Debaixo Do Pôr Do Sol
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Olho o relógio. São 09h. Estou superatrasada para o trabalho. Não me importo. Levanto devagar e tomo um banho. Coloco uma roupa qualquer. Passo pelos meus pais na cozinha e tomo um café. Não consigo comer nada. Eles dão-me um abraço que mais me irrita do que me ajuda.
Chego ao trabalho e sento em minha mesa. Passo cerca de 20min encarando a tela desligada do computador.
- Ele não vai ligar sozinho gatinha. – Olho para cima e vejo meu lindo, charmoso e, neste momento, inconveniente chefe. Seu ar é preocupado. Não me importo. Volto a encarar a tela do computador.
- Você quer que eu o ligue pra você? — Sua voz é mais branda. Eu não respondo. Vou até o botão e ligo a porra do computador.
- Valentina, o que está acontecendo? Vem comigo até a minha sala. – Ele se move em minha direção e eu o olho furiosa. Não quero conversar. Não quero ligar a porra do computador. Eu quero um buraco para me enfiar.
- Não adianta fazer essa cara feia pra mim não, gata! Pode vir! – Ele me pega e me ergue por baixo dos braços como se eu fosse uma criança. Arrasta-me até o escritório, passando pela secretária e pedindo um café da manhã completo.
Eu sento no sofá do canto, ao invés da cadeira em frente da mesa. Deito a cabeça no encosto e fecho os olhos. Hum, isso é bom. Poderia ficar assim o dia todo. Sinto ele se aproximando. Abro os olhos e o encontro sentado na mesa de centro, de frente pra mim.
- Vai me contar o que está acontecendo?
Movo a cabeça fazendo que “não”.
- É problema com o Marcos, não é? – Meu rosto esquenta, meu estômago revira.
- Pela sua cara já vi que é. Olha, vamos tomar o café e depois você pode ir pra casa. – Ao mesmo tempo, ele levanta e vai abrir a porta para o café da manhã.
- Eu não to com fome. – Falo baixinho e deito a cabeça novamente. – E não quero ir pra casa.
- Minha gata, você vai comer porque eu estou mandando e sou seu chefe. E você não pode dormir no meu sofá o dia todo. – Ele está com a mão na cintura. Parece meu pai. Uma pequena vontade de sorrir vem tão rápido quanto passa.
Deito de vez no sofá, com a cabeça no braço e o rosto escondido, de costas para ele. Escuto um grunhido. Penso por um segundo “isso é sexy”.
Escuto ele mexer nas sacolas. Escuto seus passos. Ele está fazendo um monte de coisas. Não me movo. Sinto ele chegar e sentar na beiradinha do sofá. Sem mais nem menos ele me dá um tapa na bunda. Pulo assustada e com cara feia.
- Ei!
Ele está totalmente divertido. O sorriso branquinho enorme em seu rosto.
- Você quer agir como uma criança mimada, então vai receber tratamento de uma criança mimada. Vamos. Sente direito. Eu vou te alimentar. Depois eu até deixo você ficar o dia todo nesse sofá.
- Você não pode ir me batendo assim Miguel! – Enquanto falo, vou sentando.
- Nem doeu, vá. Se eu te batesse como eu gosto, você teria é gozado gatinha. – O olhar dele mudou, ficando luxurioso. Um calafrio correu por minha espinha e senti meus seios incharem. Merda. Dou um tapa nele, mostrando que não gostei e ele sorri. Eu não devia ficar excitada com esse tipo de coisa!
- Viu, você também bate. Venha comer.
Ele realmente me alimenta e começo a me sentir melhor. Evito pensar no que dói. Ele não tenta forçar uma conversa boba e nem quer explicações do que aconteceu. Apenas come comigo, fazendo graça e me fazendo rir.
- Posso roubar seu sofá mesmo? – Eu pergunto. Não quero voltar pra casa. Não quero correr o risco de vê-lo. Não tenho pra onde ir. A Polly está trabalhando. Que merda.
- Na verdade eu estive pensando. Meu dia está bem tranquilo. O que acha de ficar aqui comigo até a hora do almoço e depois vamos para meu apartamento.
- Miguel!
- Calma menina! Não é nada disso! Sei que não quer vê-lo. Só que não posso te deixar no sofá do escritório, né. Vamos para lá, você descansa no quarto de hóspedes, ou faz o que quiser, e eu termino algumas coisas pendentes de outro projeto meu.
- Isso é errado Miguel. Somo amigos.
- Ei. Há quanto tempo somos amigos já? Alguma vez forcei alguma coisa? Deixe de ser boba. Não vou fazer nada que você não queira.
Recuso-me a ficar discutindo. Apenas bufei e voltei a deitar no sofá. Não adormeci, mas relaxei. Vê-lo trabalhar é relaxante. E ele trabalha muito! Quase não parou toda a manhã. De vez em quando olhava para mim e sorria, me enviando um calor bom, que relaxava todo meu corpo.
