Deep Souls - História interativa.
10 Cap 09- O lago dos pesadelos.
Notas iniciais
Dia 24 do quinto mês.
Os soldados que restaram continuaram sua caminhada mesmo sem Then. Arthos foi eleito o novo líder mesmo com alguns olhares negativos sobre tal decisão. Durante a viagem de quase um mês eles passaram pela floresta de outono e chegaram a um pequeno vilarejo nomeado de Lem, local onde comprariam mantimentos e pousariam com sossego. A pele e órgãos daquele Tharkos seriam comerciados e assim pegariam o dinheiro necessário.
–Chegamos. – comentou Arthos retirando sua bandana para se proteger do frio.
O vilarejo estava vázio, possui no centro uma praça pequena com um poço aparentemente desértico. Edward bebia o resto de sua garrafa de rum e já se mostrava alterado, fitava descaradamente os seios de Galatea. Uicenzo abriu um sorriso fraco e limpou o suor em seu rosto.
–Estou faminto e sedento. – comentou um soldado indo em direção ao poço. A vila estava vazia e somente uma loja parecia aberta.
Hysteria junto à irmã foi até uma das lojas, o vendedor gorducho e com uma barbicha negra teve seus olhos duplicados ao ver tais beldades e logo abriu um sorriso.
–O que desejam damas? – o homem lia um livro, ajeitou seus óculos e colocou as mãos sobre a mesa.
–Vendes o que? – indagou Galatea se abanando com um leque. Ela vestia um vestido curto branco e por cima placas de metal, em suas costas ocupava-se sua espada longa. A irmã utilizava o mesmo vestido, porém sem as placas.
–Armas de ferro e aço. Também vendo comida e bebidas para viajantes, sou o fornecedor.
As casas eram feitas de pedra e suas bancadas eram floridas e verdes assim como toda a vila. Mesmo deserta ela trazia um ar de harmonia àqueles que a visitam. Os soldados se instalaram em seu acampamento ao lado de Lem, montaram barracas, acenderam fogueiras e alguns foram atrás de uma taverna ou bordel, mas nada disso tinha ali. O único bar estava fechado e não tinha previsão para abrir novamente. Hysteria e Galatea negociaram junto a Uicenzo os restos daquele Tharkos, trocaram por comida, vinho e algumas armas velhas. Mas não era o bastante, aquele homem mal lhes informou e trancou as portas como se temesse algo.
–Cidade estranha. – comenta Arthos amolando suas flechas uma por uma sentado em uma rocha. Edward assente bebendo o resto de seu rum.
–Parece que ninguém vive aqui. – ele lançou a garrafa no chão e soltou um arroto digno de risos dos soldados. Já anoitecia e Galatea foi junto à irmã tomar um banho no rio mais próximo.
As duas estavam nuas dividindo a mesma água, seus enormes seios trombavam-se e se roçavam, estavam encostados e seus cabelos soltos, os corpos suados e aquela sujeira que se acumulou foi desaparecendo aos poucos. Elas quase se abraçavam, trocavam olhares e sorrisos, sentiam-se como se tivessem oito anos, os oito anos dourados de suas vidas.
–Galatea... Sei que não gosta de Arthos. – a irmã tentou desviar o olhar, mas fixaram-se firmemente nos de Hysteria.
–Sei que gosta dele, assim como gostou de muitos outros. Mas em especial um e este lhe abandonou. Lembra-se não é? Estou apenas protegendo a ti. – mesmo com tais palavras Galatea era dominada por um sentimento de ciúmes da irmã. Queria que ela fosse dela e de mais ninguém. Era possessivo, doentio.
–Mas este é diferente, conversamos muito e ele falou sobre as estrelas e cantou para mim. Acho que estou apaixonada minha irmã... – a água morna batia na cintura de ambas, os cabelos dourados escorridos tentavam tapar o corpo, mas eram finos demais para isto.
–Deixe de ser estúpida Hysteria. Ele só quer foder você! – aquelas palavras arrancaram lágrimas da irmã mais nova. Ela levou a mão em seu rosto e soluçava em prantos. – pare de chorar você não é mais criança.
Um enorme esguicho de água lançou-se aos ares e uma criatura de mais de um metro, pele coberta de escamas, dentes afiados e finos olhos saltitou assustando as duas.
–Saia da água! – Galatea puxou a irmã para fora dali e a criatura saltava de um lado a outro. Elas deixaram o lago totalmente nuas e Edward surgiu com sua espada e sem armadura, somente as roupas por baixo, estava bêbado.
