Notas iniciais
obrigado a quem chegou até aqui! boa leitura

A ansiedade veio como um furacão destruindo cada pedaço de sanidade que via pela frente. Estava fora da minha realidade manifestar com franqueza o meu desejo homossexual (a palavra por si só, me assusta) ou ter alguém com quem eu pudesse me abrir, e prefiro lidar com um desejo reprimido a arriscar perder quem eu amo. Acredito que o motivo de manter esse nível de controle emocional seja pelo fato de não ter rolado nenhum beijo, e ainda, uma relação sexual. Porque quando acontecer, e se acontecer, serei totalmente dependente dele, e ele terá potencial de quebrar meu coração e fazer um estrago avassalador.

Sou um desastre quando se trata de tomar atitudes, porém, a ansiedade inquieta foi me tirando a paz até seguir alguma decisão. E assim, fui seguindo os pontos:

“Tá legal, ainda dá tempo de voltar atrás, eu vou parar de gostar dele” — Iniciei uma conversa unilateral.

“Não posso ferrar com a minha vida, ainda posso me apaixonar por uma garota, arrumar uma namorada”.

Eu poderia ser como André, a cada festa que a gente vai aparecem várias meninas interessadas, a diferença é que ele não deixa uma oportunidade passar, está pegando quem ver pela frente, cada garota bonita que se aproxima, e sem vergonha alguma, chega na cara dura puxando outras pelas mãos, sentando ao lado no bar, ou usando cantadas, desculpas, aquele papo furado, mas engraçado, para conquistar as mais difíceis. Ele é alto, tem o corpo definido, ombros largos, braços fartos, coxas firmes, lábios finos, mas o ponto alto está em seu sorriso, que desperta uma felicidade instantânea, e um olhar negro que olha para dentro de mim e sabe exatamente o que preciso, ou estou sentindo. André me elogia pelos olhos verdes, meu cabelo é um castanho ondulado, tenho a barriga lisa e sem graça, e um sorriso envergonhado, mas fora isso, e comparado a ele, não tenho mais nada de extraordinário.

Para mim seria bom conhecer novas pessoas, tirar o André desse pedestal, deixar ele um pouco de lado. Lembro de um conselho dele, dado há alguns meses:

“Aí, você é meio travadão, se não dá conta de falar, então escreva. Deixa eu baixar o Tinder no seu celular”. Ele baixou o aplicativo contra a minha vontade e mesmo não usando, ainda está instalado, mas nunca passei da primeira tela onde se coloca o nome.

A parte mais difícil não foi escolher as fotos, a biografia e os hobbies. Fiquei um longo tempo pensando na pergunta sobre a preferência: Homens, Mulheres ou Homens e Mulheres? Eu gosto de meninas, e de André, mas eu poderia me apaixonar por outro homem? Tenho vários amigos homens, tem os que acho bonitos, mas amor mesmo, é só por André. Antes de me sentir atraído eu me apaixonei pela sua personalidade, e a beleza apenas complementa a pessoa maravilhosa que é. No perfil, deixei que sou heterossexual, e de última hora, marquei para o aplicativo me mostrar perfis de homens também. Conversar não me faria mal, e dali eu poderia fazer novos amigos, sem desenrolar necessariamente um romance.

Curtidas, mensagens de “Oi, tudo bem? Estou bem e você?”, “Você é lindo”, se repetiam nas conversas, e cansado de responder por pura educação sem nenhum interesse por ninguém, quase a ponto de chamar André para matar a saudade, um dos três garotos a quem havia curtido antes, havia dado um “match” comigo. Seu nome: Eric.

Tem uma nova mensagem na caixa de entrada:

— Fala Dani, suave?

— Opa, tranquilo, e você?

— Fazendo o almoço. Ei, deixa eu te ligar? Estou cozinhando, é foda de pegar o celular pra digitar.

— Você cozinha? Já pode casar! O que tá fazendo?

Eric fez uma chamada sem nem eu ter pedido. Uma chamada de vídeo.

Foi a coisa mais aleatória que poderia ter acontecido. A espontaneidade dele me fez ter vontade de conhecê-lo melhor. Falar com garotas me dá um certo pavor, não tenho muito em comum com elas, não sei como conversar, acabo travando escolhendo as palavras certas para não sair nenhuma bobagem da boca, bate uma necessidade de passar uma boa impressão. Com ele, eu apenas fui eu mesmo.

— Massa com ovos, molho à base de tomates, sal, alho e ervas, com carne vermelha cozida e cortada em rodelas. — Carlos troca para a câmera traseira do celular, mostra a panela com a comida. Caio na gargalhada. Ele troca para a câmera frontal e posiciona o celular a uma distância ou é possível vê-lo em frente ao fogão. A camiseta está suja, e a cozinha, uma bagunça

— Você quer dizer que fez macarrão com salsicha?

— Calma lá. O meu prato é especial, tá me zoando, porque nunca comeu. — Eric cruza os braços.

— Tá se achando, hein? O mestre dos chefes de cozinha!

