Deep Water
1 Tudo Errado
"Minha visão estava meio turva, e minha respiração estava presa. Eu sentia medo. Medo de não poder mais conseguir subir a superfície, e medo de continuar me afundando cada vez mais que eu tentava me mexer. Eu já estava cansada de tanto relutar. Eu conseguia sentir a minha pele enrugar-se a cada segundo que eu continuava ali dentro. Eu só queria entender porque o meu corpo não conseguia seguir aos meus comandos. Por que eu não conseguia mais nadar? Eu deveria desistir, não deveria?
Soltei minha respiração, e comecei a sentir a água invadir-me rapidamente enquanto o meu corpo afundava. Ali, fiquei apenas observando uma luz bem fraca sob mim enquanto aos poucos, meu mundo ia escurecendo. Sim, eu estava morrendo."
—Ari... — ouvi ao longe alguém me chamar. -Ari acorda!
É incrível a capacidade que o corpo humano tem de reproduzir exatamente as sensações que você tem dentro de um sonho.
—Ariana você vai nos atrasar! — senti um balançar forte do meu corpo, me assustando e fazendo com que eu abrisse os meus olhos de imediato. Levantei meu corpo rapidamente, sentando-me na cama e passando a mão por entre meus cabelos cheios de nó, enquanto eu retomava o fôlego.
Inspirei fundo mais uma vez, enquanto situava-me de que eu estava de volta a realidade e tudo o que se passara antes era apenas um sonho. Um terrível pe.sa.de.lo por assim dizer.
—Desculpe... — consegui falar baixo e falho, sentindo a minha garganta seca, enquanto levantava-me da cama seguindo direto para o banheiro.
—Aquele sonho novamente? — sua voz doce cruzava todo o quarto.
Continuei em silêncio sentindo a água morna tocar minha pele suada. Fechei os olhos enquanto via novamente aquele grande oceano escuro em que eu me encontrava.
—Francamente Ari.. Você deveria procurar alguém para te ajudar. Sabe, ter feito terapia me ajudou bastante. — continuou ela tagarelando no meu quarto.
—Maya, é besteira, uma hora esses pesadelos acabam. Vai ficar tudo bem! — afirmei enquanto secava os meus cabelos, deixando algumas gotas respingarem sob ela que de imediato fez uma careta para mim.
Era o nosso primeiro dia de aula no segundo ano da faculdade. Eu ainda conseguia sentir o frio na barriga do primeiro dia. Ainda éramos completamente desconhecidos — pelo menos era o que eu acreditava. Os novos garotos estavam completamente excitados em desbravar o novo mundo de jovem adulto, rodeado por mulheres atraentes, sexo, drogas e festas das irmandades. Estávamos em um mundo em que era praticamente impossível não passar desapercebido. Eu costumo chamar o mundo universitário na verdadeira fábrica de loucos. Vemos de tudo o que não imaginávamos que poderia existir, temos as mais intensas experiências, somos provocados a todo momento ao nosso máximo, e aprendemos no final de tudo de uma forma ou de outra que devemos andar com as nossas próprias pernas. Mas também é o lugar em que encontramos as nossas verdadeiras amizades. Foi assim que eu conheci a Maya.
Nos conhecemos um pouco antes do nosso primeiro dia de aula, quando minha mala simplesmente caiu escada abaixo enquanto eu as tentava subir para achar o meu quarto. Até hoje não consigo compreender como eu consegui quebrar aquela mala enorme de fibra. E no mesmo instante, havíamos descoberto que éramos colegas de quarto. Desde então, não nos desgrudamos nunca mais. Ela tem cuidado de mim até mesmo quando eu não quero. Ela consegue ser completamente doce e insuportável quando ela quer, e acreditem em mim, não a provoquem quando o seu instinto protetor está ativado — na maioria das vezes. — Da última vez, quase perdi meu braço esquerdo.
—A professora já está na sala. — ela alarmou me tirando do transe enquanto meu puxava por todo o corredor. — Rápido Ariana!
—Calma! Calma! — comecei a gritar com ela tentando a fazer me soltar.
Senti algo forte e gélido esbarrar contra o meu corpo derrubando todos os meus livros no chão e a minha pesquisa. Se já estávamos atrasadas, agora eu tinha a certeza de que eu teria de me redimir com a professora. Atrasos eram inadmissíveis. E com a Maya... Bem, eu ouviria muito.
Merda, merda, merda, merda!
Comecei a pensar freneticamente enquanto eu tentava reunir a pilha de folhas que havia se espalhado no chão.
Isso tinha que acontecer justo hoje?! Deve ser algum calouro imbecil perdido pelo corredor e sem olhar para onde anda. Continuei a pensar.
Senti uma mão gélida tocar as minhas, entregando-me um punhado de papel.
—Idiota. — resmunguei.
—Desculpe? — a voz masculina soou baixo.
—Ari seus livros! — Maya gritou enquanto corria na minha direção com eles nas mãos. -Rápido!
Levantei-me tentando organizar a bagunça que se encontrava nas minhas mãos. Ouvi baixo um sorriso, me deixando um pouco incomodada por dentro. Eu estava curiosa para olhar para ele, mas eu não queria. Algo dentro de mim, fazia eu me sentir envergonhada de um idiota que ainda por cima, estava dando risada de mim?!
Não consegui conter a minha curiosidade e elevei mais um pouco o meu olhar. Seu pescoço pálido estava completamente amostra, deixando as suas pintas em evidência. Os pelos de sua barba ruiva estavam devidamente aparados causando um perfeito contorno em seu rosto.
Droga! Pensei mais uma vez.
Ele parecia ser muito bonito. E as minhas bochechas começaram a me dedurar naquele momento. O que eu deveria fazer? Sanar a minha curiosidade, ou apenas pensar que me esbarrei com um crápula?!
—Ariana, eu não vou falar novamente. A professora vai te matar! — ela resmungava ao longe.
—Ariana... -ele repetiu meu nome. Baixei a cabeça imediatamente tentando ignorá-lo, enquanto via a sua mão estender-se de encontro com a minha, como se quisesse dizer "prazer".
Recuei mais um pouco meu corpo, tentando afastar-me dele, mas não pude deixar de notar que em seu braço havia uma tatuagem. Uma grande e estranha tatuagem que havia me deixado intrigada. Por que ele tinha uma tatuagem de três luas? Homens no nosso estado, na nossa idade, costumam fazer tatuagens estúpidas, mas três luas?
—Com licença.
Entrei na sala de aula rápido, procurando o meu lugar que infelizmente era no fundo e no alto, o que me lembrava que eu tinha que subir escadas, passar por todos que já estavam sentados, e ainda fazer a professora me notar. Notar que eu estava perdida, nervosa e atrasada.
—Bom dia Senhorita Kzar. -Ironizou a professora. -Bem turma, visto que a nossa palestrante de hoje já chegou, e atrasa... — ela enfatizou bem essa última palavra — vamos adiantar para que ela comece. — Ela saiu do seu púlpito dando lugar a mim. — E antes que eu me esqueça — ela me interrompeu antes mesmo que eu começasse. — Apresento-lhes o professor definitivo de vocês nesse semestre. — ela olhou para a porta. -Apresento-lhes Sr. Dominik.
Puta que pariu!
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