Deep In Sea
1 Único.
Notas iniciais
De qualquer forma, não sei de onde a ideia veio, mas veio.
Espero que gostem
Boa leitura.
Deep In Sea
Quando se olha durante muito tempo para o abismo, o abismo também olha de volta para você.
No mundo existe as quatro estações que sempre chegam bem recebidas por todas as criaturas que pisam sobre a terra.
A Primavera trás alegria em cada desabrochar de flor.
O Outono pinta as folhas dos mais variados tons, dando vida as paisagens mais belas.
O Inverno trás a melancolia junto aos belos flocos de neve.
E por fim o Verão derruba o frio e derrete a neve, mostrando a todos que um novo ano se iniciava com novas esperanças para o futuro.
Contudo existe um local onde apenas uma única estação prevalece em qualquer época do ano.
No extremo norte, terras que há muito haviam sido abandonadas por quaisquer seres vivos, onde colinas e grandes extensos brancas de pura neve era tudo o que se podia ver, um homem habitava um castelo solitário, a beira de um abismo de gelo onde, ao fundo, grandes ondas carregando pedaços de gelo chocavam-se com a costa petrificada.
De cabelos tão negros quando o mar profundo e olhos que fariam inveja à escuridão estelar que prevalecia sempre sob suas terras, o homem era conhecido como Rei de Gelo, e seus trajes majestosos apenas davam ênfase ao titulo imposto pelos poucos que puderam vê-lo e sobreviveram para contar ao mundo de sua existência esquecida.
Seu nome era Gray. Cinza. Como sua vida era desde que pudera se lembrar.
Não conhecera os pais, nem quaisquer outras pessoas. Estivera só desde sempre, e era assim que desejava permanecer. Pode-se chamar isso de intolerância da juventude, contudo a aparência jovial sequer fazia jus à verdadeira idade do homem – este que parara de contar seus anos de vida a muitos séculos atrás. Tinha uma sabedoria quase infinita. Já viajara por todo o mundo. Vira as calamidades e guerras causadas pelos humanos e por outras criaturas. Presenciou tantas lutas sangrentas e desnecessárias que chegou a questionar-se o porquê de tanta crueldade no mundo, entretanto, a abominação que se espalhava por cada continente o fez perceber que a solidão de seu castelo isolado era melhor do que presenciar rixas das criaturas fúteis que habitavam o resto do mundo.
Sempre se imaginou como único, pois a muito deixara de desejar por uma companheira, sabia que ninguém se submeteria a viver naquele frio intenso – não que ele sentisse frio – apenas por sua causa. E com esses pensamentos os séculos se passaram cada vez mais devagar.
~ D.I.S. ~
A escuridão do céu se mostrava bela naquele dia em particular e, por tal acontecimento, o Rei não hesitou em ficar a sua varanda particular, observando a magnífica aurora que tomava a imensidão escura do céu, destacando cores únicas e se tornando ainda mais bela quando misturada ao brilho da lua e das estrelas.
Apoiando as mãos no peitoril da sacada Gray fechou os olhos sentindo a brisa gelada beijar-lhe a face e sacudir suas roupas, a capa sob seus ombros ondulava conforme o vento tornava-se mais forte; abaixo do abismo, as ondas chocavam-se cada vez mais bravamente contra a costa de gelo e o impacto das pedras contra a costa facilmente se comparava a gritos sufocados do mar. E quando ele suspirou foi como se o mundo se calasse, enquanto seu coração tumultuava na presença de sua mais velha amiga: a solidão.
O silencio eram as facas que lhe apunhalavam vagarosamente, sempre o lembrando que ele era único e ultimo, e que ninguém mais iria até aquele lugar mórbido e desolado, não por ele. E em meio a devaneios mudos uma voz distante soou, tão encantado quanto as estrelas que enfeitavam a imensidão do céu junto a aurora boreal, tão hipnotizante que o moreno se questionava se era mesmo real, e baixando o olhar ele buscou a dona da melodia que lhe arrancou o fôlego e o pegou de surpresa.
Sentada sob uma pedra que se dispunha bravamente contra a correnteza, alisando seus cabelos longos azulados enquanto sua calda longa e azul-profundo encontrava-se parcialmente imersa, uma bela sereia se dispunha apreciando o céu naquela noite em particular enquanto cantava uma canção tão triste e solitário que o moreno questionou-se se esta não era, exatamente, um reflexo da sua alma.
E então, pela primeira vez em séculos, choveu no extremo norte. Uma chuva morna, em contraste com o clima frio. O moreno não sabia de onde e como aquela chuva estava vindo, mas isso não importava para ele, não quando a sereia virou-se e o fitou, quando os olhos marrons encontraram os seus e as bochechas redondas – pálidas – adquiriram o tom rosado mais belo que o homem pudera ver. Permaneceram fitando-se por intermináveis minutos, minutos que o moreno desejava estender, minutos que Gray jamais ousaria esquecer. Por que, por mais que tenham sido minutos, ele teve alguém ali. E quando a viu partiu de volta para as profundezas congeladas levando consigo não apenas sua beleza e companhia, como também a beleza encantadora de sua voz e a chuva frágil que se mostrara, o moreno sentira que talvez, apenas talvez, não estivesse mais só.
Baixando o olhar para fitar as leves ondulações no mar um sorriso pequeno fez-se presente nos lábios gelados do Rei, e ele podia sentir que, enquanto fitava o abismo, algo o estava observando em retorno, seja a sereia, ou o próprio abismo, mas, uma coisa era certa: ele não se sentia mais só.
É como um velho sábio lhe disse uma vez a muitos séculos: ninguém está completamente só, mesmo um abismo, se observado durante muito tempo, ele também olhará de volta para você.
Dando as costas a infinidade oceânica o homem retornou a seus aposentos, sabendo que sua vida poderia não ser mais tão solitária dali em diante.
Fim
Notas finais
Bye.
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