–É um lagarto de esporos venenosos! – ele gritou e olhou para as duas sorrindo. Estava excitado com aquela cena, duas belas irmãs despidas de roupas precisando de ajuda e ele ali, forte e bêbado para salva-las.
–Nos espionava? – indagou a irmã mais velha se enrolando em uma toalha de seda quase transparente.
–Mentiria se dissesse que não jovens damas. – Hysteria parecia não se importar com os olhares perversos de Edward e demorou algum tempo para vestir suas roupas. O lagarto encarava o guerreiro, de suas narinas saia um gás quente e acinzentado.
–Sinto-me sem forças. – comentou Galatea que de instante caiu de joelhos no gramado, a irmã mais nova caiu junto, mas de cara no solo.
Edward ignorou-as e saltou na água atacando a criatura. Sua espada fez um corte no rosto do monstro, depois a fincou em seu peito e o empurrou evitando mordidas. A criatura lançou um gás venenoso e ele desviou saltando para as laterais do lago, cortou-lhe fora o braço direito e fez mais cortes em seu peito esguichando sangue. No fim estocou a criatura no peito e o levou para fora do lago, bateu com a espada em seu rosto até matá-lo de vez em meio a gritos agudos de dor.
–Aqui damas... – quando olhou as duas não estavam acordadas, lançadas no chão e parecendo mortas. – puta merda!
Ele as levou para o acampamento depois de vesti-las. Todos se espantaram quando viram Edward carregando as princesas desacordadas, Arthos tratou de saltar de sua fogueira e foi conferir o que ocorria ali. O guerreiro estava tão pálido quanto elas e acabou desabando no chão.
–O que houve? Edward! – exclamava Arthos desesperado. Hiras logo veio com sua maleta e começou a examinar as duas.
–Lagarto venenoso no lago... – Arthos estava sério e mostrava certo desespero naquela situação, foram envenenados? Ele deveria agir, então levantou-se e ordenou que alguns soldados o acompanhassem até tal lago enquanto Hiras e outros cuidavam dos três.
Após uma curta caminhada chegaram, logo encontrou a criatura no gramado toda ensangüentada. Aproximou-se devagar e o examinou.
–Foi invocado, olhem as marcas. – um soldado o cutucou nos ombros e apontou para mais lagartos nadando no lago.
–Eles estão contaminando o lago. – o soldado disse. Arthos ajeitou sua capa velha em suas costas e se levantou.
–O lago tem ligação com a cidade, eles bebem desta água naquele poço... Por isso a cidade é vazia, estão todos envenenados ou mortos. – ele olhou para o soldado sério. Tinha que tomar providências.
Galatea e Hysteria foram mantidas na mais aquecida barraca, Hiras tratava delas com fortes ervas da montanha e chás de moranja. Edward não estava tão ruim e recebia tratamentos de soldados treinados pelo jovem médico. Arthos retornou com sua guarda e iniciou uma conversa com alguns soldados. Desconfiava que uma pessoa conjurou os lagartos para contaminarem a água do vilarejo e antes do amanhecer partiriam em busca de tal pessoa.
–Vou conversar com aquele comerciante. Quero dois homens armados comigo.
Ele seguiu até a loja do homem, já era quase madrugada. Com uma lamparina em mãos Arthos caminhava pelo vilarejo, sua cabeça coberta pelo capuz e o arco preso a suas costas junto com a aljava. Os dois homens que o acompanhavam carregavam consigo uma espada e o outro uma lança longa de aço.
–Senhor comerciante, quero conversar com ti! – ele gritou do lado de fora na escuridão iluminando em torno de um metro com sua lamparina. – Senhor! Saia já não iremos machucá-lo, quero apenas conversar. – e nada, o silêncio continuava. – Não nos obrigue a optarmos pela segunda maneira senhor.
–Ele saiu. – a voz veio de trás, eles se viraram e um pequeno garotinho estava ali parado com seus cabelos encaracolados sobre o rosto. Estava pálido e fraco.
–Como se chama? Pensei que não vivia ninguém aqui... – o garotinho estremecia de fraqueza.
–Vivemos, mas a maioria está morta. A filha do comerciante nos amaldiçoou.
–O que quer dizer com isso?
–A filha dele é um demônio e nos amaldiçoou. – aquelas palavras eram estranhas e Arthos franzia sua testa confuso.
–Ela é uma bruxa?
–Demônio... – o garotinho caiu de joelhos no chão e um dos soldados se adiantou para ajudá-lo.
–Esse garotinho não sabe o que fala... – era o comerciante, surgiu com uma lamparina em mãos e o rosto sujo de terra. Seus olhos azuis estavam sem brilho e o rosto sem expressão.
