Debaixo Do Mesmo Teto
1 I'm on the highway to hell
Notas iniciais
— O QUÊ?! — Savannah gritou, deixando o garfo cair e sujar a sua roupa — CASAR?! COMO ASSIM, CASAR?!
Ela sabia que não deveria ter saído da cama naquele sábado. Na verdade, não teria acordado tão cedo se sua mãe não tivesse aberto as cortinas, iluminando tudo, e cantarolado para a filha acordar. Savannah resmungou, colocando o cobertor sobre os olhos e tentando retomar o sono. Mas Susan estava determinada a fazê-la levantar.
— Vamos, meu bem, você sabe o quão importante é esse almoço para mim — tirou o cobertor e sorriu docemente para a garota amarrotada, que a encarava com sonolência e raiva. Savannah achou melhor não contrariá-la, afinal, não via sua mãe tão alegre desde... Bem, desde sempre. A garota concordou e levantou-se, ainda meio grogue de sono. Resolveu tomar um banho, sabendo o quão difícil seria enfrentar aquele almoço.
Debaixo de um chuveiro morno, Savannah relaxou e começou a acordar, pensando no que vestiria e nas cortadas que daria em Andrew. "Argh" pensou, fazendo uma careta "aquele garoto é uma porre!". Andrew Owen era o seu pior pesadelo. Filho de Mike, namorado de Susan, ele sempre fez questão de irritar a garota, chegando a lhe pregar peças quando ainda eram muito pequenos, no jardim de infância. Ela nunca esqueceu ou perdoou e chegou a se vingar algumas vezes. Coisa de criança, mas Savannah não era boa em esquecer o que lhe atormentava. Infelizmente, com o namoro de Susan e Mike, ela e Andrew devem se tratar com cordialidade, mas não perdem a chance de se alfinetarem.
Savannah saiu do banho, tentando se concentrar no que vestiria. Decidiu rapidamente sua roupa, logicamente incluindo a jaqueta de Peter, e fez uma maquiagem leve, com rímel e gloss rosado. O cabelo, leves ondas negras sempre revoltas, ficou descente depois de um pouco de leave-in e algumas penteadas. Estava pronta, mas ainda não havia decido qual piadinha usaria assim que visse Andrew.
Descendo as escadas, gritou para a mãe, ainda no banho, que já estava pronta. Foi arrumar a bolsa e, pegando no celular, viu que horas eram. 8h57 da manhã. "Que maravilha!" pensou "Estou mais de três horas adiantada para o maldito almoço!"
***
Duas horas e meia depois, sua mãe ainda não havia decido nem o sutiã que usaria. Savannah já estava beirando o limite de sua irritação.
— O que há de tão especial nesse almoço que nada do que você veste está bom? — indagou. Sua mãe, com o pensamento distante, nem escutou.
— Alôoooo? Mãe? — Savannah balançou os braços, chamando a atenção de Susan.
— Ah, oi, querida, você disse alguma coisa?
— Perguntei o que há de tão especial nesse almoço que você não consegue encontrar nada bom para vestir? — Já vermelha de raiva, a garota sentiu sua irritação abrandar com a expressão inocente da mãe.
— Ah, Savannah, sabe aqueles dias que você não está se achando bonita, mas ainda assim quer que os outros achem que está? — suspirou — Só quero que Mike me ache bonita o suficiente... — e ficou corada. Savannah começou a rir e abraçou Susan.
— Que isso, mãe! Mike te acha linda sempre, você estando vestida para um baile de gala ou para uma festa brega! — Susan riu de sua insegurança também — Mas acho que ele tem uma preferência clara por aquele vestidinho amarelo do primeiro encontro...
— Ah, — o rosto de sua mãe se iluminou — é verdade! Vou procurá-lo e já já estou pronta! — e voltou a cantarolar como fizera ao acordar a filha. Savannah saiu sorrindo do quarto. Ver sua mãe tão viva, tão apaixonada a deixava feliz também.
