Doía ver Eric depois de saber que vou ter de me casar com Daniel. Era como se um grito estivesse rasgando minha garganta de dentro pra fora. A dor era tanta que tenho certeza que o travesseiro não conseguiu conter os gritos. Após alguns segundos Eric entrou em meu quarto e correu até minha cama e me abraçou.

– Desculpe-me – disse Eric – Não devia ter entrado nos aposentos da princesa.

– Está perdoado soldado – disse minha mãe – Poderia sair agora, por favor?

– Claro senhora – ele fez uma reverência e foi em direção a porta. Acompanhei-o.

– Depois conversamos okay? – sussurrei quando ele passou pela porta.

– Até mais senhorita – ele disse e assentiu – Voltarei ao meu posto.

Ele voltou a ficar de guarda em frente ao meu quarto. Fechei a porta e fui até minha mãe.

– Mãe aquilo não foi culpa dele, ok? – comecei – A senhora sabe como o Eric é, ele se preocupa demais comigo desde que éramos pequenos e...

– Eu sei querida – ele disse ao sentar-se em minha cama – Eu conheço bem os Woodwork, lembre-se que a mãe dele é uma velha amiga minha.

– Então ele não vai ser punido por ter deixado seu posto, nem por ter entrado em meu quarto sem permissão? – perguntei.

– Claro que não! – ela disse – Ele estava fazendo o trabalho dele, protegendo a princesa!

– Como?!

– Ele entrou em seus aposentos para conferir se você estava a salvo, certo? – ela me olhou com aqueles olhos azuis encantadores.

– A senhora está completamente certa! – dei uma leve risada e me sentei ao lado dela na cama.

– Você não quer se casar com Daniel, certo? – ele finalmente perguntou.

– Não.

– Você quer fazer suas próprias escolhas, não é?

– Quero – falei – Quero ser como a senhora, quero mudar Illéa, tornar este um país melhor.

– Mas eu não consegui fazer muita coisa – ela falou – Não consegui desfazer as castas.

– Mas está perto! – exclamei com um sorriso entusiasmado – Papai me falou, ele disse que o processo de adaptação do povo está quase completo! Dois, três anos no máximo para a extinção das castas!

– É, ele me disse também.

– Mas o que eu queria poder mudar era isso – apontei para mim.

– Seu vestido? – ela me olhou um pouco distraída.

– Não – sorri – Minha situação. Queria poder dar um fim na Seleção e nesses casamentos arranjados entre as princesas de Illéa e príncipes ou reis de países importantes – suspirei – Não quero que minha futura sobrinha tenha de passar por isso! Não quero que as próximas gerações de príncipes de Illéa tenham de passar pela Seleção como papai e Chris passaram! Não quero que as jovens de Illéa tenham de se inscrever na Seleção como você e Maggie tiveram de fazer.

– Também quero fazer isso, minha filha – ela pousou a mão em meu ombro – Mas é crucial que essa união aconteça. Entenda que eu conversei com seu pai, tentei de todas as maneiras possíveis achar uma maneira para você não precisar se casar com Daniel, mas foi em vão.

–Tudo bem, eu entendo – falei – Sempre soube que isso ia acontecer, só não imaginei que seria em meus plenos 17 anos.

– Eu entrei na Seleção na sua idade, entendeu? – ela disse sorrindo – Foi muito difícil, mas no fim tudo ficou bem. Vai ser o mesmo com você.

– Assim espero – sorri de volta.

– Vou indo, tenho de organizar um jantar para a semana que vem – ela disse e foi até a porta – Creio que você vai querer conversar com um certo alguém, não é?

– Se me for permitido – falei.

– Claro, por que não?

Ela saiu, falou com Eric e seguiu corredor a fora. Em seguida Eric entrou em meu quarto. Era um pouco estranho, ele me lembrava ambos os pais. Parecia muito com Carter, mas tinha o lado fofo da Marlee. Tinha o jeito protetor do pai e o lado doce da mãe.

– Desculpa Lily – ele disse entrando – Aquilo foi precipitado e muito errado! Vou merecer qualquer castigo que o rei ou a rainha me imponha.

– Calma! Parece até que você me beijou ou algo do tipo! – falei, depois percebi a burrada que fizera – Ela disse que não faria nada, disse que você estava fazendo seu trabalho.

– Eu estava? – ele enrubesceu, parecia confuso.

– Às vezes eu me pergunto se Aspen não foi descuidado e deixou você cair de cabeça quando era pequeno.

– Pelo visto você voltou ao normal – ele disse com um sorriso nos lábios – Fiquei preocupado quando escutei seu choro.

– Desculpe.

– Sabe, quando escutei você chorar lembrei de quando éramos pequenos, estávamos brincando no jardim e você viu um passarinho morto – o sorriso começou a ficar mais largo – Então você pegou-o nas mãos e foi correndo até a rainha, começou a dizer que o passarinho precisava ir para o hospital e quando sua mãe falou que ele tinha morrido você começou a chorar. Sabe, como você estava chorando agora a pouco.

– É eu lembro daquele dia – senti uma mistura de nostalgia e vergonha tomarem conta do meu corpo.

– Aquele choro era de alguém que aceitava a situação, mas achava injusto aquilo estar acontecendo. Eram as lágrimas de alguém que queria mudar aquele momento.

– É exatamente o que eu quero – falei – Mudar minha situação.

– O que exatamente aconteceu?

– Vou ter de me casar com Daniel – falei por fim.

– Da Nova Ásia? – ele pareceu surpreso. Assenti – Pensei que o rei iria banir os casamentos arranjados.

– Eles precisão de um novo “tratado de paz” e vão me usar para isso – falei – Têm de evitar uma guerra futura.

– E o que Daniel disse?

– Ele não estava conosco. Vamos nos ver no jantar de noivado semana que vem.

Ele parecia desconfortável com o que eu dissera.

– Quer dizer que você vai se casar com Daniel? – ele disse um pouco impaciente.

– Vou.

– Vai se casar contra sua vontade?

– Vou.

– E você não liga para isso?

– Ligo, mas se é para o bem de Illéa eu...

– E enquanto aos seus sentimentos? Tem alguém de que você gosta! Eu vejo isso! – ele disse – Você vai deixar esse amor para se casar com um amigo?

– E-eu não tenho alguém de que goste! – falei tentando não ficar envergonhada – E é melhor me casar com um amigo a me casar com alguém que eu odeio!

– É claro que você gosta de alguém, Lily! Eu te conheço desde... sempre! Sei tudo sobre você e sei quando você está mentindo – ele se aproximou de mim – Sei que alguém já roubou seu coração.

– E quem seria esse alguém? Daniel? – falei – Se fosse ele eu não estaria reclamando de estar me casando com ele!

– Não pensei em Daniel – ele se aproximou mais de mim.

– Então quem? – comecei a ficar brava – Só conheço você e o Daniel! Fora vocês dois, a única pessoa que conheço é a Alice, filha do Aspen e da Lucy! Não tenho permissão para sair do palácio! Então me diga quem é esse alguém que roubou meu coração?

– Não sei, mas sei que você roubou o meu há muito tempo – ele chegou mais perto e me beijou.