Defying Gravity

11 Capítulo 10 - Música, Sangue e... ande logo!


Notas iniciais
Oi gente, eu sei vocês me odeiam. Desculpem pela demora homérica mas aconteceu muita coisa e entre muitos e feridos nem todos se salvaram, mas eu estou aqui e agradeço a todos que não desistiram da fic, em especial a Perona-chan! Mina linda para você o mundo, escolha algo que queira e eu farei, pode ser uma situação, história, desenho, o que for. Love u! Como prometi não abandonei a fic, nem vocês! Desculpem as loucura que deve estar o teco pois ppostei do celular e o editor não funcionou! Tentarei consertar assim que eu voltar a ter internet em casa. No mais, comentem posts que sabia que não me odeiam e que não me abandonaram T-T. Amo vocês, mesmo!

Funny how the heart can be deceiving
Engraçado como o coração pode se iludir
More than just a couple times
Mais do que algumas vezes
Why do we fall in Love so easy?
Por que nos apaixonamos tão facilmente?
Even when its not right
Mesmo quando não é correto

(Try Pink)

~*~

A noite estava animada, o local se encontrava cheio e isso era bom, muito bom! Ganhava mais gorjetas em dias assim, era mais rápida do que as outras meninas no serviço, com a casa lotada era normal as bebidas chegarem quentes as mesas, porém não com ela! Seus clientes sempre ficavam satisfeitos, seu bolso também, e o sorriso do cavalheiro na mesa 4 lhe dizia que logo o seu próprio sorriso aumentaria.

Rebolou por entre as mesas, mas não demais, e depositou o drink gelado a frente do ilustre Duque Grace, aquele homem aparecia toda semana, um cliente fiel. Tinha pena do coitado, um homem assíduo do bordel era um pobre miserável em sua opinião.

Ele falou qualquer coisa, mas não deu trela, não costumava dar assunto para os clientes, aqueles homens tinham certa dificuldade em entender que seu trabalho ali era como bar atender e não prestava serviços sexuais. Na maioria das vezes simplesmente virava as costas e ignorava os comentários e gracinhas, afinal, precisava do dinheiro e a sua situação não era assim tão ruim.

É, a noite estava mesmo animada, já havia perdido a conta das grosserias que tinha ouvido, possivelmente batera o recorde da semana. Sua pele clara, os profundos olhos verdes, o cabelo ruivo volumoso e a roupa reveladora e apertada a colocavam no roll das prostitutas mais desejadas pelos clientes, mas ela não era uma, diabos! Não podia perder a paciência, respirou fundo três vezes e forçou um sorriso para continuar servindo as bebidas, contudo quando levantou a cabeça uma figura chamou sua atenção.

Um homem estava parado na entrada, vestia um fraque negro impecável e sua pele era tão alva que parecia brilhar naquele lugar escuro. Não o conhecia, mas com certeza era nobre, sua postura dura e a expressão de nojo não eram de alguém que tinha vindo se divertir, talvez estivesse atrás de alguém, não seria a primeira vez. Era inquestionável o fato que o homem era lindo.

Ela o encarava quando ele olhou em sua direção, um calafrio sacudiu seus ombros e teve o ímpeto de fazer o sinal da cruz. A bandeja tremeu em sua mão e trancou a outra no avental, ele deu o primeiro passo até si quando uma das mulheres o agarrou pelo braço e exigiu sua atenção. De repente percebeu que suava frio, e por que mesmo não tinha saído ainda dali? Que horror!

Saiu do meio do salão, fingindo não ouvir alguns pedidos, precisava respirar, e se escondeu atrás das cortinas de veludo emboloradas que separam a área do bar, exposta, da cozinha interna. Sentou-se num banquinho e abraçou os joelhos. Quem era aquele homem? Ele podia ser nobre, certamente era belo, mas não tinha duvidas que era perigoso, talvez um monstro. Sacudiu a cabeça, era sua imaginação! Estava lendo muitos contos de horror, tão famosos naqueles dias, era isso.

Estava ali há uma meia hora quando uma amiga apareceu, o turno dela começava as três da manha e ia ate o fechamento e limpeza da casa, estava atrasada, vivia atrasada.

– Hei Angie, o que está fazendo aqui? Você ta bem? — O tom de voz era preocupado.

