Tento abrir os olhos. Dói. Fecho de novo. Abro apenas um pouquinho e vejo um homem enorme em pé na porta. Porta de onde? Onde estou? Meu corpo reage e eu tremo. O homem corre para mim e aperta meu braço. Não consigo ver direito. Meu corpo se arrepia. Caio na escuridão de novo.

Acordo. Meu corpo está doendo. Tento abrir os olhos e não consigo. Escuto uma voz. É Miguel. Sinto um afago no braço que me esquenta. É seu toque. Sinto-me perdida. Ele continua a falar comigo, dizer que tudo vai ficar bem. Não consigo entender porque ele está falando isso. E por que não consigo abrir os olhos? Sinto um toque no meu outro braço. Meu corpo se arrepia. Ouço um sussurro de “eu te amo” ao pé do ouvido. É a voz de Marcos. Tenho vontade de chorar. Sinto escorrerem lágrimas pelo meu rosto, mas não consigo me mexer. Só escuto.

– Oh meu Deus, o que você disse homem? – É Miguel. – Ela está... chorando...

– Eu, eu... Só disse que a amo.

Uma outra voz masculina começa a falar.

– Ela está reagindo a você rapaz. Fale mais com ela.

– Vocês poderiam me deixar sozinho com ela? – Minha vontade é de gritar que estou aqui, que estou ouvindo, mas não consigo fazer nada.

Ouço a porta se fechar e sinto um imenso calor me invadir. Levemente, percebo que ele está deitado comigo.

– Minha menina valente, volta pra mim. – Ele está soluçando. Parece chorar. – Eu preciso te contar tanta coisa. Volta pra mim. Vem ficar comigo, casar comigo. Por favor.

Sinto que estou chorando. Com toda força que tenho, tento abrir os olhos. Começo a ofegar.

– Oh meu Deus, Valentina. Fica calma meu amor. Por favor. Eu vou embora. Mas fique calma. – Ele está desesperado.

Eu começo a lutar comigo mesma. Minha cabeça dói demais, mas não paro. Tento me mexer. Tento mexer minhas mãos, minhas pernas, abrir meus olhos. É uma luta infernal, como se estivesse enterrada sob toneladas de terra. Meu peito sobe descontrolado, e forço a respiração. Sinto minha boca seca. Consigo sentir minhas pálpebras de moverem. Forço mais. E mais. E mais. Vejo um pequeno raio de luz. Fecho de novo. Muitas vozes ao meu redor. Abro de novo, dessa vez um pouco mais. Fico cega pela claridade. Começo a piscar muito. Meus olhos estão tão secos. Com os olhos semicerrados, a imagem começa a clarear em minha frente. Vejo pessoas. Vejo que estou deitada. Vejo um homem em cima de mim. Parece um médico. A luz é clara, e estou com uma roupa azul. Roupa de hospital. O cheiro de éter invade minhas narinas. Cheiro de gaze. Cheiro de hospital. Vejo Marcos, meus pais, Miguel e Pollyanna. O que está acontecendo? Escuto meu nome e olho para o homem que está comigo.

– Valentina, você está me escutando?

Com toda a força que tenho, mexo a cabeça em um pequeno sinal positivo.

– Isso é ótimo. – Ele vira para meus familiares. – Precisamos examiná-la. Vocês terão que esperar lá fora.

Por muito tempo, médicos e enfermeiras entram no quarto fazendo todo tipo de exame. Um moço, acho que fisioterapeuta, vem e me ajuda a mover os membros. É muito difícil e dói bastante. Minha cabeça está confusa, e meu cérebro não me obedece muito bem.

– Valentina?

Faço que positivo com a cabeça novamente. Agora um pouco mais firme.

– Tente falar minha filha.

Eu tento. Tento. Nada sai. Começo a ficar brava. Nervosa. Tento. Saem somente grunhidos. Olho brava para o médico que está preocupado.

– Pode parar minha filha. Vou deixar seus pais entrarem. Prefiro que eles contem tudo o que aconteceu.

Ele sai da sala e minutos depois meus pais entram.

– Filha do céu, é tão bom ter você de volta. – Minha mãe me abraça com cuidado.

– Minha menina, como você está? – Meu pai pergunta afagando meu cabelo. Tento falar, mas de novo não sai nada. Olho para ele com lágrimas nos olhos e mostro que não consigo falar. Minha mãe, forte como é, vai até sua bolsa e tira papel e caneta. Com toda a paciência do mundo, me ajuda a firmar a caneta e escrever.

“eu medo” – sai escrito no papel num rabisco horroroso.

– Fique calma filha. Você está viva. É isso que importa.

“aconteceu?” – minha mão dói pelo pequeno esforço.

