Debaixo Do Mesmo Teto
26 Here I am, staring back at what we were, just remember it was her that made me
Notas iniciais
Peter chegou ao casamento pouco depois que Susan entrara. Ele sabia que a última coisa que Savannah queria era vê-lo naquele dia, mas o convite que ficou durante semanas no criado-mudo do rapaz pareceu chamá-lo ao evento. Peter sabia o quanto a felicidade da mãe de Savannah significava para sua ex-namorada.
Ele correu e se sentou numa cadeira vazia em uma das últimas fileiras, ainda não sabendo se conseguiria ver Savannah entrar. Ele não tinha muita certeza do que sentiria ao vê-la. Na verdade, ele se questionou se queria mesmo saber como ela estaria vestida ou se queria vê-la entrar ao lado de Andrew.
Tudo aquilo passeava na mente de Peter até o momento em que ele a viu. Daí em diante, ele sentiu seu coração acelerar, suas mãos suarem, suas pernas tremerem. Ele procurava a melhor palavra para definir a visão que tinha de Savannah ao caminhar por aquelas areias, mas o vocabulário lhe faltava. Em algum momento, a palavra “perfeita” começou a ecoar em sua mente, como um mantra. Ele repetia, inconscientemente, quando seus olhos encontraram os dela.
O sorriso que ela ostentava se esvaiu e ele se viu sussurrando para a garota aquela palavra que insistia em habitar sua cabeça. Ela sustentou o olhar, séria, até passar por ele e se voltar para o altar. Peter viu o sorriso de Savannah voltar a enfeitar o rosto dela e se odiou mais ainda. Tudo o que viveram passou na mente do garoto como um filme, desde o começo até os últimos acontecimentos. Seu peito parecia mais pesado do que jamais esteve, com a culpa o corroendo por dentro.
“Por quê?” era o que agora gritava sua mente “Por que você fez o que fez? Por que a deixou ir embora?” Tudo o que ele queria fazer era correr até onde ela estava, ajoelhar-se aos pés dela e pedir perdão. Não que ele achasse que seria o suficiente, mas ele estava disposto a qualquer coisa para voltar a ser o motivo do sorriso que agora ele via Savannah dirigir a Andrew.
Assim que a cerimônia acabou, Peter saiu. Precisava respirar fundo, pensar em como faria para falar com Savannah. Correu até o mar e deixou a água molhar seus pés e parte de sua calça social. Sua mãe provavelmente o mataria, dizendo que ele não deveria ter feito aquilo, que o sal do mar estragava a roupa, como ela sempre fazia quando ele chegava molhado em casa. E Savannah era o motivo desses banhos de mar que estragavam as roupas de Peter. Ao contrário do que acontecia com elas, esses momentos faziam o garoto mais feliz do que qualquer um. Ele encarava o horizonte, deixando as memórias daqueles dias felizes tomarem conta de sua mente. Era melhor do que ficar repetindo a visão de Savannah e Andrew sorrindo um para o outro, como cúmplices, amigos, amantes.
Susan, Mike, Natalie, ou qualquer outra pessoa pode não ter percebido, mas Peter sabia. Sabia que existia algo acontecendo entre sua amada e Andrew. Ele reconhecia o brilho no olhar, as mordidas no lábio inferior, os sorrisos apaixonados de Savannah. Ela passou os últimos 4 anos agindo daquela maneira com Peter.
— O que faz aqui, rapaz? Não deveria estar aproveitando a festa? – um homem falou, pegando Peter de surpresa. Ele se virou na direção da voz para encontrar o sr. Newman, ou melhor, Henry, vestido formalmente como ele, também sem sapatos.
— Oi, Henry – o rapaz entendeu a mão, cumprimentando o professor – Não sabia que viria. Aliás, não sabia que conhecia Susan e Mike.
— Pois é – Henry disse, aparentando desconforto – Eu também não sabia que viria, mas a srta. Vilas Boas não tinha companhia e me pediu para acompanhá-la... – disse, apontando para as cadeiras de onde Peter correra mais cedo. O jovem viu sua professora de português, bonita como sempre, cumprimentando a mãe de Savannah.
