para seca-lo. Observou a criança entrar no banheiro sem nem ao menos ter se despido e fechar a porta. Quanto tempo mais o garoto continuaria com aquilo? Achava mesmo que não percebera a motivação por trás de suas ações? Ou seu orgulho era tão imenso que o tornava incapaz de perceber quão ridículo estava sendo?

E afinal, por que isso lhe incomodava? Bem, talvez pelo fato de não apreciar ser dispensado ou ignorado, e o pequeno rato vinha fazendo bastante isso. Talvez porque gostaria de estar aproveitando mais momentos com o infante, talvez porque seus jogos o divertissem, existiam muitos “talvez”...

Ouviu quando ele finalmente entrou na água e sentiu no ar o aroma de baunilha, estalou a língua com desgosto, não era a essência correta para ajuda-lo a relaxar. O barulho de chapinhar excessivo que ouvia lhe dizia que o menino estava com problemas lá dentro, bem contanto que não se afogasse estava bom. De repente o barulho cessou e isso lhe inquietou, esperou alguns segundos, mas som algum além da água se acalmando dentro da banheira chegava a seus ouvidos. Teria acabado de se banhar? Rápido assim?

Aquele maldito pivete estava fazendo intencionalmente não era? Estigando-lhe a curiosidade, possivelmente ele se esquecera de que suas capacidades iam muito além de um mortal, muito além até do que ele achava que elas iam. Um sorriso travesso surgiu em seus lábios. Esconder-se de Deus era simples, contudo fazer o mesmo com o demônio era mais complicado, pois ele possuía olhos e ouvidos em todos os lugares.

Sebastian fechou os olhos e quando os reabriu o tom vinho natural de suas íris se mostravam sobre o castanho falso e elas atravessaram a porta e paredes, deixando-o ver tudo o que quisesse.

O menino estava parado na banheira, imerso até o queixo, suas bochechas ardiam e seus olhos estavam inseguros, fitavam o nada. O que ele estava fazendo imóvel daquele jeito? De repente o garoto afundou o rosto na água, passou um tempo imerso e emergiu, jogando a cabeça para trás, usando a beirada de louça como apoio, e esse movimento fez com que as notas de alcaçuz açucarassem o ar.

Sebastian respirou fundo, deliciando-se, aquele aroma era enlouquecedor, mas estava intenso demais, pronunciado demais mesmo que o pequeno estivesse tomando banho. Sua essência costumava ficar mais marcante quando se banhava em água quente, mas não tanto, ficava assim apenas quando... Ah, sim... O demônio girou lentamente a cabeça tentando colocar os pensamentos em ordem, pois aquela súbita vontade lhe acometia novamente. Tinha aceitado a trégua, a tinha proposto na verdade, mas a cada vez que inspirava mais daquele maravilhoso aroma entrava em seu sistema, aguçando-lhe a fome.

Ergueu a cabeça novamente e encarou o conde, ainda na mesma posição, a pele alva do pescoço estava exposta, fora d’água, assim como parte do peito, seus olhos estavam fechados agora... ah, mas os queria abertos, queria ver através deles no que o menino pensava. Havia proposto trégua sim, mas nunca havia mencionado nada sobre interferências indiretas.

Já fazia algum tempo que Ciel entrara na banheira, mas a água se mantinha agradavelmente quente, estava cansado e a temperatura ajudava a relaxar. Podia muito bem ter aceitado o banho do mordomo, teria sido melhor e mais fácil, mas... seu estomago se contraiu, será que estaria tudo bem aceitar ser banhado por ele nessas condições? Se apenas lembrar-se das mãos enluvadas em seu corpo lhe fazia ter estranhos calafrios, o que poderia acontecer se as sentisse? Ainda havia aquela coisa toda sobre consequências, que não entendera direito.