– To sim... na verdade Fran, não estou muito bem não... — Não queria voltar pra lá nem tão cedo e já segurara as pontas praquela ali inúmeras vezes... — Escuta, será que você não podia me cobrir um pouco? Eu não posso voltar lá agora.

– Nossa Angie, tudo bem, claro! Eu acho... você não vai demorar muito, né? — Coçou os cachos cheios de goma — Você sabe que eu to meio quebrada com a chefe e aquilo lá parece lotado hoje, então... Droga, não queria ter que ficar trabalhando em dobro, mesmo pra Angie, mas olhando melhor, ela parecia mesmo mal, estava branco papel. — Ai... ta bem Angie! Mas não demora muito ok? Qualquer coisa digo que você foi ao estoque pegar mais bebida.

– Ta, obrigada Fran. — Deu um sorriso amarelo e a outra passou pelas cortinas.

Levantou do banco e pegou um copo dágua, a musica estava mais alta, o ultimo show devia ter começado. Sentou-se de novo, mas ali atrás das bancadas de pedra, no fundo da cozinha, apesar de achar bobagem tudo o que estava pensando, não conseguia controlar a sensação de que era um erro terrível tentar voltar pro salão, na verdade, se sentia mal só de encarar as cortinas pesadas. Queria sair dali, contudo podia ser mandada embora se descobrissem. Apoiou a cabeça na bancada e fechou os olhos.

Dormiu sem perceber.

Quando acordou a musica ainda estava alta, sua cabeça doía e preocupou-se de já ter passado muito tempo, será que alguém percebera que ela sumira? Levantou-se rápido, sacudiu as roupas e andou até as cortinas, mas antes de abri-las percebeu que apesar da musica ainda estar alta o lugar lhe parecia mais silencioso, por quê? A sonolência lhe embotava a mente, mas tinha uma sensação estranha. Empurrou o pano para o lado e passou, então descobriu porque estava mais silencioso, não havia vozes, burburinho de conversas, por cima do balcão dava pra ver que não tinha ninguém ali.

Saiu da penumbra do bar e entrou no espaço aberto, seu sapato de camurça afundou num liquido escuro empoçado, que escorria lentamente para dentro do bar, e o estomago revirou: O chão estava coberto de corpos despedaçados, o cabaré era pintado de um vermelho desbotado então não percebera de imediato, mas sangue escorria pelas paredes de um jeito macabro e formava enormes poças no chão, corpos jogados sobre as mesas, pingavam também. O lugar fedia a morte. Tapou a boca com as mãos e virou para saída, tinha que sair dali, sabia desde o inicio! Sabia! Mas quando virou o viu, estava parado em frente à porta com uma postura indiferente e uma cara impaciente, era tão destoante do cenário ao seu redor, ao lado dele estava Francielle, sua amiga, degolada durante sua provável tentativa de fuga, ele olhava diretamente para si, as luvas, únicas peças maculadas em seu corpo, pingavam sangue e seu grito morreu antes que pudesse reverberar.

*************************

Ciel estava com o sono pesado, tanto que não ouviu o correr das cortinas, nem sentiu a claridade no rosto, se deixasse ele dormiria tudo o que não estava conseguindo aquela manha, se deixassem... Mas uma mão em seu ombro o acordou.

Seu mau humor despertou antes de si mesmo e pode sentir uma carranca se formando. Mas que diabos! Queria dormir! Virou-se para o lado, escondendo o rosto nos travesseiros. Sabia que aquilo era uma birra infantil desnecessária porque no final teria de levantar, a missão era sua, mas não pode se impedir.

A mão no seu ombro voltou mais firme, daqui a pouco o outro ia começar com os seus 'Jovem Mestre' arrastados... virou-se novamente na cama, com raiva.

–- Droga Sebastian será que e- Se interrompeu.

Ao se virar não se deparou com Sebastian, mas com Tanaka! O que estava acontecendo ali?

–- Ah, perdão Jovem Mestre — O velho mordomo dos Phantomhive se curvou constrangido — O senhor Sebastian estava ocupado e me pediu que cuidasse do Jovem Mestre em seu lugar até que voltasse, porém achei que houvesse avisado o senhor.

