Notas iniciais
Olá meus amores! Mais uma história envolvente e cheia de romantismo e sexo :D

Eu não sei bem que horas são, mas também não importa. Estou tão irritada que não quero nunca mais sair do meu quarto. Eu sabia que meu pai adorava um mato, mas se mudar para o meio do mato é demais para mim. Mil músicas já tocaram no meu netbook, mas eu ainda estou irritada. O que meus amigos vão dizer? Simplesmente não tem cabimento.

Olho meu celular na cama. Eu sempre podia recorrer a ela quando as coisas não iam bem.

– Alô. – Sua boca estava cheia, comendo alguma besteira.

– Polly, nem mesmo Nirvana acalmou minha mente. – Meu tom era choramingado, feito uma criança birrenta.

– Ah, Vali, pare com isso. Você e esse seu rock doido. Você está fazendo drama demais com essa mudança. Você vai estar a menos de trinta minutos daqui! Nem seu trabalho ou faculdade mudarão.

– Você diz isso por que não é você quem vai enfrentar pernilongos gigantes e borrachudos diabólicos.

– Você ama praia mais que tudo nessa vida e lá tem muito disso.

– Nem tente amenizar Pollyanna!

– Afe Maria, vai tomar um banho e relaxar essa mente! Depois venha aqui em casa.

– Ta... – No tom mais entendiado do mundo.

Meu pai é médico veterinário e sempre gostou dessa coisa de roça e bichos. Ele sempre comentou que seu sonho era morar numa fazenda e ter suas próprias criações, mas quando montou o Hospital Veterinário em Campinas, cidade na qual moramos, eu realmente achei que ele havia desistido deste sonho bobo. Agora ele vem, todo feliz, dizer que comprou um grande pedaço de terra em Monte Mor e vamos nos mudar para lá. Tudo bem que é perto daqui e vou manter tanto minha faculdade de Administração de Empresas quanto meu trabalho na empresa que tanto gosto. Trabalho na área de faturamento de uma multinacional e estou feliz com tudo isso, com a vida em seu devido eixo. Sou uma garota urbana, com a alma de concreto e o coração movido a gasolina. Mato, bichos, árvores e todas essas coisas de floresta para mim são bonitos só em contos de fadas, com uma princesa que canta e os bichinhos dançam com ela. Meu único bicho amado é meu cão João – um labrador cor de mel que tem todo meu amor e cuidado.

Terminei meu banho, coloquei uma bermuda de cóton azul marinho, uma camiseta de político e um chinelo havaiana e fui para a casa da Polly. Eu nunca fui de cuidar muito da minha imagem e sempre me vesti bem simples. Indo para a casa de minha melhor amiga num estado depressivo, eu realmente não iria me importar em me arrumar. Meu carro era uma imagem da minha vida: minha fofa Pagero Sport é meu xodó. Alta, esportiva e forte. Sem frufrus.

Cheguei na Polly buzinando e logo ela estava na porta me esperando.

– Menina mais escandalosa! Entre...

Ela tinha muitos problemas com os pais então há algum tempo decidiu morar sozinha. Trabalhamos juntas, estamos no mesmo ano e na mesma faculdade e nos tornamos a metade da outra. Ela não é muito alta, pouco menos que meus 1,72cm, cabelos negros e lisos por química na altura dos ombros, com um repicado divertido. Na verdade ela toda é divertida, não tem como não rir perto dela.

– Pra desfazer essa sua cara de bunda, eu fiz um brigadeiro. Pega no fogão!

– Ah, Polly, eu já disse que te amo hoje?

– Sua falsa. – Ela fechou um pouquinho os olhos como quem me dava uma bronca.

Eu levantei e pulei nela dando um abraço e ambas rimos. As horas passaram suaves, com assuntos de meninas e bobagens.

– Ei, hoje é sábado e precisamos beber alguma coisa! – Eu não queria pensar muito em que dia era pois no Domingo seria a imensa mudança.

– Eu preciso de algo forte. Tem Jack Daniel’s aí ainda? – Eu sempre fui apaixonada por uísque e JD era definitivamente meu preferido.