Afundou mais na água deixando apenas o nariz de fora. Pensar no mordomo e em suas mãos não fora boa ideia, agora se via lembrando da aula de mais cedo, dos braços que lhe seguraram, do calor e do perfume. Suas bochechas ardiam e aquela maldita angustia começava a crescer em seu peito, não queria estar pensando nisso, mas era quase involuntário, uma vez que começava não conseguia mais controlar, como um dique rachado, mais e mais memórias vazavam, algumas que nunca aconteceram...

Ciel viu-se pensando na pele quente do demônio e em como este o pegara no colo em seu “pesadelo”, lembrou-se da força de suas mãos e do peso de seu corpo... Afundou a cabeça na água, mas ficou pouco tempo, pois sua respiração ofegante o fez perder o ar em segundos. Apoiou a cabeça na banheira em busca de equilíbrio, precisava parar com aquilo era loucura, fechou os olhos e como se tivesse vindo do nada, a face do demônio sorriu para ele através de suas pálpebras, o esgar maligno desenhando os lábios macios fez seu sangue correr mais rápido, pode sentir o pescoço esquentar, ficou ainda mais difícil respirar. Entreabriu os lábios em busca de ar e saboreou novamente o gosto da tez demoníaca, fechou a boca com violência ao mesmo tempo em que um poderoso arrepio lhe sacudiu o corpo, uma gota de sangue tingiu a água límpida, havia cortado o lábio inferior em sua euforia.

Levou uma das mãos a testa, sua temperatura estava muito alta, a testa ardia, mas não sentia a água fria contra a pele, na verdade a sentia quente. O rosto sensual lhe abriu um sorriso ainda maior. Ciel controlou um ofego e abriu os olhos, o banheiro estava tomado por uma neblina morna que vinha da... água! Estava tão quente assim? Por quê? Quis levantar a outra mão para sair da banheira, mas a sentiu presa... na verdade, a sensação era de que havia algo sobre ela, não teve tempo para pensar, em um segundo sua cabeça pareceu muito pesada, teve que voltar a apoia-la na beirada e foi com assombro que viu um par de olhos carmesins se formarem na nevoa, a centímetros dos seus, e lhe encararem intensos.

Dessa vez não houve como controlar seu ofego, puxou o ar e a nevoa úmida enrolou-se em sua língua, era doce e envolvente, tinha gosto de especiarias e do demônio. Seu coração pareceu querer sair do peito, seus membros pesavam, sua cabeça rodava, sentia o cheiro do mordomo, seu gosto e até sua presença. A respiração saía curta e rápida, Deus! Estava alucinando? Lambeu os lábios, se estava não queria parar, ao menos dessa forma seu constrangimento era menor, contudo os olhos oblíquos a sua frente pareciam tão reais que quase era como olhar para Sebastian... seria melhor se ele estivesse ali? Arrependeu-se do pensamento milésimos de segundos depois de tê-lo completado, seu corpo pareceu explodir em chamas, arqueou as costas e mordeu novamente o lábio ferido, a necessidade que sentiu era dolorosa e seu corpo exausto simplesmente não estava suportando como deveria.

Iria chama-lo. Iria? Estava formando as primeiras letras quando a porta abriu e uma lufada de ar dissipou a neblina de uma só vez mostrando o maldito, perfeito mordomo lhe encarando com os olhos acesos num tom violeta mortífero.

A vingança era doce como as frutas que amadurecem no auge do verão, e também era mais bem aproveitada se saboreada. Em nenhum momento Sebastian desviou sua atenção do menino, seu olhos, verdadeiros olhos, espiavam e agitavam a alma do garoto. Devia se controlar melhor, mas a excitação da criança era palpável e estava quase indefeso em frente a ela, sua aura se expandira até ele, tocando-o e quando o cheiro de sangue misturou-se ao ar, temperando as notas de alcaçuz, quase mandou a trégua para o inferno, apesar de não ser longe o suficiente, sabia bem.

Então percebeu, ouviu a alma da criança ameaçar chama-lo, já acontecera antes e não poderia acontecer novamente, não daquele jeito. Deu um passo a frente e apenas isso já fez com que a porta se escancarasse, tinha que se controlar, mas ao olhar para o infante o calor vermelho de seus olhos encontraram par na profundidade dos azuis que ardiam nos seus, suplicantes.

