Deathwish

9 Capítulo 9


ATO 09: perdão.

— Helena...? – chamei. E ela virou-se para me olhar.

— Sim? – ela respondeu tão segura e tranqüila.

— Estou aqui para levá-la...

— Você está atrasada, não é verdade? – ela disse inquisidora.

— Er... Peço que me perdoe por isso. – eu só podia pedir desculpas.

Ela ficou em silêncio. Eu e Cecília nos olhamos por um segundo, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Helena continuou:

— Então, é você? A Morte?

— Sim, senhora...

Ela pareceu sorrir.

— Você sabe que de uns tempos pra cá o meu neto mais velho, filho da minha filha Donna, criou uma obsessão por morbidez? Em outras palavras, por você?

Corei. Haviam muitas outras pessoas ali, mas nenhuma delas podia imaginar o que estava acontecendo a sua volta.

— Isso tudo entre vocês... Eu sempre soube.

— COMO?! – gritei de susto.

Helena sorriu novamente.

— Eu vou lhe fazer uma pergunta. Como você acha que Gerard pode lhe enxergar, criança?

Parei para pensar e isso eu realmente não sabia.

— Não sei... Eu não consigo entender como isso é possível.

— Quantas pessoas vivas viram você sem terem deixado de viver?

— Poucas, eu acho... É realmente muito difícil uma pessoa enxergar a Morte sem ser sua hora.

— Gerard pode porque ele já morreu uma vez.

Abri a boca, mas o som não saiu.

— Assim que ele nasceu seu coraçãozinho parou por exatos dois minutos. Tempo suficiente para o cérebro morrer sem oxigênio, mas por um milagre os médicos o trouxeram de volta, sem nenhuma seqüela. A única coisa que notamos, após tudo isso, era que ele era uma criança que nunca chorava. E eu sempre atribui isso ao fato dele já ter estado do “outro lado”, ou seja, ele pode enxergar, tocar, sentir a morte porque ele já se juntou a ela uma vez.

Me aproximei do caixão, e Cecília me acompanhou a uma distancia educada. Naquele momento um rapaz passou por nós, foi até o caixão aberto e fez um respeitoso sinal da cruz. Eu o acompanhei indo se sentar no banco, quando a mão de Cecília alcançou a minha, me despertando. Minhas pernas tremeram mais uma vez.

— O que eu mais amei em vida – Helena falou distraída alisando o estofado interno do caixão. – foi a minha família. E não deixarei de amá-los, nem de olhar por eles.

Acrescentou olhando para Cecília e depois para mim:

— A única coisa que eu não quero é que eles sofram.

Eu podia dizer tantas coisas para ela, podia dizer palavras de conforto, mas um egoísmo tão grande tomava conta de mim, eu olhava para os lados incessantemente à procura de Gerard.

— Ele já sofreu muito. – ela me disse, como que lendo meus pensamentos.

Respirei fundo, e criei coragem para encará-la:

— Eu não queria isso. — choraminguei. Cecília, na sua presença muda, afagou meu braço. – E que eu o amo tanto... E... Jamais quis que ele sofresse...

Foi então que Helena fez a coisa que eu menos esperava: ela me abraçou. Do jeito que só Gerard faria, com carinho, ternura.

— Eu não vejo tudo isso – disse se referindo a sua morte – como sendo culpa sua. Uma vez Gerard me disse que a morte é apenas uma conseqüência da vida, tudo que um dia nasceu deve morrer. Ele também disse que no final não devíamos temer a morte, por que ela é acolhedora e bondosa com os que devem ir.

Chorei mais. Ela continuou me fazendo olhá-la:

— Acho que ele se referia a diretamente a você, não?

— Ele deve me odiar agora... – disse triste, passando a mão sobre a cabeça de Cecília.

— Você tem que ter fé nele. Fé em vocês.

— Não posso pedir para ele me perdoar dessa vez.

Helena não respondeu nada, fez apenas uma cara triste. Mirou o chão da igreja e depois o teto abobadado ornado com estrelas douradas e arcanjos segurando dizeres em latim.

— Posso pedi para você me perdoar? – perguntei sincera.

— Claro, minha menina! É claro que perdoaria se houvesse algo a ser perdoado! Faça o que você tem que fazer.

— Obrigada...

E ela sorriu.

— Não tenho a menor idéia de como tudo isso vai acabar, mas lhe prometo que não o farei mais sofrer.

— Ah, mais isso é quase impossível!- ela disse. – O amor é quase indissociável do sofrimento. Mas é um sofrimento “bom”.

— Estou... Com tanto frio... – Cecília disse quase que inconsciente.

— Oh, Cecília! – eu me agachei e a abracei passando minha capa sobre ela. – Me desculpe!

— Também sinto muito frio... – Helena concordou.

— Vocês são almas presas a tempo demais nesse mundo, por isso sentem tanto frio. Vocês devem partir imediatamente! – me levantei com Cecília no colo.

Helena ouviu isso e olhou para os lados, eu sabia no que ela estava pensando, em como dizer adeus para aquelas pessoas. Dei um tempo para ela e acabei lhe acompanhando.

Vi Mikey, extremamente abatido, com os olhos fundos por trás da armação dos óculos. Ao seu lado estavam duas pessoas que reconheci como sendo seus pais, e o rapaz, que a pouco havia cruzado conosco na sua homenagem póstuma, agora estava sentado ao seu lado lhe segurando a mão.

— Helena... – a chamei. – Você já quer partir?

— Quero. – ela também não agüentava mais aquele sofrimento.

— Será que posso lhe pedir um ultimo favor? – disse humildemente.

— Sim, claro.

— Está é Cecília. – finalmente as apresentei. – Gostaria que vocês partissem juntas.

O rosto de Helena se iluminou de contentamento.

— Eu ficaria muito feliz!

— Que bom! – sorri. E disse para Cecília em meus braços. – Ouça, meu amor, você vai ficar bem. O seu pai já está lhe esperando, vocês vão se encontrar e ficar juntos.

Cecília se agarrou em mim e disse com a voz abafada:

— Obrigada por tudo, anjo! Eu não sei o que dizem de você, mas sei que você foi muito boa para mim! Eu estava sozinha, mas você me tirou da solidão! Obrigada, obrigada!

— Não precisa agradecer. – disse com lágrimas nos olhos. – Agora você vai ser muito feliz, ouviu?

Ela sorriu e balançou a cabeça. A entreguei para Helena e também a abracei:

— Estou torcendo por vocês, meus queridos. – ela disse ao meu ouvido.

— Obrigada.

Então elas começaram a desaparecer, no mesmo momento em que a missa de corpo presente se iniciava. As pessoas se levantavam para fazer o sinal da cruz e entoar algum canto fúnebre. E eu? Eu ia ficar para enfrentar o coração partido de Gerard.