–O que está acontecendo aqui? Um soldado meu e duas princesas foram envenenadas por este lago, quero respostas!
–A filha dele mora embaixo do lago...
–Cale-se! Cale-se! – o comerciante lançou uma pequena esfera de madeira e ela explodiu ao confrontar o corpo do garotinho matando juntamente o soldado próximo. Muito sangue e restos mortais lançaram-se aos ares e Arthos caiu no chão quase surdo de tão alto o som da explosão.
–Merda! – Arthos se levantou com poucos ferimentos e pegou seu arco puxando uma flecha rapidamente e disparando. O comerciante já estava a muitos metros de distância na escuridão com sua lamparina, porém a flecha o perseguiu e atingiu seu peito perfurando algum órgão vital.
–Senhor! – o outro soldado o ajudava. Arthos se recuperou vendo os restos do garoto e de seu soldado. – vamos segui-lo?
–Sim, o sangue será nossa trilha.
Eles seguiram o rastro de sangue do comerciante perante uma floresta escura e silenciosa. Com a lamparina quase apagada e sonolentos os dois caminhavam pisando em rochas, raízes, plantas e terra molhada. O rastro parecia ficar mais fraco, mas por fim viram o comerciante na beira do lago em prantos.
–Assassino! Desgraçado! – Arthos pegou seu arco e puxou mais uma flecha, mas algo agarrou suas mãos e pernas, eram os galhos das árvores e o mesmo fora feito com seu soldado. Era como se as arvores tivessem criado vida.
–Perdoe-me minha querida... – ele chorava enquanto dizia. Arthos não conseguia dizer nada, estava sendo enforcado por um galho seco que machucava seu pescoço. – sei que errei, mas eles eram ruins com você porque era diferente... Eles que eram os demônios e não você!
–Quero todos mortos... – a voz veio do lago e soava em um tom agudo e ao mesmo tempo grave, era como se viesse de outro mundo e ecoasse do fundo daquele lago e subisse ao topo estourando como uma bolha gigante.
–Estão mortos...
–Não! – o grito fez com que as águas saltassem de um lado a outro criando pequenas ondas.
–Tudo... Tudo bem... – ele disse chorando e se levantou. – também mereço, não fui um bom pai, não te aceitava como era... Não te amei como deveria amar.
Os galhos soltaram Arthos e o soldado, eles caíram no gramado molhado se contorcendo de dores e abismados com aquilo tudo. Então em um piscar de olhos aquele comerciante teve seu peito perfurado por uma raiz e logo enrolado, depois seu corpo fora lançado no lago e o mergulhou naquela escuridão.
–O que diabos aconteceu aqui? – dizia Arthos se contorcendo no chão.
–Se quer a cura para seus amigos mergulhe no lago e retire meu corpo. – a voz continuava soando sinistra. Arthos apoiou-se pelos joelhos e encarava aquela água suja e negra.
–E se me matar?
–Faça o que eu disse. E faça rápido. – ele não podia hesitar ou os três morreriam e saberá quem mais tinha bebido daquela água.
Então Arthos correu rumo ao lago e mergulhou fundo com sua espada em mãos, não via nada além de sujeira, algas e lama. Sentia que aquilo não tinha fim, aquela escuridão tremenda e espantosa diminuía o tamanho de sua coragem, era como se a voz falasse em sua cabeça e o afogasse por dentro. Poderia ter mandado um soldado fazer isso em seu lugar, mas aquilo era uma tarefa para ele e deveria ser cumprida por ele.
–Estou aqui. – a voz lhe dava arrepios. Arthos viu no fundo daquele lago um rastro de pele coberto por terra. Passou sua mão por cima e viu um rosto deformado, os olhos inchados eram grandes como bolas de aço. A boca não tinha dentes e estava roxa, o corpo de uma criança... Nua e enterrada no lago, ele não queria saber o que tinha acontecido ali, só queria voltar à superfície, somente isso. Ele enterrou suas mãos no fundo e embrulhou o corpo da pequena garotinha largando sua espada ali. Depois nadou até o topo.
–Obrigada... – a voz soou da boca dela e os olhos de Arthos lacrimejavam. Sua boca estava cheia de água suja e os cabelos escorridos. O soldado boquiaberto permanecia em um canto encostado na árvore, estava amedrontado e aterrorizado.
–Pela manhã todos tomarão banho no lago, não quero nenhum comentário sobre isso... Volte ao acampamento.
–O que fará capitão? – ele via o corpo daquela garotinha, parecia ter sofrido muito.
–Vou enterrar o corpo dela.
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