Debaixo Do Pôr Do Sol
23 Capítulo 23
Já passaram-se quatro dias desde o-quase-sexo-pós-dancinha. Miguel evita de todas as formas ficar perto de mim e isso me irrita. Chegamos ao ponto de conversarmos muito pouco. Vou para a praia cedo sozinha e ele aparece no horário do almoço. Comemos juntos e ele volta para a casa com a desculpa de ter que trabalhar. A noite, jantamos conversando pouco e cada um vai para o seu lado. Sinto falta das nossas risadas, da nossa amizade. Sinto-me sozinha demais. Isso faz com que eu pense em Marcos a todo instante e dói. Estou na praia lendo um livro, na verdade tentando ler. Minha concentração está um zero à esquerda. Decido que hoje acabo com essa palhaçada.
Vejo Miguel chegando para almoçar, e sua expressão está séria embaixo dos óculos de sol. Fecho o livro e abro um imenso sorriso de boas vindas que faz com que ele pare por um instante, franzindo o cenho. Ele senta ao meu lado e me dá um beijo na testa.
– Com fome? – Ele pergunta.
– Na verdade não muita. Mas aceito uma caipirinha se dividir comigo. – Digo com olhar travesso.
– Vou pedir uma para você.
Ele pede a caipirinha e o cardápio para vermos as refeições.
– Não quero comida! Pede uma porção pra gente! – Digo sentando e toda alegre. Ele tira os óculos e vejo que está desconfiado.
– Valentina, prefiro almoçar e voltar para a casa. Preciso resolver algumas coisas e...
–Ah, cala a boca Miguel! – Ele olha espantado para mim. – Cansei dessa palhaçada. Você fica fugindo de mim desde aquele quase sexo. Não aguento mais! Se for pra ficar assim eu vou embora e me trancafio no seu quarto de hóspedes pelas próximas semanas. – Cruzo os braços e faço cara emburrada.
– Valentina, eu não devia ter feito aquilo. Você está aqui para esquecer o Marcos e eu quase usei sua fragilidade. Estou com vergonha, PORRA!
Ele passa a mão pelo cabelo. Não consigo evitar sorrir para sua frustração.
–Olha moreno, eu realmente aprecio o seu cuidado comigo. Sei o que está fazendo e isso só me faz me orgulhar de estar aqui contigo. Vamos relaxar. Somos adultos. Se algo rolar, rolou. Mas não quero que se apegue a mim. Estou numa fase muito complicada e não sei como será a minha vida quando voltarmos.
– Eu não quero forçá-la a nada gata. – Ele passa a mão pelo meu ombro. – Mas acho que podemos nos divertir. – Ele esboça seu sorriso torto que me contagia de imediato. Jogo minha canga de lado e o arrasto para o mar. Pulamos e brincamos como duas crianças. Uma onda vem mais forte e me joga. Miguel me puxa e vou de encontro ao seu peito. Fico em pé e sinto sua respiração em meu cabelo. Ergo os olhos. Ele está divino. O sol bate em sua pele que agora está um dourado maravilhosamente latino. Seu cabelo todo molhado, caindo sobre os olhos verdes. Não resisto e passo os dedos por entre seu cabelo. Ele fecha os olhos e inspira. Sua mão corre por minha coluna e se aloja em minha nuca, enquanto a outra mão puxa meu quadril. Seu toque é suave e quente. Firme e doce. Ele desce seus lábios nos meus e eu me abro para ele. É um beijo de verdade desta vez. Profundo. Quente e doce. Muito diferente do peão. Ele me aquece e me excita, mas não chega a me fazer tremer. Ele me acalma. Aquece o coração ao invés de fazê-lo bater descoordenadamente, como se fosse explodir. O beijo dura bastante tempo. Saímos do mar de mãos dadas e aproveitamos o resto do dia. Ele me faz sentir querida.
As semanas passam tranquilamente. Em contato com meus pais descubro que Janaína está morando na casa de Marcos. Minha mãe tem conversado com ela e parece que está mais centrada. Porém, ela e Marcos voltaram o casamento. Pelo menos é o que diz Janaína e Marcos confirma, sem muito entusiasmo, segundo meu Pai. Meu coração afundou quando recebi a notícia. Miguel percebeu e contei tudo para ele. Ele me ajudou a sair da tristeza novamente e aos poucos. Agora já faz um mês e meio que estamos aqui. Somos amigos-ficantes. Nunca passamos dos beijos e carinhos. Estou ficando ansiosa com a proximidade do fim da viagem. Passeamos muito e conhecemos várias praias lindas. Hoje é segunda-feira e vamos deixar a casa para irmos ao Rio de Janeiro. Não vejo a hora!
– Termine seu café da manhã gata. Vou colocar as malas no carro.
– Onde vamos ficar moreno?
– Eu tenho um hotel que sempre fico quando vou lá a trabalho. Já reservei para nós pelas próximas duas semanas.
