Decode

1 Capítulo único


Notas iniciais
Essa one-shot é meu primeiro Yaoi. Nunca tinha escrito um e espero sinceramente que tenha ficado digno rs

A quem gostar, aceito comentários rs

A vida era boa ao lado de Julian, eu não podia reclamar ou pedir a companhia de alguém melhor. Ainda era estranho pra mim topar com ele todas as manhãs na hora do café e todas as noites em minha cama. Mas pouco a pouco sua presença constante tornou-se um alívio para minha alma já tão estafada pelas duras decepções da vida. Não. Era mais do que isso. Eu precisava vê-lo durante os meus dias, senti-lo de todas as formas possíveis e imagináveis, ouvir sua risada ecoando pelo quarto. Precisava continuar a nutrir meu vício por ele, porque somente Julian tinha o poder de me enlouquecer de felicidade e alcançar os extremos da vida sem fazer esforço.

― Você está bem? ― ele perguntou-me certa manhã enquanto tomávamos café. Nunca poderia pensar em visão mais bonita para o início daquele dia chuvoso. Com os longos cabelos platinados molhados, a bermuda caindo nos quadris, Julian inclinou a cabeça e me espiou com curiosidade. Serviu-se de torrada com manteiga e uma caneca com café.

― Ah ― apressei-me a sorrir. ― Não é nada.

― Ficou sério de repente ― comentou ele, mordendo a torrada e dando de ombros, descartando o assunto.

― Só estava pensando sobre... Isso tudo ― movi a cabeça, indicando o apartamento amplo em que morávamos.

― Preferia um apartamento menor? ― Perguntou Julian, parando a torrada a meio caminho da boca, os olhos verde-abacate me encarando com dúvida por entre as mechas loiras que desciam pelo rosto.

Meneei a cabeça negativamente e relaxei os ombros, desinteressado. Aquela não era uma conversa que gostaria de ter. Estava satisfeito com tudo, anestesiado pela ideia de completude que a vida com Julian me transmitia.

― Não fique remoendo coisas aí dentro ― ele moveu o indicador na direção de minha testa. Vi seus lábios repuxarem-se num risinho atrevido. Antes de se levantar, lançou-se uma piscadela maliciosa. ― Preciso me vestir.

Eu tinha pequenos infartos todas as vezes que Julian desfilava pela casa. Na maior parte do tempo estava seminu, vestindo bermudas que se penduravam em seus quadris finos, descalço, cabelos soltos e selvagens descendo pelas costas, distraído com algum livro. Frequentemente o flagrava passeando depois do banho, tão à vontade quanto possível. Eu suspirava, controlando meus instintos, cobiçando-o em silêncio. Um corpo esculpido por anjos, eu tinha que admitir. Tudo nele combinava com ele.

― Seja bonzinho ― Julian afagou meus cabelos ao passar pela sala, arrumado para o trabalho.

Eu estava deitado no sofá lendo O Retrato Oval, de Edgar Allan Poe. Virei-me para ele, observando-o abotoar a camisa de gola e amarrar os cabelos. Mordia o lábio enquanto guardava cadernos, agendas e livros dentro da mochila sobre a bancada da cozinha. Sufoquei um suspiro apertando a boca. Lá estava meu coração mais uma vez, retumbando bravamente dentro do peito, tão violento que parecia tentar partir minhas costelas.

Fiquei de pé, tremendo, ofegando. Julian me espiou com curiosidade, a cabeça ligeiramente inclinada, imerso no silêncio de quem aguarda seu momento para falar. Há tempos eu lutava contra o que sentia, contra o que realmente movia minha vida e dava sentido a ela. Não fazia muito que dividíamos o mesmo apartamento, partilhávamos das mesmas coisas, contudo, meus sentimentos eram antigos. E todos os dias eu me perguntava mentalmente por qual motivo ainda não externara tudo o que me consumia por dentro.

― Eu queria dizer... Bem, acho que preciso dizer... ― comecei, empurrando a pouca coragem para fora em forma de palavras. Sentia o corpo quente, o rosto em brasa; a língua parecia ter dobrado de tamanho.