Não, aquele demônio cretino não havia lhe avisado coisa alguma! E onde ele teria ido? Não tinha lhe dado nenhum afazer em especial que explicasse essa ausência, poderia ser algum problema com o Visconde? Não... Sebastian o avisaria se fosse o caso. O que aquele maldito estava fazendo? Por que não tinha lhe dito nada na noite passada?

Em falar nisso, não se lembrava de como tinha ido dormir, pra ser mais exato as suas ultimas horas de vigília estavam um tanto nebulosas. Não gostava disso, não era normal o que significava que tinha o dedo do demônio. Lembrava de ter ido tomar banho sozinho, sentir muito calor e talvez passar mal? Tinha memórias de um par de olhos vermelhos lhe sorrindo na névoa, um dedo em seus lábios, da voz do demônio e então mais nada.

Tanaka observava o jovem, parecia contrariado e surpreso. Sebastian não lhe explicara muita coisa, fora a seu quarto na noite anterior e lhe pedira para acompanhar Ciel por algumas horas no dia seguinte, pois precisaria se ausentar, lhe passara a agenda de quinta feira do mestre, materiais de estudo, algumas recomendações, detalhes e se foi. Agora se recriminava por não ter feito alguns questionamentos.

– Jovem Mestre? — Interrompeu os pensamentos do menino, a agenda que lhe fora passada estava lotada, o conde mal teria tempo para respirar.

– Ah... tudo bem Tanaka. — Levantou-se jogando as cobertas de lado, olhou a janela de soslaio, o sol mal começava a nascer. Suspirou — Então, o que farei hoje? Disse enquanto ficava de pé para que fosse vestido.

Tanaka deu seu sorriso bondoso, Ciel era teimoso, mas um bom menino.

– O senhor terá duas lições antes do café da manhã, etiqueta feminina, trejeitos e peculiaridades francesas, depois do café será moda, técnicas para modelar e marketing especifico. — Respondeu enquanto compunha a vestimenta do menino, tinha estranhado aquelas aulas no momento em que as lera — Após o almoço terá uma aula intitulada Diálogos até as 3, quando sairemos para o piquenique que marcou. — Terminou os laços e se pôs de pé — Antes do jantar ainda terá aulas de interpretação e dança.

A cabeça de Ciel girou, céus, era muita coisa, não sabia como aquilo tudo ia entrar e ficar em sua mente de forma consistente até sábado, mas quando ouviu a parte da dança não deixou de ter seus conhecidos calafrios... quando aquilo ia parar?

– Está bem Tanaka, obrigado. Como ficará comigo por hoje, quero que se certifique de que.... — Deu-se conta de que sem Sebastian não poderia haver aulas. — Tanaka, quem será o tutor de hoje? Perguntou sem olhar o mordomo.

– Ah, Sebastian deixou comigo seu material de hoje, e avisou que seu tutor chegaria cedo. — Sorriu caloroso.

– Bem... então como eu dizia, nenhum hospede tem a permissão de interromper qualquer uma dessas aulas, principalmente Elizabeth. Entendeu? — O demônio tinha arquitetado bem a saída, inclusive deixando garantidas suas aulas, estava ainda mais intrigado.

Tanaka fez uma cara estranha que não conseguiu compreender de inicio, estava desacostumado a expressões faciais tão diretas. Ok, Ciel entendia que a menina podia ser problemática as vezes...

– Eu sei que pode ser difícil Tanaka, apenas faça seu melhor. — Disse ajeitando as mangas da casaca.

O mordomo suspirou, aquilo tudo devia fazer parte de uma das missões dada pela rainha, uma péssima hora para se ter tantos hospedes na casa, mas não era como se pudessem proibir Lady Elizabeth de aparecer. Bem, faria tudo a seu alcance.

Ciel comeu o desjejum que Tanaka havia trazido, um creme de cereais temperado com melado e canela que não comia desde... bem... era sua mãe quem o fazia, tinha gosto de infância e carinho, amargava em sua boca feito fel.

Sorriu nostálgico.

– Fico feliz que tenha gostado Jovem Mestre, há anos não tenho a chance de lhe preparar algo. — Sorriu.

Ciel meneou com a cabeça e olhou para o mordomo. Tanaka era como seu avô, o considerava o ultimo membro vivo de sua família. Acabou o creme, espadanou a roupa e saiu do quarto, tinha muito que fazer até a hora do café da manhã.