Aproveitou para ligar para Peter, seu namorado, que não mandou sua costumeira mensagem de bom dia às 6h00 da manhã. Faltavam quinze para meio dia.
— Alô? — Peter atendeu, meio acordado, meio dormindo.
— Bom dia, raio de sol, o que aconteceu com você? — Savannah riu.
— Ah, oi, meu amor, é que eu fiquei estudando até tarde ontem. Prova de química na sexta, lembra? — não , ela não lembrava. Nunca lembra de uma prova. Ou seja, nunca estuda mas, ainda assim, tinha notas excelentes. Peter ficava com raiva dela, às vezes. Ele se esforça tanto e, muitas vezes, a namorada vai melhor que sem fazer nada. Mas não havia motivo para discutir isso agora.
— Não, não lembrava. — ele disse, com sinceridade — Ainda bem que você comentou, vou começar a estudar amanhã! – mentiu.
— Hm, isso é ótimo, mas você não me ligou pra isso, foi?
— Na verdade, não. — ela riu — Liguei pra saber se você vai fazer alguma coisa para o almoço. Eu sei que está em cima da hora, mas estou indo para a casa do Mike com a minha mãe e eu queria muito que você fosse comigo. Vai ficar mais fácil de enfrentar aquele babaca do Andrew sem a sua companhia.
Peter também não suporta Andrew, ainda mais sabendo que, com o namoro da Srª. Collins com o Sr. Owen indo tão bem, havia uma grande chance de Savannah ter que morar junto com ele, e o loiro odiava essa possibilidade. Mesmo sabendo que sua namorada não conseguia respirar o mesmo ar que aquele garoto sem ficar com raiva, ele não podia ignorar o fato de Andrew ser objeto de desejo de todas as meninas do colégio, com aquele charminho idiota dele. Não podia deixar que a sua garota ficasse tão perto dele.
— Sim, sim, eu posso, tenho algumas coisas para fazer, mas posso deixar para depois do almoço. – ele disse, deixando Savannah mais aliviada.
— Ok, então, você sabe onde é a casa deles, né?
— Sim.
— Nos encontramos lá em meia hora? Vou com minha mãe.
— Combinado. Te amo, Sav.
— Também te amo, Pet. — Ela desligou o telefone sorrindo. Sabia que sempre podia contar com Peter.
***
Finalmente, após quarenta minutos, Savannah e Susan entraram no carro. Para quem tinha acordado às 8h00 da manhã, elas conseguiram se atrasar. Mas em menos de 10 minutos, chegaram à casa de Mike. Ele estava na porta da garagem, batendo um papo animado com Peter. Savannah desejou que Andrew tivesse qualquer outra coisa para fazer, o que deixaria esse almoço perfeito.
Assim que Susan desceu do carro, os olhos de Mike se iluminaram. Ela correu para abraçá-lo, mas logo ele se separou dela, assistindo-a apaixonadamente.
— O vestido do primeiro encontro? — eles sorriram — Você sabe que eu me apaixonei por você assim que a vi naquele dia? — Peter e Savannah sorriam com a cena. Mais uma vez, sua mãe parecia a adolescente da cena e, no fundo, a garota adorava ver tamanha felicidade estampada no rosto dos dois.
Entrando na casa, encontraram um ambiente arrumado e perfumado. A garota se surpreendeu, pois só vira algo igual na primeira vez estivera ali. Um calafrio percorreu seu corpo, como se a alertasse para um mau sinal, que ela ignorou. Ainda não tinha visto Andrew em lugar algum, por isso parecia não ter com o que se preocupar. Seguiram Mike até o jardim, onde a mesa estava pronta para receber um banquete, arrumada ao estilo francês, com algumas flores do jardim em um vaso decorado e uma jarra de chá gelado. Sentaram-se e Savannah, tirando o casaco, logo serviu-se da bebida, pois o calor estava ficando insuportável.