– Tem sim e ainda tem seus gelinhos de água de coco.

– Aí sim, eu vi vantagem!

As horas passaram e muitas doses e risadas depois, pegamos no sono. O domingo amanheceu e logo meu celular começou a tocar me tirando do meu sono. — Au... – Minha cabeça doeu quando levantei e coloquei a mão na testa por impulso. Levantei tropeçando até a mesa da cozinha para pegar o aparelho irritante.

– Filha, você está na Polly, não é? Venha já pra casa que estamos terminando de carregar o caminhão! – Minha mãe gritava no telefone e sua voz fazia eco no meu cérebro.

– Ai, mãe, tudo bem, Logo estou aí.

Deixei um bilhete para a minha amiga que estava num sono muito profundo causado pela tequila e fui para a casa.

A imagem era uma bagunça: um imenso caminhão baú parado na frente e muitas caixas espalhadas pela calçada. Meu pai parecia um guarda de trânsito dando as coordenadas e mamãe choramingava pedidos de “Cuidado” aos carregadores.

– Você podia se vestir um pouco melhor para sair de casa, Valentina. – Meu pai me olhava tentando fazer cara de bravo, mas vi que segurava um sorriso.

– Bom dia Dr. Rubens. – Olhei divertida e dei um abraço.

Fui para a casa ver como estavam minhas coisas e percebi que minha mãe tinha sido fofa e deixado uma troca de roupa para mim na cama. Suspirei e tomei meu último banho no local. A casa era tão linda, moderna e arrojada. Eu me orgulhava muito dela. Escovei os dentes e fui colocar minha roupa. Por um milagre, minha mãe havia separado uma troca que era a minha cara e não a dela: uma calça jeans, tênis All Star azul e uma blusinha de alcinha laranja. Gastei um tempo penteando meu cabelo e me olhando no espelho. Meu cabelo está comprido, com o fundo mel e mechas loiras, até quase a cintura, alisado por química, com um corte bem repicado que fazia apenas as pontas darem uma leve ondulada que eu amava. Ah, essa tecnologia facilitava minha vida.

Depois do caminhão carregado, fomos para nossa nova casa. Uh. Cada um foi em seu carro. O caminho próximo é realmente bonito. Uma estada tortuosa, ladeada de árvores enormes com as copas cobrindo a estrada. Haviam plantas mais baixas com florezinhas coloridas. Muito fofas. Meu humor foi melhorando levemente. Chegamos a um grande portão dourado escrito: Fazenda Maria Rosa. Passamos e andamos um pouco mais em uma pequena trilha até chegar na grande casa. Ela é muito grande, numa cor amarelo-claro, com grandes janelas e portas de madeiras e toda varandada. Estacionamos em uma garagem coberta ao lado da casa.

O rosto do meu pai estava realmente iluminado. Não tive como não sorrir de volta para ele.

Um medo torceu minhas entranhas. Eu não havia vindo aqui antes por pura birra e acabei deixando toda a decoração do meu quarto e meu escritório/ biblioteca por conta da minha mãe. Ai Meu Deus. Deve estar tudo rosa ou lilás, com flores nas paredes, móveis brancos e bonecas de pano em cima da cama.

Entramos na casa e me surpreendi com o que vi. Estava tudo decorado com uma mistura perfeita de móveis rústicos de madeira e toque modernos em peças de arte, quadros e cortinas.

– Eu queria muito ver onde vou dormir e meu cantinho pensar (é como sempre chamei meu escritório/ biblioteca na outra casa).

– Venha filha. – Minha mãe me arrastou por um longo corredor cheio de portas e pensei que iria levar uma eternidade para ver tudo.