— Não sabia que Susie e ela eram amigas... – Peter soltou, enquanto observava a cena.
— Então estamos no mesmo barco, meu caro, eu não sei de nada que está acontecendo aqui. – Henry sorriu, desconcertado. – Vi que sua namo... – ele ia dizer, mas interrompeu – Savannah entrou com as alianças. Ela é parente de algum dos noivos? – questionou.
— Sim, Savannah é filha de Susan. – Peter respondeu – Assim como Andrew é filho de Mike. Eles são a mais nova família feliz da cidade – ele soltou, trincando os dentes enquanto assistia, à distância, Andrew passar ao lado de Savannah, ambos rindo de algo. Henry encarou Peter, confuso.
— Mas Andrew não é o garoto que...
— Sim, ele é o garoto que roubou Savannah de mim. – Peter cortou Henry, cruzando os braços e olhando para o mar – Eles agora são legalmente meio irmãos e estão juntos. Eu não sei nem se isso é permitido... – ele continuou, num tom ressentido – Quer dizer, os pais deles são casados agora.
— Mas eles têm alguma ligação de sangue? – Henry questionou, encarando o rapaz.
— Não, nenhuma até onde eu sei.
— Bem, – Henry abriu os braços e em seguida deu de ombros – então não tem nada que os impeça, legalmente falando. Só teriam problema se fossem de uma linhagem próxima de sangue ou um dos dois fosse adotado.
— Então parece que eu perdi, não é? – Peter riu, mas num tom amargo.
— Ei, rapaz, você não perdeu por causa dele, você perdeu pelo que fez. – Peter encarou o mais velho, confuso – Peter, ela teve toda a razão de se afastar de você pelo que você me contou naquele outro dia. Mas você se lembra do que eu disse?
— Lembro. – Peter respondeu, suspirando – Tenho que lutar pelo que quero. Mas como posso fazer isso se ele está sempre por perto? – disse, apontando rapidamente na direção de Andrew, que agora batia um papo animado com a srta. Vilas Boas.
— Aguarde um pouco. Tudo está muito fresco ainda e Andrew não irá abandoná-la tão facilmente. Mas pelo que você me contou, posso ver facilmente que você e Savannah são o amor da vida um do outro. Estão destinados a ficarem juntos.
— Como você sabe disso com tanta certeza? – Peter o encarou, meio desconfiado, mas com os olhos cheios de lágrimas.
— Porque já vivi um amor assim, Peter. – Henry sorriu, fraco – E só quem já viveu isso sabe identificar quando vê acontecer com outro casal... – ele encarou o mar, parecendo viajar em seus pensamentos. – Bem, preciso voltar, não posso deixar aquela bela moça sozinha, não é? – riu e se despediu do rapaz.
Peter assistiu a saída do professor, vendo-o se aproximar da srta. Vilas Boas. Assim que ela o viu, pareceu se animar e acenou para alguém. Peter viu Susan e Mike se aproximarem. Teria visto o restante da cena à distância, senão fosse surpreendido novamente.
— Olá, Peter. – agora uma voz feminina. Voz essa que ele conhecia bem a dona. A última garota do mundo que ele queria encontrar agora. Virou-se na direção dela apenas para confirmar o que já sabia. – Precisamos conversar.
— Oi, Tiffany. – ele suspirou – Precisamos mesmo.
***
Depois da festa, Susan, Mike, Savannah e Andrew foram direto para casa. Como os dois adolescentes levaram o noivo para a cerimônia, estavam todos em um carro só. Susan e Mike deixariam os filhos em casa para seguir para a noite de núpcias no Wyndham Irvine, um dos melhores hotéis da cidade. Savannah ajudara a mãe escolher, depois de muito insistir com Susan que achava desnecessária a ideia de passar uma noite em um hotel uma vez que viajariam logo depois do baile de formatura de Sav e Andrew.