No fim da tarde paramos em frente a um hotel divino! Minha cara está totalmente idiota de tão pasmada que eu estou. Eu quase não consigo fechar a boca. Estacionamos e um senhor vem pegar as malas e outro leva o carro. A fachada é imponente, escrito Sheraton Barra Hotels & Resorts. Entramos e Miguel cumprimenta a recepcionista. Afasto-me dele para andar em volta. Tudo é muito requintado, sem falar que estamos de frente para a praia que logo descubro ser a Barra da Tijuca. Sinto mãos em meu quadril e me viro para Miguel.
– Você parece uma criança gatinha. – Ele está com sorriso de orelha a orelha.
– Olha Miguel, não sou mal de vida nem nada, mas isso aqui é um absurdo de luxo!
– É mais fácil ter este tipo de luxo quando somos sozinhos. Venha, você vai amar a suíte conjugada.
– Ãhn?
Ele ri e me puxa para elevador. Quando entramos toca “é pau, é pedra, é o fim do caminho...”. Tão Rio de Janeiro que não posso deixar de sorrir. Chegamos à suíte e eu congelo na porta. Não é uma suíte. É um apartamento de luxo! Todo decorado em tons de bege, areia e dourado. Com pitadas de azul. Uma varanda imensa com vista para o oceano. Tudo de extremo conforto.
– Aquela porta ali interliga nossas suítes.
– Hum, isso é bom! Fico mais tranquila se mantivermos a porta aberta...
– Jura? – Ele pergunta com as sobrancelhas arqueadas.
– Acho que me acostumei a ter você por perto. – Sinto meu rosto esquentar e ele sorri.
– Estará aberta então gatinha. Agora vá tomar um banho que vamos sair para jantar.
Assim que ele sai eu ligo para minha mãe.
– Filha! Como você está? Já chegou ao Rio?
– Mão do Céu! Eu estou no hotel mais chique que já vi! De frente para o mar!
– Jura! Em qual praia?
– Barra da Tijuca.
– A praia preferida dos famosões filha. Que luxo você! É, estão... no mesmo quarto?
– Não, mão, sua tonta. Suítes conjugadas só.
– Desculpe filha. É difícil esquecer que ele é seu chefe.
– Tudo bem. Como estão as novidades por aí? — Pergunto com medo da resposta.
– Bom, é, falta pouco pra você voltar e a gente conversa quando chegar, e...
– Mãe. Não tente me enrolar.
– Filha...
– Mãe!
– Ele mudou-se daqui filha. O Marcos mudou-se da fazenda com a Janaína para a cidade. Mais próximo ao hospital. O bebê está para nascer.
Eu caio sentada no colchão.
– Oh meu Deus, mãe. Eu o perdi. – Minha voz já embargada pela vontade de chorar.
– Filha, você está com um cavalheiro aí. Aproveite. Tente ser feliz o quento puder. Sei que ama o Marcos, mas a vida não é sempre certa. Aproveite o que Deus está te dando agora. Se um dia tiver que ter seu amor de volta, terá.
– Ok mãe. Eu... vou desligar.
– Eu te amo Valentina.
– Também te amo mãe.
Eu não posso acreditar. Ele mudou-se para fugir de mim. De nós. Ele desistiu. Optou por sua família. Mas e tudo o que me disse? Oh meu Deus. Fui eu quem fugi primeiro. Olho o telefone e disco o número tremendo. É a linha do hotel, então ele não saberá que sou eu.
– Marcos.
Eu fico muda.
– Ei! Alô?
– É... Oi... – Minha voz é quase um sussurro.
– Valentina? – Ele também sussurra do outro lado.
– Por que você se mudou? – Minha voz é baixa. Lágrimas escorrem pelo meu rosto. Meu corpo reage numa mistura de emoção e medo.
– Por que você sumiu? – Ele solta uma risada rouca. – Foi você quem desistiu Valentina. Não posso viver onde tudo me lembra você.
– Mas, mas, e meu pai?! – Eu digo quase gritando. E em minha cabeça mil desculpa para ele voltar começam a surgir.
– Você está me pedindo pra ficar pelo seu pai Valentina? Foi isso mesmo que eu ouvi? – A indignação enche sua voz.
– Eu. Não. Eu só... Eu só sou covarde demais para pedir que você abandone sua família por mim. – Falo tudo rápido, de uma vez, quase perdendo o fôlego.
Ele fica mudo por um tempo. Ouço sua respiração forte do outro lado da linha.
– Agora é tarde demais menina. Você não foi valente o suficiente por nós. – Sua voz é cansada. – Mas foi valente o suficiente para esfregar na minha cara a minha obrigação. E agora eu vou assumir o meu posto de pai de família como você mandou.
Eu não consigo dizer mais nada. Meu peito dói tanto, chega a ser quase insuportável. Eu não consigo respirar.
– Já que você não diz nada menina, eu digo. Eu amo você. E sempre vou amar. Mas já não é o suficiente. Eu vou cuidar do meu filho. E você, cuide de você mesma. Adeus Valentina...
Tento puxar o ar, mas não consigo. A dor em meu peito agora é realmente insuportável. O telefone cai das minhas mãos. Um gemido agudo de dor sai da minha garganta. Não consigo respirar. Minha vista começa a embaçar e vejo Miguel entrando na suíte.
– Valentina! Oh meu Deus!
Vejo ele correr para mim, enquanto escorrego para o chão. Tudo apaga.
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