Paramos em frente a uma porta linda, de madeira e muito grossa, com flores entalhadas de uma forma delicada que nunca imaginei que fosse possível. Percebi logo que era meu espaço. Abri a maçaneta devagar preparada para o pior. Quando olhei ao redor, perdi o fôlego. Era um cômodo imenso, com paredes brancas grandes. No centro, uma cama imensa, em madeira maciça e com a cabeceira também toda entalhada com rosas lindas. Na parede da direita um sofá também rústico, com o estofado fofo em um tom rosa chá delicado. Logo acima, um adesivo delicado de folhas com uma das minhas frases preferidas: “Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz.” . É de uma música sertaneja do compositor Almir Satler. Não é meu estilo, mas eu realmente me apaixonei por esta citação ao ouvir a música no carro do meu pai. Do lado esquerdo, em uma abertura que mais parecia um outro cômodo tinha um closet moderno, com até um banco lindo e pérola no meio. Ao lado, ficava um banheiro grande, espaçoso e eu até ganhei uma banheira! Todo o resto do quarto era decorado entre tons de marrom, bege, dourado e rosa chá. Não parecia algo vindo da minha mãe.

– Não precisa me olhar assim, menina. Foi seu pai quem escolheu tudo. Aliás essa casa é toda dele. Só decorei a cozinha. – Minha mãe tentava fazer cara de aborrecida, mas eu consegui ver a felicidade dela em deixar meu pai tão feliz. Eles sempre foram como dois adolescentes apaixonados.

– E meu cantinho de pensar, mamis?



– É aquela porta ao lado do closet.

Quando entrei eu quase quis chorar. Segui um corredor de dois passos e cheguei a um cômodo pequeno, com uma porta que saía para meu quarto e outra que saía para o corredor de dentro da casa. O mais lindo era que do outro lado, a parede era toda de vidro, com uma imensa porta dando para a varanda. Era maravilhoso. Uma outra parede estava coberta por uma estante tão imensa de livros que tinha até uma escadinha. Em frente, uma mesa de madeira grande, com uma cadeira no estilo clássico, de madeira, com estofado rosa chá. De frente para a mesa, na outra parede, mil fotos minhas, de minha família e amigos, em preto e branco e sépia. No teto, um lustre lindo, de ferro dourado com pequenas lâmpadas em forma de gota nas pontas.

Levei a mão na boca e olhei minha mãe. Ela estava tão emocionada quanto eu.

– Seu pai quis que ficasse tudo perfeito, Vali.

– Está divino mãe. Preciso agarrar ele!

Saí do quarto em busca do homem que eu mais amo na vida. Andei por toda casa e não o encontrei.

– Filha, ele deve estar nas cocheiras com os cavalos. Ah, ele vai acabar me trocando por uma égua.

– Cavalos? Nós temos cavalos? – Eu não sabia que meu pai tinha comprado bichos.

– Vá até lá meu amor. Você verá seu pai como nunca viu antes.

Urgh. Bichos? Cavalos? Jura? Aquele lugar deve feder como o diabo! Mas eu tenho que ir, o que meu pai fez por mim, merece um agarrão. Dei a volta na casa e pude ver o lugar ao longe. Caminhei até o local olhando em volta e vendo que era tudo muito lindo. À esquerda havia umas árvores que acreditei serem um pomar. O cheiro era delicioso ao passar ali. À direita tinha uma árvore enorme, com uma copa esparramada imensa que fazia a sombra mais linda do mundo e logo imaginei-me lendo um bom livro ali.

Quando cheguei na cocheira, eu pude ouvir o riso do meu pai. O vi e ele estava brincando com um dos cavalos e rindo muito.

– Leão, meu lindo, você está muito chato hoje! – O cavalo respondia com pequenos relinchos e esfregava a cara no meu pai. Ele me viu e veio me puxar.

– Venha Vali, conhecer nossos bebês!

– Pai, esses são os bebês mais gigantes que já vi.

– Filha, este é o Leão. – Era um cavalo imenso e todo negro. Seu pelo brilhava. Como quem responde a apresentação, ele me deu uma “Carada”.

– Ok, garotão. O prazer é meu. – Passei a mão nele e senti uma paz me invadir. Ele é tão lindo.

– Esta aqui do lado, manhosa, é a Leoa. — Olhei e o animal estava de costas para nós, como quem ignora.