Mas Susan permanecia incrivelmente quieta. Para dias normais, ela falava muito. Em dias especiais como aquele, ela normalmente não fecharia a boca em nenhum momento. Mas nada vinha dela. Savannah tentara puxar assunto, mas ela parecia inerte, viajando em pensamentos, apenas observando a movimentação da cidade.
Quando chegaram, ela subiu rapidamente, dizendo eu iria buscar as malas e Andrew a seguiu. Savannah pediu a ele, discretamente, que o fizesse para que pudesse conversar com Mike. E assim estavam os dois na cozinha.
— Aconteceu algo, Mike? – Savannah o questionou, enquanto enchia um copo d’água.
— Aconteceu, Savannah – Mike soltou, num tom frustrado – Estava tudo bem, ela estava mais feliz do que nunca. Até conhecermos o acompanhante de uma professora de Andrew.
— Qual professora? A srta. Vilas Boas? – Savannah questionou.
— Sim, essa mesma. – Mike suspirou e sentou na cadeira da mesa de jantar – Ela estava com outro professor, mas ele parece ser novo na escola...
— O sr. Newman? – Savannah disse, sentando-se a frente do padrasto.
— Acho que é isso, ele se apresentou como Henry, na verdade. – Mike tapou o rosto por alguns segundos, frustrado – Ela pareceu ver um fantasma quando foi cumprimentá-lo. Desde então, ela mudou, está quieta. Quando eu perguntei, ela me disse que ele era insuportavelmente parecido com John... — ele suspirou enquanto a garota o encarava, confusa — Parecido com seu pai, Savie.
Savannah travou. Ela lembrou-se do primeiro dia de aula que teve com Henry. Lembrou-se de achar ele incrivelmente familiar, mas não sabia porquê. Mas jamais conseguiria fazer essa comparação, pois convivera pouco com o pai e do que se lembra, com as poucas fotos que tem, tem uma visão muito mais jovem de John do que o que via em Newman. Logicamente, ela percebeu que era óbvio que ele seria mais velho, afinal, mais de 10 anos haviam se passado desde o sumiço de seu pai.
"Não pode ser, não pode ser..." era tudo que passava pela mente da menina. Ela ainda estava em choque quando sua mãe apontou na cozinha, com um sorriso enorme no rosto. Nada parecia ter acontecido. Savannah, mesmo em transe, estranhou a mudança de comportamento repentina da mãe.
— Vamos, meu amor? – ela disse, caminhando em direção à Mike e o abraçando. Mike, que não esperava por isso, soltou um suspiro de alívio pela recuperação da esposa.
— Claro, está mais que na hora de irmos – sorriu e foi em direção as malas, que estavam com Andrew. O rapaz entregou para o pai, com uma expressão muito mais séria do que tinha mais cedo.
Andrew entregou as duas malas que carregava ao seu pai e seguiu para dar um abraço em Susan. Savannah, ainda se recuperando, viu o rapaz cochichar algo para mãe dela. Não entendeu, mas também não era capaz de tal coisa. Seu cérebro ainda estava preso na conversa com Mike. “Meu pai...” era o que ela pensava agora.
Deu um abraço em sua mãe, assim que Andrew saiu. Apertou sua mãe o máximo que podia e disse que a amava muito. Quando se soltaram, a moça sorriu para Susan, que agora parecia bem. Mas Savannah sabia que não, pudia ver nos olhos dela. A garota sabia que a mãe estava se esforçando para ficar bem, muito mais por Mike do que por ela mesma.
Logo, o casal saiu da casa e, colocadas as malas no carro, se despediram mais uma vez e partiram para o hotel. Nesse momento, Savannah correu para abraçar Andrew.
— Andrew, eu não posso acreditar... – foi a única coisa que pode dizer, mesmo sabendo que deixaria o rapaz confuso. Mas ele não estava.
— Eu sei, Savannah – ele disse, com o rosto enterrado no pescoço da garota – Sua mãe acha que viu seu pai. No casamento.
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