*********************

As aulas do inicio da manha, ou seriam as do pré-manha na verdade, tinham acabado e agora tomava seu segundo desjejum com os convidados (ninguém os havia convidado, mas vá lá), ao menos não era difícil simular a cara de alguém que havia acabado de sair da cama, afinal, com sono já estava.

O conde estava se perguntando se tudo aquilo era realmente necessário. Suas aulas dessa vez tinham sido extremamente constrangedoras: primeiro pelo fato de não ter sido Sebastian o tutor, apesar de o professor ter lhe dito que tudo havia sido acordado ontem no inicio da noite, sob suas ordens... claro; segundo porque a temática da aula era incrivelmente idiota! Etiqueta feminina? Sentar-se com os joelhos juntos e as mãos sobre o colo, manter o olhar baixo e dócil?!! Sério?!

Juntou as mãos e apoiou a cabeça nelas, que idéia mais idiota tinha tido!Como se não bastasse toda aquela loucura sobre o demônio e suas danças, ainda tinha que passar tamanha humilhação frente a um desconhecido! E por falar no demônio, onde estava o maldito, que não voltava?!

– Ciel? Está tudo bem? — Lizzie reparara na expressão do noivo, seria algum mal estar? E ele nem tocara no bolo.

– Ah, claro que sim. — Sorriu ao ver todas as cabeças da mesa lhe olhando — Não se preocupe, só estava pensando. — Pegou a alça da xícara e levou aos lábios.

– Hum, não parece. Está muito sério. — Fez um careta de imitação e depois sorriu — E onde esta o Sebastian? — Perguntou olhando em volta, tinha estranhado o senhor Tanaka estar servindo a mesa sozinho.

Onde estava Sebastian... era realmente uma excelente pergunta. Uma veia pulsou na testa do menino, contudo esse abriu o melhor sorriso que pode para a noiva e com certeza o ultimo do dia, pois seu mau humor já atingira níveis épicos.

– Não se preocupe com o mordomo Lizzie, ele está trabalhando. — Certamente que sim, ou era melhor estar, melhor para o demônio.

– Ah... ok. — Ela estranhara o sorriso, tinha um q que lhe deu arrepios e a resposta carregava um tom ameaçador. Voltou à atenção para sua xícara novamente.

– Ah, que bom Ciel!! Quer dizer que o abutre não está por aqui? — A voz alta, carregada de sotaque e feliz soou na sala.

Isso era um balsamo para Soma, parecia que todas as vezes que procurava o conde encontrava aquela terrível sombra! O fato dele não estar por perto do menino animou tanto o príncipe que este se debruçou a mesa, apoiando o peito e cotovelos nela, encarapitando-se na cadeira.

Mais uma vez a veia pulsou na fronte alva, Tanaka olhou para o jovem preocupado, tomara ela não estourasse, porque se isso acontecesse, cabeças iriam rolar, e a primeira...

– Sim Soma, Sebastian estará fora na parte da manha e... — Primeiro pensou em não dizer nada, mas com aquele ali já era difícil fazer-se entender sendo direto, contudo, pelo visto de nada adiantaria.

– Sim, sim, sim! Então o que estamos esperando? Afinal é só a manhã! — Num pulo o indiano levantou-se de vez da cadeira e agarrou o conde pelo braço, tentando arrasta-lo da mesa.

– O que é isso, me solte! — Tentou puxar o braço, mas foi em vão, já tinha sido içado do lugar.

– Ahhhh Ciel, tem tanto tempo que a gente não faz nada! Você vive ocupado com o Sebastian e tudo é muito chato por aqui. Vamos fazer alguma coisa legal! — Sua animação era tanta que seus olhos luziam e as bochechas se esticavam num de seus maiores sorrisos.

– Eu não posso, estou ocupado! — Ainda tentava se soltar, tinha esperanças de consegui-lo antes que saíssem da sala.

– Ah Ciel, ocupado você sempre está e nunca me diz com o que! Não é mesmo Agni? — Virou a cabeça pro mordomo, esperando a aprovação que veio instantânea — Viu só! Você precisa se divertir mais! Vamos lá Agni, vamos sair!

– Jo Ajna — O mordomo de turbante inclinou a cabeça com a mão em riste, e já dispunha de bolsinhas e sapatos para seu senhor. Parecia um camelo de viagem pronto.

