Debaixo Do Mesmo Teto

10 I was looking for a breath of life, for a little touch of heavenly light


Notas iniciais
Sugestão de música: Breath Of Life - Florence + The Machine Aproveitem!! ♥

Assim que parou o carro, antes mesmo de abrir a caixa do correio, Savannah correu para seu quarto. A casa estava trancada e o nervosismo a fez se enrolar com as chaves. Quando finalmente encontrou a chave certa, entrou e correu para o seu armário. Entrou e, lá no fundo, encontrou o velho suéter vermelho surrado, com o seu grande H branco parecendo estar mais branco do que antes. Todo o sentimento ali guardado fizeram Savannah querer chorar. Era uma das poucas memórias que tinha de sua infância, encontrar aquele casaco no fundo do armário de seu pai, em uma de suas “expedições”, e guardá-lo até John chegar. Ele, quando questionado pela garotinha, contou que aquele era o suéter da faculdade que ele frequentara, chamada Harvard. Ele falava com tanto orgulho e amor daquele lugar que Savannah, mal sabendo o que era uma faculdade, decidiu que, um dia, iria para lá também, fazer o que quer que seu pai tivesse feito.

E então o dia chegou. Ela tremia tanto que mal conseguiu vestir o casaco. Seguiu respirando fundo até a porta, mas, não se contendo, foi correndo até a caixinha prata que ficava no jardim de frente da casa. Respirou fundo novamente e abriu. Nenhuma carta. Olhou de novo, nada ainda. Olhou em volta, no chão, voltou à porta de sua casa e nada. Voltou à caixa e, olhando novamente, não encontrou nada. Sentiu que seus pulmões não funcionavam. Nenhuma universidade. Ela desabou na calçada. Nenhuma universidade me aceitou. Eu não fui aceita em lugar nenhum.

Ela abraçava suas pernas com tanta força que começou a sentir o sangue para de circular na região. A mordida que dava em seu joelho estava começando a ir de vermelho a roxo. O choro era silencioso, o ar não entrava mais. Ela já estava zonza, mas não conseguia respirar. Eu não vou para Harvard. Eu não vou fazer o que meu pai fez. A tortura mental parecia um ácido dentro da cabeça de Savannah. Todos os anos se dedicando, as atividades que participara, as horas de estudo (sim, ela estudava muito, mas não contava nem para Peter), tudo o que fizera para cursar Estatística, assim como seu pai, fora em vão. Ela olhava para a praia à sua frente e só chorava. Seu desespero era tamanho que só percebeu que tinha alguém do seu lado quando o rapaz a cutucou.

— Moça, tá tudo bem? Você precisa de ajuda? – Ela levantou o olhar e deu de cara com o carteiro. De repente, sentiu o ar voltar, levantou-se.

— Tem alguma coisa hoje? Algo endereçado à Savannah Collins? – ela quase pulou na bolsa do homem à procura de sua correspondência.

— Tem sim, moça, aqui ó – disse, entregando vários envelopes de tamanhos diferentes para ela. – Tem certeza que tá tudo bem?

Savannah mal ouvira a pergunta. Passava envelope a envelope, quase enlouquecendo por uma resposta. E lá estavam elas, as cartas de MIT, Stanford, Yale. E, entre as últimas, a mais esperada: Harvard. Novamente, ela se sentou e abriu uma a uma, deixando “o grande H’ por último. Fora aceita nas outras três, que diziam fazer questão de aceitar alguém que iria formar-se com honras.

Quando abriu a de Harvard, fechou os olhos antes de ler. Pensou em seu pai, em como queria ser como ele, em realizar os sonhos que eles construíram juntos. Então abriu:

Abril de 2014

À Savannah Collins,

“Estamos muito contentes em informar que a Comissão de Admissão e Auxílio Financeiro votou e concordou em oferecer-lhe um lugar na classe de Harvard de 2017. Seguindo uma velha tradição de Harvard, um certificado de admissão é uma decisão a portas fechadas. Aceite os meus parabéns pessoais para suas conquistas notáveis.

Este ano, mais de vinte e sete mil alunos, um número recorde, solicitado a admissão para ingressarem à classe. Confrontado com muitos mais talentosos e altamente qualificados candidatos do que havia espaço para admitir, o Comitê de Admissão tomou muito cuidado para escolher os indivíduos com caráter excepcional, bem como os pontos fortes acadêmicos e extracurriculares incomuns. O Comité está convencido de que você irá fazer contribuições importantes durante seus anos de faculdade e mais além...”

— EU CONSEGUI, EU ENTREI, EU VOU PARA HARVARD! – Ela deu um salto e abraçou o carteiro. Continuava a chorar, todo o corpo inteiro tremia. O carteiro sorria, não sabia o que se passava com aquela garota, mas a felicidade dela era contagiante.

— Meus parabéns, Savannah, espero que isso melhore o seu dia ruim – a garota riu.

— Isso é o motivo do meu dia ruim, achei que não tinha sido aceita quando não vi a carta aqui. Você trouxe a melhor notícia da minha vida! – ela sorriu e o abraçou de novo. O homem, meio sem jeito, a abraçou de volta e se despediu em seguida.

Ela se sentou novamente no meio-fio, mudando o foco de seu olhar das cartas para o mar constantemente. Era a grande conquista de sua vida. “O Grande H” finalmente faria parte de sua história, assim como fizera parte da vida de seu pai. E se existisse algo mais que ela pudesse desejar, seria ter como compartilhar isso com o homem de sua vida: John.

***

Alguns metros mais adiante, Chase ainda sorria com a história de Savannah e suas cartas da faculdade. Ele era um pouco mais novo que a garota, mas a conhecia do colégio, onde ela estava se formando e ele era apenas um calouro. Dividia-se entre colégio e o trabalho como carteiro, pois vinha de família humilde e tinha o sonho de, algum dia, receber cartas como as que entregara para sua veterana.

Ainda pensava em como faria para conseguir uma bolsa de estudos, já que não era o melhor nos esportes, quando um homem o abordou. O jovem se assustou com a forma sorrateira com que o senhor chegou. Vestia uma capa, usava boné e óculos e andava meio encurvado. Por um momento, ele sentiu sua espinha gelar.

— Rapaz – o homem o chamou. Tinha uma voz grossa, porém doce. Chase sentiu confiança naquele tom.

— Sim, senhor, o que deseja? Não entreguei sua correspondência corretamente? – o rapaz confundia-se, às vezes. Mesmo morando a vida toda em Irvine, alguns endereços eram simplesmente impossíveis de compreender em certas caligrafias.

— Não, não, só gostaria de saber o nome da mocinha para quem você acabou de entregar as cartas.

— Ah, aquela é Savannah, ela estuda em minha escola. – Mesmo sentindo que podia confiar, Chase resolveu não dar muitas informações ao homem. Nunca se sabe.

— Savannah? – ele percebeu a voz do homem falhar – Savannah Collins?

— Sim, senhor. O senhor a conhece? – Chase o encarou. Se ele fosse ataca-la, ele saberia o identificar. Nunca se sabe.

— Não, não, é que não existem muitas Savannahs por aqui. – o homem desconversou – No final, todos se conhecem em Irvine, não é? – Riu. Agradecendo, se despediu de Chase e sumiu no horizonte da praia.

Notas finais
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