— Aprendi a me virar quando passei a morar sozinho, né.

Eric tem 24 anos e eu, 18. Seu cabelo é curto e loiro, os olhos castanho escuros; ele tem a barba curta mas bem preenchida, o rosto com o maxilar bem demarcado e o corpo comprido e magro. Um cara bonito e confesso ter gostado desse estilo despojado. O tempo passou voando, a impressão foi a de ter ficado a pouco tempo com ele, mas a conversa rendeu bastante. Ele não é afeminado, não me fez elogios, cantadas, piadinhas com segundas intenções. Qual era o objetivo dele? Havia praticamente desistido de avançar algum nível na minha relação com André, era muito perigoso… e Eric parecia ser a pessoa certa para fazer eu esquecer ele de vez. Não vou abandonar meu amigo, é claro, mas quero voltar ao que éramos antes. Apenas dois marmanjos, companheiros, amigos. Eu era feliz assim. A ideia de André como um namorado é mais assustadora que empolgante.

Sem nenhuma expectativa com Eric, deixei rolar. Ele é um cara legal, me diverte, me faz sentir a vontade. Ter gostado dele, me faz ser gay? Eu não sei… Seja como for, ele é uma boa companhia, eu posso sair com ele igual a qualquer outro amigo, e não sou obrigado a fazer nada caso eu não queira.

Eric me fez enxergar algumas coisas. Primeiro, que André não é o único por quem me sinto atraído; ser gay (ainda não tinha certeza sobre qual fruta ele gosta) não o fazia se parecer com uma mulher, com traços de personalidade femininos. Ele gosta de futebol, tatuagens, Rock, jogo de cartas, dos filmes de ação… Me senti culpado pela forma como julguei os gays com vários estereótipos e soube que uma coisa, não tem nada a ver com outra. Afinal, das coisas que eu fazia, gostava, mal tinha ligação com o universo feminino. E quem criou essa imagem do que é ser gay? As pessoas são tão diferentes

Em 3 dias, já tinha uma boa visão sobre Eric, e o conheci bem. Fiquei animado com a possibilidade de encontrá-lo pessoalmente, e mais pra frente, fazer dele amigo de André também. Desinstalei o Tinder com alívio, estava insuportável receber tantas mensagens e respondê-las. As meninas chamando pra sair, pedindo meu celular, fazendo propostas indecentes logo no primeiro dia sem ter o tempo necessário para nos conhecermos.

Eric era a pessoa certa, e veio no momento onde eu estava realmente precisando de uma companhia.

Eric, naquela quinta feira a noite, me deixou desconcertado:

— O Dani, posso te fazer uma pergunta, sem querer te ofender?

— Claro, o que você quer saber?

— O que você curte, maninho?

— Eu te falei, gosto de músicas internacionais, eletrônica, viajar, natação, paintball, cinema, videogames, por que? — Em qual sentido ele fez essa pergunta? Por via das dúvidas, usei a resposta fácil.

— Não, não é isso. Você já ficou com algum menino?

O ponteiro do teclado piscava na tela. Demorei a responder a mensagem.

— Não, nunca. Por que a pergunta?

— Sei lá, você me deu um like no Tinder, aí pensei…

— Ah, foi mal, eu queria fazer amizades, aí depois eu percebi que a galera usa pra outra coisa. E você, tava procurando uma namorada lá?

— Mais ou menos. Começa na amizade, depois eu vejo no que dá. Tipo, eu curto de tudo…

— Saquei, tipo quando você vai pra uma festa e fica de pegação, mas tá esperando a pessoa certa…

— Dani, eu quis dizer que eu gosto de meninas, mas eu curti você também.

O que eu respondo? Falo que gosto dele também? Mas e se ele pensar errado de mim?

— Po, valeu mesmo pela consideração.

— De verdade, cara, mas desculpa aí qualquer coisa, acho que viajei na real.

— Tá tranquilo, se preocupa não.

— E quando eu vou te conhecer? Você tem algum rolo esse fim de semana?

— Tenho que ver, e te falo, acho que vou encontrar um amigo meu.

André é quem sai comigo nos finais de semana, é com ele que estou acostumado. Sei que preciso de um tempo para esse sentimento esfriar, mas não quero me afastar demais, e durante a semana fui forte e quase não nos falamos. Estou com saudades dele, de ouvir as piadas, da nossa zoação. Ninguém nunca vai ser mais importante, a nossa relação é única, especial. Posso ter falado demais com Eric, graças a essa liberdade de falar pelo celular sem a pressão de estar perto.

Outro ponto é que eu gosto de como minha relação com Eric estava caminhando. Gostei de ele ter se assumido pra mim e é difícil me conectar assim com pessoas a quem acabara de conhecer.

“Quer saber?” Eu pensei. “Não marquei nada com André, e tenho os dois dias do fim de semana”. Vou aceitar sair com os dois, se for preciso. E ter a chance de saber, dessa vez, se há um lugar vago no meu coração.

Notas finais
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