Céus! Aquilo estava saindo do controle! Maldito Sebastian, que raios o partam! Se ele estivesse ali não estaria tendo tanta dor de cabeça inutilmente! E a porta do salão já estava perigosamente próxima.

Olhou para a mesa num desespero contido, não podia perder tempo, já não o tinha, mas o que fazer? Tanaka estava de pé junto à cabeceira da mesa, perdido, e Lizzie... Oh, suas tripas se reviraram, havia um jeito, um torturante e maquiavélico. Não gostava de jogar com Lizzie, não queria incluir a menina em suas maquinações, mas bem... às vezes os fins justificavam os meios.

– Lizzie, sinto muito, desse jeito teremos que desmarcar o piquenique! — Piscou o cílio exposto com um tanto a mais de drama enquanto era sacudido pelo cômodo — E eu o planejei tanto... — Completou com a cabeça baixa no momento em que o indiano carregava-o pra fora do salão.

E o efeito veio antes que sua contagem chegasse a três. A cabeça baixa escondeu o sorriso rasgado que surgiu brevemente em seus lábios.

– Ah não! Príncipe Soma! Você não pode! — A menina levantou-se da cadeira num rompante ao ver a demonstração rara de carinho do noivo. Jamais que aquele indiano o levaria depois disso!

Elizabeth correu salão afora, repetindo que Não era justo, até alcançá-los no meio do corredor. Tanaka vinha em seu encalço, junto a Paula, todos os dois sem a mínima ideia do que fazer.

Pronto, o circo estava formado, e o conde era a atração principal. Que beleza.

– Você não pode levar o Ciel, hoje é nosso encontro! — Disse chorosa — Por favor, você pode ir também! Mas não vou deixar que leve ele! — Fungou uma vez e baixou a cabeça — É tão difícil ter um momento com meu noivo... por favor, Príncipe Soma. — Disse em seu melhor efeito lacrimejante ao levantar os belos olhos esmeraldinos para o moreno.

Oh, que saco.

– Ah... — O pobre Soma olhou para cada um ali, sem saber o que fazer — ... claro, senhorita. Tudo bem... mas eu irei mesmo, está bem? E mais tarde a gente vai jogar alguma coisa! — Disse animando-se novamente.

Na primeira oportunidade o conde puxou o braço do aperto e alisou o pulso estrangulado. Sua cabeça latejava e despejava impropérios silenciosos.

– Esta bem! — A lady abrira um sorriso resplandecente.

– Fico feliz que todos estejam satisfeitos com minha agenda, com licença que eu tenho compromissos a cumprir. — E assim o menino espanou sua roupa com a mão e se retirou do recinto, sem nem ao menos omitir seu mau humor — Tanaka! — Vociferou.

Pois é, o mordomo provisório ficou achando que deveria ter feito alguma coisa, não fazia ideia do que, mas o tom com o qual seu nome fora gritado lhe enviou a clara mensagem que fizesse algo numa próxima ocorrência, nem que por milagre.

*************************

Bem, ele não esperava que tudo fosse flores, sabia que a menina grudaria ainda mais nele depois da cena que promoveu, contudo fora o único jeito. E agora se achava em sua aula de Marketing Especifico, tendo em primeira mão os comentários e opiniões de Lizzie que tagarelava feliz ao seu lado.

Pediu, sinceramente, para qualquer santo que fosse, um pouco mais de paciência, pois já era a terceira vez que passava a palma suada pelo rosto, de maneira a esmagar o nariz com raiva contra a mão e terminar afinando o queixo, a fim de que essa mesma mão não procurasse outra coisa para esmagar.

Quando o Sr. Armand finalizou a aula com o fechar do livro, o menino pôs-se de pé o mais rápido que pode e se retirou, obvio que sua noiva veio atrás. Já não escutava nada que ela dizia, mas o falar ritmado e agudo dava-lhe pontadas nas têmporas já doloridas pela falta de sono, mau humor e descontentamento.

– Lizzie, se me dá licença, preciso trabalhar. — Esforçou em sorrir depois da desculpa grosseira que se viu dizendo, mesmo sem pretender. Fora quase como um mecanismo involuntário de defesa.

A loira murchou um pouco, mas não deixou o sorriso morrer.

