Deep-sea Girl
4 Capítulo III
Notas iniciais
Deep-Sea Girl
O primeiro pensamento que cruzou pela cabeça da dona de olhos azul-esverdeados naquela manhã foi o de querer voltar a dormir. Mesmo assim levantou-se, cambaleante e com os cabelos bagunçados e cheios de nós, caminhou aos tropeços até o ateliê e recolheu o copo e a garrafa pela metade de Martini. Aos resmungos, foi até a cozinha, guardando a bebida doce e amarelada ao lado do vinho, na geladeira, e pondo o copo na pia. Ligou a cafeteira e pôs pó e água, pois, por mais que não gostasse de sabores fortes pela manhã, precisaria de algo para espantar o sono e a dor de cabeça.
Se dirigiu ao banheiro, onde tomou um banho e escovou os dentes em uma velocidade agonizantemente lenta, mesmo para ela. Apenas estava evitando movimentos bruscos, por medo daquele latejar contínuo, que parecia querer abrir um buraco em seu crânio, aumentar. Deus, parecia que até mesmo seus olhos doíam. Ela jurou em vão que era a última vez que bebia em busca de inspiração. Em seguida riu de si mesma, tentando se lembrar de quantas vezes já o havia feito. Não gostava do ritmo que as coisas estavam tomando. Possuía um parente alcoólatra e se perguntava se isto lhe deixava com pré-disposição de ter o mesmo problema. Precisa parar agora. Quando as duas garrafas já abertas em sua geladeira acabassem, não compraria outras.
Enquanto penteava os cabelos, sem muito cuidado, Miku observava seu quadro incompleto. Evoluíra bastante naquela noite. Ela bem sabia que teria conseguido sem precisar de uma única gota de álcool, não fosse os pensamentos torturantemente bons e nostálgicos que se apoderaram de sua mente. Já não sabia se devia culpar as manchas no piso, a conversa com Teto, o “reencontro” com o ex-namorado ou a ansiedade de voltar a se socializar na faculdade. Sentiu as marcas nos pulsos formigarem e ergueu as mãos para observá-las. E então se lembrou da verdadeira razão para se embebedar na noite anterior.
Lembrava-se de, envolvida em lembranças, observar aquelas singelas linhas horizontais. E em seguida de senti-las formigarem, arderem. A sensação se prolongando, até que quase podia sentir a esquecida sensação de uma lâmina afiada contra a própria pele. E se levantara, quase enfeitiçada, para ir até seu quarto e abrir uma gaveta. De aproximar seu canivete do antebraço. E de soltar um grito horrorizado, jogando a arma para longe, antes de chegar a se machucar, e correr até a cozinha, procurando por algo mais forte que o vinho e encontrando apenas a garrafa bonita de Martini.
Largou o pente e esfregou o rosto freneticamente. O que diabos ela estava fazendo? Era louca, por acaso? Voltar para aquilo que sabia não ser fácil de escapar? Não mesmo. Com um alto suspiro, marchou até o quarto, se vestindo e, com cuidado, catou o objeto jogado no chão, que quase usara na noite anterior. Grande surpresa, metade de seu apartamento estava jogado no chão. Sentiu vontade de rir. Passou quando se lembrou que um dia teria de arrumar. Jogou seu canivete dentro da bolsa que levaria para a faculdade e juntou os outros materiais que precisaria, pondo tudo em uma outra bolsa, maior e mais simples, em seguida indo até a cozinha e jogando ambas sobre a mesa enquanto saboreava seu café.
Por fim, saiu com certa dificuldade, carregando suas coisas. Entrou no elevador e, com um suspiro, pôs tudo no chão, enquanto revira a bolsa para achar o objeto que lhe trazia tantas lembranças. Lembranças estas que estranhamente mesclavam dor e alivio momentâneo. Respirou profundamente e voltou pegou seus pertences pouco antes do elevador abrir, no térreo. Foi a passos calmos até a lixeira do prédio, estendendo a mão enquanto tentava equilibrar seu material, e finalmente a abrindo, deixando que a lâmina caísse entre papeis, restos de comida, copos descartáveis e latinhas.
Virou de costas rapidamente, indo até a parada de ônibus e tendo de esperar dez minutos até o que tomaria aparecer. Já sentada e com suas coisas jogadas no banco ao lado, a Hatsune olhou no relógio, percebendo com alívio que ainda chegaria a tempo da terceira aula. Sentia-se inquieta por ter se livrado de seu canivete. Não sabia se devia sorrir ou arrepender-se. Tirou o celular da bolsa, discando números já conhecidos, olhando para o aparelho, desapontada quando chamou até cair na caixa postal. Ah, claro. Que bobagem a sua. Teto estava em aula, devia ter posto o celular no silencioso.
Deu de ombros e, pelo restante do caminho, dignou-se apenas a olhar o mundo lá fora pela janela. Por algum motivo, teorias de Einstein sobre a passagem de tempo vinham em sua mente. Arqueou as sobrancelhas para si mesmas, vendo seu reflexo no vidro. "Que diabos está acontecendo com a minha cabeça hoje?" se perguntou, embora não se incomodasse realmente com aquelas linhas de raciocínio estranhas. Até que puxou a cordinha, avisando que desejava descer, e seus sapatos tocaram na calçada da faculdade. Kaito estava parado na entrada, revirando sua mochila, enquanto um típico sorriso divertido bailava em seus lábios.
