Decifrável
1 The great thing about people
Notas iniciais
Os acordes finais de um violino e o inaudível choque entre os dedos do homem e a superfície rígida do instrumento foram os últimos antes do silêncio. O salão estava inundado de sorrisos, nenhum olhar triste ou desolado nenhum olhar como o dele. Os convidados engataram em uma salva de palmas puramente educada, talvez uma ou outra de verdadeiro contemplamento, mas se limitava a isso. Assim que todos se sentiram bem com as próprias felicitações o silêncio perdurou por dois segundos e os sorrisos continuavam lá.
Outra música que não a dele veio de algum lugar além de seu conhecimento, ao passo em que todos aqueles sorrisos contentes pela felicidade alheia se alargavam e seus corpos mexiam-se numa dança desajeitada e espontânea, uma dança feia porém linda. Por outro lado ele não dançava, embora adorasse e você soubesse que esse fato estava presente e pulsava sob a tez pálida. Ele permanecia lá parado como quem despreza o modo como estava cercado de um amontoado de pernas e braços mexendo-se feito cata-ventos numa manhã de ventania. Ele não te enganava, todavia, e certamente não a si mesmo. Sabia embora negasse. Negava embora soubesse.
Você não tinha certeza – e isso era de alguma forma inaceitável afinal você era você – se tal comportamento era causado por uma necessidade de manter aquela pose de um homem ridículo, sozinho, indiferente, inconveniente e mesmo assim amado diante de seus amigos, conhecidos e insignificantes. Sim, amado. Você sentia inveja, pura, ardente e tão palpável quanto o grande elefante no recinto seria. Sentia inveja do poder que esse sujeito tinha, e ouça, não estava falando do dom da dedução e sim desse talento de aproximar as pessoas mesmo as afastando.
Veja bem, talvez você estivesse se enganando ao seu respeito, talvez estivesse vendo coisas onde não existiam, mas preferia acreditar que não, preferia acreditar ser capaz de ler o tal homem que observava demais mas talvez não soubesse que estivesse sendo observado e esticado, violado e lido por você. Uma leitura subjetiva, claro, porém longe de estar errada uma vez que a vida é questão de ponto de vista, cabe a você fazer a suposição mais correta.
Você sentiu que tinha piscado sem querer, que tinha se distraído e em um momento que pareceram segundos seu objeto de estudo havia se teletransportado para junto de seus melhores amigos – que sorriam tanto, mas tanto que você se pergunta se suas bocas rasgariam a qualquer momento – e os cabelos encaracolados dele se movem sutilmente sob a pouca luz do salão enquanto a boca abre um sorriso que parece genuíno, daquele tipo de sorriso que quando contemplado se sente uma vontade incontrolável de também sorrir e de agradecer por essa troca saudável de felicidade mútua. Mas você sabe que embora quase perfeito havia um defeito, um sentimento que estava fora de lugar, como o cheiro de um cadáver no meio de uma campina verde e florida. Por um momento você pondera e chega à conclusão que esse não fora de fato seu melhor exemplo até agora.
Você sabia muitas coisas sobre aquele sorriso. Era falso mas verdadeiro, feliz mas triste, satisfeito mas solitário. Ele amava pessoas de formas que elas não compreendiam – nem ele mesmo compreendia, achava-se incapaz de amar – embora essa mentira estivesse escancarada aos olhos de quem quisesse ver, afinal naquilo a ninguém ele enganava.
Um movimento nos longos cílios e você enxergou. Ele amava a um deles, a mulher ou o homem, você não saberia dizer. Tinha certeza que a um deles ele amava e você apostava no homem apenas pela simples forma como sua presença parecia se atrair a este, meio sem querer meio sem saber, detalhe sútil que só você poderia ter pegado no ar. Você concluiu que descobrira o porque daquele sorriso feliz e triste, contente e melancólico.
De repente ele se viu sozinho, de forma contraditória, pois estava rodeado de pessoas, rodeado de calor e sorrisos e o cheiro daquela campina verde no fim do horizonte. E ao mesmo tempo ele se considerou sozinho o bastante para abaixar a guarda e mostrar os olhos e os ombros mais rígidos do que o normal, assim como as mãos, que apertavam-se uma na outra como quem não quer se ver tremer. Ele desmoronou bem na sua frente, na frente de todas aquelas pessoas – que não enxergavam não entendiam a maioria nem se importava – você percebeu após um momento de surpresa que não sabia algo, não tinha conhecimento de alguma coisa explícita nos olhos verde-água. Era uma pena você não ser ele.
Você observou o homem andar até o final do salão como uma assombração que passa despercebida, que no final não quer mesmo assombrar. Ele chega ao pé da saída e você pensa que ele olhará pra trás, mas tudo o que faz é enrolar um cachecol no pescoço e sair noite afora, naquele frio não só do próprio sereno mas – talvez – também o da mente. Assim que ele some sob aquele filete de luz da lua você não se importa mais, olha ao redor e vê uma mulher, longos cabelos loiros, um pulso magro carregando um bracelete folgado e aquele olhar, aquele olhar tal qual o dele.
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