– Claro. Vemos-nos no almoço então. — Juntou as mãos atrás das costas e sorriu de lado, meiga, magoada. Ciel estava estranho, não que ele fosse muito carinhoso normalmente, mas estava irritadiço demais, distante e pensativo. A vida do conde parecia marcada por tragédias que o mudavam, e, pelo visto, essa segunda tinha levado mais um pedaço dele.

Ciel viu a menina disfarçar a tristeza e ficar parada ao pé da escada enquanto ele subia, sentia por ela, mas naquele momento já fazia tudo que podia.

Andou ate seu quarto e fechou a porta maciça. As cortinas estavam abertas e o sol fraco de fim de inverno clareava o piso, o angulo que suas sombras faziam declaravam o inicio de tarde. Ciel bufou, caminhou ate a mesinha e sentou-se, o jornal ainda estava dobrado, ignorado desde a manha. Encarou-o com desdém, tinha uma meia hora até o almoço e já que não sairia do quarto pelo bem de sua reputação de cavalheiro e anfitrião, seria bom ocupar a cabeça de forma que seus pensamentos não lhe alfinetassem.

Folheando o periódico nada tinha lhe chamado a atenção, os mesmos assuntos de mortes, doenças e propagandas manipuladoras, até que uma notícia de página inteira o fez semicerrar os olhos.

BANHO DE SANGUE NA RUA CLEEVELAND

Nesta madrugada 35 pessoas foram assassinadas em um cabaré de Londres (...) os corpos estavam espalhados por todo o lugar (...) desmembrados (...) retalhados (...) todo o lugar estava pintado de sangue (...) macabro e trágico (...) a musica ainda tocava quando a Scotland Yard chegou (...) nada foi levado (...) os corpos das mulheres eram os em pior estado e foram achados juntos numa cavidade do palco, boiando em seu próprio sangue (...) demoníaco.

Nada havia sido levado? Por qual motivo alguém invadiria um bordel a não ser para assaltá-lo? Drogas talvez? Mas esse tipo de coisa não era feita assim, de forma tão chamativa. Isso ficaria a semana toda nos jornais.

Um serial killer também não era opção, eles não costumavam matar tantos de uma só vez. Talvez alguma seita ou grupo fossem os responsáveis? Continuou lendo.

"Uma mulher foi encontrada viva com a suposta arma do crime, ela trabalhava no local, uma faca, amarrada em sua mão direita e cravada em sua barriga. Angela Parker havia perdido muito sangue e alucinava quando foi achada sentada em uma das mesas do cabaré, entre os corpos. Ela relatou uma experiência sobrenatural, onde um demônio teria entrado na casa e assassinado todos em poucos segundos, torturado-a. Ele a teria forçado se esfaquear. Estava em choque e aterrorizada.

A senhorita Parker não resistiu e faleceu na próxima hora.

A Scotland Yard presumiu que as mortes aconteceram por volta das 4 da manha, e o ferimento da Srta. Parker as 5, senão não teria sido capaz de aguentar até a hora em que foi encontrada. As conclusões iniciais incriminam a Srta. Parker, contudo, a policia trabalhará incansavelmente ate desvendar o terrível caso e mais uma vez o demônio e a morte dão as mãos em Londres."

O demônio e a morte? Ciel fechou o jornal e o recolocou na mesa. Sim, era possível. Levantou-se da cadeira e andou até a janela, o tempo estava feio, nuvens cinzentas e pesadas ameaçavam do céu, tomara elas cumprissem suas ameaças. Suspirou. O demônio rondava em Londres hein? E onde exatamente estava ele agora? Estreitou os olhos para a paisagem externa.

Tanaka abriu a porta polidamente a fim de chamar o conde para o almoço, pensou que o encontraria dormindo, mas ele já vinha em sua direção, não teria sido silencioso o suficiente?

**************************

Ciel comeu distraidamente, não dando atenção ao falatório e questionamentos, sua cabeça estava cheia. Além de todas as preparações também havia o ataque misterioso do cabaré, por que aquele circo bizarro tinha lhe deixado intrigado? Não parecia se encaixar em nada que conhecesse, era chamativo demais.

– Ciel, você definitivamente não está bem hoje, não é? — Disse o moreno, engolindo um pedaço da codorna que estava em seu prato.

Ciel meneou a cabeça em uma negativa.