Mas para meu espanto pessoal, foi Julian quem falou. Ele desfilou até mim, os olhos verdes profundos, presos aos meus ― um lago plácido, onde adorava me afogar. Ele suspirou e sorriu.

― Não precisa dizer, Evan ― seus dedos delinearam o formato de meu rosto e precisei de todo o meu autocontrole para não derreter em seus braços.

― Mas eu quero! ― retruquei, decidido, o corpo ardendo sob seu toque deliciosamente lento. ― Eu tenho que te dizer...

Julian selou minhas palavras com um beijo inesperado. Quando nossos lábios se tocaram, tudo em mim incendiou violentamente. Fora um simples encostar de lábios, mas que para mim parecera uma noite inteira com ele.

― Tudo em que consigo pensar agora é na hora de voltar para casa ― murmurou ele, beliscando a ponta de minha orelha com os lábios, seu hálito fresco contra meu rosto. ― Não torne mais difícil ter que ir. Volto às cinco, eu prometo.

Fiquei muito quieto, segurando a respiração nos pulmões. Se fizesse qualquer movimento poderia perder totalmente o controle sobre meus impulsos. Esperei Julian sair para respirar e me derreter e sorrir à toa e me largar no sofá, explodindo de felicidade.

Acordei sem perceber que havia pegado no sono. Estava cansado por conta da noite anterior. A casa mergulhara numa escuridão triste e silenciosa. Sem Julian, aquele apartamento não tinha mesmo nenhuma vida. Acendi o abajur sobre a mesa do canto e olhei a hora. Sete e quinze. Arrisquei ligar. Caixa postal. Tentei mais algumas vezes, sem sucesso.

Talvez esteja no trânsito, pensei enquanto me aprontava para um banho. Abandonei o pensamento e mergulhei no chuveiro quente. Sim, a vida era boa ao lado de Julian. E eu estava feliz. Ele me completava, assim como eu sabia que o completava também. Não havia o quê me desagradasse, ou a ele. E seu alto-astral me contagiava todos os dias, a todo momento.

O telefone da sala tocou, ecoando pela casa. Corri para atender, amarrando desajeitadamente o roupão e por pouco não caindo no caminho.

― Alô?

Ouvi atentamente a voz rouca do outro lado. Ouvi sem assimilar, a princípio.

― O senhor entendeu, Sr. Hyett? ― o homem do outro lado da linha me perguntou.

Eu disse que havia entendido. Por precaução, ele repetiu seu discurso ensaiado novamente. E novamente minha resposta a sua pergunta foi sim. Quando ele desligou e retornei o telefone ao gancho, ainda não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Era como se meu cérebro se recusasse solenemente a decodificar aquela informação. Mas como se entende, como se aceita uma coisa como aquela?

Deixei-me cair no sofá, ainda anestesiado pela surpresa da notícia. Eu atendi a ligação de um homem estranho, dizendo-se da polícia, chamando-me pelo meu sobrenome. Ele me contou sobre um acidente. Um acidente muito perto de meu apartamento. Um acidente envolvendo dois carros e um caminhão. Contou sobre um engavetamento. Contou sobre os sobreviventes. Contou-me sobre a vítima. Ele me perguntou se eu havia entendido e repetiu a história para mim. Depois de repassar tudo mentalmente, eu suspirei e escondi o rosto nas mãos, sem ter tempo para conter as lágrimas, os soluços e o desespero. A vida plenamente feliz que eu construíra, começara a ruir.

Corri para o hospital informado pela polícia e depois de algumas trocas rápidas de informação, encontrei o leito que procurava. Meu coração retumbava forte dentro do peito, angustiado, cheio de dor. Assim que nossos olhares se cruzaram, meu mundo, que fora totalmente desestabilizado em minutos, retornou ao seu eixo. Ele sorriu e piscou para mim com malícia.

Para meu alívio, Julian estava bem.

Notas finais
Obrigada por vir!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!