Enquanto ia até ele, Miku sentiu a respiração se tornar mais difícil e passou a se esforçar para esconder tal fato, respirando apenas pelo nariz, embora parte de sua mente lutasse pelo auxílio da boca. Os pelos de sua nuca e braços se arrepiaram, ela conseguia ouvir seus tênis contra o chão, como se fosse um som alto, e mesmo o insignificante barulho de seus braços batendo contra o tronco, enquanto andavam, chagavam com perfeição a seus ouvidos. Apenas no meio do caminho percebeu que ele estava acompanhado por seu amigo de cabelos roxos e de uma bela mulher de cabelos rosados e olhos azuis. E apenas quando parou em frente aos três entendeu que aquela expressão que os dois desconhecidos levavam era incredulidade.
- Hatsune-san, bom dia! — ouviu a voz do azulado, animada. — Que coincidência te encontrarmos por aqui. — comentou, pois, de fato, os três apenas iam até a padaria por Luka, a mulher do grupo, que dizia sentir fome e não querer ir sozinha.
- Realmente... — abaixou os olhos, sem saber ao certo como continuar. Kaito a observava com curiosidade, até soltar uma exclamação, como se acabasse de se lembrar de algo.
- Hatsune-san, estes são Kamui Gakupo e Megurine Luka. Luka, Gakupo, esta é Hatsune Miku. — apresentou, com um sorriso.
- Muito prazer. — pronunciou-se Luka, com uma voz firme, embora melodiosa, e estendeu a mão para a azulada, fazendo com que trocassem um cumprimento sério e ocidental. Gakupo apenas fez uma breve reverência, a qual Miku retribuiu e um desconfortável silêncio se instalou enquanto Kaito buscava algo em sua mochila. — Então, já vamos indo... até mais. — disse a rosada, vendo os outros dois assentirem e dando um certeiro tapa na cabeça do desatento amigo azulado, o que fez a Hatsune arregalar os olhos. — Anda logo, Kaito, seu idiota.
- Ai... ok, ok... — sorriu para deslocada garota mais baixa, vendo-a observá-lo com os olhos arregalados. — Não ligue para isso, Hatsune-san, Luka-chan é uma ótima pessoa. Nos vemos... — e saiu sendo empurrado pela amiga, antes que pudesse falar muito. Ele estava quase ficando incomodado por até agora não ter conseguido passar cinco minutos conversando com a garota.
- Hatsune Miku-san. — chamou Gakupo, quando já estavam a dois metros de distância e Miku já caminhava lentamente em direção à sua sala, passando a fazer o caminho de volta até ela. — Mais tarde, vamos à casa de uma amiga nossa, Megpoid Gumi... não sei se a conhece.
- Megumi-san. — assentiu. A garota de cabelos verdes e curtos era bem conhecida por fazer recitais de piano no campus... e por ser realmente barulhenta.
- Sim, ela mesma. — e de cabelos roxos sorriu. — Kaito está louco atrás da chave dele e Luka não nos deixa conversar direito, mas ontem ficou falando que iria te convidar... então, estou sendo um bom amigo fazendo isto para ele. — riu, vendo-a arregalar os olhos de surpresa. — Quanto à Gumi, não se preocupe, ela não vai ligar de receber mais alguém e Kaito já falou com ela. — esperou um pouco. — Você vai?
A garota hesitou. Até poucos minutos atrás, não sabia se Kaito queria ou não falar com ela e agora já recebia um convite para ir até a casa de uma amiga do grupo... e se havia ficado desconfortável com apenas mais duas pessoas, imagine o que aconteceria se estivesse com muita gente? E nem teria alguém conhecido para se apoiar... além de Shion, que certamente defenderia os amigos ao invés dela. Moveu as mãos nervosamente ao mesmo tempo em que tomava cuidado para não derrubar nada.
- Não sei se é boa ideia... — finalmente disse, em um sussurro incerto, desviando os olhos. Percebeu o olhar arroxeado do outro sobre si, como se fosse analisada. Viu o rapaz dar de ombros.
- Tem até o final da aula para decidir. Mas posso te dizer que será divertido. Agora é melhor eu ir, antes que Luka venha me puxar pelas orelhas. — sorriu, acenando com a mão, sendo retribuído pela outra e então indo até seus dois amigos.
Aquele simples convite, porém, não deixou a jovem em paz durante as aulas. Toda vez que via Kaito na sala, com a mesma expressão radiante de sempre, sentia um nervosismo anormal lhe brotar na boca do estomago. Quando mandou uma mensagem para Teto, esta foi clara em dizer que achava uma boa ideia. Miku em si tinha vontade de ver como seria, embora um desânimo se apoderasse de si só de pensar muito. Todavia, quando as aulas terminaram e Kaito veio lhe pedir uma resposta, ela não hesitou em dizer "sim", recebendo um dos sorrisos mais lindos que já vira. Até mesmo tiveram a chance de conversar amigavelmente sobre traços de desenho durante o tempo que comiam algo na padaria e esperavam o ônibus.
"Claro que não hesitei" dizia para si mesma, irônica, parada em frente ao armário bagunçado, tentando achar uma roupa casual para ir até a casa da menina animada que era Megpoid Gumi. "Deixei para hesitar depois que cheguei em casa." Suspirou profundamente, sacudindo uma blusa azul-marinho, na esperança de fazê-la parecer menos amarrotada, para em seguida pôr a mão no rosto.
- Meu Deus... isso não vai dar certo.
Notas finais
Juro que no próximo capítulo vou tentar controlar essa crise de autora carente XDDD deve ser a Miku que está me contagiando -qqq
Espero que tenham gostado e obrigada por ler!
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