Nenhum dos dois disse nada por alguns minutos. Ciel nada disse, pois tudo o que queria era pedir que Sebastian desse um fim naquilo, que chegasse mais perto, tão perto que nem o ar os separasse, seu corpo e mente implorava por aquilo. Sebastian nada disse, pois tudo o que queria era tomar para si aquela boca desejosa de uma vez por todas.

Mas os minutos se passaram.

— Espero que da próxima vez me ouça. – Foi tudo o que disse antes de abaixar-se junto à banheira e pegar o corpo ardente nos braços. Seus olhos ainda ardiam acesos, mas sua expressão estava controlada.

Ciel tentou formular uma resposta, mas se ver nos braços do demônio, sob seus olhos, tomou todo o seu pensamento, quis enlaçar seu pescoço, mas seus braços estavam letárgicos e não foram rápidos o suficiente, o mordomo o sentou sobre a toalha e a cama, secou-o rapidamente e enfiou-lhe uma camisola pela cabeça. A respiração do menino continuava descompassada e sua pele sentia o toque áspero da luva aumentado por 10. Baixou a cabeça.

Sebastian deitou o conde e o cobriu ate o peito, pronto, tinha cumprido sua palavra, repeitara sua trégua. Levantava-se quando a pequena mão enrolou em seu fraque, agarrando a gola dobrada no peito, tsk.

Quando Ciel viu o mordomo erguer-se para sair algo se agitou em seu peito, a ideia de deixa-lo sair naquele momento era opressora, apenas essa terrível angustia ainda o mantinha acordado, e seu corpo não parecia querer se acalmar. Sua mão agarrara a roupa do outro por instinto, ele não sairia assim, não de novo.

Ciel lhe olhava diretamente, e o desejo profundo que vira há pouco ainda não havia se dissipado, percebeu seus próprios olhos adquirirem brilho novamente, diabos, por que aquele maldito menino não dormia logo, antes que fizesse uma besteira?

Sebastian ainda estava curvado quando viu as palavras se formarem sem som na pequena boca e foi sua vez de lamber os lábios. Aproximou o rosto do menor, sedento, apoiou a ponta de seu indicador nos lábios avermelhados e pousou os seus sobre os dele.

Ciel fora claro em sua ordem muda: “Não falarei aquilo novamente.” E sentir os lábios do demônio sobre os seus era como um bálsamo venenoso, um alivio ardente, tragou o ar, provando o halito do outro, quis fazer alguma coisa, ainda que não soubesse fazer nada, mas o dedo entre as bocas não permitia.

— Durma agora Jovem mestre. — Sebastian soprou por entre os lábios do pequeno e o viu fechar os olhos.

Ok! Sugestão não era permitida em contratos, mas seria só aquela vez.

Levantou-se, fechou as cortinas, deixou o candelabro na cabeceira da cama e deu uma ultima olhada no rosto infantil afogueado.

— Resolverei esse incomodo impasse. – Disse olhando o menino. Suspirou e olhou na direção da janela – Às vezes somente um incomodo resolve outro.

Deu as costas ao quarto, desestimulado, precisaria providenciar o cenário se quisesse que o ator principal entrasse em cena.

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Três horas da manhã, um bordel de Londres.

— Bem, vamos começar. – Disse esticando as luvas nas mãos.

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Taste of your lips, I'm on a ride

No sabor dos seus lábios, eu estou viajando

You're toxic, I'm slipping under

Você é tóxico, estou me desfazendo

Oh, the taste of a poison, I'm in paradise

Oh, com o sabor do veneno, estou no paraíso

I'm addicted to you

Estou viciado em você

Don't you know that you're toxic?

Você não sabe que é tóxico?

(Britney S. – Toxic)

Notas finais
Eu sei que não mereço comentários, mas.... se vcs tiverem piedade. T-T