– Filha, — Começa meu pai. – você teve um AVC no hotel. Miguel a internou e graças aos contatos dele, o atendimento foi rápido. Mas você ficou em coma por três meses.

Oh meu Deus! Três meses! Por isso não consigo me mexer! Eu vou me mexer? Eu tive sequela? Minha vontade é de gritar, mas só sai um choro calado. Fico agitada, mas meus movimentos de braço são todos descoordenados.

– Fique calma filha, por favor. – Minha mãe me abraça.

Começo a me lembrar. O hotel. Marcos. O telefonema. Eu passando mal. Miguel.

“miguel” – escrevo todo torto no papel.

– Quer vê-lo filha? – Pergunta meu pai. Faço que sim com a cabeça.

Eles me beijam e saem do quarto. Miguel entre e corre me abraçar.

– Oh meu Deus, gatinha. Você me deu um susto tão grande. Tão grande. – Ele se afasta e me olha, conferindo cada pedaço do meu rosto. Desajeitadamente começo minha comunicação sem voz.

Indico com a mão eu não posso falar. Seus olhos ficam marejados e vejo pena em seu olhar. Não gosto nem um pouco.

“não pena mim”

– Desculpe, Vali, desculpe. — Ele diz envergonhado

“estamos?”

– No Rio de Janeiro menina. Os médicos não nos deixaram transferi-la.

“todos aqui? mt tempo”

– Sim, eu mandei buscá-los. Seus pais e Polly estavam muito aflitos.

“marcos”

– Esse aí veio por conta própria. – Disse com tom de desgoto.

“vc bravo ele?”

– Valentina! Você está aqui por causa dele! Depois de falar com ele! Quando peguei o telefone ele ainda estava na linha. Mandei ele se ferrar. Só ficou sabendo de você cerca de 01 mês e meio atrás, pois seu pai fez questão.

Sinto um pequeno sorriso em meu rosto. Ver o Miguel bravo assim é novidade e divertido. Ele vê meu sorriso e beija o cantinho dos meus lábios sussurrando – Bem vinda de volta.

“ver marcos”

Ele faz uma cara de desgosto, mas entende e sai. Marcos para na porta. Fica me olhando por um tempo. Como sempre meu corpo reage a ele, e partes que eu ainda não havia sentido, dão sinal de vida. Ele caminha lentamente e fica ao lado da cama.

– Posso me sentar contigo?

Faço que sim com a cabeça. Ele senta ao meu lado.

– Vai brigar comigo? – Ele pergunta baixo.

Faço que não com a cabeça.

– Jura?

Faço sinal que não posso falar e ele sorri.

“por enquanto – doi escrever”

Ele lê e beija minha mão. Não sente pena de mim. Isso me alivia.

– É melhor pra mim. Tenho muita coisa pra te falar e cê é muito teimosa quando quer.

Sorrio largamente. Meu coração bate rápido, como que voltando à vida. Ele se aproxima de mim e fica nariz com nariz.

– Senti tanta saudade desses olhinhos. Não via a hora de vê-los novamente. – Ele beija cada olho meu.

Meu estômago revira. Tudo vem à minha mente de uma vez.

“janaina?”

– Presa.

“pq?”

– Ela tentou entrar aqui e te matar. – Faço uma cara de espanto e ele ri.

– Ela foi idiota o suficiente pra isso. Eu fiz tudo o que você me pediu. Cuidei dela e de nosso filho até ele nascer. Ele é lindo e forte. Continuei minha farsa com ela, até conseguir um DNA. Ele é meu mesmo amor. Eu fiz todos os arranjos. Procurei o advogado. Estava com tudo certo pra sair da casa com meu filho nos braços e ir atrás de você. Então seu pai me ligou e contou tudo. Eu vim na mesma hora. Meu mundo pareceu iluminar assim que te vi, e então escurecer por não saber como seria sua vida. Alguns dias depois eu a vi entrando no hospital. A segui devagar até ela entrar aqui. No caminho eu trouxe um segurança. Pegamos ela em flagrante, quando ia colocar um travesseiro em seu rosto.

“mta coisa pensar”

– Eu sei amor. Eu sei. Posso te beijar?

“minha mão seu rosto ajuda”

Ele pegou minhas mãos e colocou em seu rosto. Senti o pinicar de sua barba. Estiquei o dedão até sua boca. Fiz que sim com a cabeça e ele me beijou. Meu corpo queimou instantaneamente.

Deitei de volta à cama cansada, mas relaxada. Sorrindo feito uma boba.

“preocupada Miguel bravo”

– Ele tem toda razão. Tudo isso é minha culpa. – Ele abaixou a cabeça.

“é mm” “cansada”

– Descanse amor. Descanse.