– Está tudo bem, mas apesar de você não entender, tenho muito no que pensar. — Seu tom foi frio e não houve mais perguntas. Queria Sebastian ali, algo naquilo não estava lhe cheirando bem, porem se tivesse sido ele, o que ainda não tinha certeza, não fazia ideia da motivação do outro. Perguntaria a ele?

O conde terminou a sobremesa e se levantou, tinha mais uma aula antes do piquenique.

Enquanto se dirigia a sala de estudos, espiou por uma das janelas do corredor, o tempo havia fechado mais, as nuvens tinham cerrado o sol, e a claridade que penetrava era de um tom cinzento.

"Oh, por favor, chova logo!"

Continuou andando.

O tempo, dessa vez, não se arrastou e ouviu o carroção soar às três da tarde. A tal aula Diálogos fora minimamente interessante, poderia tirar proveito de alguns conceitos dito pelo tutor, Druitt seria presa fácil de sua malicia. Ainda não tinha saído da sala quando Tanaka entrou, não pode evitar um suspiro frustrado: Tanaka estava ali porque Sebastian ainda não havia chego, Tanaka estava ali porque era hora do piquenique.

– Jovem Mestre, tudo está preparado e lady Elizabeth, Príncipe Soma e o jovem Agni lhe aguardam na carruagem. — Disse o velho mordomo se inclinando.

– Esta bem Tanaka, vou me lavar e já desço. — Passou pelo mordomo em direção as escadas e quando notou o outro seguindo-o, completou. — Não preciso de mais nada agora, obrigado, espere-me junto dos outros.

Ouviu o senhor suspirar, se curvar e obedecer, ainda que estivesse claro que ele não tinha ficado satisfeito, mas precisava de um tempo sozinho se ia passar as próximas três horas naquele piquenique.

Tentou por as idéias no lugar nesse tempo, andou ate seu quarto e fechou a porta, despiu a casaca e o tapa olho e refrescou a fronte, a nuca e os braços no lavatório de porcelana. Não tirava de sua cabeça que aquele circo no cabaré tinha um pano de fundo realmente sobrenatural, ainda que parecesse ter sido resultado das alucinações daquela jovem. Mas por quê? Encarou sua imagem refletida na água, rugas se formavam no vão entre seus olhos, estava curioso e sua curiosidade nunca era saudável.

Sacudiu os cabelos e secou as mãos e rosto na toalha felpuda, vestiu de volta sua roupa e escondeu o olho direito, olhou de relance a paisagem pela cortina, as nuvens ainda pairavam pesadas no céu, assim como as idéias dentro de sua mente.

Saiu do quarto e desceu às escadas, Tanaka lhe aguardava na porta da frente com sua cartola, ao menos teria algo para distrair-se durante a tarde, não gostava de esperar e Sebastian estava certamente passando de todos os limites.

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Olhou o relógio, marcava quatro e meia da tarde. Tsk, havia perdido o horário do chá, não pretendera demorar-se tanto, contudo fora necessário.

Pendurou a toalha no gancho e vestiu suas roupas, o palitó do fraque havia ficado no quarto, lembrou. Saiu do banheiro, o pegou no cabideiro e torceu o nariz, fora necessário lavar-se para livrar-se daquele odor enjoativo, não vestiria aquilo. Com um movimento de mãos do demônio o palitó desfez-se em um vapor negro e outro apareceu pendurado em seu indicador. Vestiu-o.

Encarou-se no espelho oval levemente desbotado nas bordas, aquele lugar não era nenhuma maravilha, mas havia servido. Alisou as roupas e o cabelo, pôs as luvas e virou-se na direção da porta, espiou de esguelha o amontoado vermelho que sangrava sobre a cama, já havia uma poça no chão, era bom aquele inútil acordar antes que alguém viesse checá-lo ou criaria pânico.

– Boa tarde senhor Grell. — Disse antes de fechar a porta atrás de si.

Saiu do estabelecimento e o vento lhe açoitou, trazia cheiro de terra molhada, iria chover dentro em breve, precisava se apressar. Olhou novamente o relógio, quatro e quarenta e cinco, isso lhe dava em torno de vinte a trinta minutos para chegar à mansão, preparar o jantar e estar pronto para receber o conde. Sorriu, era mais do que o suficiente, pensou enquanto fechava o relógio e desaparecia com seu click.

~*~