— E onde está Andrew? — Susan perguntou. "Péssima pergunta," pensou Savannah "péssima!"
— Bem, ele é quem está cuidando do almoço hoje. Está terminando de preparar sua especialidade: filés de tilápia ao molho de mostarda, arroz à grega e salada caesar.
— Uau, parece que ele aprendeu direitinho com o pai — Susan riu, enquanto a filha revirava os olhos, com suas esperanças de "no-show" de Andrew indo embora pelo ralo.
— Não bastava ser um modelo de perfeição no colégio, tinha que ser caseiro e prendado também — ela murmurou. Peter ouviu e riu, concordando.
Com isso, Savannah parou seu olhar nele. Tinha sorte, afinal, de estar com alguém como Pet. Apesar de ser um nerd, Peter era loiro, alto, pele clara e olhos cor de mel. Por causa do vôlei, vinha frequentando mais à academia e ela podia ver o efeitos na camiseta branca que ele usava. A mesma que, há alguns meses, praticamente o engolia de tão folgada, agora salientava os músculos que ele ganhara com os treinos, a musculação e as corridas antes da aula. Ele percebeu o olhar sugestivo dela e ficou vermelho.
— Além de gato, ainda é um amor — ela sussurrou para ele — e meu! — dando um beijo na bochecha dele. Ele sorriu e voltou a segurar a mão da namorada. Estavam tão concentrados naquele momento que não perceberam quando Andrew chegou, servindo o almoço.
— Quero ver se isso vai durar quando nos mudarmos para cá! — Susan declarou, não abandonando seu sorriso apaixonado nem por um minuto desde que chegara. Mas o mesmo arrepio que sentira mais cedo passou pelo corpo de Savannah assim que ouviu sua mãe pronunciar "mudar para cá".
— Como mudar, mãe? Por que iríamos nos mudar para cá? — ela perguntou, temendo a resposta.
Susan sorriu e deu a mão para Mike. Os dois, tão parecidos que, às vezes, pareciam irmãos, disseram juntos:
— Vamos nos casar, crianças!
— O QUÊ?! — Savannah gritou, deixando o garfo cair e sujar a sua roupa — CASAR?! COMO ASSIM, CASAR?!
— Sim, Savannah, casar. — sua mãe disse, ainda olhando para Mike — Não queríamos morar juntas sem oficializar nossa união. Mas em um mês, faremos a cerimônia e nos mudaremos para cá.
— PARA CÁ? — ela não conseguia abaixar o tom de voz — EM UM MÊS?
— HAHAHAHAHAHAHA — Andrew gargalhavam, enquanto Savannah o encarava, pensando em quantas maneiras poderia assassiná-lo agora mesmo — Eu disse que não iria concordar. Pelo menos alguém aqui tem juízo como eu.
Savannah o olhou com ódio.
—Você... sabia, Andrew? E, mesmo assim, não me disse? — ela estava prestes a explodir. Pular no pescoço dele era a única coisa que ela pensava naquele momento. Não conseguia acreditar no egoísmo de todos eles.
— E como eu iria falar? Você nunca me escuta! Nem olha pra mim no colégio — exclamou, se fazendo de coitado. Savannah riu.
— Você é ridículo mesmo! — já estava de pé, apoiando seu corpo e seu ódio na mesa — Sabia que eu escutaria se você me falasse que era sobre isso. Mas não, preferiu ver o meu sofrimento de pertinho, não é?
— Sofrimento? — Susan ficou surpresa com aquela reação — Não, meu bem, não quero que se sinta assim...
Savannah viu os olhos da mãe se encherem de lágrimas. Hoje, porém, ela não suportaria a tristeza delas duas. Hoje não.
— Chega, esse almoço acabou pra mim. Vamos, Peter!
Ela saiu a passos largos, ignorando os chamados de sua mãe e Mike. Por sorte, Peter fora de carro.
— Para onde, Sav? — ele perguntou, assim que entraram no carro.
— Você sabe para onde.
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