Deito-me no sofá e acabo por adormecer.Quem diria que Chris, aquele homem que infernizava a minha vida à 13 anos, acabaria no fundo por me ajudar?

A campaínha toca.

–Quem é? — grito rabujenta. — Isto são horas para se tocar à campaínha?

O relógio marcava 10h. Afinal não era assim tão tarde. Visto o roupão e desco as escadas a correr. Ainda com o meu ar de sono, abro a porta.

– Bom dia !!

– Ah, bom dia Liam.

– Desculpa se te acordei.

– Ah, não faz mal. Também já estava na hora de me levantar.

– É assim.. Eu gostei imenso de te conhecer e gostava que viesses comigo dar uma volta.

Estava visto, não conseguia parar de sorrir.

– Sim, claro! Mas tenho que me vestir, senta-te no sofá que eu já venho.

Vou à casa de banho e visto aquele vestido de renda branca e calço os meus sapatos pretos favoritos. Penteio-me, lavo os dentes e ponho um pouco de blush e vou ter com ele. Chego à sala, o Liam estava sentado no sofá, a olhar para o chão e tinha as mãos entre as pernas, como se estivesse ancioso por algo.

–Vamos?

– Sim !

Entramos no carro do Liam. Não sei para onde me levava, apenas olho para a janela à espera que algum lugar me venha á cabeça, mas nada.

– Chegámos!

– Mas estamos no..

– No meio do nada, eu sei.

– Porque me trouxeste para aqui?

– Foi onde nos conhecemos.

Eu olho para ele, mas ele já estava a olhar para mim, e para mim foi uma troca de olhares um pouco constrangedora. Estavamos a entreolhar-nos à algum tempo até que ele me pede para me sentar no chão.

– Mas estás doido? Isto está tudo sujo!

– É para isso que serve o meu casaco.

Oh meu deus, os meus olhos brilhavam mais que estrelas. Aquele rapaz era perfeito, ele sabia como me mexer comigo.

– Filipa...

– Sim?

– O que se passou? Sabes eu gostava que me contasses...

– O quê? Não há nada para contar! — respondi 'seca'

– O teu passado, a tua história..

– Deixa, tu não irás entender!

– Mas posso ao menos tentar..

– É assim.. Um dia eu e os meus pais estávamos a voltar de uma festa. Estava a chover e não se via muito bem a estrada. O meu pai pára o carro e sai.

– Onde vais Mikey? — pergunta a minha mãe

– Vou ver quem é, não saias do carro e protege a Fii.

A minha mãe esconde-me debaixo das pernas dela e tranca o carro. Ouve-se um tira e a minha mãe põe-me uma mantinha por cima e diz: ' qualquer coisa nã saias do carro' . Oiço passos a aproximarem-se e oiço mais um tiro. Já tinha passado um bom bocado e eu saio do carro. Vejo que os meus pais estavam mortos e só me lembro de ter ouvido um carro a afastar-se. Estava escuro e eu estava sozinha no meio do nada. Tinha 3 anos. Comecei a caminhar, à procura de alguém e chego a um carro da polícia que estava a fazer a patrulha naquela zona. Fui levada para um convento, onde vivi até aos 10 anos. As freiras batiam-me e um dia fugi. Tenho andado por Inglaterra, à procura de um lugar firme para viver. Recebia uns bilhetes estranhos e um dia percebi que eram do assassino, Chris. Chris era um colega de trabalho do meu pai, que nessa noite se tinha transformado num assassino. Eu tenho tentado viver uma vida normal, mas é difícil. Tenho 16 anos e vivo na minha casa, onde outrora vivera com os meus pais. Não tenho trabalho, muito menos dinheiro para pagar a casa, apesar de ser duma família rica. E é assim que tem sido a minha vida.

O Liam fica calado e olha-me nos olhos. Não acredito que tinha desabafado com ele, com aquele rapaz caído do céu. Será que o tinha maçado? Ele pega-me na mão e dá-me um beijo na testa, como se dissesse 'estou aqui para te proteger'. Em seguida ele pega nas minhas mãos e começamos a trocar de novo os olhares, Oh não, apetecia-me beijá-lo mas sabia que não o podia fazer. O Liam, aproxima-se de mim e beija-me suavemente.

– Liam..

– Desculpa.

– Eu não sei como dizer isto..

Do meio do nada começa a chover, BOA !!

O Liam abraça-me e põe o seu casaco sobre as minhas costas.

Estávamos todos molhados, mas eu nem tava nem aí. Ele mexia comigo como mais ninguém o fazia, ele fazia-me sorrir de maneira boba, ele coise. Estava a começar a ficar corada quando...

– Filipa, tu mexes comigo. Desde ontem, desde que saí do carro e perguntei se estavas bem. Tu fazes sorrir de maneira estranha, tenho uma vontade de estar contigo, opá não sei..

– Liam .. !

Não sei o que me deu! Abraço o Liam e beijo-o. Ele sorri.

Ficámos ali, no meio de uma floresta, abraçados, mais nada.

Estava a ficar tarde e fomos para minha casa.