– Ei, moça bonita. – Ela virou lentamente e veio até mim. Encarou-me por um momento e depois baixou a cara, como quem faz um reverência e aproximou. Com cuidado, me estiquei até tocá-la. Ela é maravilhosa. Toda branca, com as patas um pouco mais cobertas de pelo, como quem usa uma polaina. Um rabo imenso e volumoso. Sua crina tinha uma franjinha fofa e descia perfeita por seu pescoço. Ela tem uma cara de menina!

– Meu Deus, filha. Ela nunca deixa ninguém tocá-la. – Um pânico cresceu em mim e eu estava com a mão nela.

– Pai! Você me fala isso só agora? – Meus olhos estavam arregalados.

– Fique calma, ela nunca foi agressiva, apenas quieta. Venha aqui. – Ele foi mais adiante e vimos um animal lindo e com um jeito divertido. – Esta é a nossa Jurema. Eu a adotei quando quebrou a pata em um torneio de hipismo e queriam descartá-la. Ela é muito mansa e brincalhona.

Logo ela veio para nós e eu podia jurar que estava rindo. Toda destrambelhada, jogava sua crina de um lado para o outro. – Olá! – Ela empurrou minhas mãos até um cesto ao lado que estava cheio de maçãs. – Você quer isso? – Juro que o animal começou a saltitar de um lado para o outro e não pude deixar de rir.

– Filha, quando for dar, recolha seus dedos e dê assim. – Ele pegou a maçã na mãos e explicou.

– Ok. – Arrumei a fruta nos dedos. – Vem garota! – Ela veio toda feliz e pegou o fruto.

– Oh pai, eles são lindos.

– Aquele ali é o Stone. É meu tesouro. – Ele foi até o animal que era branco com manchas marrons. Logo o bicho veio, feliz em ver meu pai.

– Aquela ali é Sharon, a menina de sua mãe. – Era uma fêmea fofa, numa cor castanha brilhante.

– Eu nem sabia que mamãe montava!

– Acho que nunca contei como nos conhecemos. Sua mãe estava competindo numa prova do tambor em um rodeio em Americana e eu estava nas baias cuidado dos animais de um amigo. Ela ganhou a etapa e veio toda feliz para o brete. Era a coisa mais linda que já vi, com sua fivela de prêmio nas mãos. Mas aí ela tropeçou e se esborrachou no chão. Eu corri para ajudar e me encantei pelo olhar que recebi de volta.

– Calma, calma, calma. Eu já fui em rodeio e sei mais ou menos o que é prova do tambor. Mas nunca imaginei mamãe competindo! Ela parece tão fina. E o que é brete? E qual a graça de ganhar uma fivela de prêmio?

– Oh filha. – Meu pai riu. – Você vai aprender muita coisa por aqui. Agora vamos que estou com fome.

– Pai, eu vim aqui para agradecer pelo meu espaço. Você me conhece tão bem! Ficou perfeito.

– Você se parece comigo mais do que imagina, meu bem.

Voltamos para casa e mamãe já havia providenciado lanches e suco para matar a fome, já que as panelas estavam encaixotadas. Comecei a levar minhas coisas para o meu quarto e colocá-las em ordem. As horas passaram e quando vi já estava anoitecendo. Eu estava cansada e resolvi tomar um banho. Coloquei uma calça de moletom e um top e sentei no meu canto para ler e relaxar um pouco. Abri as portas da parede de vidro e a imagem do pôr do sol me cativou. Era um laranja tão perfeito em meio as árvores. Então eu vi algo que realmente tirou meu fôlego. Era apenas uma sombra de um homem em seu cavalo, com um grande chapéu. Eu não podia ver seu rosto mas vi ele passar bem lá adiante e senti meu peito se apertar. Foi a imagem mais perfeita que já tinha visto na vida. Por impulso, peguei meu celular e tirei uma foto. Ficou perfeita a mistura de sua sombra, a grama e o pôr do sol. Alguns instantes depois ele já não estava mais lá, mas eu ainda me sentia embriagada.