Deathwish

14 Capítulo 14


ATO 14: a ceifadora

Eu podia escutar Gerard gemendo baixinho longe de mim. Meu coração estava apertado.

Levei a mão à boca para abafar mais uma tossida carregada. Estava tudo tanto tão frio, tinha a nítida sensação de que a qualquer momento veria minha respiração vacilante se condensando na frente do meu nariz.

Mas, agora, Medo me fez pensar em uma remota e desconhecida possibilidade. E eu tentava raciocinar ignorando as dores que sentia.

— Diga-me, meu irmão... Você acha que essa possibilidade existe?

— Eu desconhecia o poder da Vida, mas depois de tudo o que já presenciei aqui passei a ter minhas teorias. – o meu irmão era assim, apesar de ser um embaixador do desespero e da aflição, era extremamente racional. Você entenderia se pensasse em que tipo de situação você “sente” o Medo, o seu cérebro, seus instintos sempre lhe alertaram para aquela situação desconhecida, perigosa, sombria. Ou seja, o medo (como sentimento) é mais racional que o amor.

— Devem ser as mesmas que eu tenho agora, e começo a crer nas palavras de Destino. Eu sinto que morrerei em breve.

Ele fechou os olhos.

— Isso é um absurdo. – ele resmungou.

— Mas, — continuei – não permitirei que Destino maltrate mais a pessoa que escolhi para amar e que também me escolheu.

— Ah...Eu não compreendo... – ele suspirou irritado. – Você levará esse “amor\" até o fim? Justo esse “amor” maldito que a fez sofrer tanto, que a fará sofrer até o final? È isso que eu não consigo aceitar.

Então eu disse, lembrando de algumas horas atrás quando a igreja ainda estava iluminada e pesarosa com aquele caixão de madeira escura sendo velado. Lembrei do que Helena havia me dito:

— “ O amor é quase indissociável do sofrimento.” – repeti essa lembrança como uma presença viva em mim.

Gerard. Gerard. Gerard. Eu só pensava nele, tudo o que eu queria era ele.

Parem de machucar meu querido Gerard, a criança linda que era minha triste alegria e meu amor mortal, longe de mim por hierarquias místicas e perto a cada encontro na Terra.

Eu estava passando mal. Senti o sangue escorrer tímido pelo meu nariz, mas nem liguei.

Comecei a caminhar. Dei dois passinhos tímidos pelo carpete que eu ajudará a deixar mais vermelho. Cambaleei, apóie-me em um banco próximo.

— O que vai fazer? – Medo me perguntou.

Eu também não sabia.

Mas se Destino também estava doente, eu deveria tentar.

Eu o mataria primeiro.

Talvez funcionasse, talvez não, mas, pelo menos, eu descontaria todo ódio e frustração que carregava no peito.

É estranho pensar nisso, em como passaram a existir tantos sentimentos em mim. Senti uma ponta de contentamento, me senti de certa maneira “humana”. Bem, eu morreria como uma em breve.

Destino acompanhava os tendões de Gerard se esticando perigosamente. Atrás dele estava Agonia, de pé comandando as correntes.

— Medo. – eu me voltei para ele depois de ter estudado a cena. – Me prometa uma coisa...

— O quê...? O que você está pensando em fazer? – ele pareceu tão aflito, e pela primeira vez mostrou que era ele realmente o irmão mais novo.

E o abracei e sussurrei em seu ouvido.

— Me prometa que quando eu partir você ajudara Gerard a me encontrar.

Ele me olhou muito assustado.

— Você acha mesmo que ele irá querer isso?

— Acho. – sorri.

Meu irmão engoliu seco e depois de pensar um pouco disse:

— Vou fazer por você. Já que se mostra tão disposta cair lutando...

— Obrigada. – respondi. Eu já estava mais tranqüila.

Por minha vontade, a foice que nunca usava apareceu em minha mão. Seu cabo de madeira retorcido de mais de um metro e meio de comprimento e a linda lâmina, brilhante como um espelho e mortal como uma fera selvagem, sequer pesavam em minhas mãos, eram uma extensão macabra do meu corpo. Eu era a ceifadora que costumava me pintar.

Arrastei a foice pelo chão da igreja, o tapete se abriu quando a lâmina o percorreu. Meus passos eram trôpegos mas foi com rapidez que cheguei até Agonia.

Ergui a foice muito acima da minha cabeça. Agonia estava de costa, ela seria a primeira.

— Vamos ver o que acontece... – pensei.

Foi rápido. A lâmina desceu veloz na diagonal, abrindo um talho gigantesco nas costas de Agonia. Um liquido escuro e fedido voou em mim e mudou a cor da minha roupa. Ela se contorceu de dor sem poder sequer gritar, as correntes soltaram Gerard no mesmo instante. Vi ele caindo e se apoiando com ambas as mãos fraturadas e depois levantando a cabeça rápido para ver o que acontecia.

Destino se virou também. Ele era o próximo, e na minha cabeça, com os sentidos embriagados pela dor e por aquela espécie de sangue fétido, matá-lo já era uma certeza.

Agonia transtornada de dor virou-se para mim. Era o que eu queria.

A foice subiu de novo, tão alta e veloz que achei que poderia até raspar naquela pintura do paraíso sobre a minha cabeça.

— Vou deixar que você grite... – disse possuída e quando desci a foiça a inclinando para o lado direito, girei os braços e acertei a boca costurada dela, que se rompeu em um urro terrível, fedor, mais liquido escuro e em um corte que corria de orelha a orelha.

Ela caiu contorcida no chão, gritando de dor com as mãos no rosto tentando fazer o sangue parar.

— Saia de perto dele. – disse para Destino, parando a sua frente.

Eu não tinha muito tempo, morreria a qualquer momento.