- Vamos dorminhoca. Antes que você ganhe um problema de coluna nesse sofá. – Eu levantei, mas travei com suas palavras, enchendo minha memória com as lembranças depois de dormir na rede de casa.
- Pare de pensar um pouco Valentina. Vamos.
Ele pegou minha mão e me arrastou para fora da empresa. Em poucos minutos, estávamos subindo para seu apartamento. Fiquei surpresa quando entrei. Tudo muito moderno, com linhas retas em preto, branco e prata.
- Você quase não falou. – Ele disse baixo, tirando minha bolsa de minhas mãos e a colocando em uma poltrona.
- Não estou com vontade de falar. – Minha voz está grossa. O aperto na garganta quase me sufoca. Será que isso um dia vai passar?
- Tudo bem gatinha. Vou pedir nosso almoço. Sinta-se a vontade.
Sento em uma banqueta da ilha da cozinha e coloco a testa nos braços apoiados. Mil imagens invadem meus pensamentos e não posso evitar escorrer lágrimas pelo rosto. Logo pequenos soluços começaram. Senti grandes mãos em minhas costas, apertando. Confortando. Ele não disse nada, só demonstrou estar ali. Quando o choro começou a realmente sair ele me virou, pegou no colo e me levou até o sofá. Sentando e me ajeitando com a cabeça em seu peito, em um abraço apertado. Eu derreti. Entreguei. Chorei. Agarrada a ele. Tremendo. Ele beijou meu cabelo e afagou meus braços e costas. Não sei exatamente por quanto tempo. Sei que o choro foi abrandando.
Ele virou meu rosto para ele.
- Mais calma? – Perguntou, acariciando meu rosto e secando minhas lágrimas.
Fiz que sim com a cabeça. Logo uma imensa vergonha tomou conta. O que eu estou fazendo chorando no colo de um cara que diz gostar de mim? Oh meu Deus.
- Ei, tire essa cara! Tá tudo bem. Vem lavar o rosto para comer. – Ele levantou, colocando-me em pé.
- Desculpe... – Falei baixinho e com a cabeça baixa.
- Pode parar gatinha. – Ele me levou até o banheiro, ajudando a lavar o rosto e secar. Arrastou-me de volta para a cozinha, servindo nossos pratos. Comemos em silêncio, com ele fazendo pequenas carícias de conforto em mim. Eu não poderia estar mais agradecida.
- Acho que vou descansar um pouco. – Disse levantando.
- Vá sim. Não se preocupe. Pode ficar aqui o tempo que precisar.
Entrei no quarto e tirei o tênis. Não demorou nada para cair num sono profundo.
Acordei gritando, suando, tremendo, com grandes braços em volta de mim.
- Valentina, acalme-se. Ei, eu estou aqui. – Ergui o olhar devagar passando pelos grandes braços dourados, um imenso peito duro e liso, até encontrar com olhos verdes preocupados.
- E-e-eu estou bem. Eu acho. – Apoiei a bochecha no peito dele, sentindo um calor bom.
- Já é bem tarde. Venha jantar.
- Nossa, que horas são? – Perguntei, afastando do seu abraço.
- Quase 21h. Eu pedi comida. Venha.
Ele me ajudou a levantar devagar e caminhou na minha frente. Pude ver que esta só com calça de moletom. Nossa, ele é lindo.
Peguei meu prato e me sentei no chão da sala. Ele me acompanhou, trazendo um vinho.
- O que você estava sonhando menina?
- Não me chame de menina. – Franzi o cenho para ele.
- Tudo bem.
- Eu não sei bem. – O sonho com uma louca platinada tentando matar uma criança de olhos ônix circula pela memória.
- Eu preciso ir para casa.
- Não, não precisa. Pode ficar aqui. – Ele tomou os pratos vazios e levou para pia.
- Eu realmente gostaria de ficar, mas não trouxe roupa nem nada.
Ele levantou e me puxou com ele para seu quarto. Separou uma camiseta, uma samba canção de seda e uma toalha.
- Tome um banho no meu banheiro, está mais abastecido. – Ele veio perto de mim, colocando meu cabelo para trás. – Fique aqui Vali, recupere-se. Amanhã é sábado. Quando acordar, você pode ir pra casa tranquila.
Fiz que “sim” com a cabeça e fui para o banheiro. Tomei um banho rápido e usei sua escova para escovar os dentes.
Saí e o encontrei relaxado na cama, mexendo em seu tablet. Ele olhou para mim e sorriu.
- Venha, se arrume. – ele disse, dando tapinhas no espaço ao seu lado.
- Eu vou para o quarto de hóspedes Miguel.
- Não senhora! Não vai dormir sozinha depois do pesadelo desta tarde. Pode deitando aqui.
Eu não queria dormir sozinha mesmo. De alguma forma, ele me acalma. Entrei embaixo do lençol, me aconchegando.
Acordei no meio da noite enrolada em Miguel. Pensei um segundo em sair dali, mas fui fraca demais. Preferi continuar protegida e quente.
Oh meu Deus, o que eu estou fazendo?
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