Notas iniciais
boa leitura♥♥

— Vocês tiveram algum sonho? — Perguntei a meus irmãos no café da manhã.

— É claro que não, eu dormi como um príncipe — Joaquim responde.

— Com o que sonhou, Luther? — Franz dita a pergunta.

— Crianças. — Revelei olhando para a refeição, pão, café e ovo frito para todos.

— Alguma que conhece? — Joaquim diz dando uma mordida no ovo frito.

— Não, porque não vi seus rostos. — Neguei enquanto mordiscava o pão.

— Não deve ser nada. — Franz enuncia — Não fique pensando nisso — Ele finaliza, em tom paternal.

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Logo depois do desjejum, vá direto para o treino. Foi a ordem do treinador, e não parecia ser flexível.

— Protetor! — Uma voz infantil chama.

— Não precisa me chamar assim — Respondi ao Lars, meu protegido.

— Do que posso te chamar? — O baixinho pergunta.

— Me chame de Luther — Digo, sendo seguido por ele.

— Tenho um presente para você, Luther — A criança me entrega um embrulho com um laço. — Não abra ainda, faça isso quando estiver sozinho.

— Obrigado — Agradeço.

— Aonde está indo? — O infante pergunta.

— Ao meu treino — Respondo.

— Posso ir junto? — Antes de eu poder negar, ele já estava me seguindo até o treinamento.

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— Aqui não é lugar para crianças. — Adrien diz com seu sotaque carregado.

— Eu não vou atrapalhar. Prometo — O moleque responde se sentando no banco.

— Eu não sou baba já vou avisando — O treinador pronuncia secamente.

— Pega leve com o pirralho — Peço.

— Eu falo com ele como eu quiser — Adrien tem a pele muito escura, olhos bem incisivos e ombros largos. — E me chame de senhor. Agora comece o alongamento.

Atendi o pedido, me alongando enquanto via meus irmãos de longe no pátio, fazendo outros exercícios com os treinadores.

— Faça o que eu faço — Adrien posiciona os braços na altura do peito e os punhos cerrados na altura do queixo e eu o imito. Seu primeiro movimento foi investir um soco em mim, e foi desviado por um reflexo da minha parte. O moreno então finge que vai usar o outro braço, e por um descuido ele usa o braço contrário para segurar meu punho e se posicionar nas minhas costas ele era ligeiramente mais alto que eu e fico preso no seu corpo. — É muito lento. — Seus dois olhos negros me lançam um olhar ferino — Lembre-se nunca baixe sua guarda. — Meu treinador logo me solta, afinal era apenas um treino. Pela proximidade sinto seu hálito de café e cheiro de suor.

— Seu sotaque é de onde? — Pergunto.

— Sri Lanka — O moreno responde. Tento demonstrar que sei que lugar é. Anoto mentalmente que iria olhar no mapa. Seu próximo golpe foi uma rasteira, que eu devia ter previsto, mas ainda era novo nisso. Meu corpo cai de costas no chão do pátio, causando dor e ferindo meu orgulho.

— Anda. — Ele estende a mão para mim, sorrio ladino e seguro a mão, fazendo impulso para levantar e depois puxar ele para o chão.

O corpo do treinador era mais pesado do que pensei, e ele não cai facilmente, então preciso forçar meu peso contra o dele para nocautear.

— Nunca baixe sua guarda — Digo zombando. Não foi bem um nocaute mas acho que ele não esperava por essa.

— Intervalo, discípulo — Adrien responde sorrindo.

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Alguns minutos depois...

— Vamos — Meu treinador diz, me levando ao outro canto do pátio, onde tinha uma arvore grande que não identifiquei a espécie.

Repassamos os mesmos golpes. Adrien posiciona os braços na altura do peito e os punhos cerrados na altura do queixo e dita a importância de uma posição de estilo de luta.

— Sua missão é tentar bloquear meus ataques — O moreno diz com um sorriso ferino, cada golpe usando as mãos como armas, os socos sendo bloqueados por mim, seus olhos negros indicando qual seria seu alvo. Eu uso os antebraços como escudo, ficando cansado até que ele investe contra meu corpo e ao recuar eu acabo tropeçando na raiz da árvore, que era de um tamanho colossal, e caio de traseiro no chão.

— Não valeu. — Pronunciei.

— É claro que valeu. — Responde Adrien.

— Você venceu graças a arvore, e não a técnica — Declarei, o olhando nos olhos. Ele sorri furtivo. Lars ainda nos assistia, mas de longe. Devia estar entediado.

— Para se secar — O moreno diz, com voz carregada de sotaque, jogando uma toalha em mim se referindo ao suor. Ele pega outra e enxuga o rosto. Não sei porque, mas reparo em como o suor escorria pela pele dele. Passo a toalha em meu rosto notando que estava gotejando suor.

Ele estende a mão para me levantar. No meio do caminho que meu punho levou, fixei os olhos no antebraço dele, suando e com veias salientes, desenhadas de um jeito charmoso. Por que eu estava pensando tanto nisso?

Segurei sua mão e me impulsionei para cima. Logo ele desvia o olhar e se despede, o treino acabou. Minha mente continua pensando na cena.

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— Pode ler uma história para mim? — Lars pediu. Agora eu estava no quarto dele, depois dele ter me arrastado para me mostrar tudo o que ele tinha, brinquedos, bonecos e pôsteres.

— Não conheço nenhuma história — Respondi.

— Não, bobinho estou falando daquele livro — O pivete diz, se referindo a uma obra pousada na cabeceira.

— Mitologia grega — Li o título da capa. Tinha uma ilustração bem desinteressante, e o lado de dentro não era atraente. — Era uma vez um lugar chamado Hades, ou submundo, ou inferno. As almas dos mortos eram julgadas de acordo com suas ações em vida, e aqueles que tiveram boas ações teriam acesso aos Campos Elísios, um lugar de descanso no interior do Hades. Aqueles que tivessem uma vida de más ações seriam enviados para o Tártaro, onde o sofrimento seria eterno. Aqueles que estavam à espera de julgamento, receberam-no em Érebo. Quem não fez nem o bem nem o mal em vida, passaria pelo nada eterno. — Pausei a leitura. — Isso não é violento demais para a sua idade?

— Não pare — Repreendeu o oriental.

— Depois da batalha contra Cronos, o pai dos deuses, os três irmãos mais poderosos ficaram cada um com um domínio. Zeus ficou com a terra e os céus, Poseidon, com os mares, e Hades, com o submundo. Por isso Hades não residia no Monte Olimpo, a morada dos deuses, mas sim em um palácio no próprio submundo. O deus do submundo era representado como um homem barbudo com um cetro na mão. Hades era visto como um deus insensível, impiedoso e repugnante. Tinha um auxiliar cujo papel era proteger a entrada do submundo. Estamos falando de Cérbero, o cão de três cabeças. O barqueiro Caronte fazia a travessia das almas pelos rios Estige e Aqueronte até os portões do submundo. O barqueiro só fazia a travessia daqueles que recebessem os devidos ritos funerários, o que incluía a colocação de uma moeda (nos olhos dos mortos) para pagar pela viagem. — Fiz a leitura pausadamente.

Insisti a Lars que a hora do conto tinha acabado, e que ele tinha de dormir. Que a história não era para a idade dele.

Aqueles nomes ficaram na minha mente durante um tempo, Caronte, Cérbero, Estige, Hades, algo me dizia que eu já tinha ouvido. Que me era familiar. As figuras do livro me voltavam a memória, o cão de três cabeças, o rio dos mortos, o barqueiro que remava entre as almas.

Notas finais
comentários???
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.